Arsonist's Lullaby- Interativa escrita por Venus


Capítulo 21
XX- Gods and Monsters


Notas iniciais do capítulo

Hello ♥

Quem é vivo sempre aparece, mais cedo ou mais tarde. Nesse caso, mais tarde kkkk! Desculpem pela demora, mas espero que aproveitem o capítulo. Boa leitura ♥



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Já estava quase amanhecendo quando Adelaide Waldford voltou para o esconderijo acompanhada de seu irmão.

Antigone havia ido para casa dormir, uma vez que já faziam dois dias que ela não descansava, então Gus e Adel ficaram com a vigília daquele dia.

Haviam passado a noite investigando, e essa sempre era uma tarefa cansativa. Entre a falta de padrão dos crimes— dois assassinatos sem uso aparente de magia e um incêndio sem vítima— e o histórico com uma seita usando os poderes do Hierofante, qualquer um era suspeito.

E, ainda por cima, o filho de uma das vítimas, Leonard Cohen, estava desaparecido desde o assassinato de seu pai. Felizmente, ele era a única pessoa que realmente havia testemunhado o Incendiário usando magia e possivelmente sobrevivido, os outros convidados da festa correram antes de ver qualquer coisa paranormal. Ainda assim, o sumiço dele deixava os agentes ainda mais confusos e desconfiados.

Adelaide e Augustus abriram a porta do esconderijo o mais silenciosamente o possível, sabendo que Digory (mesmo que ele devesse estar vigiando, todos sabiam que ele provavelmente acabaria pegando no sono), Mihai e Zoe já estariam dormindo àquela hora, e entraram na ponta dos pés.

O que Adel não esperava era encontrar uma cena que faria toda a exaustão daquela noite de investigações torturantes valer à pena ali no silêncio e penumbra da sala de estar.

Jogados no sofá, adormecidos, Digory e Mihai estavam apoiados um no outro, a cabeça do agente no ombro do feiticeiro, um de seus braços o envolvendo. Adel sorriu ao ver a cena, e percebeu que Augustus também sorria.

—Fofos— ela comentou, em um sussurro, e Gus riu baixinho.

Os irmãos foram até a cozinha, fechando a porta atrás de si para não acordar os garotos.

Adel pensou que, apesar de odiar a Ordem e tudo o que eles representavam com todas as suas forças, não conseguia realmente negar-se a ajudá-los quando a vida de tantas pessoas inocentes estava em jogo. Pessoas como Digory e Mihai, pessoas que mereciam ser salvas. Que, com ou sem magia, ainda só queriam viver em paz.

Ela poderia voltar a desejar o mal da Ordem depois. Naquele momento, eles eram a única proteção contra um mal muito maior.

—Você deveria ir dormir, Adel— Gus disse, esquentando um pouco de chá que havia ficado em um bule sobre o fogão— Eu ainda tenho algumas coisas a fazer, posso vigiar o primeiro turno.

Adel sorriu para ele. Augustus estava claramente cansado, mas ainda tentava cuidar dela. Adelaide era geralmente a mais maternal e altruísta dos irmãos, mas gestos como aquele a faziam perceber que eles também se importavam muito com ela, e que cuidariam dela de volta quando ela precisasse.

—Obrigada, Gus. Não me deixe dormir até muito tarde— ela disse, e se despediu do irmão com um beijo na bochecha antes de ir até um dos quartos vagos.

O sono veio rápido, induzido pelo peso da exaustão, mas não veio tranquilo.

Desde que havia usado sua magia pela primeira vez, era como se algo tivesse despertado em Adelaide. Seus sonhos estavam cada vez mais vivos, e, com uma frequência assustadora, premonitórios. Algumas vezes, eram eventos corriqueiros e pequenos. Mas não naquela noite, caro leitor.

Adel se agitou na cama, vários sonhos desconexos e flashes de memórias tirando a paz de seu descanso.

Ela viu a mãe, um sorriso no rosto, cuidando de seu jardim, enquanto seu pai lia em sua cadeira de balanço.

