Velhas estradas, novos caminhos

Autor(es): Lady Salieri


Sinopse

Vez ou outra retorno àquele ano de 1989, especialmente quando as estradas fantasmas da minha vida tomam forma e vêm me assombrar. Então faço uma volta estúpida dentro da minha própria cabeça e paro na figura de Alícia que me lança todas as faltas em farpas no peito...

[Fic escrita para o Amigo Secreto da Liga dos Betas 2016]


Notas da história
Essa história e esses personagens, sim, me pertencem. Favor não plagiar, nem usar nada aqui escrito para fins comerciais, gracias. Se quiser usá-los em sua fanfic, pode, só me conta pra eu ler.



(Cap. 7) Capítulo 7: A granada de cor e vida

Notas do capítulo
Chegamos ao capítulo final. Um beijo, minha amiga secreta linda !

A última vez que vi Alícia foi no dia do resultado das eleições. Imaginando que ela não suportaria a vitória do Collor, corri até sua casa, contra a maré de carros em passeatas e contra os fogos de artifício.

Ao chegar lá, sua mãe disse que ela não estava e que se preocupava por onde devia estar. Não tive dúvidas. Corri para a filial da rede globo da nossa cidade para encontrá-la jogando pedras e tentando romper as vidraças do local.

Segurei-a com os dois braços, abraçando-a por trás:

— Alícia, para! Você pode ir presa! Vamos sair daqui!

— Me solta, Adônis, me solta!

Levei-a como pude até um local mais tranquilo. Ela se desvencilhou de mim com calma e sentou-se na beirada da calçada, incapaz de conter as lágrimas:

— O que as pessoas querem, Adônis? O que as pessoas REALMENTE querem?

— Serem felizes, eu acho.

— Sério? E como elas querem isso?

Sentei-me ao lado dela:

— Eu não sei...

— Você escuta os fogos? Escuta a marcha de carros comemorando isso? É como cantar correndo para o abismo. É isso que estamos programados para fazer para sempre e sempre?

— Mas o Collor poderá ser um bom presidente... Como vamos saber?

— Estudando história, eu acho...

— A história mostra também que o socialismo não deu certo.

— E que o povo nunca deu conta efetivamente de revolucionar nada...

Ela deitou a cabeça no meu ombro.

— Talvez um dia você viva num mundo que você não entenda e sinta o que estou sentindo agora...

Eu acariciava seu cabelo quando disse:

— A única coisa que eu sei agora é que sinto alguma coisa por você que não entendo.

E foi o passo de ela levantar a cabeça e me olhar que cedi ao ímpeto de colar meus lábios aos seus.

Além da estranheza do ato, certeza de que eu era o primeiro garoto que a beijava, alguma coisa explodiu na minha alma, como uma granada de cor e vida que me assustou mais do que nunca. E eu tinha medo de tentar investigar isso a mais a fundo, descobrir o inevitável, então fiz a coisa mais humana que um ser humano podia fazer: deixei-a em casa como um perfeito cavalheiro, dei-lhe um beijo de despedida e fugi. Tão logo pude, fui para a capital estudar e nunca mais retornei àquela cidadezinha onde passei a minha infância.

No mito de Adônis, ele, tendo seduzido Afrodite e Penélope, ele escolheu Afrodite. Eu escolhi a mim mesmo.

E o gosto amargo fica na boca às vezes, o gosto da covardia, do medo, daquele "e o que poderia ter sido..."

 

Notas finais do capítulo
Espero que tenham gostado. Quero incluir muita coisa nessa história pra uma versão final, especialmente no que diz respeito às eleições de 1989, fatos históricos e essas coisas. Mas por enquanto fica aqui a espinha dorsal que é bem essa mesma.




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