Nebulosa escrita por Camélia Bardon


Capítulo 11
X — Tell her a story, tell her the honest truth


Notas iniciais do capítulo

Hoje o capítulo tem uma narradora especial ♥



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“Conte-a uma história, diga a ela a verdade nua e crua

Trate-a melhor, se assegure disso

Não seja apenas tudo o que ela quer

Seja tudo o que ela precisa

Quando ela diz que te ama

Diga a ela que a ama também”

(Tell Her You Love Her — Echosmith ft. Mat Kearney)

 ★

Veronica não acreditou que Valerie realmente a chamaria para um passeio com Alex. No entanto, quando o convite surgiu – e, pasme! O convite veio dele!—, Veronica começou a compreender que aquilo era algo sério. Até onde podia se lembrar, Valerie nunca tinha apresentado a ela namorado nenhum.

Certo, talvez as ameaças de Ronnie teriam sido suficientes para entender que ela estava de olho em quem aprontasse com sua irmã, mas ainda assim… 

Veronica reconhecia os esforços de Alexander. Era admirável. Para um homem, é claro. Ela não daria tanto o braço a torcer. Aproveitaria a oportunidade para sondá-lo. Afinal de contas, não era um relacionamento qualquer. Era um relacionamento íntimo. Veronica lia em suas revistas que, a partir do momento em que duas pessoas passam mais de uma noite juntas, elas escalam juntas um patamar irreversível. E, conhecendo Valerie como ela conhecia, aquilo poderia ser maravilhoso ou terrível. Apegar-se a alguém daquela forma… Bem, Valerie não saberia agir diferente. Cautela não era bem a palavra que regia sua vida.

— Onde nós vamos nos sentar? — Ronnie indagou, de braços dados com a irmã. — No lugar da Georgia Jones de novo?

— Não sei se sou tão corajosa assim. Cometer o delito uma vez é uma coisa, agora duas… É cutucar a onça com vara curta.

— Tô sabendo! Você é o maior bicho-grilo!

A mais velha fez beicinho, simulando uma chateação quase crível.

— Não me chame assim. Eu estou indo de cidade para cidade. Nem é no meio do mato.

Ainda. É bem em breve que você vai me comunicar que nas férias de final de ano vai sair por aí com esse Alexander para fazer uma trilha. E você nem gosta tanto assim da natureza.

— Bem… Se você me chamasse para fazer uma trilha, eu iria — Valerie replicou, com doçura.

— Porque você me ama, não porque ama trilhas.

Touché. 

Veronica arquejou. Foi só quando ela disse em voz alta que ficou tudo óbvio. Era esse o patamar que as revistas diziam que as pessoas alcançavam? O amor? 

Não, não. O amor exigia mais, não? Amor não eram as grandes declarações em público? O amor não era diretamente equivalente ao casamento? Aos filhos? À família? 

Algo não estava certo. Isso que Valerie apresentava para ela vinha de um desconhecido! O amor requer mais tempo, não? Como você pode dizer que ama alguém que mal conhece?

Veronica percebeu seu erro assim que o pensamento passou por seu subconsciente. 

Era ela quem não conhecia Alexander, e não Valerie. Se Valerie estava insinuando que o amava, isso significava que ela o conhecia o suficiente. E isso deveria bastar. Veronica não sabia nada sobre o amor, como suspeitava.

— Ai, minha nossa… — Ronnie sussurrou, agarrando-se ao braço dela com mais firmeza. Sentia a vertigem correr em frente aos seus olhos. — Quando você…?

— Tem um tempinho — Valerie segredou, no mesmo tom de voz dela. — É difícil dizer. Eu só… Eu só sei. É uma verdade que não tem uma origem. Só é

Veronica franziu a testa. 

— Que poético. Deve ser amor mesmo, pra você falar bonito assim.

Valerie gargalhou, recostando-se ao braço da irmã. Ronnie acariciou seus cachos com cuidado. Era ela quem os tinha feito, não queria que desmanchassem. Não queria se gabar, mas estava fazendo um belo trabalho com a reconstrução do cabelo da irmã.

— Olhe, Alex vem aí — ela acenou com a cabeça, e Ronnie pode ver que era verdade. Ele não era nada discreto. Atraía olhares de todos os lados, por todos os motivos. Para Veronica, ele ainda era apenas um inseto. — Comporte-se, sim?

