Divórcio de Mentirinha escrita por Saori


Capítulo 4
Ato IV.




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Ato IV.

Palavras feias e resort.

 

— Você não acha que tem algo para me contar? — perguntou Rose, em um sussurro.

As crianças já estavam na cama, dormindo, e a ruiva não queria acordá-las. Em passos lentos e cansados, ela relaxou o corpo sobre o sofá, sentando-se ao lado do Malfoy, que suspirou, como se estivesse cansado demais para explicar qualquer coisa. Contudo, ele também sabia que a Weasley nunca desistia quando estava curiosa, e ele não queria ter que lidar com teimosia.

— O que você quer saber? — rebateu o questionamento com outra pergunta, em um tom de voz calmo.

— Por que não me contou sobre essas crianças ou sobre sua ex-esposa? Achei que fôssemos parceiros de mentira. — Ela suspirou, mais frustrada do que gostaria de estar.

— Achei que tivesse me stalkeado o suficiente nas redes sociais para saber — disse, irônico.

Rose forçou uma gargalhada.

— Você não tem nada nas redes sociais. É o jovem mais velho que eu conheço.

— Então você realmente me stalkeou — ele concluiu.

Rose não respondeu ao seu comentário.

— Vai me contar ou não? — ela pediu.

— Eu namorei a Amanda por seis meses, e eu realmente a amei muito durante todo o tempo, então eu a pedi em casamento e tinha certeza de que ela era a garota certa para mim. Eu juro, Rose, eu tinha certeza de que eu queria passar todo o resto da minha vida com ela. — Ele sorriu, um pouco amargo. — E aí nós casamos, as brigas começaram e nos divorciamos, só ficamos um mês juntos como cônjuges — continuou, enquanto a Weasley o olhava atentamente. — Ela já tinha as crianças, e o pai os abandonou quando ainda eram pequenos demais para se lembrar, Anna tinha dois anos e Lucas era um recém-nascido. Eu fui o primeiro namorado e o primeiro marido da Amanda depois dele, então as crianças se apegaram rapidamente a mim e, bom, eu meio que virei pai. O Albus não te contou nada?

Rose negou, movendo a cabeça de um lado para o outro.

— Nós não nos encontramos muito desde que eu me mudei de Londres para Paris e, quanto nos encontramos, pouco falamos de você — explicou ela.

— Ouch. — Ele levou uma das mãos ao coração, fingindo estar ofendido.

— Mas eu acho bonito o que você fez pelas crianças — disse Rose. — Não é qualquer pessoa que aceita essa responsabilidade. Você e a Amanda se dão bem?

— Não muito — admitiu. — Mas ela entende o quanto Lucas e Anna se apegaram a mim, então nunca nega que eles passem um tempo comigo. Não fomos um bom casal, mas acho que somos bons pais. — Ele gargalhou baixinho.

— Vocês são — concordou. — É muito bonito o que você faz por eles, Scorpius, deveria ter orgulho de si mesmo. Eu vejo como eles te olham, eles têm muito carinho e admiração por você. E eu também percebi que você olha para eles como se fossem os seres mais preciosos do mundo.

— Obrigado, Rose — agradeceu. — Isso significa muito para mim. Eles são muito importantes na minha vida. Eu nunca quis ter filhos, mas agora fico feliz que os tenha. Acho que eu nunca contei isso para ninguém, é um alívio poder desabafar.

Um silêncio pairou brevemente no ambiente, mas Scorpius pigarreou.

— Bem, o que você achou da noite? — disse ele, despretensioso.

A ruiva prendeu os fios rebeldes desajeitadamente em um coque, enquanto mordia o próprio lábio inferior, parecendo pensativa.

— Apesar de tudo, foi divertida — falou, em meio a uma leve gargalhada. — Sabe, a Luna tem sorte. Você é infantil e irritante às vezes, mas é um cara legal, uma boa pessoa. Só acho que não deveria mentir para ela.

