O Pedido escrita por Laarc


Capítulo 33
A história deles


Notas iniciais do capítulo

Narração"Diálogo"'Pensamento'




"Você que é feita de azul

Me deixa morar nesse azul

Me deixa encontrar minha paz

Você que é bonita demais

Se ao menos pudesse saber

Que eu sempre fui só de você

Você sempre foi só de mim..."

Tom Jobim

.

.

Assim que seus olhos se abriram, Ravena soube exatamente onde se encontrava. Ela estava na enfermaria. De novo. E essa seria o quê? A terceira, talvez quarta vez em que ela acordava na cama da enfermaria nos últimos dias? Ela não sabia mais... já tinha perdido as contas. Só sabia que isso estava quase virando uma rotina infeliz... e ela não gostava nada, mas nada mesmo disso.

Afinal, a ala médica era para os feridos... para os doentes... para os fracos. E se tinha uma coisa que a orgulhosa empata abominava acima de tudo, era justamente a ideia de parecer fraca.

Sim. Essa era, sem sombra de dúvidas, uma ideia repulsiva. Mas, porém, contudo, todavia, ela não poderia nunca negar que, desde que retornara ao passado, se sentira sim mais fraca do que de costume. Sentia-se mais cansada, mais sonolenta, mais... derrotada. E ela sabia que teria de se acostumar com essa fraqueza execrável. Teria que aprender a superar, de algum jeito, essa sensação horrivelmente dolorida causada pelo vazio que parecia corroer seu peito. Um vazio que se espalhava cada vez mais e profanava, corrompia, arruinava suas emoções já tão debilitadas.

Um vazio que não seria mais preenchido.

Pressionando suas mãos contra o colchão, ergueu um pouco seu corpo e se sentou na cama, apoiando de leve as costas contra a cabeceira. A primeira coisa que percebeu é que não estava vestindo mais o seu uniforme azul, mas sim um enorme camisola branco, e ela logo se questionou mentalmente há quanto tempo estaria dormindo.

'Com certeza por mais de um dia... caso contrário a Kory não trocaria a minha roupa.' Pensou enquanto esfregava os olhos.

E a segunda coisa que ela percebeu era que não estava sozinha na ala médica. Isso porque, a pouquíssimos metros dela, deitado na outra cama da enfermaria, se encontrava Garfield.

Virando um pouco a cabeça na direção do rapaz, Ravena deixou o seu olhar passear vagarosamente pela figura adormecida do metamorfo, admirando-o com visível afeto. O encosto da cama hospitalar na qual ele se encontrava deitado estava ligeiramente inclinado, o que permitia que ela visse melhor a forma como os olhos dele estavam sutilmente fechados, como sua boca estava entreaberta e como sua respiração era regulada e pausada. Mas foram outros detalhes que mais chamaram a atenção da moça, como os arranhões presentes no belo rosto do jovem e a enorme atadura que cobria por inteiro a região do seu tórax. O que será que acontecera a ele? Estaria gravemente ferido? Ravena não fazia ideia... ela se recordava dele caído ao chão à mercê de Sebastian, mas não imaginava que o Irmão Sangue o machucara tanto assim.

Esforçando-se para se levantar da cama e pouco se importando com o fato de estar descalça, Ravena se aproximou de Garfield e, sentando-se na beirada da cama do rapaz, colocou sua mão direita com delicadeza sobre o peito dele, que subia e descia num ritmo bem desacelerado. Fechando os olhos, concentrou sua energia – agora totalmente restabelecida – e permitiu que seu poder fluísse de suas mãos para o corpo dele, tratando suas feridas, reparando-o por completo.

"Sinto muito, Gar..." Disse com suavidade ao mesmo tempo em que a luz azulada que se formara sobre o corpo maltratado do herói começava a desaparecer, indicando o término do processo de cura. "Se eu tivesse chegado mais cedo, você não teria se machucado assim."

"Hum..." Arregalando os olhos, ouviu um murmúrio baixinho escapar dos lábios do jovem. "Nossa, mas você tem mesmo o péssimo hábito de se sentir culpada por tudo, não é mesmo?" A voz dele era sonolenta e arrastada, mas nem por isso deixou de surpreender a empata. "Ei, Rae. Bom saber que você já está de pé." Completou com um sorriso gentil nos lábios e abrindo os olhos bem devagar para que não sofressem muito com a claridade do ambiente.

