Arsonist's Lullaby- Interativa escrita por Venus


Capítulo 20
XIX- Hand in Unlovable Hand


Notas iniciais do capítulo

Hello ♥ Peço perdão pelo atraso em aparecer, mas espero que apreciem o capítulo. Boa leitura :)



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Leonard Cohen, caro leitor, à época dos acontecimentos dessa história, era um homem bastante vivido.

Entre noitadas regadas a vinho e viagens por recantos hedonistas do país, ele sem dúvidas já havia acordado confuso e longe de casa mais do que gostaria de admitir. Sobretudo em uma cama que não era sua, com uma mulher cujo nome ele se esforçava para recordar.

É seguro dizer que, de todas as vezes em que ele acordou no quarto de uma jovem bonita, a manhã cinzenta que o recebeu nos aposentos de Charlotte Griffin sem dúvidas foi a mais desagradável de todas.

—Bom dia, bela adormecida— a voz que lhe deu as boas vindas de volta à consciência era impaciente e ligeiramente debochada— Você tem muita sorte de não ter morrido.

Leonard se assentou na cama, esfregando os olhos, tentando se livrar da terrível dor que oprimia sua cabeça.

O quarto era simples e um pouco bagunçado, mas a cama era confortável o suficiente. Mas ele não teve muito tempo de julgar os aposentos, seu olhar logo se pousou na sua interlocutora, assentada em uma cadeira logo à sua frente.

Os mesmos cachos de cabelos escuros, os mesmos olhos grandes e castanhos. As memórias de antes de apagar, daquela mulher salvando sua vida, e também das circunstâncias desafortunadas de seu desmaio, voltaram com tudo.

Ele normalmente era uma pessoa eloquente, mas se pegou encarando a mulher com os olhos arregalados e completamente sem palavras.

—O que foi, bonitão? O gato comeu a sua língua?— ela se levantou e se aproximou mais dele— Por Deus, me diga que não vai apagar de novo. Eu não tenho dinheiro para chamar um doutor.

Leonard agitou a cabeça, tentando o seu melhor para não deixar a torrente violenta de emoções ameaçar sua consciência, embora sentisse uma fraqueza terrível permeando seus músculos.

—Eu… eu não vou apagar. Só estou confuso com o que aconteceu, é isso. Onde está meu pai? E Aaliyah?— ele se forçou a falar, mas a voz saiu exausta, assustada.

Isso não pareceu comover a mulher muito.

—Eles estão mortos— ela disse, simplesmente— O Incendiário pegou os dois. Mas ele parecia estar atrás só do homem, para ser honesta, a garota foi dano colateral porque tentou defender o coroa.

Leonard sentiu como se um soco tivesse sido desferido diretamente na boca de seu estômago.

Por anos, o único objetivo da sua vida foi eliminar seu pai, e conseguir justiça para sua mãe. E finalmente era verdade: George Cohen estava morto. Mas não por suas mãos. Isso era um sentimento agridoce e supremamente paradoxal. Uma parte dele estava feliz por finalmente ter acontecido. A outra estava revoltada por não ter sido ele a entregar sua tão aguardada justiça.

E ainda havia Aaliyah. Ele a havia visto usando o que parecia ser magia, ou algo similar, e ele abominava magia e seus usuários com todas as suas forças. Mas havia sido para protegê-lo, não? Ou teria sido para proteger George? Leonard não conseguia deixar de sentir o luto se enraizando em seu coração ao perceber que Aaliyah estava morta, mas teve a realização de que nunca havia realmente conhecido a mulher. E ela também nunca havia realmente o conhecido.

—Obrigado por me contar— Leonard simplesmente disse, ajeitando a postura, tentando manter a expressão neutra— E obrigado por me salvar.

A jovem arqueou uma sobrancelha.

—Não se ache tanto, não foi nada pessoal. Só acho que temos um objetivo em comum, e seria um desperdício deixar alguém com uma mente parecida morrer à toa— ela replicou.

Leonard mordiscou a unha de seu dedo mindinho, ao mesmo tempo pensativo e ansioso.

