This Is My Gang! escrita por Metal_Will


Capítulo 4
Capítulo 04




Capítulo 04 - Nossa Própria Sala...Ou algo assim...

- Vocês....realmente querem fazer isso? - diz o diretor, um cinquentão careca e de óculos, mas aparentemente bem-sucedido, sentado em sua confortável cadeira de poderoso chefão da escola.

- Com certeza! Nós três estamos dispostos a assumir o compromisso! - Wilson dizia com todo o ânimo do mundo.

Apenas contextualizando a situação...eu, junto com meus mais recentes amigos (ou pelo menos o que eu tinha mais próximo de amigos naquela hora), Wilson e Jorjão, concordamos em aceitar o trabalho de voluntários na limpeza das salas (na verdade, meu voto não contaria muito, então acabei concordando do mesmo jeito. O que eu podia fazer?). Teríamos que ficar depois da aula para tirar o lixo de todas as salas, mas, a recompensa por isso era ter acesso livre à sala de limpeza que, segundo Wilson, seria o primeiro passo para o sucesso da nossa "gangue" (ainda não me acostumei com essa ideia). Agora estávamos ali, depois da aula, conversando com o diretor sobre a nossa escolha (é, parece que precisávamos da autorização dele).

- Bem...é um trabalho nobre, sem dúvida...apesar de fazermos isso apenas para que o ministério da educação não nos encha a paciência por não termos nenhuma atividade mais social com os alunos, mas...vocês tem certeza absoluta de que querem fazer isso? - o diretor repete, ainda não acreditando que realmente existia algum aluno otário o suficiente para aceitar aquele tipo de trabalho.

- Diretor Rui! Estamos decididos! - Wilson falava por todos nós. O velhote suspira e concorda.

- Sendo assim - ele diz, cruzando as mãos em cima da mesa - Podem entregar essa autorização na coordenação e pegar a chave da sala de limpeza

- Muito obrigado, diretor! Iremos honrar nosso compromisso! - ele diz animado, apertando as mãos do diretor com força - Simbora, gente! Tem muita sala para limpar!

É verdade...como poderia me esquecer? Temos trabalho...e nunca fui muito bom em limpar coisas. De qualquer forma, o diretor suspira com a nossa saída. "Esse Wilson...é um bom aluno, mas...o entusiasmo dele é um pouco estranho..."

E, no mesmo dia, já começamos nossa tarefa. Ficaríamos ali por pelo menos uma hora, ou seja, almoço atrasado. Limpamos muito papel, passamos pano molhado nas lousas, recolhemos pedaços de giz, mas, conseguimos acabar.

- Viu? Até que foi fácil! - comenta Wilson, com o entusiasmo de sempre.

- E agora? Hora do almoço? - pergunta Jorjão, sempre preocupado com o estômago.

- Com certeza - Wilson responde, com o mesmo tom de sempre.

- Que ótimo...finalmente podemos ir para casa

- Casa? Quem precisa de casa quando se tem o almoço da escola!

- Almoço aqui? - perguntei - E quanto é?

- Essa é outra vantagem do nosso trabalho! - diz Wilson - Temos almoço de graça!

- Sério? - perguntei

- Por que você acha que estou tão entusiasmado com esse trampo? - comenta Jorjão - Se tem boia de graça, estamos dentro!

- É só a gente chegar na lanchonete e pegar nosso pratinho - diz Wilson - Com nossos crachás de identificação, vai ficar fácil!

Não comentei? Bem, falo agora. Além de termos todo esse serviço, também tinhamos um crachá de identificação de voluntários da limpeza. Não só tinha o desenho ridículo de uma vassoura com um sorriso tão irritante quanto o de Wilson como também mostra a todo mundo que somos OS voluntários da limpeza. Nem preciso dizer a quantidade de risinhos e comentários que ouvimos nos corredores. Mas parece que aqueles dois não ligavam muito para isso...eu queria ser assim também

- Bom dia, minha linda senhora! - diz ele, cumprimentando educadamente a moça da lanchonete, que não parecia ser muito do tipo simpática - O que temos de bom hoje para o almoço?

