Arsonist's Lullaby- Interativa escrita por Venus


Capítulo 7
VI- Bad Romance


Notas iniciais do capítulo

Hello! Demorei um pouquinho, mas voltei! Espero que gostem desse capítulo, boa leitura ♥



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Polly Pembrook havia chegado ao Palácio com vários minutos de atraso.

Enquanto Antigone estava na reunião com as outras nobres, e Henrietta sequer havia chegado, ela corria pelos corredores, torcendo para que Cecily ainda estivesse dormindo quando ela chegasse.

Para ser justo, leitor, Pollyanna sabia que Cecily Campbell não implicaria muito com seu atraso. A relação mais próxima das duas moças impedia que algo tão pequeno se tornasse uma questão grande, mas o que Polly realmente temia eram as perguntas sobre as circunstâncias de seu atraso. Não era costumeiro que perdesse a hora, e isso certamente renderia ao menos um comentário por parte da jovem nobre, ainda mais quando Polly ostentava um aspecto levemente afobado, com os cabelos bagunçados e o rosto corado pelo esforço da corrida.

Cecily já estava acordada quando ela entrou no quarto, para seu desgosto. Polly normalmente gostaria de ver a outra  refletida no espelho da penteadeira, sorrindo para ela ao vê-la chegando, enquanto penteava seus longos cabelos loiros. Mas aquele não era o caso naquele dia. A última coisa que queria era conversar, só queria fazer seu trabalho e voltar para casa, onde poderia ficar em paz.

—Bom dia, Polly— Cecily disse, sua voz fina e melódica ressoando pelas paredes claras do quarto— O que aconteceu com você? Parece que foi atropelada por um bonde.

Polly reprimiu uma careta, e caminhou para mais perto da penteadeira, ajeitando os próprios cabelos brevemente antes de pegar a escova das mãos de Cecily e começar a trabalhar nos dela.

—Bom dia— Polly respondeu, fazendo seu melhor para manter um tom neutro— Bem, eu saí bastante atrasada. Não consegui dormir bem de noite, e acabei perdendo a hora.

Cecily ergueu os olhos para encarar os dela através do reflexo do espelho.

—Aconteceu alguma coisa, meu bem? Você geralmente não tem problemas para dormir— a jovem nobre perguntou, colocando a mão por cima da de Polly, que repousava sobre seus cabelos.

Polly suspirou. O tom de Cecily foi tão gentil que ela repentinamente não se sentia mais tão mal. Decidiu se abrir um pouco, talvez fosse necessário. Ainda não havia falando com ninguém sobre o assunto, e mais cedo ou mais tarde teria de lidar com seus sentimentos.

—Bem…. aconteceu— ela disse, parando de pentear os cabelos de Cecily e largando a escova sobre a penteadeira— Foi o Ron, ele…

—Aquele seu amigo loirinho?— Cecily interrompeu, e Polly assentiu, apesar da outra ter sido um pouco impertinente. A jovem nobre então soltou uma risadinha— Bem, ao que parece, você tem mesmo uma queda por loiros, não é? Mas eu não gosto de dividir, então trate de dizer a ele que sou a única em sua vida.

Polly sentiu toda a amargura que sentia antes voltando de uma só vez. Ela se esquecia de como Cecily podia ser leviana. Havia sido uma tola em achar que poderia confiar algo tão sério quanto seu luto a ela.

—Não acho que isso será necessário, Cecily. Ronald não é mais uma ameaça para seu ego, pois ele está morto— ela respondeu, se afastando bruscamente e caminhando até a janela do quarto, o mais longe o possível da penteadeira.

Ela soube que Cecily percebeu que havia cometido um grave deslize quando a moça imediatamente se levantou e a seguiu. Polly sentiu a mão macia dela pousando em seu ombro, e a segurando pelos braços para girá-la em sua direção.

—Eu não sabia, Polly. Sinto muito por ter sido tão insensível— Cecily disse, ainda a segurando suavemente— Meus sentimentos por sua perda. Estou aqui para o que quer que você precisar.

Polly se recusou a olhá-la nos olhos, escolhendo encarar o chão, o que era uma tarefa complicada. Cecily era apenas um pouco mais alta, de modo que, se erguesse o olhar minimamente, logo encontraria o dela.