"Ei, Garfield... eu não pretendia te acordar." Falou baixinho com as bochechas levemente coradas e sem perceber que sua mão ainda repousava sobre o peito do recém-curado rapaz.

"Não esquenta com isso, Rae!" Disse Garfield, agora se sentindo mais desperto. "Eu não deveria ter cochilado mesmo... mas é difícil não pegar no sono quando a Torre tá vazia e quando não se pode fazer nada a não ser ficar deitado nessa cama..."

"Vazia? Por quê?"

"O pessoal foi cuidar de Cinderblock no centro da cidade." Olhando de relance para o relógio na parede da enfermaria, continuou. "Eles saíram há uns quarenta minutos... acho que devem demorar um pouco para voltar."

"Cinderblock..." Murmurou baixinho. "Hum... eu dormi muito de novo, não é?"

"Dormiu sim! Hoje já é segunda. Você dormiu o domingo todo!" Respondeu com uma risada gostosa. "Acho que acabei de perder o meu posto de dorminhoco da Torre pra você, viu!" Provocou um pouco.

Esboçando um sorriso, Ravena assentiu fracamente. "É... acho que você tem razão." Então, como se de repente percebesse o quão próxima do metaformo ela estava, retirou rapidamente a mão de cima dele e se levantou. "Você está bem agora, suas feridas foram curadas e não incomodarão mais." Disse do modo mais seco que conseguiu e trocando o seu belo sorriso por uma expressão neutra. "Vou para o meu quarto." Dito isso, ela se virou e, antes de dar o primeiro passo para longe de Garfield, sentiu uma mão apertar com força o seu antebraço.

"Espera. Por favor, Rae."

"O que você quer?" Perguntou friamente, fazendo o possível e o impossível para ignorar o seu coração que batia acelerado. "O que você quer, Garfield?" Tornou a questionar assim que não ouviu nenhuma resposta.

"Eu quero... eu quero que você pare de fugir de mim." A voz dele soou baixa e controlada, mas ao mesmo tempo tão firme e autoritária que, na hora em que a escutou, Ravena sentiu suas pernas estremecerem. "Não quero que você fuja mais de mim, Ravena." Ela podia estar de costas para ele, mas percebeu que Garfield não mais estava deitado na cama, mas sim, em pé e bem atrás dela. "Eu prometi que não perderia você... e não pretendo quebrar essa promessa." Ouviu ele sussurrar em seu ouvido. E, lentamente e de uma maneira muito sensual, sentiu uma mão percorrer a sua cintura enquanto a outra, que há segundos atrás segurava possessivamente o seu braço, deslizava até sua mão, entrelaçando seus dedos delicados nos dele. Podia sentir suas costas sendo firmemente pressionadas contra o peitoral de Garfield, num contato mais do que íntimo, e sentia também o calor incrível que parecia irradiar do corpo do rapaz. O hálito dele, fresco e quente ao mesmo tempo, viajava sem rumo pelo seu pescoço enquanto lábios travessos roçavam de leve a sua pele pálida e descoberta.

Por um breve momento, Ravena chegou até a pensar que se esquecera de como respirar. Suas pernas pareciam gelatina e seu coração batia furiosamente em seu peito.

Mas, esse breve momento teve um fim.

Respirando fundo, reuniu todo o seu controle e força de vontade e, desprendendo-se das mãos de Garfield, virou o seu corpo para encarar o rapaz, dando-lhe um olhar furiosíssimo e um forte empurrão logo em seguida.

"O que diabos você pensa que está fazendo?" Perguntou com raiva, suas bochechas tão vermelhas quanto um tomate maduro. "Por acaso perdeu o juízo?"

Sem parecer se importar com a súbita explosão de raiva da parte dela, o jovem respondeu com um sorriso astuto. "Puxa, Rae... você não sabe mesmo o que eu estava fazendo? Achei que você fosse mais esperta que isso!"

"Escuta aqui, seu pé de alface ambulante!" Ralhou a garota. "Se você acha que por causa daquele beijo você tem permissão pra ficar se engraçando todo pra cima de mim, pois saiba que você está muito enganado! E se por acaso você pensa que eu sou uma qualquer igual a essas garotas com quem você geralmente sai, sinto te dizer que eu NÃO SOU!"