— Eu sei que não deveria, mas eu não podia perdê-la por um mal entendido que ela não estava disposta a compreender — desabafou. — Sei que soa um pouco egoísta, mas ela é realmente importante para mim.

Um certo incômodo se fez presente no peito de Rose, por um motivo que ela desconhecia. Ciente da situação e daquele sentimento estranho, ela decidiu ignorar a sensação.

— Não tem medo de que ela fique chateada? Eu ficaria, se você estivesse mentindo para mim. — Colocar-se no lugar de Luna era o mínimo que ela podia fazer, considerando que estava de cúmplice naquela farsa idiota.

— Eu não precisaria mentir para você — rebateu, como se fosse óbvio. Rose prendeu a respiração por um mísero segundo. — Você ficaria brava comigo, mas me escutaria, tentaria me entender. Você sempre foi assim.

— Você fala como se ainda me conhecesse.

— Porque eu ainda conheço. — Scorpius riu, singelo. Havia um perceptível toque de nostalgia que tomava conta de sua face. — Nós fomos melhores amigos até os dez anos, e você não mudou muito. Goste ou não, eu ainda te conheço muito bem, Rose Weasley.

 Ele não estava errado, mas também não estava certo. Scorpius a conhecia melhor do que ela desejava, mas ela mudara consideravelmente ao longo dos anos. Apesar disso, o Malfoy não estava errado quando disse que não precisaria mentir para ela. Rose sempre fora boa em saber ouvir, embora se enfurecesse rapidamente. No entanto, ela apenas precisaria de um tempo para digerir a informação e tudo de resolveria. Além disso, ela saberia dizer, se ele mentisse, pela forma com que ele não conseguia manter contato visual, mesmo que fosse muito bom nisso. Sempre fora assim, desde criança.

Com uma enxurrada de pensamentos indesejados varrendo a sua mente, Rose finalmente se levantou do sofá. Ela ajeitou o short do pijama amassado, levou uma das mãos até os lábios e deslizou dois dedos sobre eles, como se estivesse fechando uma bolsa.

— Bem, seu segredo está à salvo comigo. Boa noite, Scorpius.

— Boa noite, Rose.

(...)

Rose sentiu o seu corpo chacoalhar, sem nem sequer imaginar o motivo, mas balançava e sacudia sem parar, em um movimento suave: para cima e para baixo, e se repetia. Travando uma batalha contra a luz solar, ela abriu os olhos aos poucos, sentindo o corpo rapidamente pesar, devido à exaustão.

— Por que diabos você estão pulando na minha cama? — berrou, e as crianças responderam com uma careta.

— Pai, ela falou um palavra feia! — Lucas gritou, apontando para Rose.

Scorpius não estava no quarto, mas com o resmungar do pequeno, que tinha cabelos lisos e castanhos claros, ele rapidamente apareceu, como se precisasse salvar o dia.

— Não pode falar palavras feias, Rose — ele a repreendeu, até que olhou para o relógio na mesa de canto. — Caralho, estamos atrasados!

— Quanta hipocrisia. — Rose revirou os olhos. — O que aconteceu com o “não pode falar palavras feias”? — Ela ergueu uma das sobrancelhas, desafiadora.

— Atrasados? — A ruiva demonstrou-se completamente confusa. — Para quê?

— Para o fim de semana no resort! — exclamou, como se fosse óbvio.

— E...? — Rose o incentivou a continuar.

— Eu marquei de chegarmos às dez. São nove e meia.

— Chegarmos? Nós dois? — Ela apontou para ele e, em seguida, para si mesma. — Nem pensar. Eu não prometi fins de semana. Como posso aproveitar a minha viagem assim? Eu investi grana na passagem de avião, sabe?

— Por favor, Rosie, por favor!

Rosie. Ele a havia chamado de Rosie, porque sabia que ela sempre cedia quando a chamava assim quando eram crianças. Era um golpe baixo, muito baixo. Felizmente, agora eles eram adultos.