—Mesmo se ele não tivesse morrido, é uma coisa horrível a se dizer— Polly respondeu, sentindo seu lábio inferior começar a tremer conforme sua vontade de chorar aumentava— Eu já estou lidando com muita coisa, está bem? Não preciso de você duvidando de mim, além de tudo, ainda mais quando já expliquei tantas vezes como me sinto.

A mão de Cecily pousou suavemente em sua bochecha, e então deslizou até seu queixo com delicadeza para erguer seu rosto e fazê-la olhar em seus olhos.

—Eu sei, meu bem, eu sei. Não direi mais coisas desse tipo— a nobre garantiu— Agora se assente à penteadeira. Vou arrumar seu cabelo para compensar minha indelicadeza.

Polly hesitou, mas obedeceu. Não tinha a capacidade de recusar nada que Cecily lhe pedisse naquele tom de voz macio.

Cecily soltou os grampos do cabelo de Polly pacientemente, penteando os fios castanhos com cuidado. As mechas caíam até pouco acima do ombro, e portanto a tarefa não deveria demorar muito tempo, mas ela deixava seus dedos correrem, ociosos e despreocupados, prolongando o momento.

—Sabe… acho que uma grosseria tão grande merece uma compensação maior— Cecily comentou, suas mãos descendo até os ombros de Polly— Se você quiser, é claro.

Polly a olhou através do reflexo do espelho. Cecily havia se abaixado para ficar na sua altura, e seus dedos voltaram a passear por entre os cabelos dela, os afastando para o lado, conforme seus lábios plantavam pequenos beijos no pescoço de Polly, espalhando arrepios intensos por todo o seu corpo.

—Cee, eu não sei se é uma boa ideia. Alguém pode chegar a qualquer segundo— Polly murmurou, mordendo o lábio inferior para conter um suspiro que ameaçava escapar.

Os dedos de Cecily se enterram com força no cabelo de Polly, e a jovem nobre endireitou a própria postura, puxando a cabeça da outra levemente para trás e a forçando a olhar para cima para encontrar seu olhar. Ela sorriu, satisfeita, antes de dizer:

—Sou eu quem decide o que é ou não uma boa ideia, meu bem. E acho que você está precisando disso, não está? Agora tranque a porta. Eu vou te fazer esquecer dele, e de tudo. Apenas seja uma boa garota, me obedeça, e deixe o resto comigo.

Pouco mais de uma hora se passou até que Polly saísse do quarto, com o rosto vermelho e as pernas fracas. Ela vagou pelos corredores, um pouco perdida, por alguns segundos, tentando colocar a cabeça no lugar antes de seguir com seu dia.

Não era a primeira vez que aquilo havia acontecido. E certamente não seria a última. Mas ela ficava confusa a cada vez que acontecia, e Cecily nunca fazia questão alguma de esclarecer nada.

Ela ainda se lembrava da primeira vez. Ela tinha dezesseis anos, Cecily, dezoito, e elas haviam fugido de um dos bailes de debutantes. Era Verão, e Polly havia surrupiado uma garrafa de vinho das cozinhas. Nenhuma das duas nunca havia bebido algo realmente tão forte antes, e logo o efeito do álcool se revelou.

Estavam jogadas no tapete do quarto de Cecily, bochechas coradas, visões turvas, quando Cecily a beijou.

“O que está fazendo?”- Polly perguntou, e Cecily sorriu e a beijou novamente.

“Não se preocupe”- ela disse, quando finalmente se separaram- “É algo que garotas fazem. Para treinar”

Aquilo não parecia um simples treinamento para Polly, parecia a coisa mais real que ela já havia sentido.

Polly nunca havia sentido qualquer coisa por nenhum garoto antes, apesar das diversas piadinhas da família sobre como ela acabaria se casando com Ron. De repente, tudo parecia fazer sentido. Os olhares longos e desejosos que ela fixava em outras garotas, o sentimento de sempre se sentir inadequada quando namoricos ou beijos eram trazidos ao assunto, e sua consequente incapacidade de ter qualquer amiga menina além de Cecily. E ali estava o verdadeiro motivo.

“Vamos fugir”- Polly havia proposto, quando a madrugada já era densa e as duas estavam sob os lençóis- “Se formos longe o suficiente, ninguém poderia nos impedir de ficarmos juntas”

Cecily havia rido.

“Eu gosto de você, Polly. Gosto mesmo. Mas isso nunca daria certo. Um dia, vou encontrar um bom marido, e você também vai. É como as coisas devem ser”- ela respondeu, e o coração de Polly se quebrou mais do que ela gostaria de admitir.

