Quase um mês escrita por annaoneannatwo


Capítulo 12
Capítulo 12




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É bizarro como Katsuki passou boa parte do tempo naquele raio de praia pensando em como queria ir embora e, agora que tá no ônibus rumo à sua casa, só pensa como vai ser um saco chegar em casa e ter a velha lhe rodeando e querendo saber como foi o rolê pra praia, o que ele comeu e fez, quem tava lá… aargh, porra, ele não devia ter vindo nessa palhaçada mesmo!

— A pulseira é tão fofinha, Tsu-chan! Nem sei como te agradecer! — a Uraraka admira uma cordinha cor de rosa amarrada em seu pulso.

— Eu só queria ter uma lembrança do dia de hoje, ribbit, então me agradeça usando e guardando com carinho.

— Não, mas eu preciso te agradecer! Não só pela pulseira, mas por… também ter pagado minha passagem, eu…

— Você já retribuiu com seus picolés, ribbit. Tavam bem gostosos.

Katsuki sente a necessidade de abaixar a cabeça ao ouvir isso. Não era nem pra ele estar prestando atenção na conversa das três meninas, mas porra, elas… elas nem tão falando baixo! E é isso, ou ter que focar no Pikachu dormindo de boca aberta ao seu lado no banco, nojeira do caralho!

Mesmo assim, ouvi-las falando faz suas orelhas arderem ao se lembrar do que fez com o último exemplar do infame picolé, ele… porra, ele praticamente lambeu a mão da Uraraka! Que ideia de bosta foi aquela? Katsuki só sabe que num minuto, ficou puto com a Cara de Lua tentando tirar com a cara dele ao falar da velha maldita, e no minuto seguinte, tava determinado a calar a boca dela de algum jeito! Ela ofereceu aquele maldito picolé na base do ódio, e ele só fez a primeira coisa que lhe veio à cabeça. O resultado não foi nada diferente do que ele poderia esperar, com ela arregalando aqueles olhões brilhantes e ficando com a boca entreaberta, como se tivesse querendo falar alguma coisa e falhando… é… difícil pra caralho esquecer da expressão dela, e Katsuki sente que vai ser outra noite mal dormida por causa de pensamentos envolvendo essa Cara de Lua maldita.

— Que bom que gostou! Mas, de todo jeito, obrigada por ter me ajudado a vir hoje, foi bem divertido!

— Foi mesmo, ribbit. Até a Kyouka-chan acabou se divertindo, mesmo que ela nem quisesse vir.

— Haha, pois é, acho que ela foi quem mais curtiu, tá até exausta. — ela abaixa o tom de voz, e Katsuki percebe que é porque a Orelhuda tá apoiada no ombro da Menina Sapo, puxando um ronco também.

— Você não aproveitou muito, né, Bakugou-chan? — a Menina Sapo fala com ele do nada. Tsk, ela percebeu que ele tava prestando atenção no papo delas? — Dormiu a tarde inteira, ribbit.

— Não foi a tarde inteira.

— Mas foi quase, ribbit.

— Quase não é inteira, Cara de Sapo. E que te interessa também? 

— Nada, só fiquei curiosa porque você veio mesmo, ribbit.

— Tsk. — ele dá uma olhada rápida pra Uraraka — De novo, não te interessa.

— Ok, ribbit. Ochako-chan, você se importa se eu for direto pra casa, ribbit? Eu até queria dar uma passadinha na U.A. pra deixar essas coisas, mas tô bem cansada, ribbit.

— Sem problemas, Tsu-chan! Imagina, não precisa se preocupar comigo!

— Deve ser meio esquisito chegar e encontrar os dormitórios vazios, ribbit.

— A-ah é, mas… eu já me acostumei.

— Mas você não gosta. — por um segundo, ele pensa que isso é algo que a Menina Sapo diria, mas então Katsuki percebe que isso saiu de sua própria boca mesmo. Ugh, qual o problema dele?

— Eu… bom, ficar sozinha é legal às vezes, mas… não sempre. Mas enfim, de noite nem faz tanta diferença, já que logo eu posso ir dormir. — ela, que até o momento parecia empenhada em não olhar na cara dele mesmo estando presa literalmente no meio da conversa dele com a Menina Sapo, dá um sorriso sem jeito e o olha brevemente.

— "Logo" nada, você dorme tarde pra caralho! 