— Como pode ousar dizer que eu não me comportaria? Desse jeito, eu fico ofendida.

A irmã dela riu, acariciando o braço da mais nova com ternura. Alex se aproximou mais, atravessando aquele mar de gente – um final de semana no verão e esperar que a sorveteria estaria vazia?— com uma sutileza impressionante. Então, de suas costas, ele tirou duas flores e entregou uma delas à Valerie. Era uma rosa branca. Na verdade, a tonalidade estava entre o branco e o amarelo, algo como o creme. Ela teve de segurar o revirar de olhos. Aquilo tudo era muito cafona, mas… Fofo, também. Veronica jamais diria isso em voz alta, obviamente.

Em seguida, Alex voltou-se para ela e ofertou a outra rosa. A vermelha. Ronnie ergueu uma sobrancelha. 

— A vermelha? Para mim? Por quê? A vermelha não deveria ir para a sua namorada?

— Combina com você — ele explicou, e sua voz era bem mais grave do que Ronnie se recordava. Foi impossível não se sentir um tanto intimidada. Se era a voz dele ou o rosto dele que causava toda aquela apreensão, Ronnie já não sabia dizer. — Você me parece ser bastante enérgica e passional.

Veronica arrumou a postura, assumindo sua personalidade de cão de guarda.

— Sou. Sou sim. Algum problema com isso?

— Nenhum — Alex abriu um sorriso contido. — Pelo contrário, é admirável.

— Sei… E você vai querer sorvete de quê?

— Baunilha, por favor. 

Veronica trocou o peso dos pés. Dava para julgar uma pessoa pelo sorvete que ela escolhia, mas baunilha? Era o tradicional do tradicional. E Alexander não parecia ser nada tradicional. Como poderia julgá-lo pelo sorvete se as suposições eram tão contraditórias?

Ao seu lado, Valerie riu baixinho e pôs-se a tentar colocar a flor entre os fios de cabelo. O resultado ficou o mais meigo possível, uma vez que naquele dia Valerie havia optado por um vestido longo branco de decote canoa. Tudo em seu visual ornava. Era quase como se Alex tivesse adivinhado com que roupa ela sairia. Quando olhou para ele de soslaio, viu que o coitado só faltava babar pela irmã. Hum. Ronnie não esperava menos do que isso para um namorado a quem Valerie dizia amar. Por enquanto, não havia nada a censurar

— E você? — Alex indagou à Veronica, fitando-a com os olhos muito azuis. Ronnie ficou desconcertada com o contato direto. — Que sabor vai pedir? 

— Caramelo. Com banana. 

— Parece ser bom. Você sente o cheiro da banana ou o do caramelo?

Que tipo de pergunta era aquela, pelo amor de Deus? 

— Da… Banana… 

— É engraçado, não é? Porque a maior parte do sorvete é de caramelo, mas o cheiro mais forte é sempre o da banana. Dizem que é porque a banana encontra o leite e vê ali uma oportunidade de te levar ao banheiro mais rápido. 

Valerie gargalhou com a piada, e até mesmo Veronica foi obrigada a rir pelo nariz. Aquela era definitivamente a conversa mais sem pé nem cabeça em que já tinha estado. As meninas de sua idade apenas falavam sobre garotos, maquiagem, cabelo, ou tratar como se fosse algo muito romântico todos os garotos estarem lutando pelo país. Veronica queria discutir assuntos sérios – ou, no caso, se os assuntos fossem bobos, que fossem bobos variados—, então conversas desconexas como aquela faziam com que ela se sentisse bem em sua pele. 

Talvez ela entendesse um pouco do porquê ela tinha se apaixonado por Alex tão rapidamente. Em poucos minutos, Veronica havia caído em sua lábia. Tinha de tomar cuidado ou faria julgamentos antecipados sem embasamento. 

— Bom. Isso é — Veronica franziu a testa, presa na dicotomia da própria cabeça. — Chocolate com menta, Val?

— Você me conhece tão bem — Valerie apoiou a bochecha no braço da irmã, abrindo um sorriso de orelha a orelha. — Alex disse que vai pagar, então deixe que ele faça o pedido enquanto nós procuramos um lugar para nos sentarmos.

— Ah. Ok. Tá, então.