Cecily estava certa em um aspecto: ela arranjou um bom marido, ou ao menos um bom noivo. O Conde de Derbyshire parecia um prospecto bastante adequado antes de sua morte prematura e repentina, e, mesmo depois dessa tragédia, a jovem nobre ainda parecia se esforçar para conseguir um casamento importante.

“Então porque ela continua fazendo isso?”- Polly se questionou mentalmente, pensando no beijo daquele dia e em tudo o que viera a seguir- “Se não passa de uma brincadeira para ela, por que me faz me sentir assim?”

A moça estava tão distraída que quase trombou de frente com Antigone ao dobrar o corredor.

—Senhorita Pembrook— a Marquesa disse, aparentemente supresa em finalmente encontrá-la— Estive procurando por você. Lady Raycraft precisa da nossa ajuda. Venha rápido, eu já disse à governanta do Palácio que estará sob meus serviços pelo fim do dia. Suponho que sua pequena Condessa não terá coragem de questionar uma Marquesa.

Polly assentiu, mas acabou fazendo uma pequena careta ao ouvir Antigone se referindo a Cecily daquela forma.

—Ela não é uma “pequena Condessa”— se pegou dizendo antes que pudesse controlar a própria língua— Um dia ela ainda vai ter um título maior que o seu.

Antigone riu com ironia, mas não pareceu irritada.

—Um título dado a ela por um marido, eu suponho. Me pergunto se esse marido terá tanta devoção quanto você, Senhorita Pembrook— ela provocou, e Polly se pegou ainda mais desconsertada com aquela sútil implicação.

Percebeu que havia caído em uma armadilha tarde demais.

—Não sei se estou entendendo o que você está insinuando, Milady— Polly replicou, erguendo o queixo para encarar Antigone com despeito.

A Marquesa se limitou a levantar uma sobrancelha.

—Não estou insinuando nada, Senhorita Pembrook. Apenas constatando que parece perigoso ser um noivo menos que perfeito para a adorável Cecily, tendo em vista o que aconteceu com o último— ela disse, os olhos cinzentos medindo cuidadosamente sua reação.

—O que aconteceu com o Conde de Derbyshire foi um acidente terrível, é claro. Mas não sei o que você quer que eu diga. Não passou disso. Um acidente— Polly respondeu, fazendo seu melhor para manter o tom de voz firme.

—Tenho certeza disso, Senhorita Pembrook. Até porque a Ordem não confiaria em você caso o contrário, eles estão sempre atentos a  episódios estranhos no passado de seus agentes. Principalmente episódios em que os ditos agentes possuam aparente envolvimento— Antigone disse, e Polly se sentiu ainda mais confusa.

Não era uma provocação, ou sequer alguma tentativa de hostilizá-la, apesar do tom seco e frio de sempre que Antigone usava, ela percebeu. Era um alerta.

A criada pensou em todos os rumores que cercavam a Marquesa. Rumores sobre seu irmão, Everard, e sua misteriosa morte, que havia impactado as questões de sucessão da família Lascelle. Polly conseguia ver a razão de alguém que carregava aquele fardo decidir alertá-la para que se afastasse de qualquer situação que pudesse gerar boatos semelhantes. Como os que talvez estivessem começando a surgir sobre Cecily.

—Eu não passo de uma criada, Milady. Jamais poderia me envolver com as intrigas dos poderosos— Polly decidiu encerrar o assunto com uma evasiva, ao que Antigone pareceu responder com desinteresse.

—Por suposto, Senhorita Pembrook. Espero que os outros enxerguem a situação da mesma maneira.

As duas caminharam juntas pelos corredores até uma ala contígua, onde Antigone lhe entregou uma muda de roupas limpas. Polly trocou seu uniforme de criada, e então as duas seguiram juntas até os portões do Palácio, onde uma carruagem já as aguardava.

Durante o trajeto, Polly se pegou pensando em Cecily, e no Conde, e no dia em tudo havia acontecido. A chuva forte, as ondas revoltas do lago, o veleiro sendo engolido pela água escura. Não havia sido como as pessoas imaginavam, nem um pouco. Não quando ela ainda conseguia ver o rosto morto e afogado do Conde toda vez que fechava os olhos. Não quando ela tivera que abraçar Cecily por horas até que ela parasse de chorar. Quem lhe dera as coisas pudessem ser tão simples quanto as línguas cruéis da Corte gostavam de insinuar.

