Divórcio de Mentirinha escrita por Saori


Capítulo 3
Ato III.




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Ato III.

Se a vida te der um limão, esprema no olho de alguém.

 

Rose não era uma boa mentirosa, mas estava disposta a fazer tudo o que estava ao seu alcance pelas obras de Jane Austen, até mesmo conversar com o interesse amoroso de Scorpius Malfoy, como se fosse sua ex-esposa. E era isso o que estava preste a fazer, sentada em um restaurante chique na orla da praia de Copacabana, enquanto esperava pela tal Luna, apenas para comprovar aquele divórcio de mentirinha que Scorpius havia inventado precipitadamente.

— Dá para você parar de tremer a perna? — sussurrou Scorpius, irritadiço.

Rose bufou.

— Eu não sei mentir — retrucou, tão irritada quanto o loiro.

— Scorpius? — uma outra voz feminina perguntou, do outro lado da mesa.

Ao mesmo tempo, os dois sorriram e, embora tentasse se controlar, Rose estava visivelmente desconfortável.

— Muito prazer, Luna. — Ela ergueu as mãos na direção da morena, que a apertou, sorrindo educadamente.

Aquele sorriso foi como uma facada no peito de Rose, ela detestava mentir e, pelo que Scorpius havia lhe contado, Luna parecia uma garota decente, ao contrário da Weasley, que estava se colocando naquela posição em troca de obras literárias. Incríveis obras literárias.

— O prazer é todo meu — respondeu ela, antes de se sentar. — Então, quer dizer que você foi casada com o Scorpius? Não estão mais juntos?

— Definitivamente não — retrucou, quase antes da menina terminar as perguntas. A careta que surgiu em sua face fez Scorpius encará-la indignado. — Nós ficamos casados por pouco tempo, só um mês. — Riu, tentando parecer descontraída. — Um mês foi o suficiente para que eu decidisse que nunca mais ia querer dividir uma casa com ele.

— E por que isso? — perguntou a outra menina, atenta.

— Porque ele ronca muito durante a noite — respondeu, sem pensar muito bem. — E eu tenho pavor de homem que ronca — reforçou. — Ele também não toma banho todos os dias, o que eu acho fundamental em um relacionamento.

— Você não toma banho todos os dias? — Luna perguntou, parecendo enojada.

Scorpius lançou um olhar congelante à Rose, que engoliu seco.

— Isso foi em um passado muito distante — ele se explicou. — Agora eu tomo dois banhos por dia — continuou. — Todos os dias.

Luna pareceu respirar aliviada, e Rose prendeu o riso.

— Mas foi só por isso que vocês se divorciaram? De quem partiu a decisão? — indagou, curiosa.

— Na verdade, não nos divorciamos ainda — Rose corrigiu. — Estamos dando entrada no processo, tem muitas questões legais — enrolou.

— Mas foi de mim que partiu a decisão — Scorpius finalmente se pronunciou. Aquela conversa estava tomando rumos muito estranhos e não combinados entre eles. — Você sabe, eu e a Rose já não fazíamos mais nada, se é que me entende. — Dessa vez, foi a ruiva que o encarou, querendo matá-lo. De presente, Scorpius recebeu um chute na canela por debaixo da mesa. — Ai! — Ele deu um breve pulo da cadeira.

— O que houve? — indagou Luna, sem entender.

— Acho que um bicho me mordeu — respondeu Scorpius, com um sorriso falso nos lábios, enquanto olhava de soslaio para Rose, que fingia não vê-lo. — Mas enfim, as coisas estavam amornando entre nós, então eu decidi pedir o divórcio.

— E eu já estava de saco cheio dele também, sabe? — proferiu Rose. — Era roupa dele para lavar durante o dia e nadica de nada durante a noite. Então é aquele ditado, não é? — falou, entre risos. — Se a vida te der um limão, esprema no olho de alguém. Eu espremi no dele!

— Acho que o ditado não é exatamente assim — Luna concluiu.

— Isso não importa. — Rose deu de ombros. — O importante é que estamos felizes com essa decisão.

Scorpius estava abrindo a boca, prestes a dizer algo, quando foi interrompido ainda em seus próprios pensamentos.

— Papai! — a voz de um menininho ecoou, enquanto ele puxava a camisa polo que o loiro usava.

Rose arregalou os olhos e congelou. Aquilo não estava nos planos, certamente a farsa estava saindo dos trilhos e trem parecia prestes a bater. Scorpius congelou por alguns segundos, sem saber o que fazer, seu olhar alternando-se entre as duas garotas.

— Vocês têm um filho? — Luna finalmente perguntou.

— Somos dois, na verdade — uma garotinha complementou. — Quem é você? É a nova namorada do papai?

— Crianças, eu ainda ia apresentá-la a você, estragaram a surpresa! — ele falou, um pouco sem graça, com um sorriso extremamente forçado.

Rose ainda estava estática, completamente imóvel. De repente, ela tinha filhos, e ela nem nunca quis ser mãe. Como aquela bola de neve tinha se formado? Ela não saberia dizer. Nem mesmo Scorpius saberia explicar, ele só tentava se manter calmo e passar credibilidade em meio ao seu dominó de mentiras. Bastava derrubar uma peça que a fileira inteira cairia.

— A mamãe... — as crianças começaram a dizer, mas foram brutalmente interrompidas.

— A mamãe está ocupada agora, mas podemos conversar depois, todos juntos, certo?