—O que você quer dizer com isso? Aliás, quem é você?— ele finalmente indagou.

Ela abriu um sorriso debochado.

—Você quer apresentações formais? Tudo bem, podemos fazer isso, engomadinho. Você pode me chamar de Charlie. Ou “mulher que salvou sua vida” também vai servir— ela respondeu— Você não me conhece, mas eu te conheço bem, Leonard. E eu sei que o seu plano naquela noite era matar o seu pai. Eu sei o que ele fez com você, e com a sua mãe. E eu também sou uma pessoa que já sofreu nas mãos de feiticeiros cruéis, mas que decidiu lutar de volta, igual você.

Leonard encarou a mulher, que agora sabia se chamar Charlie (apelido de Charlotte, ele supôs). Ela tinha um rosto bonito, mas havia algo de pesado e sofrido em seus traços. Olhos que já haviam visto coisas demais, e acumulado ódio demais por isso. Leonard se perguntou se, caso não enterrasse os vincos de seu próprio sofrimento com tantas camadas de mentira, por tanto tempo que ele sequer se lembrava mais de como eles costumavam pesar, ele se pareceria com Charlie.

—Tudo bem, Charlie. Como você sabe tanta coisa? E o que você quer de mim?— ele perguntou, por fim, deixando a postura controlada desabar, e o tom exausto transparecer em sua voz.

Charlie se levantou da cadeira onde estava, e então se agachou de frente a ele, de modo que pudessem olhar nos olhos um do outro.

—Eu sou uma agente da Ordem… ou quase isso. Enfim, estou trabalhando para eles. Ontem à noite, estávamos vigiando o baile. Já havia suspeita de que o Incendiário poderia atacar, então eu segui vocês e o seu pai para o jardim quando a discussão com o Lorde terminou. E eu vi como você manipulou a situação toda, e eu ouvi a conversa com o seu pai. Eu sinto muito pelo que aconteceu com a sua família. E eu sinto muito que você não pôde matá-lo com as próprias mãos. Mas eu estou te oferecendo a oportunidade de levar justiça para outras pessoas. Você é inteligente, Leonard, e eu acho que, juntos, nós poderíamos limpar essa cidade do perigo que bruxos como ele representam— ela disse.

Havia um tom genuíno, mas sombrio, na voz da mulher. Leonard não sabia se ficava assustado ou lisonjeado por alguém ter notado todos os detalhes de seu minucioso, ainda que malfadado, plano.

—Eu não tenho simpatia nenhuma por feiticeiros, isso é verdade. E eu talvez tenha algo a oferecer em questões de estratégia, você está certa quanto a isso. Mas depois do que vi ontem à noite, eu não quero mais nada com esse Incendiário, ou com qualquer outro tipo de magia. Eu só quero ficar em segurança, e longe disso tudo— Leonard disse, e se pegou surpreso pela honestidade em suas próprias palavras.

Não era de seu feitio contar a verdade. Não era de seu feitio demonstrar tamanha vulnerabilidade. Mas, estranhamente, a expressão no rosto de Charlotte tornava impossível para ele mentir.

—Oh, Leonard. Você nunca vai estar seguro enquanto pensar igual uma presa. Você deve se tornar o caçador. Ou sempre estará à mercê daqueles que empunham poderes paranormais e profanos. Você não vai poder se proteger, ou à sua família, enquanto não se impuser e lutar de volta. Eu aprendi da maneira mais difícil, e acho que você também— Charlotte disse, e Leonard se viu obrigado a desviar o seu olhar do dela.

Sim, ele havia aprendido da maneira mais difícil que nunca deveria confiar em um feiticeiro. Ele havia perdido sua mãe, e, se tivesse agido antes, talvez pudesse tê-la salvado.