A cidade foi decaindo cada vez mais depressa conforme Polly a via passando rapidamente pela pequena janela da carruagem. O bairro para o qual se dirigiam era atarracado e escuro, com casas velhas se erguendo pelos cantos. Quanto mais eles adentravam a região, mais suspeito o aspecto dos transeuntes se tornava.

—Para onde estamos indo?— Polly perguntou, olhando para Antigone em busca de alguma resposta.

—Para uma cena de crime— a mulher respondeu— O Incendiário atacou novamente.

Polly sentiu um arrepio intenso e desagradável percorrendo seu corpo.

—Por que não ouvi falar sobre nenhuma casa queimada?— a jovem questionou, estranhando essa anomalia.

Antigone ergueu o olhar para ela.

—Não foi uma casa dessa vez. Foi um corpo.

O leitor já deve ter reparado que toda essa questão com o corpo, e sobretudo, com a ausência de uma casa, estava confundindo a maioria dos agentes. Realmente, era um mistério bastante peculiar. E um mistério que levaria todos a ultrapassar seus limites para obter uma resposta.

O limite para Henrietta Raycraft era sair na calada da noite para encontrar respostas cortantes nos lábios de seu pior inimigo. E ela estava prestes a ultrapassar esse limite conforme trilhava o caminho até o ponto de encontro.

A Líder da Ordem havia passado a tarde inteira entre a sede da organização e a cena do crime, tentando desesperadamente juntar as peças soltas para que elas fizessem algum sentido. Ainda assim, não havia encontrado sentido nenhum em coisa alguma. Detestava ter que usar a aliança improvisada que havia firmado com Edward Waldford tão cedo, mas não via como poderia se dar ao luxo de desperdiçar recursos naquele momento.

A maior parte do caminho foi feita através das passagens secretas que a Ordem tinha espalhadas pela cidade, em grande parte subterrâneas. Henrietta não gostaria que ninguém a visse, principalmente quando o encontro deveria permanecer secreto.

Assim que viu o sinal que marcava a saída para o bairro no qual desejava chegar, ela começou a subir as escadas, ligeiramente apreensiva. Não sabia muito bem o que esperar, mas ficou aliviada ao ver que as ruas estavam vazias. O problema é que não fazia ideia de qual direção deveria tomar. Começou a vagar sem rumo, tentando se localizar no local desconhecido.

—Vossa Graça parece estar perdida— Henrietta ouviu uma voz atrás dela, o que imediatamente a fez pousar a mão sobre o coldre da arma que estava presa por dentro de sua capa. Se virou em um movimento ágil, mas sacar a pistola não foi necessário, pois ela logo reconheceu Edward.

Ele tinha uma expressão amena, como sempre, e uma minúscula insinuação de sorriso nos lábios. Parecia ligeiramente entretido com a situação toda: ver a Líder da Ordem ali, perdida em um bairro pouco conhecido e deserto, certamente não era algo que ele esperaria ver tão cedo.

—Boa noite, Senhor Waldford— Henrietta decidiu ignorar a provocação, fazendo seu melhor para manter a expressão neutra— Suponho que também esteja se direcionando ao nosso ponto de encontro.

Ela havia mandado uma mensagem confusa e misteriosa para Edward, e recebido como resposta algo tão confuso e misterioso quanto, mas juntamente com um endereço. Que se situava naquele bairro, supostamente.

Edward riu. Ele se vestia com roupas de cores sóbrias e um sobretudo pesado, para se proteger do frio rigoroso. Seus cabelos escuros estavam ligeiramente atrapalhados pelo vento, um detalhe incomum, Henrietta reparou. Ele normalmente parecia bem alinhado, então foi diferente vê-lo sem toda a elegância que ele sempre parecia projetar.

—Eu cheguei há alguns minutos, mas a vi pela janela e decidi vir salvá-la, Milady. Não seria cavalheiresco da minha parte deixar uma dama indefesa perdida em uma rua deserta— ele respondeu, sem tom de provocação, mas ainda transparecendo levemente essa intenção em seu rosto.

Henrietta arqueou uma sobrancelha, e então deu um passo na direção de Edward, reduzindo repentina e drasticamente a distância entre eles. Segurou a mão dele sem cerimônia alguma, ao que ele reagiu com supresa, mas não resistência,  e a pousou sobre sua cintura, bem em cima de onde a arma estava presa sob suas roupas.