— N-nem sempre! — ela arregala os olhos e o encara, a expressão levemente parecida com a que fez mais cedo. Ughhhh, o que caralhos ele tá fazendo?

Isso é tudo culpa do imbecil do Kirishima! Katsuki não perguntou nada sobre a tal conversa que o enxerido ouviu entre as meninas, e mesmo assim ele saiu contando que a Uraraka tem zero interesse no Deku. Tsk, e daí? Em que isso lhe importa? 

Foi exatamente o que o loiro questionou depois que o idiota partilhou a informação com um ar de orgulho, como se fosse um espião que conseguiu uma puta informação valiosa. O Kirishima deu risada e disse que só falou por falar, e que talvez ele tenha falado pra pessoa errada mesmo, talvez o Fita Crepe fosse achar essa informação mais interessante… cretino do caralho! 

Depois disso, Katsuki não sabe o que deu nele, mas quando viu a Uraraka sozinha ali, sentada do seu lado, usando aquele biquíni, ele não conseguiu ficar quieto, e por mais que saiba que a cara envergonhada dela vai lhe perseguir pelo resto da noite, ali naquela hora, foi bom fazê-la corar e olhá-lo com uma expressão que ele tem certeza que nunca a viu fazer antes, como se tivesse uma emoção que só ele é capaz de despertar nela, foda-se o Deku.

Só que talvez o contrário talvez também seja verdade, e tem algo nela que faz Katsuki dizer e fazer coisas que normalmente não faria. Foi difícil pra caralho conter a vontade de se enfiar debaixo d'água pra tentar esconder a vermelhidão no rosto depois do que ele fez, também pra tentar esquecer a boca dela entreaberta e a maciez de seus dedos, o cheiro de framboesa do shampoo dela invadindo suas narinas quando ela se inclina em direção ao seu ombro e… pera, o quê?

Ela cochilou também, deve ter cansado tanto que nem percebeu em quem tá se apoiando, e ele deveria balançar o braço para afastá-la, mas e se ela cair pra frente? Mas porra, a cara que ela vai fazer quando acordar e perceber que tá dormindo nele… não chega a ser a primeira vez, e é bizarro se dar conta disso, mas ele…

A Menina Sapo leva a mão ao pescoço dela e gentilmente a traz pra si pra que se apoie no ombro dela, igual a Orelhuda no outro lado.

— Eu soube que você tem conversado bastante com ela quando ela está na sua casa, ribbit.

— Tsk, e daí?

— Você está certo, ribbit. Ela não gosta de ficar sozinha, e nas férias isso costuma acontecer muito. Os pais dela moram longe, os dormitórios ficam vazios, isso não é bom pra alguém que gosta tanto de estar rodeada dos amigos.

— Hum.

— Imagino que você seja bem o contrário, ribbit. Você gosta de ficar sozinho, né?

— Só não gosto de encheção de saco. — ele cruza os braços agora que pode se mexer já que a Uraraka não tá mais escorada nele.

— Fico feliz que esteja fazendo companhia pra ela, ribbit.

— Hã?

— Mesmo que você nem goste muito de socializar, fico contente que você esteja sendo amigo dela, ribbit.

— Tsk, eu não faço nada que eu não queira.

— Sim, ribbit. É isso mesmo que eu estou falando.

— O que- — ele é interrompido pelo Pikachu encostando em seu braço e roncando alto, Katsuki tá pronto pra gritar e acordá-lo, mas vê que o Kirishima tá apoiado no Pikachu, e o Fita Crepe encostado no Kirishima, como uma fila de peças de dominó tombadas.

Pra completar a fila, a Cara de Sapo teria que se apoiar na Orelhuda, e ele… na Uraraka. Katsuki a olha cochilar no ombro da menina de cabelo verde escuro, seu cabelo meio molhado e parte do pescoço exposto, ele já a viu dormir antes, até mesmo já a sentiu dormir, mas ainda assim, tem algo que o impede de parar de olhar, ela tá sempre sorrindo por aí, é diferente de vê-la relaxada e entregue ao sono.

E mesmo que seja mais fácil olhá-la quando ela tá assim, Katsuki ainda a prefere de olhos bem abertos, principalmente olhando pra ele com a atenção e curiosidade de antes.



***

 

Masaru sabe que sua cautela é uma de suas maiores qualidades e defeitos ao mesmo tempo.