- Carne moída! E um pouco de batata cozida- é tudo que ela responde, sem sequer mostrar um sorriso.

- Beleza! Pode caprichar! - comenta Jorjão

- Vocês já pegaram a ficha? - ela pergunta.

- Somos da equipe da limpeza das salas! - responde Wilson - Nosso almoço tá na faixa!

- Ah, é! - ela diz, sem o mínimo de entusiasmo, ao olhar nossos crachás - Aquele esquema de fazer os alunos trabalharem de voluntário....nunca pensei que alguém aceitasse esse tipo de coisa

- Tudo pelo bem da escola, minha querida! - dizia Wilson, com o mesmo sorriso no rosto.

- Tá, tá...peguem logo o prato de vocês e caiam fora, vai!

- Valeu! - diz Jorjão, o primeiro da fila, obviamente.

- Muito obrigado! - diz Wilson.

- Obrigado - respondi, pegando meu prato e fitando a cara de mau humor dela.

- Tá olhando o que? - ela responde ríspida.


- Nada, nada - peguei meu prato e me juntei aos outros.

- Conseguimos um lugar na lanchonete? - perguntei - Que sorte!

- Nesse horário não tem muita gente no pátio - diz Jorjão, enquanto devorava seu prato com a ferocidade de um leão - O pessoal da tarde já entrou na aula e a galera do ensino médio costuma almoçar fora...o problema..

- Xii...acho que eles já chegaram - comenta Wilson.

Dois caras (não os mesmo que roubaram nosso lanche no dia anterior) se aproximam da gente. Pareciam ser da nossa sala e vestiam uniforme de futebol. Um deles (Dimas) tinha olhos claros e pele branca. O outro era mais moreno (Danilo).

- Ora, ora...olha quem está aqui? Wilson! - diz Dimas, mal podendo segurar a risada - E aí? Como é que anda o voluntariado? Limpando muitas salas?

- É...de boa

Fiquei na minha. Mas os moleques realmente queriam provocar.

- E você é.. - Dimas me pergunta, mas Danilo se adianta na resposta.

- É um moleque novo da nossa sala. Amigo do Wilson também

- Opa. Se é amigo do Wilson é nosso amigo também - diz Dimas, com um sorriso cínico no rosto - E pra provar que somos gente boa...melhora um pouco sua comida.

- Hã? - estranhei

- Com mais catchup! - diz Dimas, pegando o recipiente de catchup da outra mesa e enchendo o meu pobre arroz com ele Os dois saem dali caindo na risada.

- Hahuhahaha! Que otário! - deu para ouvir o que Dimas disse.

- Vambora, Dimas - diz Danilo também rindo - Daqui a pouco começa o treino de futebol

- Ops...ainda bem que você já tava acabando, né, Daniel? - comenta Wilson.

- Se não quiser passa aí que eu como - diz Jorjão - Já fizeram isso comigo, mas arroz com catchup até que é bom, viu?

- Tudo bem...acho que ainda dá para comer um pouco - tentei ser otimista, mesmo vendo o mar vermelho que meu prato havia se tornado.

- Relaxa, Daniel! Um dia isso vai acabar! - ele comenta, com olhos sonhadores. Acabar? Sei...só queria saber como.

- Bem - ele diz, terminando seu prato - Apesar desse incidente no almoço...animem-se! Vamos ver a nossa sala com calma agora!

Chegamos na sala da limpeza. De fato, era um depósito, a única iluminação era uma lâmpada velha. Tinha várias caixas, além de material de limpeza. Wilson, obviamente, vê o lado bom da coisa.

- Tem mais espaço do que você pensou, heim? - ele diz - É só afastar um pouco as caixas...arranjar umas cadeiras e...aos poucos, podemos transformar esse lugar na nossa base aqui na escola

- Cadeiras? - perguntei.

- A tia da lanchonete empresta algumas - diz Jorjão - A gente já falou com ela

- Hã? Assim, sem mais nem menos? - estranhei.

- Na verdade, eu tive que insistir um pouco - diz Wilson - Mas no fim ela deixou

"Imagino o tanto que ele insistiu", pensa Daniel, "Cadeiras são um preço barato para se livrar da chatice desse cara"

- Além disso, é temporário - diz Wilson, com as mãos na cintura e aquele olhar que vislumbra o futuro - Assim que reunirmos mais gente, vamos conseguir mudar para uma sala oficial e maior! Hehe!