Alex sorriu para ela, confirmando as palavras. Tudo aquilo era para impressioná-la?

De qualquer maneira, apenas para não decepcionar a irmã, Ronnie aquiesceu e cruzou os braços. Até que ele comprasse o sorvete, Valerie ficou quieta, seguindo-o com o olhar. Era quase como uma adoração silenciosa. Veronica o adorava por extensão.

— Caramelo com banana e chocolate com menta — ele anunciou, dando uma bela mordida em sua massa tradicional de baunilha. Como quem não quer nada, acrescentou: — E como vai seu verão, Veronica?

— Obrigada. Ah, tranquilo. Tipo, já passou um mês e pouco, né? Então meio que aquela animação inicial do período já passou. Agora eu já estou morrendo de tédio. Fora que todo o meu círculo social tá na escola, então…

— Você até poderia sair com os seus amigos nas férias, mas não é como se você não fosse os ver o restante do ano — ele deduziu, obtendo um “uhum” dela como resposta. — Eu detestava o verão, quando eu estudava.

Agora, isso é um claro sinal de loucura, Veronica pensou.

— Nossa, por quê? — foi Valerie quem se pronunciou. Não havia adoração silenciosa que se sustentasse depois daquela declaração absurda. — O que você tem contra as férias?

— Não, não é que eu tenha algo contra as férias em si — Alex riu, mordiscando a casquinha logo depois. — Descanso é bom. Mas é que eu estava acostumado a sempre ter o que fazer, então… Como eu morava num lugar muito pacato, quando era férias, eu sabia que iria ser um período ocioso. Então, eu trabalhava com os meus pais sem muita opção. O descanso nunca vinha. Mas eu gostava de estudar, então acho que era mais a falta de estar aprendendo algo. O trabalho com os meus pais era mais… No automático.

— Ah — Veronica conseguia compreender. Papai tinha dito que quando trabalhava na fazenda, as férias nunca eram exatamente sinônimos de descanso, apenas de mais trabalho. — Faz sentido. 

— E também… Acho que o sol tem algo contra mim.

Valerie deu uma risada gostosa, quase derrubando seu sorvete. Veronica também sorriu. 

— É verdade. A gente passou o dia na praia e ele parecia um neném assado!

— O problema é que quando fico no sol eu não pego um bronzeado bonito, fico só vermelho… — ele mostrou os braços ainda queimados, aparentando estar constrangido. Veronica observou-os com atenção e… Bem, dizer que eles estavam vermelhos chegava a ser um eufemismo. A queimadura já estava até descascando. — Fica bem óbvio que eu não pertenço ao litoral… 

Ronnie abriu um sorriso maldoso. 

— Pobrezinho. O garoto do interior tem problemas para ficar com a garota da praia.

— É um drama diário — Alex concordou, finalizando sua casquinha. A de Veronica já escorria por entre os dedos. Não deveria ficar tão concentrada em sua tarefa ao ponto de esquecer-se do sorvete. Deveria estar fazendo um grande papel de palhaça. — E você, Valley?

Valerie virou a cabeça, surpresa.

— Eu? O quê?

— O que você achava das férias?

— Ah, elas sempre eram maravilhosas… Eu não tinha amigos na escola, então eu não sentia falta de nada. Gostava de ficar em casa com a minha família. Às vezes, nós viajávamos. Papai gosta de escrever ao ar livre. 

— Você se lembra daquela trilha dos castelos que a gente fez uma vez? — Veronica animou-se com o assunto. Dando uma mordida generosa em sua casquinha, começou: — Papai disse que queria sentir como era… 

— Como era ser um vampiro! — Valerie completou em meio a gargalhadas. — E aí ao invés de uma história de vampiros, ele fez um conto sobre uma pessoa presa numa masmorra!

Alex assoviou, aparentemente impressionado. 

— É bem fora da curva. Eu leria. 

— Aí, Val, pode dizer para o papai que ele já teria um leitor garantido se publicasse suas histórias — então, voltou-se para Alex e acrescentou: — Ele é bastante inseguro, sabe? Mesmo se for a gente quem elogia, ele diz que não vale. 

— Imagino como deve ser triste para o coração animar-se com suas próprias ideias e a cabeça sabotar aquela alegria dizendo que não é bom o suficiente… Não tem dor pior do que a que é você contra você. 