Ela viu Gus, dez anos e um dos dentes da frente faltando, correndo à sua frente, puxando sua mão e rindo, espalhando folhas caídas no chão pelo ar com cada passo.

Ela viu Ed, usando sua magia para fazer truques para diverti-la, criando figuras de borboletas e passarinhos com miragens cintilantes de luz.

E ela viu o dia em que seus pais morreram. Os agentes da Ordem chutando a porta no meio da madrugada, e seus pais mandando que ela e os irmãos  fugissem. E ela ouviu os sons da batalha e dos gritos conforme Edward os mantinha escondidos, a expressão impassível enquanto Gus chorava baixinho.

Ela desejaria ter acordado e finalmente dado um fim à agonia que sua própria mente parecia determinada a lhe impor.

Mas seu suplício, caro leitor, infelizmente ainda estava longe de acabar.

Em realidade, a pior parte ainda estava por vir.

As lembranças pararam de maneira abrupta, e ela se viu suspensa no limbo da inconsciência, mas algo estava estranho. Ela sabia que aquele não era mais um simples sonho, ou uma memória.

De repente, ela viu algo que não parecia certo. Algo que ela não deveria ver.

Adelaide viu um homem.

Um homem que não tinha nome, não tinha rosto. Um homem que há muito havia sido esquecido, pois ele não era mais um homem, não realmente.

O humano que ele havia sido era tão somente uma sombra de ambição desenfreada e sede de poder.

Agora, ele era uma coisa indizível. Uma presença constante, e impassível.

Ele não era mais uma pessoa, não mais. Ele era uma entidade, um título: o Hierofante.

Ela viu um jovem audacioso, muitos milênios antes, com sonhos e ambições grandes demais para suas origens humildes. Um rapaz que não tinha nada, nenhum recurso além de seu orgulho, sua ambição, e sua magia. E ela viu sua obsessão febril, sua obstinação fremente, seu único e fixo objetivo: aquele era um homem que queria se tornar um deus.

E ele chegou perto. Adelaide viu os anos passados no silêncio de bibliotecas secretas, ruínas esquecidas e esconderijos escuros, juntando conhecimento, treinando, se aprimorando. Ela viu o esforço, e o sacrifício, a pele jovem enrugando-se, os cabelos tornando-se brancos. E sua magia crescendo e crescendo, tornando-se tão inchada e poderosa que praticamente o consumia, tão inatural que ele não passava de um receptáculo para seu poder.

E ela viu o exato segundo em que ele criou algo que deveria ser impossível: um novo tipo de magia. Uma que não usava Sombra ou Luz como fonte, mas uma amálgama das duas, uma terceira e inédita via.

Com tanto poder, um poder que ninguém mais possuía, o homem realmente conseguiu se alçar ao mais próximo da divindade que um simples humano poderia. Ele parou o curso impassível do tempo e da morte, sobrevivendo por séculos, milênios, éons. Usando seu conhecimento para erguer e destruir civilizações conforme seus caprichos, os agraciando com seus segredos, mas por vezes punindo-os com sua ira.

Adelaide viu tudo. Impérios se erguendo e se desfazendo nas cinzas de sua vontade, de seus desejos. Egípcios, incas, maias, gregos, romanos, celtas, bárbaros, uma infinidade de povos que se alçaram à glória, mas decaíram tão rapidamente quanto surgiram. Todos do feitio dele. Da magia e dos segredos com as quais ele os agraciava em forma de relíquias e conselhos. Mas também de seu desprezo e ruína, quando final e fatalmente o desagradavam.

Adelaide viu sua vaidade, sua sede por sempre estar acima de tudo e todos.

E ela viu o exato momento em que isso o destruiu.

Já completamente consumido pela loucura e ambição da magia que criava e usava, o Hierofante deu seu último e derradeiro passo em direção ao poder absoluto, sua ambição mais antiga: ele tentou romper a barreira entre os mundos, quebrar todas as leis que regiam aquela realidade.

