Sob o Teto do Palácio escrita por whofarmiga


Capítulo 2
2




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— Não é possível! — Bufando e desacreditada, Emma soltou a folha na mesa.

Um documento tão importante como um pedido de divórcio, cuja dona não é das mais amigáveis, parou nas mãos de Emma, a professora novata que não conhecia uma alma viva naquela imensidão de cidade. Se não era má sorte, era maldição.

— Mas que inferno… Quem é essa mulher? — Com rapidez, Swan começou a digitar freneticamente o nome que lera há segundos.

Tão rápido quanto digitou, milhares de resultados apareciam na tela a sua frente e nos mais variados sites. Várias manchetes incluindo o nome dela e da Northfield University, pesquisas, prêmios e páginas de fofocas. Páginas de fofocas?

O que uma doutora em História, que dispõe de prêmios importantes dentro da carreira acadêmica, estaria fazendo que chamasse atenção de tabloides? Clicou no primeiro link.

"Doutora Regina Mills recebe o prêmio de Professora Nacional do Ano pela primeira vez"

Segundo link.

"O prêmio de Desenvolvimento de Carreira, ofertado pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, foi recebido por Regina Mills"

Terceiro link.

"Quem é? Conheça Regina Mills, esposa do empresário multimilionário Robin Hood"

— Robin Hood? Tem que ser muito prepotente para ser milionário e se chamar Robin Hood.

Quarto link.

"Regina Mills suspeita de desviar fundos da Northfield University, saiba o porquê"

— É melhor eu parar...

Ainda sem saber o que havia realmente lido, Emma fechou as abas e desligou o computador. Muitas engrenagens rodavam dentro da sua cabeça. Como que uma acadêmica renomada acaba se casando com um multimilionário? O que realmente seria verdade? Ela é tão boa assim? Mas o mais inquietante é a crescente curiosidade para descobrir tudo da vida daquela mulher.

Saindo do escritório, Swan marchou à procura da placa com o nome Regina Mills. Além de um grande desentendido, ela tinha que devolver aquele documento. A poucos metros de sua sala, lá estava a placa dourada novamente. Bateu três vezes. Nada. A luminária estava acesa, ela deveria estar lá dentro. Será que não escutou? Bateu mais três vezes. Ouviu o farfalhar de papéis e do teclado do computador. Ela estaria a ignorando? Na terceira vez, Emma bateu e abriu a porta.

— Por acaso eu disse que poderia entrar? — A voz rouca da morena ressoou com frieza sem tirar os olhos da tela a sua frente.

— Pelo que eu me lembro ainda não aceitei ser feita de idiota por qualquer um. — Emma rebateu incrédula. Essa mulher era como uma muralha de tão grossa.

Regina tirou os olhos do computador e fitou a loira de cima a baixo por cima dos óculos de leitura.

— O que você quer?

— Te entregar isto. — Deixou o papel sobre a mesa e se afastou. — Deve ter se misturado com as minhas coisas. — Petrificada, Regina encarou a folha sem dizer uma só palavra. Uma mulher com a influência que aparenta ter não podia deixar que uma notícia dessas espalhasse pela universidade. Principalmente, que saísse dela.

— Por favor, não conte a ninguém sobre isso. — Em um suspiro, ela engoliu em seco o orgulho e pediu a Emma. Era um tiro no escuro, claro. Ela nunca havia visto essa mulher antes, nem mesmo sabia o nome dela. Só entendia que precisava de sua confiança.

Já no batente da porta, Emma olhou sobre os ombros com indiferença. Ela poderia ser a mulher mais poderosa do mundo, mas isso não lhe dava o direito de ser arrogante.

Ao invés de voltar para seu escritório, Emma desceu a escadaria enorme que dava para o refeitório circular. Desde que acordou não havia comido nada, e aquela interação desagradável com uma pessoa ainda mais desagradável não foi nada energizante.

Ao avistar uma cafeteria, Swan prontamente sentou-se em uma banqueta vermelha de frente para o balcão.