Ele sempre foi assim. Bom, pelo menos desde que se lembra, e tal característica sempre foi elogiada por seus colegas de escola e amigos. "O Masaru tá sempre com a cabeça no lugar, ele nunca vai meter os pés pelas mãos!", algum amigo comentava quando alguém apontava alguma decisão  desajuizada que ele poderia vir a ter, o que, pelo que ele se lembra, realmente nunca aconteceu. Não que ele seja extremamente influenciável, mas bom… tanto reforço positivo o fez se orgulhar de sua cautela e discernimento, como se essa fosse sua melhor qualidade.

Até que ele conheceu a Mitsuki.

Ela foi a primeira pessoa que disse "Nossa, você é tão certinho, né?" com um ar mais de desprezo do que de admiração, enrugava o nariz para ajustar os óculos, ela ainda acha isso, por sinal. Mas sua esposa jamais escondeu como a cautela dele, excessiva demais, na opinião dela, nunca foi um de seus traços favoritos. 

E por muitos anos, ele não entendeu porque isso poderia ser um problema. A impulsividade dela, por mais atraente que sempre tenha sido, não era exatamente o ponto mais forte dela também. Mitsuki "meteu os pés pelas mãos" diversas vezes, e foram poucas as ocasiões em que demonstrou algum arrependimento ou passou a sensação de que decisões equivocadas não a afetaram. Sempre a afetaram de algum jeito, e mesmo que a impulsividade não seja exatamente uma qualidade, a capacidade dela de se recuperar de uma escolha errada sempre foi uma de suas características mais admiráveis. Ele gostaria de ser assim.

Mas Masaru não é, e tem a sensação de que o Katsuki também não. Ele só parece impulsivo. Fala alto, brada palavrões, alega tomar decisões apenas porque quis, mas não é bem assim. Katsuki pensa bastante antes de fazer as coisas, e claramente se reprime quando age por impulso de verdade. Ele não se recupera com a mesma facilidade da mãe, e talvez isso tenha a ver com maturidade, talvez ela também tivesse o mesmo problema quando era adolescente, mas o fato é que lhe incomoda ver o filho desse jeito.

E "desse jeito" é essa testa franzida e a mão sobre a boca enquanto segura o celular, olhando a tela fixamente. Quem vê pensa que ele está diante de uma notícia muito grave, nem parece um garoto de 18 anos que acaba de voltar de um passeio na praia com os amigos. Masaru não tem ideia de porque ele foi, a julgar o quão irritado aparentava estar com a insistência do garoto Kaminari em convencê-lo a ir, até que de repente mudou de ideia e decidiu que iria.

Não, não foi de repente. Masaru conhece seu filho, ele ponderou antes de tomar sua decisão. Foi rápido, mas Katsuki analisou as possibilidades em sua cabeça e concluiu que ir era a melhor opção. O grande mistério é o motivo, o que foi atrativo o suficiente para sair de casa em um passeio que envolvia um grupo pequeno, mas ainda assim um grupo de amigos.

Ou talvez esse atrativo seja um "quem"?

A Mitsuki não falou nada sobre isso, mas comentou com ele que o filho estava olhando para o celular com uma expressão meio abobalhada dia desses, o tipo de expressão que o garoto nunca fez, o tipo de expressão que normalmente só se faz quando há algum interesse romântico ou algo do tipo… 

Masaru disse que não sabia de nada, Mitsuki o olhou com certa desconfiança. Ela botou na cabeça que o Katsuki se abre mais com ele, e bom… não chega a estar errado, mas ela faz soar como se o garoto fosse um baú guardado a sete chaves com ela e um livro aberto com o pai, o que não é bem o caso também. Katsuki realmente compartilha um pouco mais com ele do que com Mitsuki, fala dos amigos, das notas que tirou, do que os professores falam dele, e muito raramente, de como se sente em relação a tudo isso, mesmo que seja um simples "essa porra toda me cansa" que acaba por significar muita coisa em se tratando dele.

Mas ele nunca falou nada sobre estar interessado em alguém nesse sentido, embora Masaru tenha ficado com a sensação de que há uma certa atração pela garota Uraraka que ele está tentando reprimir por acreditar que ela já esteja envolvida com outro rapaz, mais especificamente um com quem ele já tem uma relação complicada, baseada em muita inveja e admiração misturadas. 

E é essa mesma sensação que o faz acreditar que foi justamente a menina Uraraka o motivo que o levou até a praia hoje.