Somente assim ele poderia alcançar poder absoluto e sem fronteiras. Sem as regras daquele plano de existência, apenas com o caos mágico ao seu redor, não havia limites para o que ele seria capaz de fazer.

E ele queria a hegemonia absoluta. O poder total. Controle sobre toda forma vivente. E, sem restrições à sua magia, ele poderia alcançar isso.

Foi então que, pela primeira vez, a visão de Adelaide se focou em uma outra pessoa. Uma mulher loira, que não deveria ser muito mais velha do que ela mesma. Uma mulher cujos enormes e tempestuosos olhos azuis a lembraram imediatamente de Zoe.

Ela era uma das pessoas que havia recebido uma das relíquias: nem a primeira nem a última, mas a que fatalmente fez a diferença.

O nome dela ecoou em sua mente. Aetna. Aetna Rodaki.

A mulher não tinha nada, nada além daquela relíquia que carregava, e da certeza de que não poderia deixar o que havia acontecido com sua pátria ancestral e tantos outros Impérios caídos acontecer com o mundo. Com o universo.

Foi ela quem juntou outros portadores de relíquias, que compilou o conhecimento que eles precisavam. Foi ela quem virou aquela nova e profana magia contra seu próprio criador.

O que ela sabia iria matá-la. Mas ela morreria sorrindo.

Foi ela quem descobriu como banir o Hierofante daquele plano de existência, o selando junto com os espíritos esquecidos e o caos eterno do outro plano. Foi ela quem proferiu o feitiço, que salvou aquele mundo da perdição total.

Mas a ancestral de todas as Rodaki, a mãe de todos os Iluminados, não passava de uma simples mortal. E, mesmo com todo seu conhecimento, ela ainda assim não era páreo para alguém que há muito já não era mais realmente humano.

O Hierofante, mesmo que do outro lado, ainda lutava para voltar. Enfraquecido, alquebrado, mas sempre vigilante, sempre presente.

Sussurrando em mentes mais fracas, assombrando pesadelos, ele seduzia feiticeiros com promessas de poder e glória, fundando seitas e juntando adoradores, sempre tentando retornar e terminar o que havia começado. Sempre sendo impedido pelos esforços constantes dos Iluminados.

Adelaide viu, como meras décadas atrás, ele havia quase obtido sucesso. E fora novamente uma Rodaki, Sofia, que o havia impedido, com ajuda de outros Iluminados, e também da Ordem e de feiticeiros.

Adelaide se pegou sorrindo, agora com a certeza de que, se o Incendiário realmente  empunhava o poder do Hierofante, se era um de seus adoradores, ele poderia ser derrotado. Pois aquela ameaça já havia sido derrotada antes, por tantas outras pessoas que haviam lutado exatamente pelo que ela estava lutando agora. Então nem tudo estava perdido.

Nesse momento, Adelaide sentiu um arrepio intenso e terrível trespassando sua espinha. Foi uma das sensações mais desagradáveis e agourentas que ela já havia experimentado, e, de repente, percebeu exatamente o por quê.

Até aquele momento, Adel era quem controlava a visão. Era ela quem vislumbrava, quem observava. Aquele foi o exato segundo em que ela percebeu que aquilo nunca havia sido verdade. Na realidade, era ela quem estava sendo vigiada. E a pessoa que a observava não tinha nenhuma misericórdia para com ela, muito pelo contrário, tinha fome, e um desprezo tão antigo e indizível que ela se sentiu minúscula e indefesa.

“Criança, por que você procura o pai da magia? O patrono de todos os feiticeiros? Não sabe que uma vez eu comandei o mundo? Não sabe que logo voltarei a comandar?”— uma voz metálica e extremamente cruel inundou sua mente, assaltando todos os seus sentidos e interrompendo bruscamente todos os seus pensamentos.