—Pareço indefesa para você, Senhor Waldford?— ela perguntou, abrindo um sorrisinho convencido conforme erguia o olhar para o encarar com despeito.

“Sujeito pretensioso”— ela pensou, com leve desgosto— “Acha que, só porque não tenho magia, sou algum tipo de donzela em perigo”

Edward afastou a mão de cima da arma, mas não desviou o olhar.

—Suponho que teria explodido meus miolos se não tivesse me reconhecido a tempo— ele constatou, abrindo um sorrisinho de divertimento— Nunca duvidei disso. Queria apenas demonstrar minha boa fé com um pequeno gesto ao vir buscá-la, Vossa Graça. A intenção jamais foi duvidar de sua disposição de me aniquilar.

Henrietta deu de ombros.

—Tenho certeza que não, Senhor Waldford. Pode mostrar o caminho, então.

Edward ofereceu o braço em um gesto ligeiramente pomposo, e Henrietta teve que se segurar para não revirar os olhos, mas acabou aceitando. Ela pousou sua mão delicadamente sobre o braço dele e permitiu que ele a guiasse. Se pegou um pouco supresa ao sentir o contorno vago de músculos mesmo por debaixo do tecido espesso, mas não demonstrou qualquer reação. Apenas registrou mentalmente o fato de que seu inimigo, além de magicamente poderoso, também era fisicamente mais formidável do que ela havia imaginado.

Edward parou de frente para um sobrado pequeno, mas de aparência apresentável. Guiou Henrietta escadaria acima, e abriu a porta para que ela entrasse, trancando-a logo atrás dos dois.

A parte interna se tratava de um recinto pequeno, mas bem organizado. Havia uma cama no canto, uma cômoda, um biombo e algumas poltronas. Do outro lado do ambiente, haviam alguns poucos utensílios de cozinha, e uma mesa pequena. Um lugar simples, mas aconchegante.

—Suponho que não more aqui, duvido que revelaria seu local de residência tão facilmente— Henrietta comentou, olhando ao seu redor— Mas é um esconderijo razoável. Foi atencioso de sua parte arrumar as coisas para minha chegada.

Edward riu.

—Eu não arrumei tudo agora, Milady. Sempre mantenho as minhas coisas organizadas, mesmo quando estou sozinho— ele respondeu— Essa presunção é um hábito de todas as Duquesas ou essa é uma particularidade sua?

Henrietta ergueu o queixo, franzindo levemente as sobrancelhas.

—Não pode me culpar por pensar assim quando pareceu tão inclinado a me servir agora há pouco, Senhor Waldford. Mas não se preocupe, por mais altivo que pareça agora, tenho certeza que logo voltará a demonstrar mais deferência— ela provocou.

Foi a vez de Edward se aproximar, dando um passado em sua direção, ainda com a mesma expressão calma. Henrietta fez seu melhor para não demonstrar reação alguma, mas devia admitir que aquele hábito do homem de se aproximar tanto era um pouco desconcertante.

—Pelo que eu me recordo, foi você quem requisitou esse encontro, Milady— ele replicou, abrindo um sorrisinho— Então quem precisa demonstrar mais deferência a quem?

Henrietta estava prestes a retrucar, mas ele logo se afastou, dando a volta por ela e indo até uma das poltronas como se nada tivesse acontecido.

—Esteja à vontade, Milady. Quando decidir se vai querer ou não as informações que tenho, afinal, estarei aqui— ele disse, relaxando um pouco a postura.

Henrietta dessa vez não se segurou, e revirou os olhos.

—É claro que quero as informações. Por que outro motivo eu estaria aqui?

—Você parece apreciar bastante minha companhia— ele ironizou.

Henrietta respirou fundo, então se assentou em uma poltrona de frente a dele.

—Suponho que você já saiba sobre o último crime, então— ela decidiu ignorar a provocação— Quais informações tem sobre o assunto, Senhor Waldford?

Edward sorriu minimamente.

—As mais diversas— ele respondeu— Mas vou querer algumas informações em troca também, é claro. Você sabe como são as coisas.

Henrietta já esperava por isso, e já havia separado os trechos que poderia liberar sem se comprometer. Como imaginava que ele também havia feito.