"Mais gente?", pensei, "Quem vai se juntar com uns manés como a gente?"

- É isso aí...até que dá para se virar aqui dentro - diz Jorjão, apesar de que o corpo dele ocupava bastante espaço, e o lugar, apesar de ser maior que muita sala de limpeza por aí, ainda era meio apertado.

- Bom - disse, ainda estranhando aquela situação - Também está pensando em ficar aqui nos intervalos?

- Com certeza! Agora não dependemos mais daquele "canto dos nerds" lá embaixo! Estamos mais seguros aqui! - Wilson responde.

- Mas...esse lugar não acabaria virando o canto dos nerds de qualquer jeito? Afinal, todo mundo sabe que estamos aqui - argumentei.

- Sim. Mas agora não é só um canto! Temos uma sala! Ninguém vai atrapalhar a gente aqui!

- Licença - diz uma tia da limpeza que entra de repente - Só vim pegar uma vassoura

- Quer dizer...só o pessoal com entrada autorizada - diz Wilson

- Não sei se é muito higiênico comer nosso lanche na sala da limpeza...

- Relaxa! - diz Jorjão, também sorrindo - Se é sala de limpeza, quer dizer que é limpo, não?

- Tá, tá, se isso te incomoda não precisamos comer aqui - repete Wilson - Mas podemos usá-la para começar nossa influência

- E você já pensou como? - perguntei, não percebendo que já estava envolvido até o pescoço com tudo aquilo.

- Bem...talvez com....café!

- Café? - estranhei.

- Tenho uma cafeteira em casa...podemos transformar esse lugar no "cafézinho do intervalo". Os alunos podem vir aqui para tomar café e começar a nos ver com outros olhos!

- Mesmo que você arranje uma cafeteira... - argumentei, mesmo sabendo que não adiantaria muito - ...o que te garante que os alunos vão ter interesse em tomar café aqui na sala da limpeza? E aqueles caras? Eles vão avacalhar a gente até a morte!

- Relaxe! - diz Wilson, sem perder o otimismo - Se nosso café for bom mesmo, os alunos que gostarem não vão deixar zuarem a gente

"Isso se existir algum aluno que vai gostar disso", pensei, já vendo que aquela ideia ia miar.

- Será que chocolate quente não chama mais a atenção? - Jorjão argumenta.

- Primeiro o café, Jorjão! Café vicia mais...depois a gente pensa no chocolate!

- Mas... - continuava meu papel de advogado do diabo - Se o café vicia mais, poderemos gastar muito com ele. Não vamos ficar no prejuízo?

- O que você chama de prejuízo, meu caro Daniel, eu chamo de investimento! - ele diz com toda a confiança do mundo - Conquistando as pessoas aos poucos com um pequeno copinho de café de graça, aos poucos iremos atraí-los para nosso lado! Daí teremos mais pessoas para montar um clube ou um grupo de atividades e poderemos até ganhar uma verba da escola por isso! Aí recuperaremos todos os nossos gastos!

Aquele cara seria um bom administrador. Mas eu repito: quem iria se juntar a gente?

- Mas, claro...usaremos a conversa do cafézinho para avaliar quem vier nos procurar! Não é qualquer um que pode fazer parte da nossa gangue! - ele diz, com o mesmo ânimo de sempre. Jorjão também o acompanha na risada.

 Estava feito. Dois amigos totalmente sem noção, auxiliar de limpeza, membro de gangue, um crachá ridículo, uma sala de material de limpeza como local de reunião, distribuidor de cafézinho...e tudo isso em apenas dois dias de aula. Dois. E o pior: não tinha mais volta. Meus dias de sossego estão contados...ai, ai...



Notas finais do capítulo

Bem...uma sala eles conseguiram, agora, será que o "processo seletivo" deles vai dar certo? Que tipo de membro eles terão no futuro? Alguém perguntou se algum desses três sabe fazer café? Enfim...aguarde o próximo capítulo

Até!