Se antes ela tinha qualquer esperança, qualquer tipo de crença infundada e tola de que ir contra o Hierofante é algo que ela e sua equipe de investigadores improvisados poderiam fazer, agora toda sua fé estava morta. Mais ainda quando a voz soltou uma risada curta e cruel, e continuou a falar:

“Realmente, criança, vocês não tem chance contra mim. Todos que saberiam como me derrotar estão mortos, e vocês não tem as relíquias com meu conhecimento. Logo eu estarei livre novamente. Vocês podem ficar fora do meu caminho, e servir ao seu novo mestre quando eu me retornar. Ou podem perecer. A escolha é inteiramente de vocês”

A última coisa que Adelaide viu antes de acordar, suando e tremendo em sua cama, foi um par de olhos muito brilhantes, e com um tipo muito poderoso de crueldade, a observando. Ela poderia jurar que eles estavam sorrindo.

Ela se levantou correndo, e foi até a cozinha, onde Augustus se debruçava sobre as evidências. Ainda sentindo suas mãos tremerem, e, sem pensar, ela disse:

—Gus. Eu sei o que Hierofante é. E eu sei como podemos parar o Incendiário.

Esse tipo de grande revelação, caro leitor, pode deixar as pessoas desorientadas. Ter fragmentos de informação é melhor do que não ter informação nenhuma, é verdade. Mas não é nem de perto saber toda a verdade com clareza.

Mas por que o Hierofante havia mostrado seu rosto sombrio e amaldiçoado nos sonhos de Adelaide Waldford?

A Pianista assombrada pela própria magia, pelo dom impiedoso de enxergar mesmo o que ela não deveria, não saberia dizer. O tom de ameaça estava claro. Mas um espírito tão calculista e astucioso quanto um homem que havia lançado sua alma à danação em busca de poder irascível e descomedido se contentaria com uma simples ameaça?

É claro que o Hierofante tinha objetivos escusos com aquela mirada venenosa que perniciosamente havia lançado ao subconsciente de Adel. Mas nenhum deles desconfiaria disso tão cedo.

Foi com essa notícia que Antigone foi recebida quando voltou ao esconderijo, já pela manhã.

A Marquesa mal havia acabado de acordar, e já foi atingida pelo equivalente de soco bem na boca do estômago conforme Adelaide compartilhava as informações que lhe foram reveladas pelas vozes em sua cabeça.

(Essa é, talvez, a primeira vez que vosso humilde narrador usa a sentença “vozes de sua cabeça ” com tanta gravidade e sem nenhuma dose de descrença, leitor)

—Você está dizendo que o Hierofante em pessoa, o mesmo que é a fonte de todo o poder do assassino que estamos procurando há meses, se revelou para você em um sonho?— Antigone indagou— E que você acha que as próprias relíquias dele poderiam ser sua queda?

Adel assentiu, talvez um pouco ofendida pelo tom de Antigone.

—Estou só repassando a informação, colega— Adelaide replicou— Não é como se eu tivesse algum controle sobre as coisas que invadem minha mente.

—Não estou duvidando de você, Adel. Só um pouco… chocada. Essa é a palavra. Chocada com tudo o que acabou de acontecer— Antigone disse, respirando fundo e se assentando no sofá da sala.

—Se serve de consolo, nós estamos tão pasmos quanto você— Augustus replicou— Mas para mim parece claro que precisamos ir atrás dessas tais relíquias. Mesmo se elas estiverem em posse do Incendiário.

Adel concordou com um gesto da cabeça.

—Parece ser o único jeito de derrotá-lo. O único jeito que já obteve sucesso antes— ela disse.

Antigone se manteve em silêncio, ainda tentando tirar algum sentido das informações que acabara de receber.

—Você já teve esse tipo de sonho antes?— ela perguntou para Adelaide de repente, fazendo seu melhor para manter um tom neutro, e não deixar a desconfiança transparecer em sua voz— Por que acha que ele escolheu logo você para se revelar?

Adel baixou o olhar, e Gus pareceu um pouco tenso.

—Não, essa foi a primeira vez— Adelaide disse, a voz firme, se recompondo rapidamente— Eu presumo que ele queria fazer uma ameaça efetiva, mas não sei porque escolheu justo os meus sonhos para assombrar.

