Flor do Deserto

Autor(es): senhorasolo


Sinopse

“É flor! É inacreditável como a mulher se parece com a flor.
Fixemos uma flor. Sabemos o que é, como nasceu, e que morrerá.
Mas nossa botânica não explica a frescura desse milagre; nem muito menos porque nos emociona.”
(Rubem Braga)

É difícil conceber que a solidão possa ter um lado positivo.
Imaginar que alguém tenha tirado proveito de um abandono num planeta inóspito não chega a ser impossível, mas não deixa de ser impressionante. Pois foi assim com Rey.
Viver só em Jakku a obrigou a tornar-se criativa, austera, esperta e resiliente. Sabendo se virar muito bem em uma situação onde há poucas opções e num ambiente com poucos recursos.
Nascida onze anos após a épica Batalha de Endor, Rey, a heroína de Star Wars VII: The Force Awakens, enfrenta sozinha a labutada vida num ferro-velho, catando sucata para sobreviver e enfrentando perigos.
No entanto, essa história não é sobre como ela barganhava peças em troca de alimento nem de como ela catava lixo, nem tampouco de como se sentia deslocada no Posto Avançado de Niima.

Te convido a conhecer um lado poético e humano de sua vida, em situações que jamais apareceriam nos filmes e contadas de outra forma, dividas em três contos.




(Cap. 2) Capítulo 2: Novos Perigos

Notas do capítulo
Nesse capítulo tem mais ligações com TFA. Não deixem de ler até o final ♥ Boa leitura ;)

Algo tão trivial e comum no seu ambiente natural causou assombro aos que viram o milagre majestoso de uma coisa tão pura e bela brotar entre espinhos e terra seca. Foi lançada ali à própria sorte. Qualquer que visse diria: não resistirá, morrerá certamente. Mas a delicadeza não escondia o vigor e a força. Resistiu e não morreu, pelo contrário, ela se desenvolveu.

Nunca, em toda a sua vida, viu a beleza da primavera. Mas quando Jakku completou o ciclo em torno de sua estrela, no décimo-terceiro aniversário, Rey desabrochou. Como uma flor, suas pétalas se abriram e ela conheceu a mocidade.

Tomou um grande susto, desesperou-se, acreditou que estava morrendo, mas uma alma bondosa, uma senhorinha, orientou a jovem flor. Logo, Rey entendeu que não era mais uma menina e, como sempre aprendia rápido, entendeu o novo ritmo natural de sua vida e habituou-se a ele até que se tornou parte dela mesma – e sempre foi.

Tantas coisas aprendeu sozinha, aquela senhora foi umas das primeiras pessoas a dar-lhe algum ensinamento, a dar-lhe conselhos. Foram amigas, porém, como tudo que Rey tinha era roubado dela, a vida também lhe tirou a amiga. No ano seguinte morreu. No leito de morte disse que tinha vivido o suficiente para cuidar de uma flor. “Como é uma flor?”, foi o que o Rey perguntou. A mulher sorriu, entendia a curiosidade da moça. Ela já tinha conhecido outros lugares além daqueles desertos, planetas distantes e exóticos; viu muitas flores.

— Elas são como você. – Estas foram as suas últimas palavras.

Mais uma vez, Rey precisou seguir em frente, e seguir em frente sozinha. Mas ela já estava acostumada, em seus primeiros anos ali, a vida foi com certeza mais difícil. Na época, o fétido e desagradável crolute, Unkar Plutt, vigiava a menina. Não tinha bem uma preocupação, de fato, se a garota morresse seria melhor para ele, no entanto, alguns dos outros catadores de lixo que abasteciam o entreposto Niima com peças de valor, simpatizaram com ela. Ensinaram como conseguir comida e água, como arranjar abrigo, e aliada a curiosidade que ela já tinha, Rey aprendeu tudo que precisava saber para sobreviver em Jakku.

Ela estava crescendo e à medida que envelhecia, tornava-se uma mulher bonita e atraente. Deixava cada vez mais de lado os traços infantis e curvas acentuavam no corpo adolescente, embora que o olhar e sorriso permanecessem cândidos.

Descobriu que despertava olhares maliciosos, descobriu também que se incomodava com eles. Ela era jovem, em muitos aspectos era ingênua, contudo, não era nem um pouco boba; sabia reconhecer o perigo quando estivesse de frente para ele e se enfrenta-lo necessário for, ela o enfrentaria e venceria.

Certa tarde, lá para seus quinze anos, o sol já se punha e as primeiras estrelas despontavam no firmamento. Observando o céu – que funcionava para ela como relógio – viu que já estava na hora de voltar para casa. Já estava prestes a deixar o lugarejo quando um jogo de sabacc despertou a sua atenção.

Juntou-se ao pequeno grupo que estava ao redor da mesa, observando os dois homens jogando. Ainda não tinha visto aquele jogo antes, porém, em minutos e apenas pela observação, descobriu como funcionava. Notou que o homem negro trapaceava e previu a derrota do ruivo. E era pior para este último, pois jogavam a dinheiro.

— Dizem que foi assim que Han Solo conseguiu a Millennium Falcon. – Ao seu lado, também ao redor da mesa, duas pessoas conversavam.

A conversa chamou-lhe atenção. Já tinha ouvido falar de Han Solo e de sua famosa nave antes. Permaneceu de ouvidos atentos enquanto não tirava os olhos do jogo.

— Han Solo, o contrabandista? – o outro indagou.

— Ele próprio.

— Você o conhece?

— Não, não.

— Han Solo? O Han Solo que fez o percurso de Kessel em 15 parcercs? – outro meteu-se na conversa dos dois.