As duas irmãs o encararam com a fala. Ao reparar que havia se tornado o foco das atenções, Alex ergueu as mãos em defensiva. 

— Estou dizendo o que imagino que seja. Não quero ser pretensioso e dizer que sei como é estar na pele do pai de vocês. 

— Hum — Veronica estreitou os olhos, recordando-se de que tinha um papel ali. — Tá beleza, mas que filme que a gente vai ver? E não vai ser 2001, Val!

Valerie encenou sua melhor expressão de chateação. 

— Eu nem disse nada… 

— Mas você ia. Alex, ela já te levou para ver 2001 uma vez, se você não tomar cuidado, essa vez se torna a sexta vez consecutiva. Tô falando por experiência própria. 

Valerie deu a língua para ela, de uma maneira bem madura. Alex gargalhou, jogando a cabeça para trás. Esquecendo-se de que as mãos estavam sujas de sorvete, ele enfiou as duas mãos bem cheias nos fios. Alguns segundos depois, franziu a testa. 

— Eu… Sinto que não deveria ter feito isso. 

— Já era, querido — Valerie segurou a risada, limpando as próprias mãos com muita classe no guardanapo. Ela era a melhor de todas. — Pense pelo lado bom: não é sorvete de chocolate! Agora, talvez as abelhas fiquem seguindo você por aí, além de mim.

— Algum dia eu tento usar o cabelo castanho, você vai ver só. Aí vou combinar todo o marrom da roupa e o dos óculos com o cabelo.

— Vai ficar tão bonito quanto o tom natural. 

Veronica revirou os olhos. Quanta melação. Ainda assim…

Ela gostava de Alex. Não fazia sentido continuar tão mal-humorada, não quando a química entre os dois era sob medida. Tudo bem, talvez melosa demais. Ele tinha carisma, Ronnie tinha de admitir. O rosto podia não ser lá o dos mais amigáveis, mas… 

Veronica suspirou. Que grande ameaça ela era. Entregando-se ao inimigo fácil. 

Bem… Era verão. Parte de seus miolos deveria estar derretendo. Isso deveria contar em alguma coisa.

 

Os três acabaram assistindo Bravura Indômita. Quando o filme acabou, Alex correu para o banheiro – “ninguém mandou tomar tanto refrigerante de uva, mas essa é uma das melhores coisas que já inventaram”— e Valerie sorria de orelha a orelha. Veronica ainda segurava seu balde de pipoca, mas isso não impediu que Valerie colocasse o seu balde por cima do dela.

— Ronrom, eu acabei de arranjar um novo apelido pra você — a irmã anunciou com seu sorriso maníaco. — “Bravura Indômita”.

— Muito engraçadinho, mas eu não tenho mais 14 anos. E eu jamais usaria aquele corte de cabelo. É cafona. Nem cafona, é… Agride os olhos.

— Não se atenha a detalhes, meu amor. Tirando o cabelo, você é a personagem inteira. Que tal?

Veronica fingiu ponderar a questão. 

— Jóia. Se bem que… Eu ficaria bem de faroeste — ela simulou manipular duas pistolas, assoprando a pólvora imaginária. — Não é? Chapéu de caubói, tranças… Eis aí o que vou vestir para o próximo Halloween! Onde será que a gente acha um cavalo em Miami?

— Não vai ter cavalo, Ronnie. 

— Eu sei… Mas poderia! Uma boa fantasia no Halloween me garantiria a coroa de rainha do baile. Eu estou por aqui de tanto ficar em segundo lugar. Não tem muita opção de fantasia para os ruivos.

Valerie recostou-se na parede do banheiro, reavendo seu balde de pipocas. Entre um mordisco e outro, ela divagou:

— Hum… Acho que saiu um desenho que tem uma personagem ruiva. Não o da idade da pedra, aquele outro… Tenho a impressão de que ela é bem estilosa. E usa roxo, é bem a sua cara. E tem um cachorro.

— Legal! Mas se eu achar um cavalo, eu vou de caubói.

Valerie gargalhou, entregando os pontos. Já Veronica sorriu de soslaio, porque Alex vinha do banheiro – e com os cabelos úmidos. Era uma cena digna de uma piada.

— A torneira te engoliu? 

— A perspectiva de abelhas me seguindo por aí não é nada agradável… Imagine tomar uma picada no rosto? Já é desagradável, ficaria mais ainda.