O sorriso que até então estava presente nos lábios dele deu lugar a uma expressão de repentina seriedade. "Eu não penso, nunca pensei e nunca vou pensar em você como sendo uma qualquer, Ravena." Franzindo as sobrancelhas e se aproximando um pouco dela, continuou "E sabe o que eu acho? Acho que já tá passando da hora de você parar com essa encenação toda, porque eu já tô cansado disso!"

"Encenação?" Proferiu com um misto de estupefação e revolta. "Encenação? Você com certeza bateu essa sua cabeça dura em algum lugar!"

"Se tem alguém aqui que tem a cabeça dura, esse alguém é você!" Retrucou usando o mesmo tom de voz violento que a moça.

"Como você ousa, Garfield?"

"Como eu ouso? Eu que deveria te perguntar isso! Como você ousa mentir pra mim e me enganar esse tempo todo, isso sim!"

"Enganar? Do que você está falan-"

"EU ME LEMBRO!" Gritou com força, mal deixando a moça terminar de falar. Com mais calma e respirando profundamente, ele continuou. "Eu me lembro, tá bom!"

"O q-quê?" Ela engoliu em seco. "Você s-se lembra do q-quê?" A pergunta saiu como um sussurro e ela não estava muito certa de que queria ouvir uma resposta.

Antes de respondê-la, o rapaz permitiu que seus olhos se encontrarem com os dela, encarando-a ardentemente, e Ravena podia jurar que viu fogo naquele olhar tão penetrante. "Tudo." Disse pausadamente. "Eu me lembro de tudo. Tudo o que aconteceu. Eu... eu me lembro de tudo o que você está escondendo de nós e... de mim."

Levando ambas as mãos a boca e tentando – mas falhando – abafar um gemido de espanto, a empata deixou transparecer todo o choque, assombro e pânico que começou a sentir naquele momento. Seu corpo tremia e um nó dolorido se formou em sua garganta. E então, Ravena fez a única coisa que conseguia fazer naquela hora.

Conjurando seus poderes, ela desapareceu de vez da enfermaria.

.

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Com os olhos fechados e deixando escapar um suspiro pra lá de exausto, a jovem heroína passou as mãos trêmulas pelo rosto e, em seguida, por suas mechas violetas. Aquilo não poderia estar acontecendo... não... de jeito algum que aquilo poderia ser verdade! Ele... ele não poderia se lembrar, não é mesmo? Porque ninguém além dela se lembrava do que tinha acontecido. Ninguém mais sabia sobre os acontecimentos nefastos daquele futuro. Então por quê? Por que ele lhe dissera que se lembrava?

Enxugando com as costas das mãos algumas lágrimas que teimavam a cair pelo seu rosto, Ravena continuou a andar impassivamente de um lado para o outro no seu quarto, desejando que tudo o que acontecera na ala médica não passasse de um pesadelo.

Um pesadelo horrível do qual ela iria acordar a qualquer minuto.

THUD! THUD! THUD!

Ou não...

"Ravena! Eu sei que você tá aí!" Escutou Garfield gritar enquanto batia com força na porta do quarto.

Prendendo a respiração, a empata praticamente congelou ao ouvir a voz do rapaz.

"Rae... por favor, abre a porta! A gente precisa conversar... eu tô falando sério, Ravena! "

Mas nenhum som podia ser ouvido saindo de dentro daquele quarto. A moça estava tão assustada que mal conseguia abrir a boca, quanto mais falar alguma coisa.

"Tá bom!" Disse Garfield. "Já que você não quer abrir a porta, então pelo menos escuta o que eu tenho pra falar!" Depois de uma breve pausa, ela o ouviu continuar. "Olha, Rae, como eu disse na lá enfermaria... ou melhor, como eu gritei com você lá na enfermaria... err... olha, pra começar, eu sei que eu não deveria ter gritado com você daquela forma, tá bom! E eu sinto muito! Mas saiba que eu só gritei com você porque você gritou comigo e aí-"

"Garfield, vai logo ao ponto, por favor."

"AHA!" Exclamou com um ar triunfante. "Eu sabia que você estava aí e que eu não passei esse tempo todo bancando o idiota e conversando com a porta! Então... me deixa entrar, por favor!"

"..."

"Okay... eu já entendi. Não vou insistir mais, tá bom!" Disse num tom resignado. "Ravena... o que eu disse pode parecer estranho mas... mas eu realmente me lembro do que aconteceu... eu... eu sei porque você tá fazendo tudo isso, Rae... eu... eu sei o que aconteceu comigo naquele futuro."