Antigone assentiu. Em qualquer outra situação, ela certamente insistiria no assunto. Mas, tendo em vista o perigo no qual se encontravam, ela apenas se sentiu grata que Adelaide e Augustus haviam confiado o suficiente nela para contar do sonho, por mais que tal descoberta pudesse suscitar desconfiança.

—De qualquer forma, algo não me parece certo. Por que ele revelaria que a maneira de derrotá-lo é através relíquias?— a Marquesa habilmente mudou de assunto.

Gus pareceu pensativo, e então respondeu:

—Talvez ele queira que nós saiamos atrás das relíquias.

—Poderia muito bem ser uma armadilha— Adel completou— Ele já deve saber que nós estamos com uma das relíquias, e está esperando uma oportunidade de tomá-la para si.

Não soava de todo absurdo, Adelaide poderia muito bem estar certa. Mas Antigone não conseguia deixar de pensar que havia algo excessivamente deliberado naquela revelação. Algo que assemelhava-se a uma tentativa de manipulação.

—Ou talvez o Hierofante queira que nós descubramos quem o Incendiário é, e que tomemos as relíquias dele— Antigone divagou— Não pode ser coincidência. Ele não teria motivo para revelar sua única fraqueza, me pareceu tão… deliberado. Talvez o Incendiário esteja usando as relíquias não apenas para canalizar o poder do Hierofante, mas para subjugá-lo de alguma forma. Então o Hierofante o quer morto assim que ele servir ao seu propósito de libertá-lo. E então ficará totalmente livre quando voltar para esse plano.

—Espere— Gus interrompeu— Então você acha que o Incendiário não quer apenas libertar o Hierofante, como as outras seitas, mas também controlá-lo quando ele estiver livre?

Antigone assentiu.

—É exatamente o que estou dizendo. O Incendiário não é um simples adorador, ele quer estar acima do seu próprio deus. Ele quer se tornar maior que o Hierofante, e usá-lo como ferramenta— ela concluiu— Por isso está matando todos que ajudaram a impedir a última seita, ou que sequer saberiam como impedi-lo novamente. Ele quer o poder todo para si. E por isso o Hierofante o quer fora do caminho assim que for liberto.

Adelaide arregalou os olhos, como se de repente tudo fizesse sentido.

—Isso poderia explicar o porquê os crimes variam tanto de padrão. Há divergências de opinião e objetivos dentro da seita. O Incendiário quer uma coisa, os possíveis assistentes querem outra— ela comentou— É possível que o próprio Hierofante esteja deixando que o Incendiário mate todos aqueles que poderiam impedi-los, deixando que ele use seu poder para esse fim, já que seria vantajoso. Mas sem deixar de procurar meios de eliminar o Incendiário quando chegar a hora.

—E nós aparentemente somos esses meios— Augustus concluiu.

Os três se entreolharam, tensão e clareza perdidos entre dois pares de olhos castanhos e um par cinzento.

—Então não nos resta muito além de andar diretamente para dentro da armadilha e procurar essas relíquias— Antigone disse, com um suspiro.

—Vejam pelo lado bom— Gus disse, com um sorriso meio nervoso— Pelo menos agora sabemos onde estamos nos metendo.

Adel fez uma careta.

—Saber não faz nenhum pouco melhor— ela comentou— Na minha humilde opinião, fica tudo ainda um pouco pior e mais medonho. Ignorância às vezes realmente é uma benção.

Antigone soltou uma risada seca.

—Bem, não é como se ignorância fosse uma opção para início de conversa— ela replicou— Mas nós podemos fazer essa criatura dos infernos se arrepender do dia em que nos subestimou.

É importante dizer, leitor, que tanto a Marquesa Lascelle quanto os gêmeos Waldford eram pessoas inteligentes e práticas, verdadeiras pérolas de seus ofícios naquela época tão sombria. Mas, memo pessoas brilhantes e esclarecidas às vezes pisam em falso, e deixam-se levar por sua própria grandeza.