—Uma pergunta em troca de outra, então?— ela propôs, e Edward assentiu— Eu começo. A morte de Fred Wilson foi feitio do Incendiário?

Edward nunca parava para pensar antes de falar, tendo um dicção fluida e ininterrupta, mas mesmo ele se viu obrigado a fazer uma pequena pausa para responder daquela vez.

—Eu não sei— ele admitiu— Tenho meus palpites, é claro. Mas nenhuma certeza. Há várias incongruências nessa morte, então, se eu tivesse de chutar, diria que não foi o Incendiário. Ou ao menos não o que vocês conhecem.

—O que quer dizer com isso?

Edward abriu um sorrisinho.

—Creio que seja minha vez de fazer uma pergunta, Milady. Lembra-se do nosso acordo?

Henrietta respirou fundo.

—Muito bem, Senhor Waldford— ela respondeu— O que deseja saber?

Dessa vez, ele não hesitou.

—Além de mim, há mais alguém nessa cidade que teria interesse em matar Fred Wilson?

Henrietta não conseguiu conter uma risadinha de deboche.

—Isso é uma confissão, Edward?

O homem acabou rindo também.

—Claro que não, Milady. Estou apenas buscando entender a situação, assim como você está. Embora não negue que a morte dos Wilson talvez venha a me beneficiar à longo prazo, não tenho ambições vorazes o suficiente para me impelir a algo tão terrível.

—Então qual o limite de suas ambições vorazes, Senhor Waldford?

—Isso é uma pergunta oficial?

Henrietta riu.

—Vamos chamar de mais um gesto de boa fé— ela respondeu, o que fez Edward também abrir um sorriso.

—Sinto que estou começando a ficar em desvantagem. Esse seria meu segundo ato de confiança, quando Vossa Graça ainda não me demonstrou nada além de desprezo— ele replicou.

—Eu não desprezo você, Edward. Embora eu não ache que você possa dizer que a recíproca é verdadeira— ela disse, inclinando levemente a cabeça e o encarando com intensidade— Mas tudo bem, vou retribuir o gesto de confiança, dessa vez. Se me responder, também poderá fazer uma pergunta extraoficial de sua escolha.

—Parece justo— ele sorriu— Respondendo à sua pergunta, Milady, minhas ambições não são movidas por ganância. Eu jamais machucaria alguém por um motivo tão torpe quanto dinheiro, então pode ter a certeza de que o sangue dos Wilson não mancha as minhas mãos.

Henrietta assentiu lentamente.

—Vou confiar em sua palavra, Senhor Waldford— ela disse— E respondendo à sua pergunta oficial: Fred Wilson tinha muitos inimigos, era um homem de temperamento difícil. Mas nenhum inimigo poderoso o suficiente para lhe dar o fim que teve.

—Um fim trágico e repentino— Edward comentou— Suponho que agora eu possa fazer uma pergunta extraoficial, então.

—Vá em frente.

Edward abriu um sorriso brilhante, a encarando com uma intensidade estranha, o que fez um arrepio passar por sua espinha.

—Aquela noite na ópera. Mesmo sabendo quem eu era, mesmo sabendo de todos os problemas que já causei para você e seus agentes, mesmo sabendo que eu poderia querer machucá-la, você sorriu para mim. Por que?

Henrietta se pegou sorrindo novamente, da mesma maneira que havia feito na ópera. Dessa vez, não havia morfina alguma para justificar suas ações, apenas um divertimento estranho com a pergunta.

—Você não parecia meu inimigo naquele momento, Edward. Assim como não parece agora— ela disse, com uma sinceridade inesperada transparecendo em sua voz— Mas não precisa se preocupar, se voltar a parecer, não terá mais sorrisos de minha parte.

Edward se inclinou levemente em sua direção.

—Isso sem dúvidas seria uma pena— ele respondeu— Uma última pergunta para cada um? Creio que ainda esteja curiosa com minha resposta de mais cedo.

Henrietta assentiu.

—Estou— ela confirmou— O que quis dizer quando disse que não foi o Incendiário que conhecemos que matou Wilson?

Edward novamente se inclinou minimamente sobre a poltrona na direção de Henrietta.

—A pessoa que matou Fred Wilson não parecia ser um usuário de magia. Não tive acesso ao laudo do legista, como Vossa Graça sem dúvidas teve, mas tenho informações o suficiente para saber que o fogo não foi ateado com magia. O padrão das chamas é diferente, e fogo mágico ateado diretamente a um corpo não teria deixado nada além de cinzas.

