O Pedido escrita por Laarc


Capítulo 24
A história do pretérito imperfeito


Notas iniciais do capítulo

Narração
"Diálogo"
'Pensamento'



Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento...”

Chico Buarque de Holanda

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Um gemido muito fraco vindo da cama no canto da enfermaria chamou a atenção de Ciborgue, que na mesma hora parou de mexer no computador no qual estava trabalhando para prestar auxílio a sua amiga que acabara de recobrar a consciência.

“Ei, mocinha! Bem-vinda de volta!” Disse o rapaz com um sorriso acolhedor no rosto enquanto ajudava uma desnorteada Ravena a se sentar na cama.

“H-Hum? Victor? O q-que aconteceu?” Perguntou a empata, seus olhos ainda tentando se adaptar à luminosidade do ambiente.

“Você não se lembra mesmo?” Ela só conseguiu negar fracamente com a cabeça. “Você desmaiou na cozinha e ficou desacordada por quase uma hora! Cê deu muita sorte do Gar estar lá na cozinha, sabia? Ele te socorreu e te trouxe até aqui rapidinho!”

Ciborgue mal terminou de falar e Ravena congelou por completo. Ela não conseguia mais se mover, ou falar, ou até mesmo pensar. Aquilo estava certo? Ela ouvira mesmo o que achava que ouvira?

“Ravena! Tá tudo bem? Você ficou tão pálida de repente....” Disse Ciborgue num tom bem preocupado.

Com muita dificuldade conseguiu encontrar forças para responder o seu amigo. “Você pode repetir o que falou... e-eu acho que não compreendi....”

Franzindo um pouco as sobrancelhas o titã lhe respondeu “Eu disse que você passou mal na cozinha e desmaiou.... olha, Rae, eu acho que vou fazer um exame de sangue em você! Cê tá muito pálida e esse seu desmaio aí me assustou um pouco, acho que você deve tá com anemia ou alg-”

“Garfield me trouxe até aqui.” Interrompeu bruscamente a empata. “Ele estava na cozinha.... ele estava lá comigo de verdade!”

“É... eu disse que foi ele quem te trouxe até aqui. Agora você me faça o favor de ficar paradinha aí que eu só vou buscar o álcool e uma seringa, tá bom?”

“Victor!” A exclamação repentina de Ravena fez Ciborgue encará-la com estranheza. “E-Ele está bem, não é mesmo?”

“Quem? O Gar? Tá bem sim, por quê?” Indagou o grandão, sem entender o motivo de tamanha preocupação da jovem.

Abaixando um pouco a cabeça, murmurou baixinho “Não é nada, eu só.... eu só queria ter certeza.”

Ciborgue estava achando o comportamento de Ravena muito estranho, mas, pensando bem, a garota tinha acabado de acordar e ela deveria estar se sentindo mesmo um pouco confusa naquela hora. Deixando de lado a sua desconfiança, o rapaz se dirigiu até um armário na outra extremidade da enfermaria e com isso, Ravena pôde ficar um tempo a sós com seus pensamentos. E a empata precisava mesmo pensar. E muito.

Porque ela estava realmente confusa. Ela se lembrava de ter visto Garfield na cozinha um pouco antes de perder os sentidos, mas ela também se lembrava de tê-lo visto morrer! E a jovem tinha plena convicção de que essas duas lembranças eram muito reais. Mas como era possível? Como ela poderia estar uma hora no esconderijo do Irmão Sangue segurando o corpo sem vida do seu amado metamorfo e depois.... e depois estar na cozinha da Torre Titã? E com um Garfield muito do vivo bem na sua frente? Isso não fazia o menor sentido!

Então, como num piscar de olhos, ela se lembrou de tudo. E foi aí que Ravena finalmente conseguiu entender o que tinha acontecido.

Ela se lembrava do seu desespero na hora em que sentira a vida do rapaz se esvaindo pouco a pouco. Lembrava-se também da enorme sensação de culpa e pesar que dominou o seu corpo, a sua mente e o seu coração. E por fim, lembrava-se do seu pedido. Do seu desejo mais profundo.

Ela pediu, não... ela implorou por uma segunda chance. Ela pediu para o tempo voltar.

E o tempo realmente voltou.

Claro que ela não sabia ao certo como conseguira realizar esse feito, como conseguira manipular o tempo dessa forma, mas não havia dúvidas de que ela realmente o fizera! E isso fazia mesmo todo o sentido agora! Ravena não conseguia mais sentir a dor dos ferimentos acumulados durante o seu cativeiro, não sentia mais a presença nem de Felicidade e nem do Amor, e também não sentia mais o efeito da magia negra sobre suas outras emoções. E ela não poderia mesmo sentir nada disso porque nada disso tinha acontecido. Ainda.

Ela voltara o tempo. De verdade.

“Que dia é hoje, Victor?”

“Sexta.... hum.... dia 20, eu acho.” Respondeu o rapaz fechando com muito zelo uma gaveta cheia de seringas e tubos de ensaio.

“Dia 20.... eu voltei em um pouco mais de uma semana....” Murmurou a moça para si mesma.