Mas esse não era o caso, felizmente. Irei me limitar a dizer que, embora estivessem no caminho certo para alcançar a verdade, a estrada para alcançá-la ainda abria-se longa e impassível, cheia de obstáculos a transpor, às suas frentes. E que trilhar esse caminho havia acabado de se tornar mais perigoso do que nunca.

Em meio a tantos mistérios começando a ser desvendados, Pollyanna Pembrook lutava contra sua própria dose de confusão e suplício.

O dia de Polly havia sido, e eu peço ao leitor perdão pelo drama, ainda que no caso pareça apropriado, um absoluto martírio.

Em virtude do incêndio acontecido no final da semana anterior, a Ordem havia lançado sobre seus agentes uma carga ainda mais exaustiva de trabalho, e Polly não havia parado por um segundo sequer entre suas atribuições como criada do Palácio e seus deveres como agente.

O salário, que havia recebido há uma semana, certamente não parecia compensar. Mas seu senso de dever, e de absoluto terror com os acontecimentos, falava mais alto.

Conversando com seu irmão, Digory, ela se sentiu um pouco injustiçada, porque suas tarefas pareciam muito mais extenuantes que as dele. Ela sabia que era mais durona que ele, e que consequentemente aguentaria trabalho mais intenso, mas, ainda assim, lhe soava iníquo.

Enquanto o garoto havia ficado encarregado de vigiar algumas testemunhas do caso (das quais nenhum nome foi revelado, e talvez o segredo tenha deixado Polly ainda mais ressabiada), a Pembrook mais velha havia ficado encarregada de patrulhas, e, além disso, de tentar coletar evidências nos arredores do Palácio, aproveitando do acesso mais fácil que seu emprego lhe fornecia. Ela já havia perdido a conta de quantas vezes havia voltado ao píer onde o incêndio sem vítima havia acontecido, mesmo que o lugar lhe desse arrepios e ela nunca conseguisse achar nada de útil. E também, com bastante frequência, ela virava a madrugada vigiando as entradas e os jardins do Palácio com algum outro agente, e a falta de sono começava a puir cada vez mais depressa a sua resiliência.

Para piorar o quadro já bastante fatídico, Cecily parecia completamente alheia a todos os acontecimentos trágicos e clima fúnebre que pareciam flutuar ao redor do Palácio como uma nuvem escura.

—Vossa Senhoria mandou me chamar?— a voz de Polly ecoou pelas altas paredes cinzentas conforme ela entrava na capela, seus pés se arrastando ruidosamente pelo chão de granito polido.

Cecily estava parada logo de frente ao altar-mor, contemplando o enorme vitral sobre sua cabeça em silêncio, mas, assim que ela ouviu Polly chegando, ela se virou.

—Nós estamos sozinhas aqui, meu bem— a voz macia e doce da Condessa fluiu para fora de seus lábios rosados juntamente a um sorriso— Sem necessidade “Vossa Senhoria” e essas formalidades bestas.

Polly gostaria de poder dizer que Cecily não tinha mais um efeito devastador e imediato sobre ela toda vez que sorria, mas isso seria uma mentira. Sobretudo com o tanto que ela parecia resplandescente naquele dia.

A tarde começava a cair cada vez mais depressa, velando o céu em um dossel de tons outonais, mas, dentro da capela, o efeito parecia ainda mais dramático. Os últimos raios de sol se filtravam de maneira lenta e densa, quase viscosa, através dos milhares fragmentos de cristal colorido do vitral, lançando sombras iridescentes sobre a pele pálida e os cabelos dourados de Cecily. Os olhos azuis eram como dois faróis brilhando violentamente no meio de traços tão angelicais, reminiscentes das estátuas de santos e pinturas de relicários que enfeitavam o ambiente, e a luz formava uma coroa esplendorosa ao redor de sua cabeça, contrastando ainda mais o perfil delicado contra a escuridão que começava a engolfar o restante da igreja.

Os dentes brancos como pérolas, expostos de maneira tão natural e tão graciosa, apenas complementavam a aura de absoluto encanto que a cercava.