Mas Masaru vai falar alguma coisa? Não, porque ele é cauteloso, sabe que a iniciativa tem que vir do Katsuki, se ele tentar alguma aproximação ou questionamento, só vai deixá-lo irritado. Seu filho está visivelmente aturdido, e ele não se vê confrontando o garoto. Sua cautela é seu maior defeito e qualidade ao mesmo tempo, e foi herdada por seu único filho.

E é essa cautela que leva o Katsuki a bater na porta de seu ateliê algumas horas depois de ter chegado da praia. Dá pra perceber quando ele quer conversar sobre algo, Masaru reconheceria a inquietação do garoto de longe, ele não chega apenas falando como a mãe costuma fazer.

— Não foi dormir ainda, filho? — ele mantém os olhos fixos no lápis correndo pela régua enquanto desenha traços para um molde, tentando não pressionar o garoto ao encará-lo.

— Tô sem sono.

— É mesmo? Você cochilou na praia? Vai ver por isso não está cansado.

— Não, não dormi.

— Entendi. Se quiser, tem chá de camomila no armário, pode te ajudar.

— É, depois eu tomo. — ele se aproxima — E você, não vai dormir? Amanhã você sai cedo.

— Ah sim, já estou quase terminando e já vou deitar. — ele sorri.

Eles ficam em silêncio por alguns minutos, e Masaru olha o filho mexendo no celular de novo. Ele não está rindo como a Mitsuki disse que ele estava no outro dia, mas sua expressão é de concentração total.

— Sobraram algumas comidas da praia, mas eu não trouxe pra casa, falou?

— Hã? Ah, claro! Sem problemas. Seus amigos gostam da sua comida, né? Você deu pra eles?

— Não, dei pra Uraraka levar pra U.A.

Ah, então a Uraraka foi à praia também.

— Que bom, filho, tenho certeza que ela vai fazer bom proveito. 

— Ela não queria, ficou fazendo um cu doce do caralho, a Menina Sapo convenceu ela. — ele bufa, e volta a ficar em silêncio por mais alguns segundos, até que… — É foda.

— O quê?

— Sei lá, aquilo lá que você me falou aquele dia. — Masaru olha pra ele, esperando por clarificação — De eu deixar de fazer as coisas sem saber de tudo.

— Ah, sei… 

— É, agora eu sei de um negócio. O Kirishima que me contou.

— Certo.

— Mas eu não sei se posso fazer alguma coisa com isso, é esquisito pra porra!

— Ah, bom… você não pode considerar apenas o que você sabe, tem também o sentimento das outras pessoas.

— Mas como é que eu vou saber disso?

— Bom, tem alguns sinais, mesmo que não sejam ditos em voz alta. 

— Então, se ela fica toda sem graça e vermelha, é pra eu entender o quê? Que ela tá puta comigo?

— Talvez não. Depende… mas… seria melhor você continuar observando as reações das pessoas antes de fazer qualquer movimento mais… direto.

— Tsk, que trabalheira do caralho.

— Haha, você vai ver que pode valer muito a pena. — ele ri.

— Tá. — Katsuki vai em direção à porta, mas para antes de sair — Você tem algum yukata sobrando?

— Hum… acho que sim. Vou procurar no guarda-roupa e deixar separado. É pra você?

— É, pra usar na merda do festival no sábado. 

— Que legal! Acho que o que eu tenho vai ficar ótimo em você!

— Tá. — ele abre a porta — Valeu, velho.

— Sem problemas, filho. Se precisar de qualquer coisa, só me falar.

— Tá. Boa noite.

— Pra você também!

E ele se retira. 

Masaru poderia estar um pouco preocupado com o filho claramente interessado na funcionária de sua mãe, tudo o que ele disse sobre profissionalismo está indo pelo ralo numa velocidade alarmante, mas… ele apenas ri serenamente.

Há muitos anos, ele também se apaixonou por alguém que conheceu no ambiente de trabalho. E por mais que até tenha tentado ser cauteloso quanto a isso, ela não deu a mínima pra sua cautela e profissionalismo.

Ainda bem.


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Notas finais do capítulo

Oioi, chegando com um capítulo mais curtinho porque, pela primeira vez, fiz um capítulo inteiro pelo celular, slá, ainda é bem esquisito pra mim, mas saiu hauhauhus

Não garanto que o próximo vai sair daqui a duas semanas, acho que tem um hot izuocha pra sair antes, mas veremos. Bye!



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