— Bom dia, como posso te ajudar? — Uma mulher alta se aproximou para anotar seu pedido.

— Eu gostaria de um café preto simples, por favor. Grande.

— Dia estressante? — Disse a garçonete rindo enquanto anotava seu pedido.

— Você nem imagina. Isso porque esse é o meu primeiro dia, não quero nem saber como vai ser o resto.

— Então você deve ser Emma Swan!

— Como você sabe?

— Belle me contou. Sabe a fama de fofoqueira que bibliotecária tem? Acredite, é verdade. — Ambas riram em acordo, Emma também conhecia algumas bibliotecárias que falam pelos cotovelos em Storybrooke.

— Achei que ela fosse recepcionista.

— Gold mandou ela fazer hora extra na recepção. Parece que a outra mulher que ficava lá adoeceu. — A morena entregou-lhe o pedido e apoiou-se no balcão.

— Hum… — Bebericou o café quente.

— Aliás, eu me chamo Ruby.

— Muito prazer, Ruby! — Sorrindo com os olhos, Emma torcia internamente para que ela fosse uma amiga em potencial. Não iria suportar morar nessa cidade imensa sem amizades, ao menos uma ela precisava. — Então, o que há para fazer em Nova Iorque?

— Ah! Muita coisa, acredite. Têm bares e pubs ótimos no centro, que custam o olho da cara, mas tenho meus contatos. — A morena piscou. Como assim ela tem contatos? Ela tem contatos que deixam as bebidas mais baratas? Emma ficou curiosa, para dizer o mínimo. — Quando o pessoal for sair você deveria ir com a gente! O que acha? Conhecer mais pessoas, beber um pouco…

— Claro! — Olhando no relógio de couro em seu pulso, Emma percebeu faltarem cinco minutos para a reunião do departamento. — Ruby, tenho que ir, mas me mande mensagem. — As duas trocaram o número de telefone e se despediram.

Saindo dali, a loira correu para o banheiro mais próximo e jogou uma água no rosto para se refrescar. De repente, Emma pensou se estaria apresentável o suficiente. Ela se vestiu muito simples? Tudo o que ela vira foi um terno caro do Sr. Gold e a saia lápis de Regina. Ela nunca gostou de saltos, usou um tênis naquele dia. Para compensar, também usava camisa e calças sociais, mas seriam sociais o suficiente para aquele lugar? Tentando se livrar daquela ansiedade, Emma se virou e saiu pela porta pensando no quanto precisava comprar roupas novas.

Já em frente a porta que French lhe dissera, respirou fundo e girou a maçaneta. Era uma sala normal, com uma mesa longa no centro e cadeiras ao redor. Francamente, lembrava até salas de reuniões corporativas. Em cada assento havia uma agenda e caneta com a logo da universidade, um presente de início das aulas, Emma pensou. Logo se acomodou em um dos poucos lugares vazios. Ao seu lado, um homem de cabelos pretos e lápis de olho em excesso a olhou com curiosidade.

— Você deve ser a Srta. Swan...

— Eu mesma. Aparentemente, todo mundo já sabe meu nome. — Estendeu a mão cumprimentando o colega.

— Ah! As palavras correm aqui dentro. Sou o Killian Jones, mas todo mundo me chama de Gancho. — Apontou para a mão mecânica.

— A mulher mal chegou e você já está dando em cima dela, Jones? — Atrás de Emma, a mulher falou e sentou-se ao seu outro lado. — Ironicamente, eu sou a Mulan.

— Só falta entrar a Branca de Neve por aquela porta. — Emma disse e fez ambos rirem. A ansiedade que lhe atordoava minutos antes esvaiu-se com a simplicidade dos dois. Até que a reunião iniciasse, os três passaram a se conhecer melhor. Jones é professor das áreas de Arquivologia e Mulan ensina História da África e da Ásia, com ênfase em estudos étnicos-culturais.