Polly pensou em como os animais selvagens mostravam seus dentes como forma de ameaça. Parecia irônico que humanos os expusessem para demonstrar contentamento, mas ela percebeu que, no caso de Cecily, deleite e fúria andavam lado a lado. Nenhum menos perigoso que o outro.

Talvez, justamente por oferecer com tanta naturalidade tamanha beleza ao mundo, também fosse natural que ela inconscientemente punisse todos que desfrutassem demais da visão do paraíso.

Olhando novamente para as estátuas dos anjos que as cercavam, Polly concluiu que Cecily definitivamente era angelical. Mas seria tolo da parte de qualquer um tomar por querubim ingênuo e indefeso um serafim que empunhava suas cem asas e toda luz divina do paraíso para aniquilar os ímpios.

—Você está precisando de alguma coisa, Cee?— Polly indagou conforme se aproximava a passos lentos e cautelosos do altar, onde Cecily ainda lhe esperava.

A alegria e despreocupação da Condessa lhe pareciam chocantes, quase revoltantes, quando contrastadas a sua própria apreensão. Ela sempre soubera que Cecily podia ser um pouco autocentrada, se preocupando pouco com o que acontecia ao seu redor, e muito consigo mesma, mas não conseguiu conter uma pontada de julgamento naquele caso.

Ela havia visto o último ataque. Ou melhor, havia visto o incêndio, ao menos, mesmo que provavelmente não tivesse visto os corpos. Mas ela sabia que duas pessoas estavam mortas, e que o criminoso responsável por isso ainda estava à solta. Como conseguia estar tão tranquila?

—Na verdade, estou— Cecily respondeu— Sua opinião. Você ficou sabendo que o baile das debutantes foi adiado até que peguem o assassino, certo? Insistência de Lady Raycraft.

Polly negou com a cabeça, mas sentiu uma onda de alívio com a informação.

O Incêndio no píer do Palácio, e agora aquelas mortes entre a alta sociedade, a faziam ficar cada vez mais tensa e preocupada com o prospecto de outro ataque tão público e violento. Fazia sentido que Lady Henrietta Raycraft estivesse trabalhando contra grandes reuniões públicas.

—Bem— Cecily continuou— Acontece que a Rainha não permitiu que cancelassem as celebrações da Páscoa, mesmo com todo o rebuliço e insistência. Disse que, como chefe da Igreja, não pode colocar o medo de um assassino qualquer acima de Deus.

Polly fez uma careta.

—Eu poderia até concordar com Vossa Majestade, se ela ao menos limitasse as celebrações à missa. Mas pelo seu tom esse não parece ser o caso— ela comentou.

—E não é— Cecily confirmou— Ainda haverá a procissão, e um jantar.

—Isso soa arriscado demais— Polly opinou.

Cecily deu de ombros.

—Não precisamos ter medo desse tal Incendiário. Já tivemos muitos assassinos em série nesse país, e todos acabaram presos! Se lembra daquele maluco que comia o fígado das pessoas que matava? Ou daquela descompensada que adotava bebês para ficar com a pensão depois que os matava?— a Condessa divagou— Mas enfim. Não é disso que eu quero falar com você.

Polly respirou fundo, em um quase suspiro.

—Como posso te ajudar, então?— ela respondeu, mas já sabendo que provavelmente seria apenas mais um capricho da Condessa.

Cecily sorriu, completamente alheia ao leve enfado de Polly. A própria Pembrook quase se esqueceu de que estava irritava.

—O inverno acabou, a primavera está ganhando força. Os dias estão mais longos, e mais quentes, e logo o verão há de chegar também— Cecily mais uma vez divagou— Eu vou precisar de roupas novas, de chapéus e penteados mais frescos também. Eu esperava que você pudesse me ajudar com sua opinião nesse aspecto.

Polly quase sorriu, nenhum pouco surpresa com a natureza frívola do pedido.

Ela supunha que deveria estar feliz e grata que ao menos a Ordem conseguisse cumprir seu objetivo, e proteger as pessoas comuns da magia e do medo. Era por causa de seu trabalho árduo que Cecily poderia se dar ao luxo de não se preocupar com nada além de vestidos bonitos e bailes.