E ele parou e esperou. Esperou por uma resposta, por um sinal, por qualquer indício de que ela tinha escutado o que ele lhe falara. Mas não obteve nada. "Rav-" Como estava com as costas levemente apoiadas contra a porta metálica, o rapaz quase perdeu o equilíbrio e caiu na hora em que a porta começou a se abrir, deslizando suavemente para o lado.

Recompondo-se com rapidez da sua quase queda, Garfield não perdeu tempo e logo entrou no quarto de Ravena. E então, ele sentiu seu corpo paralisar com o que viu.

O quarto estava escuro como sempre, mas a luz do corredor oferecia iluminação suficiente para que ele pudesse ver com clareza a figura da empata. E aquela mulher que não deveria estar a mais de alguns poucos passos de distância dele em nada se assemelhava à Ravena que ele conhecia. Porque a Ravena que Garfield conhecia era forte, imponente, poderosa e, mesmo sendo a mais baixinha dos Titãs, tinha uma presença capaz de colocar medo em qualquer vilão. Mas aquela moça não tinha nada disso! Caramba, aquela moça bem ali na sua frente nem se parecia com a Ravena que quase arrancara a cabeça dele há poucos minutos lá na enfermaria.

Porque aquela mulher – moça, garota – era a pura personificação da tristeza. Ela era a própria definição da palavra dor. Seus olhos, avermelhados e inchados, estavam molhados por causa de lágrimas que ameaçavam cair a qualquer momento. Olheiras fundas e escuras conferiam à moça um aspecto mais doentio e sombrio. Seu rosto cansado – exausto, oprimido – exprimia uma melancolia quase que desumana. E o corpo dela... Garfield podia jurar que Ravena nunca parecera tão frágil e pequena, e aquele enorme camisola que ela vestia só contribuía para que a moça parecesse ainda menor.

"Como?" Ela murmurou, sua voz rouca e sofrida. "Como você pode se lembrar do que aconteceu?"

O rapaz, que já tinha arrancado suas ataduras e vestia agora uma camiseta branca e uma calça de moleton, engoliu em seco, seu coração apertando cada vez mais a cada minuto. Poderia ele contar a ela sobre o que acontecera dentro de sua própria mente? Talvez um dia... mas não agora. Não para aquela Ravena tão instável e desestabilizada. "Eu não sei." Foi tudo o que conseguiu dizer.

"Não me venha com essa história de que você não sabe, Garfield. Como você se lembra?" Perguntou mais uma vez com azedume.

"Eu já disse que eu não sei." Repetiu com firmeza, mas sem perder a paciência. "Tudo o que eu sei é que enquanto você lutava contra o Irmão Sangue essas... lembranças começaram a surgir na minha mente." Bem, ele poderia não estar dizendo toda a verdade, mas também não estava contando nenhuma mentira.

Abaixando de leve a cabeça, ela pareceu aceitar a resposta dele. "Está bem. Mas então, se você sabe mesmo o que aconteceu... o que é que você está fazendo aqui?"

"Como assim 'o que eu tô fazendo aqui'?" Perguntou Garfield, sem entender o que ela queria dizer com aquilo.

"Se você sabe o que aconteceu, você sabe também que não deveria estar aqui, você não deveria estar tornando as coisas mais difíceis do que já estão!"

Dando alguns passos em direção a moça, ele falou ainda confuso. "Olha... eu ainda não entendi o que você tá querendo dizer com isso. Se eu não deveria estar aqui, onde é que eu deveria estar afinal?"

"E eu sei lá, Garfield!" Exclamou com pesar, levando as mãos a cabeça. "Em qualquer lugar, eu não sei! Você deveria... deveria ir a festas, sair com outras garotas, dar entrevistas estúpidas sobre sua vida de solteiro, fazer essas coisas que você geralmente faz! Porque... porque eu não me importo!" Ah, mas essa era uma grande mentira.

Por um instante, ele até pensou que tinha escutado errado. "Você por acaso ficou maluca?" Perguntou, sentindo-se muito indignado. "Mas que... que porcaria é essa, Ravena? Por que é que você acha que eu deveria estar fazendo essas coisas? Sair com outras garotas? Qual é o seu problema?"