—Então o que está querendo dizer é que há mais de um assassino a solta?

—Exatamente. Um ajudante, talvez. Ou apenas alguém se aproveitando do caos para cometer atrocidades. De toda forma, imagino que Fred Wilson já estava morto quando atearam fogo ao cadáver.

—A confirmação para essa afirmativa é sua última pergunta?

—Sim— ele respondeu— Qual a causa exata da morte?

Henrietta hesitou por um segundo antes de responder, tentando juntar todas as informações que tinha agora.

—O legista crê que tenha sido o projétil que perfurou o crânio de Wilson— ela disse— Imagino que o Incendiário dificilmente atiraria em alguém, a não ser que a pessoa atirasse primeiro e ele apenas devolvesse as balas.

—Mas nós dois sabemos que Fred Wilson, assim como a maior parte dos feiticeiros, não andava armado— Edward complementou o raciocínio— É mesmo um mistério e tanto.

—Sem dúvidas— Henrietta concordou retoricamente— Espero que encontremos a resposta antes que mais alguém se machuque.

Edward ergueu os olhos para ela.

—Eu também.

Eu detesto mais uma vez decepcionar o leitor esperançoso (apesar de achar que, após tanto desgosto, nenhum dos interlocutores dessa história ainda se apegue ao mínimo de esperança), mas eles não conseguiriam alcançar esse objetivo. Muito sangue ainda seria derramado, e muitas pessoas se machucariam antes que tudo se encaminhasse para um desfecho. E, mesmo depois disso, seria difícil falar que Edward e Henrietta alcançaram qualquer tipo de sucesso com sua malfadada aliança.

Henrietta voltou para casa sozinha, e pelo mesmo caminho pelo qual havia vindo, mesmo que Edward tivesse insistido em acompanhá-la. Foi necessário mais uma vez lembrá-lo da existência de sua arma para que ele consentisse em deixá-la sair sozinha, e, embora ela não tenha notado, mesmo assim ele a observou pela janela até que ela desaparecesse de sua vista em meio às ruas tortuosas.

Ao chegar em casa, mesmo com uma leve dor de cabeça, Henrietta decidiu dormir sem tomar seus remédios. Queria deixar a mente o mais limpa o possível para lidar com todas as novas informações.

A Líder da Ordem sonhou com um episódio de seu passado, um que frequentemente assombrava seus pesadelos. Tinha quatorze anos novamente, e estava presa naquele lugar escuro e frio, tentando se soltar das correntes que a prendiam. Nas noites boas, o sonho terminava da mesma forma que havia terminado na vida real: com Lorde Ephraim vindo em seu resgate, e a levando para longe daquele loca terrível. Nas noites ruins, ela acordava chorando e tremendo, desesperada após horas sozinha e assustada no escuro.

Aquela não era uma noite boa. Mas, estranhamente, também não era uma noite ruim. Pela primeira vez, o sonho teve um fim diferente.

Henrietta não era mais uma criança, e não foi Lorde Ephraim quem chegou ao seu resgate.

Edward surgiu em meio às sombras, as afastando com sua magia luminosa e fulgurante. Ele andou em direção a Henrietta, e então soltou as suas correntes com cuidado, tocando sua pele com delicadeza para curá-la de seus vergões. Ele então a levantou em seus braços com facilidade, e, juntos, eles caminharam em direção à luz. Henrietta se sentiu estranhamente segura, e dormiu a noite inteira sem interrupções ou aflição.

Talvez, leitor, essa seja a maior ironia desse capítulo. Que justamente o homem que continha em si tantas sombras quanto continha luz tenha sido o único capaz de salvar a Duquesa iluminada de sua própria escuridão.

 


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Notas finais do capítulo

A revisão foi feita de modo bem corrido, então espero que nenhum erro tenha escapado.

Aos que estavam especulando sobre a existência de um terceiro ship, apresento-lhes Polly + Cecily, um show explosivo de toxicidade. Inesperado? Também achei, mas a relação dessas duas é essencial pro andamento da história kkkkk! Sinto muito para aqueles que esperavam uma relação saudável e feliz, quem sabe ainda não tenhamos um ship bem ajustado nessa fic? Kkkkkk!

Vejo vocês nos comentários, até a próxima ♥