—Você quer que eu vá às compras com você, então?— Polly perguntou, e Cecily assentiu— Claro, é só me dizer o dia.

Cecily sorriu, animada, e a puxou, plantando um breve beijo em sua bochecha.

—Obrigada, Polly! Sabe, desde que você me deu aquele anel, eu percebi o tanto que você tem bom gosto pra essas coisas. Rosa sem dúvidas é a cor da temporada, e acho que acessórios em prata estão voltando agora que a Rainha encomendou aquela tiara nova…

Com tudo o que havia acontecido nos últimos meses, Polly estaria sendo um pouco desonesta se dissesse que se lembrava com exatidão do anel ao qual Cecily se referia. Contudo, bastou que direcionasse seu olhar levemente para baixo, para onde a mão da Condessa pousava casualmente sobre sua coxa, para que reconhecesse a joia a qual ela se referia.

Quando Polly havia achado aquele anel em meio às cinzas da casa de Joel Aubert, ela o havia pegado sem muitas expectativas. Queria dar um presente bonito para Cecily, e supôs que o homem morto não iria mais precisar do anel e que nada que seu dinheiro poderia comprar seria tão bonito, então o colocou no bolso, ainda que um pouco incerta se algo tão minimalista estaria a par dos gostos refinados da Condessa. Porém, vendo agora que Cecily parecia não tirá-lo do dedo, Polly se sentiu satisfeita. Ela sempre havia se sentido de certa forma inferior e impotente por não poder mimar Cecily como ela a mimava, como sabia também que a jovem nobre queria ser mimada, então uma dose de satisfação maior do que ela gostaria de admitir floresceu em si ao vê-la tagarelando sobre seu presente.

—Você está encarando— Cecily interrompeu o próprio monólogo ao perceber o olhar de Polly fixado no ponto em que suas peles se conectavam.

O sorriso da Condessa não era nada menos que pura malícia conforme sua mão se arrastava em um trajeto firme e ascendente pela perna de Polly, medindo cuidadosamente a expressão da outra conforme chegava perto de se tornar abertamente indecente.

—Nós estamos dentro da igreja, Cee. Alguém vai nos ver— Polly disse, olhando ao seu redor, apreensiva, mas sem forças para afastar a mão da outra.

Cecily riu.

—O sacristão está organizando as coisas para missa lá dentro. Não vai sair para capela até que os fiéis comecem a chegar— a Condessa comentou, os dedos ainda desenhando um trajeto sinuoso por entre as camadas de tecido— E o confessionário está vazio. Se formos rápidas, podemos sair antes que alguém chegue para a missa.

Polly queria ter forças para negar uma ideia tão absurda e arriscada, mas quando Cecily a olhava daquele jeito, podia fazê-la concordar com qualquer proposta perigosa. Até mesmo com blasfêmia.

—Só me prometa uma coisa— Polly se pegou dizendo, a voz fraca, conforme deixava que Cecily a guiasse pela mão.

Cecily fechou a porta atrás de ambas, e o escuro do confessionário as envolveu. As luzes coloridas dos vitrais se filtravam através dos minúsculos furos na tela de madeira, dando uma atmosfera ainda mais surreal e onírica àquela ilha de pecado em meio a um mar de santidade.

—O que você quiser, querida— a voz da jovem nobre prometeu em meio à constelação de beijos que desenhava pelo pescoço de Polly.

—Mesmo quando você se cansar de mim, não vai começar a me odiar— Polly respondeu, a voz fraca.

Os lábios pressionados sobre sua jugular soltaram uma risada, que vibrou em sua garganta com mesmo timbre que saía da de Cecily.

—Oh, Polly, não seja tola. Eu nunca me cansaria de você.

Uma mentira, mas uma mentira doce. Polly decidiu que, por enquanto, aquilo era melhor que tragar o gosto pungente da verdade, e fechou os olhos e a mente para qualquer tipo de pensamento sobre o futuro.


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Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado, vejo vocês nos comentários e até o próximo ♥



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