“Você falou alguma coisa, Rae?” Ciborgue perguntou enquanto se aproximava dela com um chumaço de algodão embebido em álcool em uma mão e uma bandeja com material para coleta de sangue na outra.

“Não, não disse nada.” Respondeu a empata tentando camuflar toda a surpresa e confusão que estava sentindo. Mas sua confusão não era mais causada pelo fato de não saber o que estava acontecendo, porque agora ela sabia exatamente o que estava se passando. Na verdade, Ravena estava confusa pois ela não fazia a menor ideia do que faria dali pra frente.

Certo que ela tinha conhecimento sobre os eventos futuros. Sabia sobre o plano de Sebastian e sobre a existência da Igreja do Sangue, mas como ela faria para contar isso aos outros? Eles iriam acreditar nela ou desconfiariam de sua sanidade mental? E como ela reagiria quando visse Garfield? Ele não se lembraria mais do que acontecera entre os dois... ele não sentiria mais nada por ela além de amizade. Entretanto, apesar do esquecimento dele, ela não se esquecera de absolutamente nada e a mera lembrança do jovem metamorfo já era o bastante para fazer Ravena sentir uma dor latejante em seu peito.

E essa dor era saudade.

Saudade do conforto que sentia ao estar ao lado dele, das palavras de afeto trocadas nos momentos de intimidade, dos beijos que a deixavam sempre sem fôlego.

Saudade das pequenas carícias, das piadas sem graça, da felicidade que somente ele lhe proporcionava, da segurança que sentia quando o rapaz a envolvia ternamente em seus braços.

Saudade porque Ravena sabia que aquele futuro estaria perdido para sempre. E por mais que isso lhe doesse profundamente a alma, Ravena não iria permitir que o amor voltasse a nascer entre ela e Garfield. Ela não iria arriscar que ele se ferisse de novo. Não iria arriscar que ele perdesse a sua vida por causa do amor.

Mesmo que para isso ela precisasse perdê-lo para sempre.

E contanto que ele estivesse bem, contanto que ele permanecesse vivo, ela estaria sim mais do que disposta a perdê-lo.

Concentrando-se para bloquear as imagens de Garfield de sua mente, Ravena começou a avaliar suas prioridades. Ela deixaria para lidar com seus sentimentos pelo metamorfo mais tarde, porque agora ela precisava pensar no que deveria fazer em relação a Sebastian. Os Titãs tinham que saber o que ela sabia. Eles precisavam saber sobre a ameaça que Igreja do Sangue representava.

Ela deveria avisá-los sobre o futuro, mas como faria isso? Como fazer para que eles acreditassem nela? E pior... se eles acreditassem nela e resolvessem investigar o culto do Irmão Sangue, será que Garfield ainda correria algum risco de vida caso os Titãs precisassem enfrentar novamente Sebastian? Claro que dessa vez não haveria o fator do Amor, e Ravena não acreditava que Garfield estaria disposto a voltar a sacrificar a vida por ela. Mas de qualquer forma, a empata não poderia nem pensar em arriscar a segurança do metaformo. Ela não poderia desperdiçar essa segunda chance que o destino lhe concedera. Ela precisava garantir que ele ficasse bem. Precisava protegê-lo a qualquer custo. E Ravena sabia exatamente o  que fazer para que Garfield não voltasse a enfrentar o jovem vilão.

“Eu gostaria de falar com Richard em particular. Será que você poderia chamá-lo, Victor?”

Fazendo que sim com a cabeça, o rapaz pegou com cuidado o braço da moça e o esticou, limpando-o com o algodão. “Chamo sim, mas primeiro vou terminar isso aqui, tá bom? E você fica bem quietinha aí que suas veias são muito finas e eu não quero te deixar com um hematoma!”

.

.

Asa Noturna e Ravena se encontravam no mais profundo silêncio. Ela, ainda sentada sobre a cama, olhava-o intensamente. E ele, sentado numa cadeira ao lado dela, retribuía o olhar com o mesmo fervor.

“Richard.” Disse calmamente a jovem. “Caso você não tenha reparado ainda, já tem uns cinco minutos que eu terminei de contar a minha história. Seria bom que você fizesse alguma colocação sobre o assunto.”

Ele suspirou fundo. “Eu não sei, Ravena.... sinceramente eu não tenho ideia do que devo dizer. Você me pegou de surpresa aqui, eu não... eu não esperava por isso.” Respondeu o rapaz coçando de leve a cabeça. E ele realmente fora pego de surpresa. Afinal, não é todo o dia que Ravena resolvia desmaiar do nada e acordar falando sobre o futuro e como que o filho de um antigo inimigo estava tramando um plano diabólico para sequestrá-la e engravidá-la.

“Bem, se você por acaso pensou que eu esperava que algo desse tipo acontecesse comigo, posso te garantir que eu também fui pega de surpresa.” Retrucou a moça com um leve tom de sarcasmo e... melancolia?

“Me desculpa, tá! Eu... eu não sei....”

“Você não acredita em mim.” Constatou a jovem com firmeza.