"Qual é o meu problema? O meu problema é que eu estou aqui tentando te ajudar e você aparentemente só está piorando as coisas!"

"Me ajudar? Então me explica, por favor, como que 'sair com outras garotas' vai me ajudar, hein! Me explica como que ver você fugindo de mim dessa forma vai me ajudar! Me explica, pelo amor de Deus, que tipo de ajuda é essa, porque eu devo ser mesmo um grande idiota já que até agora eu não entendi absolutamente nada!" Levando suas mãos ao rosto, ele suspirou fundo. "Me explica, Ravena, o que é que você tá fazendo, porque eu não consigo entender..."

As lágrimas, que antes apenas ameaçavam cair, agora escorriam livremente e molhavam sem dó as bochechas dela. "Eu estou tentando te salvar, Garfield." Mordendo um pouco o lábio e fazendo o possível para engolir o choro, ela continuou. "Estou tentando garantir que você fique bem... que v-você fique vivo. É só isso o que eu estou tentando fazer."

"Mas eu estou bem, Rae! Eu estou vivo!" Chegando mais perto ainda dela, deixou suas mãos repousarem de leve nos ombros da moça. "O Irmão Sangue se foi... você mesma deu um jeito nele! Tá tudo bem agora!" Falou com suavidade. "Vai ficar tudo bem, eu prometo."

Sacudindo a cabeça como se tentasse negar tudo o que ele falava, ela deu alguns passos para trás até seu corpo se chocar de leve contra a parede, procurando dessa forma se afastar o máximo que conseguia dele. "Você não percebe, não é mesmo? Daquela vez foi Sebastian quem te feriu, mas e da próxima? E amanhã, e depois? Você tem que entender o quanto é perigoso para você ficar comigo! Você tem que entender que enquanto estiver ao meu lado sua vida estará sempre em risco! Eu já aprendi a minha lição... eu sou... e-eu sou um demônio e demônios não foram feitos para amar. E por isso... o melhor para nós seria se ficarmos separados... esquecer tudo o que aconteceu!"

"Eu não acredito!" Disse com total descrença. "Essa foi a coisa mais ridícula que eu já ouvi em toda a minha vida! E olha que eu escuto muita coisa estúpida por aí, mas essa com certeza bateu qualquer recorde! Pra começar, até onde eu sei você é só metade-demônio e a sua outra metade é humana... e humanos foram sim feitos para amar!" Falou usando de propósito os mesmos termos que ela. "E outra coisa... você por acaso escutou o que você disse? Porque Rae, eu sinceramente não consigo acreditar que você pensa mesmo que o que aconteceu comigo foi culpa sua... porque isso é... isso é... totalmente irracional!"

"Irracional?" Rangeu os dentes. Será que ele era tão idiota ao ponto de não conseguir perceber que o que ela fazia era para o bem dele? E como ele poderia questionar a decisão dela desse jeito? E pior do que isso... como ele poderia ser atrevido ao ponto de zombar dela de forma tão descarada e desrespeitosa? "IRRACIONAL?"

BOOM!

Foi por cerca de insignificantes segundos que ela perdeu o controle sobre seus poderes, mas esses breves segundos foram mais do que suficientes para que uma energia negra envolvesse a sua cama, explodindo-a.

E então, ninguém falou mais nada. Os dois heróis emudeceram completamente e ficaram apenas a observar com olhos arregalados aquilo que uma vez fora uma cama, mas que agora não passava de uma estranha massa desforme. E eles ficaram assim, paralisados e quietos, até que a moça resolveu quebrar o silêncio.

"Dezessete meses..." Murmurou. Com os punhos cerrados, falou com mais força. "Dezessete meses sem perder o controle... sem quebrar nada, sem explodir nada, sem destruir nada, sem ao menos fazer uma porcaria de lâmpada piscar e agora por sua causa eu praticamente mandei a minha cama pelos ares!"

"Bem..." Disse Garfield forçando uma risada e coçando a nuca meio sem graça. "...tem sempre a minha cama, né!"

"Ugh!" Exclamou a moça, sentindo-se muito frustrada. "Você é impossível, Garfield!"

"Okay, okay, okay! A piada foi péssima e timing foi pior ainda!" Tentou se desculpar e ao mesmo tempo acalmar a furiosa jovem. "Mas, Ravena... caramba, você tem que aceitar que isso que você me falou é muito... muito... sem sentido!"