— Bom dia, meus queridos colegas! Sejam bem-vindos a mais um período letivo. 

Gold iniciou seu discurso começando com a importância dessa profissão e, provavelmente, citou um ou dois autores clássicos. Emma não prestava atenção, por isso não sabia. Mas tinha quase certeza que ele usou alguma frase de efeito. Sua mente agora girava em torno da cadeira vazia no fim da mesa. Era de Regina, ela estava certa disso. O que a mulher tinha de tão importante que não poderia comparecer àquela reunião? Dito isso, a mulher entrou rompante no meio das palavras do reitor.

— A protegida do Gold. — Mulan sussurrou. — Queria saber quanto ela paga para esse velho para manter o cargo dela aqui.

— Ou o quanto ela chupa. — Foi a vez de Killian.

— Que nojo, Jones. — Mulan repreendeu e Emma só sabia segurar a risada. Era essa a fama de Regina Mills?

A reunião durou cerca de uma hora, os sessenta minutos mais lentos da vida de Emma. Se retirassem as frases prontas do discurso de Gold, o conteúdo poderia ser resumido pela metade. Por fim, não só ela como os outros professores foram orientados a iniciar pesquisas e outros projetos na universidade. Aparentemente, o Departamento de História carece de incentivos ao alunado. Emma já conseguia sentir as inspirações chegando quando foi pega de surpresa com as próximas palavras do reitor.

— Todas as submissões devem passar pela aprovação da Coordenadora Regina Mills antes de serem implementadas. — Emma encolheu. Como que qualquer trabalho dela seria aprovado por uma mulher que a odeia sem qualquer motivo? — Isso é tudo, pessoal. Bom início de ano para todos, estão liberados.

Rapidamente, todos se levantaram e saíram em fila. Algumas pessoas conversavam entre si, como Killian e Mulan, que ironizavam abertamente o monólogo de Gold.

— Do jeito que ela é, só vai aprovar os projetos dela e da Zelena.

— Quem é essa? — A loira perguntou.

— A irmã caçula de Regina. Sinto dó dela por ser irmã daquela megera. — Mulan dizia.

— Ela não é tão ruim assim, Mulan está exagerando.

— Você só fala isso porque tem uma queda por ela.

— E quem não tem? É bom o marido dela ter cuidado, porque ela não vai resistir a uma gostosura dessa. — Já de fora da sala, Jones sensualizava e fazia as duas mulheres rirem.

— Bom ver que você continua profissional, Jones. — A voz rouca ressoou novamente, dessa vez atrás de Emma, enquanto julgava o professor apenas com o olhar. Killian ajeitou a postura e se desculpou enquanto a mulher rebolava para longe dali.

— Não tem como te defender, Kil. — Mulan gargalhava. — É só falar no diabo que ele aparece.

— Falando no marido dela, quem é ele, hein? — Após ter acesso àquele papel, Emma não conseguia conter sua curiosidade acerca daquelas duas pessoas.

Os três professores voltaram para Granny's, a cafeteria de Ruby, e prontamente se assentaram.

— Um podre de rico que não sabe mais onde enfiar dinheiro. — Jones começou. — Ninguém sabe o que ele faz, para ser sincero. Ele só tem muito dinheiro e é dono de algumas empresas por aqui.

— Rola muito burburinho aqui por conta dele. A história é que ele e Gold são amigos de longa data, e foi ele quem financiou as dívidas que a universidade tinha há uns anos. Muita gente acredita que só por causa dele que a Regina trabalha aqui, mas ela é muito inteligente, isso não nego. Só é uma vaca.

— Caraca...

— Vejo que você já conheceu meus amigos! — Ruby se aproximou animada, logo se sentando junto deles. — Estavam fofocando, né? Acho que Belle achou competição para o título dela.

— Nem venha com isso, Ruby. A pior de todas é você! — Mulan apontou.

— Nunca! Que falácia! — Todos riram.