Ele se levantou na mesma hora e começou a andar de um lado para o outro na enfermaria. “Não é isso, Ravena! Eu acredito em você.” Disse sem nenhuma hesitação. “De verdade mesmo! Se você está me dizendo que de alguma forma fez o tempo voltar, eu acredito em você!” Ele parou e passou as mãos pelo cabelo. “Eu só estou me sentindo um pouco perdido.... eu.... nós precisamos contar isso aos outros. Se vamos realmente investigar esse culto do Sangue nós vamos precisar que toda a equipe saiba do que aconteceu.... ou pelo menos do que estava previsto para acontecer.”

A jovem concordou fracamente e deixou um pequeno sorriso enfeitar seus lábios. “Obrigada pelo voto de confiança. Eu não tinha certeza se você iria mesmo acreditar em mim.”

“Você já me provou várias vezes ser de confiança, Ravena, e além disso eu já testemunhei você parar o tempo uma vez, então, nada te impede de conseguir fazê-lo voltar, não é mesmo? E também... eu não sei se é por causa da nossa ligação, mas eu sinto que o que você está me dizendo é a mais pura verdade.” Voltando a se sentar na cadeira, o jovem líder continuou. “E eu tenho certeza que os outros também vão acreditar em você.”

“Fico contente em ouvir isso, Richard..... mas.... mas tem mais uma coisa que eu gostaria que você soubesse sobre o futuro. E o que eu vou te contar deve ficar somente entre nós, fui clara?”

Franzindo as sobrancelhas, ele lhe perguntou com um pouco de apreensão “O que é? O que mais aconteceu no futuro?”

Suspirando fundo e encarando o seu líder, Ravena tentou responder o mais secamente possível. “Garfield morreu.”

Asa Noturna não sabia ao certo o que estava esperando que Ravena lhe contasse. Talvez algo sobre o novo vilão, esse menino chamado Sebastian, ou quem sabe alguma coisa em relação a Trigon e como o demônio fez para escapar da dimensão onde estava sendo mantido prisioneiro e conseguir então fazer um pacto com o garoto. Mas, sem dúvida alguma, Asa Noturna não estava preparado para ouvir que um dos membros de sua equipe, o seu amigo desde a adolescência, Rapaz-fera, Garfield Logan morrera.

Por um momento sentiu sua boca ficar muito seca e sua respiração se tornar pesada e laboriosa. Ravena não poderia estar contando a verdade! De jeito nenhum! Aquilo.... aquilo não poderia ter acontecido porque Richard nunca deixaria que esse destino cruel se abatesse sobre qualquer um dos titãs. Ele nunca permitiria que seus amigos sucumbissem pelas mãos do crime. E de repente, começou a sentir muito medo. Um pavor sinistro como jamais sentira invadiu brutalmente o seu corpo. Mas tinha algo muito estranho e diferente nesse medo que ele estava sentindo. Essa sensação terrível não parecia estar nascendo de dentro dele.... ela parecia estar vindo do exterior. E ela estava vindo de Ravena. A empata poderia se esconder atrás daquela máscara de indiferença, mas Richard conseguia sentir por meio do elo que compartilhavam todo o medo e desespero que a jovem sentia naquele momento.

“Morreu?” Perguntou o líder titã num tom solene.

Ela concordou fracamente “Sim.... e caso precisemos enfrentar o Irmão Sangue novament-”

“Você não quer que ele lute. Está com medo que algo venha a acontecer com o Logan de novo, não é?”

Medo? Sim, ela não poderia negar. Por mais que tentasse disfarçar, seu medo era tão intenso que não conseguia evitar de senti-lo.

“Você está correto. Acho que devemos fazer o possível para evitar que o futuro que eu vi volte a se repetir.”

Com um semblante muito sério, Asa Noturna assentiu. Ele entendia a preocupação que a jovem sentia, entendia também porque ela quisera conversar com ele a sós antes de dividir a história com os demais Titãs. Ela ainda não estava pronta para encarar Garfield e dizer o que acontecera com ele, mas ela precisava que alguém mais soubesse do que se passara. Ela queria protegê-lo, e Asa Noturna sabia que ela não poderia fazer isso sozinha.

“Ele não vai lutar. Se nós formos até esse esconderijo e enfrentarmos esse novo Irmão Sangue, Logan não irá conosco. E não se preocupe.... esse assunto ficará somente entre nós.”

“Obrigada, Richard. Era exatamente o que eu precisava ouvir.” Disse a empata com um sincero sorriso de gratidão.



Notas finais do capítulo

Não costumo colocar versos de músicas em fics, mas dessa vez eu não pude resistir! Precisei colocar um trechinho de uma música do Chico Buarque que eu adoro. E para quem nunca ouviu nada do Chico (o que eu acho muito difícil de acontecer), por favor, ouça!
O trecho que eu coloquei é o início da música “Pedaço de mim” (uma das minhas favoritas), de autoria do próprio Chico Buarque, na qual ele faz um dueto com Zizi Possi (que ao meu ver, ficou genial). Fica aí a dica!
Abraços e até o próximo capítulo,
Laarc!



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