As feições dela se transformaram completamente, passando de raivosas para tristes num estalar de dedos. "Não, Gar... o que eu disse faz muito sentido..." Com ombros caídos, afundou ainda mais as costas contra a parede e deixou sua cabeça pender um pouco para frente. "Eu não te entendo, sabia?" Sua voz agora era baixa e cansada, quase derrotada. "Você diz saber o que aconteceu, mas ao mesmo tempo não consegue compreender que o que eu estou fazendo é o melhor para nós dois..."

"Ravena..."

"Foi muito difícil, sabia..." Continuou a moça. "...ver você daquela forma. Foi difícil ver você dar a sua vida por mim, fazer aquele sacrifício como se você não significasse nada... como se a minha vida fosse mais importante do que a sua própria. Foi difícil escutar você dizer que... que me amava e saber que nunca mais eu escutaria você me dizer aquilo." Suas últimas palavras não soaram mais altas do que um tímido murmúrio. "E eu não quero ter que passar por isso de novo... não... nunca mais. Eu não quero, Gar! Não quero ficar com você e saber que isso pode voltar a acontecer... porque eu não sei se o meu coração aguenta..." Ela tremia. Lábios, mãos, braços, pernas, seu corpo todo tremia com uma violência assustadora. Foi quando, com os olhos bem fechados e com as bochechas úmidas, ela sentiu seu corpo ser envolvido num abraço apertado, repleto de carinho e conforto.

"Me desculpa, Rae..." Sussurrou baixinho no ouvido dela. "Me desculpa. Eu não... eu não fazia ideia de como você estava se sentindo... me desculpa."

Foi com força que ela agarrou a barra da camiseta dele, como se Ravena precisasse ter certeza de que Garfield estava mesmo ali, como se se ela não fizesse isso, ele pudesse desaparecer a qualquer momento. Afundou seu rosto no peito dele, inalando profundamente, deixando-se preencher por aquele cheiro... aquele cheiro do qual ela sentia tanta falta e no qual ela sempre encontrava conforto e segurança.

"Eu entendo, Rae, entendo que você esteja com medo... mas não acho que devemos ceder dessa forma." Sem soltá-la nem por um minuto e correndo as mãos com leveza pelas costas dela, ele prosseguiu. "Nós lidamos com o perigo todos os dias... nós corremos riscos todos os dias... infelizmente, arriscar a vida faz parte da nossa profissão. Mas nem por isso nós cedemos ao medo e deixamos de ajudar os outros. Nem por isso nós deixamos de perseguir um vilão, ou de lutar, ou de passar por situações perigosas."

"Gar... por favor..."

"Shhh... deixa eu terminar o meu raciocínio, tá!" Sorriu um pouco. "Nós somos heróis, Ravena. Eu, você, o Asa, o Cib e a Estelar! Nós somos todos heróis e nós colocamos a nossa vida em risco todo santo dia. Mas nós também somos uma equipe e nessa equipe cada um cuida do outro... uma hora eu te protejo e outra hora você me protege, é assim que funciona, Ravena! É assim que sempre funcionou e é assim que as coisas vão continuar funcionando! E eu não posso te prometer que nunca nada de ruim vai acontecer comigo, da mesma forma que você não pode me prometer que nunca nada de ruim vai acontecer com você, porque a gente não tem como prever o dia de amanhã! Mas eu posso te garantir que o fato de eu te amar e de você retribuir esse amor não teve nada a ver com o que aconteceu... eu não morri porque te amava... eu morri por causa de um moleque maluco e psicopata. Você entendeu, Rae? Por favor... para de achar que você é a culpada... para de achar que a gente tem que desistir do amor. Para de achar que eu tenho que desistir de você... porque eu não quero desistir de você... porque eu … eu amo muito você."

E, mais uma vez, ele esperou pela resposta dela. Esperou que ela dissesse que também sentia o mesmo por ele, ou que ela o beijasse furiosamente, ou que ela apenas retribuísse o abraço. Mas ela não disse nada, muito menos o beijou ou o abraçou de volta. Tudo o que Ravena fez foi desencostar o seu rosto do peito de Garfield e soltar a barra da camiseta dele, deixando suas delicadas mãos, que ainda estavam um pouco trêmulas, caírem com suavidade para o lado do seu próprio corpo.