A expressão no rosto da irmã, antes tão descontraída, anuviou consideravelmente. Com um sorriso mais contido, ela entregou a pipoca para o namorado, e pediu licença para usufruir do rodízio de toilette. E então, o constrangimento: Veronica foi obrigada a ficar encarando-o. 

— É… — ela limpou a garganta, ainda com um resquício de risada trancafiada ali. — Curtiu o filme, Scarface?

— Não é dos piores — Alex brincou num tom bastante pretensioso. — Quer dizer, eu já vi filmes de faroeste melhores, mas… Dá para enxergar alguma graça.

— Vai dizer que você é do grupinho do Eastwood? 

— Charles Bronson, minha cara. Paul Newman. 

Veronica contorceu o rosto numa careta. 

— Newman eu entendo, mas o Bronson nem bonito é.

— Isso é um critério? — Alex arqueou as sobrancelhas.

— Claro que é! A beleza é sempre um critério, independente do assunto. 

Alex riu sacudindo os ombros. Então, como se tivesse levado uma bofetada, ele franziu a testa e desviou o olhar para a mesa;

— Veronica, eu… 

— Pode me chamar de Ronnie, só — ela aprumou a postura, sorrindo de leve para ele. Era sua impressão ou Alex havia soltado o ar? — Acho que você conquistou esse direito. Agora, Ronrom já é demais. 

— Certo — ele sorriu, distraído. — Enfim, eu… Queria pedir um favor a você.

Ah, ela sabia. Não teria sido por nada que ele a chamou para um passeio. Então tinha algo por trás! Que raposa esperta ele era. Raposa esperta e traiçoeira. 

— Sim? 

— Eu… Queria que você cuidasse da sua irmã, por mim. 

As palavras, ditas assim, deixaram-na desconcertada uma vez mais. Se tivesse de contar nos dedos quantas vezes aquilo havia acontecido apenas naquele dia, Veronica precisaria das duas mãos. Alexander Weber era – e talvez para sempre seria – para ela uma figura repleta de contradições. Quanto mais o conhecia, seu atordoamento crescia. Engolindo em seco, ela esforçou-se para retomar a compostura. 

— Por que você diz isso? — ela o fitou seriamente. O clima de brincadeira entre os dois havia evaporado. Veronica quase conseguia enxergar as fagulhas. — E eu já cuido da minha irmã. Mas eu faço isso por mim. Por que eu faria isso por você? Você pretende magoá-la, por acaso? 

— Não. Não de propósito. 

Não de propósito?

Aquilo era simplesmente ultrajante. Se Valerie não tivesse vindo junto a eles, já teria colocado aquele garoto abusado para correr.

— Eu… Preciso partir, em breve — ele sussurrou, por mais que estivesse em meio a uma multidão razoável. — Vou contar isso a ela hoje. E, acredite em mim, é a coisa mais difícil em muito tempo que terei de fazer. Mas eu gostaria de avisá-la também. Não o faço por mal. Ou porque me cansei dela. Eu só… Preciso ir. 

— Ah — Ronnie mordeu os lábios, pensativa. — Eu… Bem… 

A explicação colocava as coisas sob outra ótica. Tinha de sopesar tudo com bastante cuidado. Se ele pretendesse fazer algo de errado, porque iria se dar o trabalho de avisá-la? Veronica já havia deixado claro o suficiente que não deixaria barato se ele ousasse quebrar o coração da irmã. O aviso seria algum tipo de blefe? Uma tentativa de se livrar da culpa mesmo sabendo que erraria? E outra coisa: e se ele estivesse mentindo? 

Mentindo sobre o quê?

— É por conta do meu trabalho — ele explicou, vendo a confusão dela. — Escolhem onde eu fico por comodidade. Tanto é que estou hospedado em Fort Lauderdale, não em Miami. Os editores não confiam em enviar as traduções via fax, é tudo pessoal. Então, se a fonte está em Lauderdale, eu vou até lá. Traduzo, devolvo o material original, envio a tradução e próximo. E Valerie está estável aqui, não é justo com ela pedir que venha comigo. Assim não seria justo da parte dela pedir que eu ficasse. Você está me entendendo? 