— Não — negou, firmemente.

— Você se tornou uma pessoa fria e sem coração com o passar dos anos. — Ele suspirou. — A velha Rose jamais teria negado.

— A velha Rose está morta — disse, sem ânimo. — E você também estará, em breve, se não parar de me encher o saco.

— Pelos livros da Jane Austen, vá nesse resort comigo! Por favor! — praticamente implorou.

— É, nós queremos ir para a piscina! — Anna caiu de joelhos sobre o colchão e uniu as mãos, em um gesto de súplica.

Lucas não demorou um único segundo para imitá-la.

Rose fechou os olhos e respirou fundo. Ela podia resistir a Scorpius, blindara-se contra as vontades do loiro há anos, mas quando se tratava de crianças, ela tinha um ponto fraco.

— Está bem. — Deu-se por vencida. — Eu vou, mas com uma condição.

— Que condição? — perguntou Scorpius, quase tão animado quanto as crianças, que pulavam pela cama.

— Você. — Rose apontou para ele, que franziu o cenho.

— Eu? — Scorpius apontou para si mesmo.

A ruiva assentiu.

— Veja bem, Rose, eu já estou comprometido...

— Não é nada disso! — As bochechas dela rapidamente tomaram um tom avermelhado, estava envergonhada.

— Olha, ela está com vergonha! — Anna riu, divertida, apontando para ela.

— Eu não estou, não! — Rose bufou, irritada. — O que eu quis dizer é que vou querer você como guia turístico por um fim de semana, sem nenhum fingimento. Também quero aproveitar minha viagem, sabe?

— Feito! — concordou ele. Em um impulso, Scorpius, sorridente, envolveu seus braços ao redor dela, apertando-a contra o seu corpo, em um abraço. — Você é a melhor!

— Me deixa, seu bobão. — Delicadamente, ela o empurrou para longe.

E sutilmente, seu coração bateu um pouquinho mais rápido. Tão sutilmente, que era quase imperceptível.

(...)

— Eu não vou entrar na água, eu realmente não quero. Prefiro pegar Sol, me entende? — Rose falou, com um sorriso delicado nos lábios, embora soubesse que sua pele pálida dissesse o exato oposto.

— Ah, claro. — Luna concordou.

— Vocês não vêm mesmo? — Scorpius gritou, de longe.

— A Rose não quer, vou fazer companhia à ela — respondeu Luna.

— O que foi, Rose? Não sabe nadar? — brincou.

Mas Rose não riu, ela só permaneceu quieta e adquiriu uma feição emburrada. Scorpius deu um impulso com seus braços na borda da piscina e saiu da água, em seguida, caminhou em direção à Rose, que desviou o olhar para o lado, encarando um vaso de plantas.

— É sério, você não sabe nadar? — perguntou novamente. Mais uma vez, ficou sem resposta. — Desculpa, eu não sabia. Imaginei que tivesse aprendido. Foi por isso que não entrou no mar no outro dia?

— Vocês foram à praia juntos? — questionou Luna.

— Sim, nós e as crianças — mentiu Scorpius. Se bem que Albus realmente se comportava como uma criança. — Rose, se você quiser entrar na água, eu posso arrumar uma boia ou algo assim. Você quer?

— Não, Scorpius, eu não quero! — respondeu, furiosa. Sentia-se envergonhada por não saber algo tão básico. — Você pode parar de me perguntar sobre isso, agora? Aposto que não gostaria que eu ficasse te perguntando se você sabe andar de bicicleta!

Scorpius balbuciou, mas nada saiu dos seus lábios, ficou sem reação por um instante. Quando Rose finalmente o encarou, encontrou forças para reagir:

— Foi um trauma! Um trauma! — bradou.

— Um trauma? Você só bateu com a bicicleta na calçada, quando tinha sete anos, e nunca mais andou de bicicleta! Não sabe andar sem rodinhas! — gritou.