Na outra mesa, uma mulher morena, de cabelos curtos, acenou, e Scorpius a cumprimentou com um simples movimentar de cabeça, discreto e sutil, mas que foi pego no radar da Luna, que perguntou:

— Quem é aquela?

Ele paralisou por um segundo, mas foi brilhantemente salvo por Rose Weasley.

— É a babá das crianças — ela afirmou, rapidamente.

— Ela não... — o garotinho começou a falar, mas foi interrompido novamente.

— Ela não sabia que viríamos aqui e os trouxe para o mesmo lugar, que coincidência! — interrompeu, em desespero.

As crianças pareciam não entender nada, a feição delas indicava dúvida, mas não abriram a boca novamente. No entanto, com certeza estavam notando o comportamento estranho do Malfoy, era nítido pela forma que eles o encaravam.

— Não fala assim — proferiu Luna, com um tom de reprovação. — Faz parecer que eu não quero que eles fiquem aqui. Vocês querem jantar com a gente? É bom que a babá pode ir para casa mais cedo.

— Eles não... — Scorpius começou, mas as crianças foram mais rápidas.

— Queremos! — disseram, em um uníssono.

— Querem? — Rose murmurou e engoliu seco, nervosa. Não estava preparada para lidar com aquilo.

— Vocês não se dão bem? — Luna ergueu as sobrancelhas em desconfiança.

Rose negou veementemente, movendo a cabeça de um lado para o outro.

— Claro que nos damos bem, eu amo essas fofurinhas! — Rose apertou a bochecha do menino ao seu lado, que revirou os olhos, indignado.

— Mas o que você...

De repente, Scorpius deu um tapa na mesa, chamando a atenção de todos.

— O que está acontecendo? — Luna levou uma das mãos ao peito, assustada.

— Eu, hm... Estou muito animado, só isso! — falou, sorridente. — Vem crianças, vamos nos despedir da babá.

Sem dar qualquer tempo para o menino e a menina dizerem uma única palavra, ele as pegou pelas mãos e se afastou, de forma que Rose e Luna não pudessem escutá-lo.

— Crianças, eu... Preciso da ajuda de vocês — pediu, meio sem jeito. — Preciso que finjam que a Rose é a mãe de vocês por alguns dias, conseguem?

Anna, a mais velha, ergueu a sobrancelha, com uma careta nos lábios.

— Aquela ruiva pálida? — Ela maneou a cabeça, decidida a não embarcar naquela loucura. — Não mesmo!

— Você foi longe demais agora, pai! — Lucas o repreendeu.

Scorpius estava sendo alvejado por duas crianças, e o pior de tudo — elas tinham razão. Ele era o errado da história.

— Eu dou um Playstation 5 para vocês, se me ajudarem.

— Ok, eu finjo. — Lucas se deu por vencido.

— Eu não me vendo fácil assim, idiota! — resmungou Anna, teimosa como o de costume.

— Um Playstation 5 e a casa da Barbie. — Aquela era a sua oferta final.

— Fechado. — Anna ergueu sua mão na direção de Scorpius, como uma mulher de negócios faria, e apertou a mão do Malfoy.

— Então vão pedir para a mãe de vocês para passarem uns dias lá em casa. Façam a maior cara de cachorro pidão possível, conto com vocês!

Scorpius observou de longe por alguns segundos enquanto analisava atentamente a conversa dos pequenos com a mãe. A princípio, ela pareceu um pouco chateada, mas cedeu aos encantos dos filhos, que eram extremamente adoráveis. Alguns minutos depois, Lucas e Anna retornaram, e o mais novo ergueu o polegar para o Malfoy, em um sinal positivo.

— Vamos jantar então.

Os três retornaram à mesa juntos. Lucas sentou ao lado de Scorpius, enquanto Anna se posicionou ao lado de Rose. 

— O que estavam falando? — perguntou Scorpius, curioso.

— Sobre como, apesar de quase divorciados, nos damos muito bem.

— Ah, vocês têm uma bela família — Luna elogiou. — Eu queria ter terminado assim com os meus ex-namorados. Teria sido mais fácil.

Rose riu, um pouco sem jeito, exatamente como uma péssima mentirosa faria.

— Não foi tão fácil assim no início, mas agora estamos bem.

— Vocês se conhecem desde novos? Quer dizer, você também é britânica, certo? Cresceram juntos?

— Ah, sim, eu o conheço desde que me lembro! — Rose afirmou. — Meu primo e ele são melhores amigos de infância. — Pela primeira vez, estava dizendo algo que não era mentira.

— Que legal! Então você deve saber muito sobre ele...

A conversa seguiu um fluxo descontraído e divertido durante toda a noite. Rose já estava com as bochechas doendo, de tanto forçar sorrisos ao longo do jantar. Era quase uma tortura psicológica, e ela definitivamente merecia mais do que os livros da Jane Austen. Ela merecia que ele fizesse um ano de massagem grátis nela, no mínimo.

Quando saíram do restaurante, Rose adentrou o carro assim que Scorpius destravou as portas, antes mesmo do loiro entrar no veículo.

— Vocês vão para casa juntos? — perguntou Luna, desconfiada.

Rose congelou.

— Nós moramos perto, então eu disse que iria deixá-la em casa, se viesse.

— O meu carro está na oficina — mentiu Rose.

— Ah... — Luna digeriu a informação e pareceu convencida. — Bem, até a próxima, então! Espero que possamos nos divertir mais durante a semana, estou adorando conhecê-lo melhor, docinho — ela disse, e depositou um beijo na bochecha do loiro. Como consequência, as crianças fizeram uma careta, seguida de um som de nojo. — Até.


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