— 15 não, acho que era menos de 14 – o primeiro corrigiu.

Ela atentou para a conversa por alguns minutos, e só percebeu que a hora estava bastante adiantada, quando o jogo acabou e uma briga se iniciou após a derrota do homem ruivo. Precisava ir embora, já estava tarde e ela morava longe.

Andava depressa, estava preocupada com ladrões, embora que não carregasse nada de valor, soubera de casos em que a vítima fora espancada. Passava próximo a um cemitério de naves quando teve a impressão de que estava sendo seguida. Olhava para trás, mas não havia ninguém. Apressou ainda mais o passo. Pelo canto do olho viu um vulto esgueirando-se entre as sucatas das naves e andadores imperiais destruídos. Parou assustada, olhou melhor e não viu nada nem ninguém ali.

Um sinal de alerta tocou em sua mente, olhou ao redor, a escuridão da noite dificultava a visão, apenas as luas e as estrelas iluminavam o céu e ajudavam Rey a achar o caminho para casa. Conhecia bem aquele caminho, sabia onde pisar, mas mesmo assim estava com medo, pois nunca tinha passado por ali durante a noite.

Apressou o passo, quase corria. Sentia que era observada, olhava constantemente para trás e para os lados – ninguém.

Um barulho. Rey voltou-se depressa para a direção de onde ele vinha. O cérebro alertou: “fuja!”. Quando ela girou o corpo para começar a correr, deu de cara com um homem. Gritou, e os pés involuntariamente deram passos para trás, tropeçou e caiu sentada.

Entretida no jogo de sabacc, não notou que era observada, e o sujeito ali a seguia desde o vilarejo.

— Assustei você? – perguntou o homem.

— Não – mentiu.

Ele inclinou-se e estendeu a mão para ajudá-la a levantar. Com isso ela conseguiu ver melhor o seu rosto, tinha a pele enrugada, provavelmente pela exposição ao sol, e os olhos grandes. Rey ignorou a mão estendida e levantou-se sozinha. Tentou passar pelo homem, mas ele agarrou o seu braço.

— Aonde vai assim tão depressa? – ele perguntou.

— Solte-me, tenho que ir.

— Mas ainda nem nos conhecemos.

— Solte-me!

— Ou o que? Vai gritar? Não tem ninguém aqui para ouvir você, linda.

Tentou tocar o seu rosto, então Rey puxou a sua mão e o mordeu, cravando os dentes com força até sentir gosto de sangue. O homem gritou e ela aproveita para tentar fugir. No entanto, ele correu atrás dela e a agarrou por trás.

— Menina levada, precisa de uma lição.

— Socorro!

— Grite o quanto quiser, ninguém vai te salvar.

— Me larga!

Ele tentou descer as calças dela, mas a garota jogou a cabeça para trás e quebrou o seu nariz.

— Maldita! – gritou largando-a no chão e levando as mãos ao nariz que sangrava sem parar.

Rey engatinhou e encontrou uma barra de ferro no chão. Era pesado e desequilibrou-se um pouco para tentar segurá-lo enquanto levantava. Sustentou o peso com as pernas firmes no chão, girou e atingiu o homem na cabeça com aquele bastão. A pancada deixou-o zonzo, gemeu alto de dor, tentou roubar o cajado da mão dela, mas Rey o atingiu de novo no braço, depois nas costelas.

— Vá embora! – ela ordenou, e caso não obedecesse, o bastão já estava em posição para outro golpe.

O homem rastejou de costas até levantar-se e sair correndo de onde ele tinha vindo. Ela observou-o correr desajeitado pelas pancadas que recebeu dela. Largou o bastão e arrumou rapidamente suas roupas, juntou suas coisas que caíram durante e confusão e virou-se para ir embora, contudo, deteve-se.

Fitou a barra no chão, era pesado e até então, um pouco maior que ela, mas pensou que ele tinha servido bem para salvar-se. Imaginou que seria bom ter algo assim para proteger-se, e ao mesmo tempo, a ajudaria a caminhar pelo deserto, servindo de cajado.

A princípio, ela não entendeu porque aquele homem tinha feito aquilo, porque quis despi-la, mas sabia que queria fazer-lhe mal. Olhou para o céu, como desejava que sua família voltasse logo.

A luta pela sobrevivência era difícil, entre fome, sede, calor durante o dia, frio durante a noite, tempestades de areia, lixo e homens maus, ela só tinha uma certeza: aquele tormento ia encerrar um dia.

Pegou o bastão e seguiu o seu caminho.

Ela nunca mais viu aquele sujeito, e ficou feliz por isso. Ele foi insensato por achar que poderia aproveitar-se dela sem problema algum; um erro, pois quem toca de qualquer maneira e abruptamente numa flor que tem espinhos fere-se. É esta a função deles, são intrínsecos a sua natureza, estão lá para defendê-la, para ferir quem se enganar com a aparente fragilidade.

Notas finais do capítulo
Antes de escrever esse capítulo, eu tinha apenas a ideia, não sabia nem por onde começar. Então lembrei que a história teria "flor" no título, fui no Youtube e fiquei assistindo vídeos de flores desabrochando. É de longe o maior espetáculo da natureza, simplesmente emocionante. Selecionei um para vocês: https://www.youtube.com/watch?v=6a5LA_k1WdM Obrigada por terem lido ♥




Todas as histórias são de responsabilidade de seus respectivos autores. Não nos responsabilizamos pelo material postado.
História arquivada em https://fanfiction.com.br/historia/741746/Flor_do_Deserto/