Com tristeza nos olhos, Garfield entendeu o sinal. Desfez o abraço e deu alguns passos para trás. "Eu disse uma vez que estava disposto a esperar por sua resposta. E eu quero que você saiba que isso que eu disse ainda está valendo. Eu amo você, Rae, e é pra sempre, então... então quando você perceber que isso que você está fazendo é uma bobagem, quando você perceber que pode sim se permitir amar alguém, saiba que eu... eu vou te receber de braços abertos. Porque... porque você é a única pra mim! E não tem nada nesse mundo que vai me fazer mudar de ideia."

E ele se virou e seguiu se caminho até a porta. Se mesmo depois de tudo o que ele disse ela ainda não se sentia pronta, se mesmo depois de tudo o que ele fizera para tentar uni-los novamente ela ainda apresentava sinais de relutância e se ela queria mesmo que eles se afastassem, ele não tentaria mais convencê-la... mas Garfield não iria perder as esperanças. Ele iria esperar por ela. Ele esperaria por ela o quanto fosse necessário.

"Eu também..."

O sussurro foi fraco, rouco, tremido. Mas foi o suficiente para chamar a atenção de Garfield e fazê-lo se virar e encarar Ravena.

"O quê?" Perguntou baixinho, temendo que o que ele escutara fosse apenas um truque de sua mente.

Foi quando ele viu o rosto dela se erguer bem devagar e aqueles olhos violetas se fixarem nos seus. E aqueles olhos não estavam mais cheios de pesar e tristeza. Eles estavam repletos de outra coisa... repletos de algo que fez o coração de Garfield saltar uma batida e fez também o seu peito ser preenchido por uma sensação calorosa e agradável. "Eu também... amo você." Disse com um sorriso tímido. "E é pra sempre."

Nem se ele se transformasse no animal mais rápido do planeta ele se aproximaria de Ravena com aquela rapidez. Porque se num segundo ele estava na iminência de sair do quarto dela, no outro ele já a havia envolvido em seus braços e a erguido do chão, devorando a boca dela num beijo desesperado e faminto. Num beijo apaixonado.

Enroscando suas pernas em volta da cintura dele, Ravena repondeu o beijo com a mesma intensidade. E dessa vez não houve arrependimento algum, apenas vontade, paixão, desejo e amor.

"Vai ficar tudo bem, Rae... eu prometo que vai!" Disse um pouco sem fôlego. "E se isso te tranquiliza de alguma forma, saiba que eu não tenho intenção nenhuma de deixar... eu nunca, nunca vou te deixar." Completou, girando-a no ar.

"Acho bom..." Respondeu com um sorriso, suas últimas lágrimas secando em suas bochechas. "Acho bom, Gar! Porque se você pensar em aprontar uma dessas comigo mais uma vez, eu sou capaz de te trazer de volta de onde quer que você esteja só para eu mesma acabar com a sua raça!"

E ele riu. E riu com gosto. Com satisfação. Com alegria. Com a mais pura e verdadeira felicidade.

Porque ele sabia, sabia de alguma forma que tudo, mas tudo mesmo, ficaria bem. Para todo o sempre.

.

.

Deitada sobre uma grama bem verdinha, uma bonita e sorridente jovem de sedosos cabelos violetas vestida numa suntuosa capa prateada sentia seu corpo ficar cada vez mais leve e dormente. Ela não conseguia enxergar, uma vez que era cega de nascença, mas tinha plena consciência do estranho fenômeno pelo qual seu corpo passava. Aquela jovem de beleza tão rara estava desaparecendo pouco a pouco.

No entanto, ela não estava nem um pouco assustada pelo fato de estar praticamente evaporando. Muito pelo contrário! Ela não poderia estar mais feliz.

Feliz porque sabia que veria suas irmãs novamente e que, muito em breve, sua oitava irmã renasceria.

Feliz porque sabia que fora aceita de volta e agora podia retornar à sua verdadeira casa. Ao seu lar. À sua querida morada.

Feliz porque sabia que tudo ficaria bem. Para todo o sempre.



Notas finais do capítulo

Pois é gente... e esse foi o último capítulo! Espero que tenham gostado! Agora, só tenho a agradecer a todos que acompanharam a fic e também a todos que contribuíram deixando seus comentários!Muito obrigada!
Um grande abraço e até a próxima fic,Laarc!
obs: sim, haverá um epílogo! Mas já vou avisando que vou demorar um pouquinho para postá-lo.



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