— Surpreendentemente, sim — Veronica murmurou, contrariada. — Então você quer me dizer que vai quebrar o coração da minha irmã e pede que eu gentilmente recolha os caquinhos assim que eles caírem ao chão? 

— Sim. Sim, Ronnie, eu estou pedindo isso a você. Pode fazer isso? 

Veronica permaneceu embasbacada. Deveria ser aquele tom de voz, baixo e firme.

— Vai entrar em contato com ela depois que for embora…?

— Não. Criar expectativas… Eu quero que ela viva, Veronica. E viva bem. Não que faça isso esperando por alguém que não vai voltar. 

Ela sentiu a cabeça girando. Não era possível que um dia tão bom tivesse se tornado um pesadelo daquela magnitude. Era uma brincadeira do universo, não era? 

— Você a ama? — Veronica sussurrou, sentindo o peso das palavras assim que elas saíram de seus lábios. — Me diga isso e eu faço o que você me pediu. 

— Eu… 

Quando Alex estava prestes a responder, Valerie voltou do banheiro, secando as mãos no vestido. Ele subitamente ficou muito interessado em sua pipoca, bem como Veronica. A quebra da expectativa fazia Veronica querer gritar de frustração. Como poderia ansiar por algo que sequer era problema dela? Era simples: se o amor tudo suportava, então Valerie e Alexander poderiam encontrar um caminho. Ela só precisava saber disso, e então tudo ficaria bem! Não é?

— Tudo bem por aqui? — ela sorriu, passando o braço ao redor da cintura dele. — Vocês parecem tão sérios… 

— Sua irmã me apelidou de Scarface — Alex sorriu de lado, e Veronica não teve outra opção além de entrar na defensiva. — Mas, na verdade, eu achei isso bem estiloso. 

— Ah, Ronnie, eu não posso te deixar sozinha cinco minutos… 

Veronica esforçou-se para rir da piada, porém o coração já pesava no peito. Ainda assim, quando o olhar dela encontrou-se com o de Alex, Veronica conseguiu ler nas íris azuis a resposta que queria. Sim, ele a amava. Se não a amasse, jamais teria pedido para ela cuidar da irmã quando ele partisse. Veronica, até então, não nutria nenhuma simpatia pelo pseudo-cunhado – poderia chamá-lo assim, agora que ele iria embora?– e, por sua vez, Alex parecia ter ensaiado aquele discurso muito antes de convidá-la para passear com eles dois. Aquele era um movimento muito arriscado. Veronica poderia contar tudo à irmã, estragar seus planos, provocar uma crise, desencadear tudo muito antes do início.

E, mesmo assim, Veronica estava tendo coração mole. Ela, que tanto se orgulhava de agir pela razão, estava dando ouvidos à intuição guiada pelo sentimento. Como era idiota. Deveria amar muito a irmã. Era a única explicação plausível. 

— Vamos pegar a estrada? — Valerie indagou, rodopiando as chaves nos dedos habilmente. — Tenho que te deixar em casa cedo, a mãe pediu. 

— Ah, puxa… — Ronnie suspirou. — Falei pra ela que queria voltar mais tarde…

Valerie riu baixinho, abrindo um sorriso meigo para a irmã. Quando ela ofereceu a mão para Ronnie, a mais nova aceitou-a, por mais que aquilo fosse esquisito de se olhar. Três pessoas andando juntas. De fato, nada era estranho nos atuais anos 70. Quase anos 70. Que seja.

— A mãe sabe das coisas, amor… É perigoso ficar fora à noite, mesmo com o carro. Você vai ver, quando fizer 18, eu te levo para os barzinhos legais que abrem à noite, Ronrom. Aí a gente compensa todos esses dias. E aí você vai alternar dirigir comigo, porque eu vou querer aposentar a carteira de motorista junto.

— Conveniente. Como eu disse antes, se você for presa por me deixar dirigir ou dirigir bêbada, aí que a mãe vai me trancar dentro de casa. 

— Rapunzel da era moderna, olha, mais uma fantasia para a sua lista do Halloween!

Dessa vez, Veronica gargalhou com gosto. Era óbvio que Alex a amava. Era impossível não amá-la. Veronica recolheria os cacos de seu coração com um sorriso.


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Notas finais do capítulo

Vou deixar essa bombinha no final do capítulo e sair correndo kakakaka um beijo e até a próxima terça-feira!



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