— Ótimo, então fica aí plantada no sol! — rebateu. — Você está precisando mesmo, está com cara de anêmica.

— Olha quem fala, mora aqui há um tempão e ainda é um branquelo azedo.

Scorpius ignorou e foi para longe, jogando-se de volta na piscina. Ele sabia que, quando se tratava de Rose Weasley, não adiantava prolongar a discussão, ela sempre tinha a última palavra.

— Nossa, vocês se conhecem tão bem — falou Luna.

Rose fechou os olhos com força e respirou fundo.

(...)

Já era domingo e a tarde finalmente estava chegando, o que significava que estavam prestes a ir embora, e ela precisava dar um tempo naquele fingimento. Apesar de tudo, o fim de semana havia sido divertido. As crianças haviam aproveitado bastante a piscina, Luna havia se demonstrado uma pessoa muito divertida, e Rose também havia curtido o spa que o local oferecia. A massagem era muito boa, na verdade.

Quando estava terminando de arrumar as malas, ouviu alguém bater na porta do seu quarto. Sem nem pensar duas vezes, ela a abriu, deparando-se com Luna do outro lado. A mulher de cabelos castanhos sorria, simpática, e Rose fez o mesmo.

— Entre, por favor. — A ruiva moveu-se para o lado, saindo do caminho, e Luna adentrou o cômodo.

— Bem, me desculpe incomodar, é que eu queria te pedir um favor. — Ela sorriu, um pouco sem jeito.

— Ah, claro — Rose respondeu, enquanto dobrava cada uma de suas peças de roupa e as guardava na mala de mão que havia levado.

—  Bom, eu queria dar um presente para o Scorpius ou fazer alguma coisa por ele, porque ele tem sido tão bom comigo! — Ela sorriu, animada. — Mas estou sem ideias e você o conhece tão bem, será que poderia me ajudar?

— Hm, claro. — Deu de ombros e parou de dobrar as roupas, voltando o seu olhar para a outra garota. — Você tem alguma ideia?

— Eu pensei em dar alguns chocolates, mas não sei, nunca o vi comer. Mesmo assim, acho que todo mundo gosta de chocolate, né?

Rose negou.

— Scorpius odeia chocolate, nunca gostou, desde criança. Só o vi comer duas vezes na vida, e ele fez careta nas duas. Ele sempre foi meio esquisito mesmo.

As duas riram.

— Do que ele gosta, então?

— Ele adora jujubas. Bem, ele é meio infantil, não sei se já percebeu. — Brincou. — Ele também sempre gostou de ler aqueles livros para turistas, sabe? — Rose mordeu o lábio inferior, pensativa. — O sonho dele é viajar o mundo. Ah, ele detesta flores, é alérgico, na verdade, então não recomendo flores e nem perfumes ou velas, qualquer coisa com aroma floral. Uma vez ele foi pegar uma rosa para mim e saiu todo inchado! — Uma gargalhada escapou por entre os lábios dela. Sobre música, quando éramos mais novos, ele gostava de rock, mas não sei se mudou ao longo do tempo. E ele também gosta de jogos, tipo banco imobiliário ou UNO e...

De repente, Rose foi interrompida.

— Nossa, você o conhece realmente muito bem. — Luna sorriu, mas dessa vez pareceu um pouco desanimada.

— O que foi? — perguntou Rose, preocupada. — Não dei dicas o suficiente? Eu posso falar mais coisa, tenho certeza de que vai encontrar algo.

— Não é isso. — Ela negou. — Espero um dia conhecê-lo tão bem quanto você.

Rose congelou.

Scorpius, que escutara tudo por trás da porta acidentalmente entreaberta, sentiu um aperto em seu coração, sem saber o motivo. Ignorando aquele sentimento inofensivo, ele bateu contra a madeira e, antes de receber qualquer resposta, a abriu.

— Vamos? Estamos atrasados.


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