Emma sempre foi um lobo solitário em todos os lugares em que já trabalhou ou estudou, sua mãe era sua melhor amiga. Ela não esperava estar rodeada de pessoas tão acolhedoras logo no primeiro dia de trabalho. Ela só pôde fazer uma anotação mental para contar isso a sua mãe mais tarde, a qual provavelmente desacreditaria.

— Vamos fazer alguma coisa nesse sábado? Emma é nova na cidade, acho que somos obrigados a sair. — A garçonete quase implorou para os amigos, todos atolados em trabalho, para aceitarem o convite. — Em comemoração ao início das aulas, o que acham?

— Comemoração? É mais uma depressão, isso sim. — Mulan deitou sobre a mesa. — Acho que não aproveitei minhas férias o suficiente.

— Pois aí que está, pode aproveitar o fim dela! Vamos! — Com os olhos brilhando, Ruby estava quase de joelhos. — É humilhante eu ter que implorar para sair com os meus amigos, sabiam?

— Larga de drama, Ruby. — Killian empurrou levemente a mulher, que fez uma careta em desaprovação. — Chame a Belle também. Tem um pub novo perto da minha casa, passo a localização para vocês no fim de semana.

— Ótimo! Agora tenho que ir trabalhar, vejo vocês no sábado. — Mandou um beijo no ar e voltou para detrás do balcão.

— Ela é uma loucura. — Emma finalmente comentou, sorrindo com os olhos.

— Se não fosse ela para tirar a gente de casa, acho que nós já teríamos mudado para os nossos escritórios. — Mulan suspirou.

Os três ficaram ali por mais trinta minutos, sentados em uma mesa no canto do café, rindo e conversando sobre os mais fúteis assuntos. Finalmente, Emma olhou para o relógio e percebeu que era hora de voltar ao trabalho.  Com um sorriso no rosto, agradeceu os amigos pela companhia e subiu as escadas.

De volta ao seu escritório, Emma se acomodou na cadeira de couro, ainda absorvendo o aconchego do ambiente. Determinada, ela espalhou à sua frente os documentos do departamento e suas próprias anotações. Planejou a ementa das três disciplinas que iria lecionar, equilibrando as exigências burocráticas com sua visão apaixonada do que era essencial para despertar o interesse pela História.

Cada detalhe foi pensado com cuidado, desde as leituras recomendadas até as avaliações finais, refletindo seu desejo de oferecer algo que representasse seu amor por História. Quando finalmente cadastrou as ementas no portal dos alunos, sentiu um arrepio de excitação percorrer sua espinha. Emma mal podia conter a emoção, era uma nova etapa em sua vida, uma que ela abraçava com entusiasmo. Os dias de ensinar adolescentes haviam chegado ao fim, substituídos agora por jovens adultos, possivelmente mais ávidos por conhecimento.

Não restavam dúvidas de que Emma era apaixonada pelo que fazia. Desde pequena, a curiosidade que ela tinha por aprender coisas novas era imensa. Quando chegava da escola, corria para o quarto e pesquisava mais sobre o assunto que acabara de ver. Mary tinha que implorar para a filha tirar o nariz dos estudos e ir brincar com outras crianças.

Satisfeita com o que havia feito durante o dia, a professora desligou o computador e viu que a luz do dia que iluminava a sala já não existia mais. O relógio, que marcava seis da tarde, fez com que Emma guardasse suas coisas e trancasse seu escritório.

A grama antes verde agora denunciava o cair da neve. Seu carro, que lhe esperava na garagem do apartamento, nunca fora tão necessário naquele momento de frio iminente. Sob o portão de entrada, Emma aguardava ansiosamente por um Uber, verificando o aplicativo repetidas vezes. Cada vez que conseguia um motorista, ele cancelava ao perceber a longa distância que teria que percorrer. O sol poente já desaparecia entre as nuvens e montanhas no horizonte quando um SUV preto parou a sua frente. O vidro se abaixou, revelando o rosto ríspido que ela havia visto tantas vezes ao longo do dia.

— Entra.


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