—Você está certa. Nenhum de nós está verdadeiramente seguro enquanto os bruxos estiverem à solta. Mas eu não sou um herói, Charlie, ou um justiceiro. Eu queria vingança contra o meu pai, e eu queria ascender mais alto que ele, e jogar o nome dele na lama. E meu plano poderia ter funcionado, mas falhou miseravelmente por causa do Incendiário. E eu não quero ser o próximo alvo, porque sei que essa é uma batalha que vou perder— Leonard respondeu.

Charlotte soltou uma risadinha ligeiramente debochada.

—Olhe, Leonard, se o Incendiário nos quisesse mortos, nós não estaríamos aqui. Eu nunca entro em uma briga que eu não possa ganhar, mas nós não somos alvos. Ele não liga, se ligasse teria nos matado. Eu também tinha dúvidas antes, mas agora tudo está mais claro— ela disse— A não ser, é claro, que você saiba alguma coisa a mais sobre isso.

Leonard parou e refletiu por alguns segundos.

—Meu pai disse uma coisa antes de morrer— ele respondeu— Você deve ter ouvido também. Ele disse que Aaliyah sempre foi uma Iluminada muito mais poderosa do que ele. Eu… não tenho certeza absoluta de nada. Mas passei muitos anos investigando, e remoendo o que ele fez. Creio que eu possa saber do que ele estava falando.

—Pois fale logo, homem!— Charlie o cortou, impaciente.

Leonard respirou fundo.

—O tipo de magia que ele usava… tinha alguma coisa de errado com ela. Magia profana, como Aaliyah disse. Eu não consigo deixar de imaginar que pode ser o mesmo tipo de magia que o Incendiário usa— ele divagou— E um Iluminado é uma pessoa que deveria ser um guardião para esse tipo de magia, ao menos pelo que eu descobri. Acho que meu pai estava abusando do poder. Talvez o Incendiário esteja atrás de pessoas que também estejam.

Charlotte o encarou, também parecendo pedida em pensamentos.

—O Incendiário matou o Líder da Ordem, e vários agentes. Eu não acho que ele esteja indo atrás exclusivamente de feiticeiros, mas certamente isso é estranho demais para ser coincidência— ela comentou— Você acha que ele poderia ser algum tipo de justiceiro?

Leonard deu de ombros.

—Todos os mortos até agora tinham alguma coisa a esconder. E pagaram caro por isso— ele respondeu, simplesmente.

Charlotte pareceu pensativa.

—Isso pode ser bom. Tudo me leva a crer que, do que quer que ele esteja atrás, não é algo que nós tenhamos envolvimento. E que talvez ele possa até acabar nos ajudando mesmo sem intenção. Eu já matei dois feiticeiros, e a Ordem sequer suspeitou de mim. Acham que foi o Incendiário. Enquanto ele continuar causando tanto caos, ainda há esperança de concluir o seu plano, e oportunidades para que nós façamos justiça sem que ninguém nos descubra— ela disse.

Leonard refletiu por alguns segundos. Charlotte estava certa, ele realmente ainda poderia sabotar os Lordes e tomar o controle da fábrica para si, se soubesse se aproveitar da desordem.

—Você fala como uma mulher que também tem um plano. Muito bem, Charlie, o que você sugere?— Leonard disse, por fim.

Charlotte abriu um sorriso convencido.

—Bem, eu não precisei fazer muitas alterações em seus planos originais. Acusações de assassinato ainda seriam o suficiente para fazer Lorde Forrest ser preso, e o comando da fábrica passar para você, como segundo acionista majoritário. Mas agora que seu pai está morto, precisamos de outra pessoa para incriminá-lo. Um feiticeiro, de preferência, então estaríamos matando dois coelhos com uma cajadada só— ela explicou— Felizmente para você, eu já tenho alguém em mente. Por quem o desgosto do Lorde Forrest é notório e público.

—E quem seria essa pessoa?— Leonard questionou.

—A pequena Condessa por quem todos parecem tão obcecados. Cecily Campbell— Charlie respondeu.

Leonard teve que conter uma expressão de choque, ainda tentando manter o mínimo de compostura.

—Você acha que ela é uma feiticeira?— ele questionou, ainda não assimilando totalmente a nova informação.

Charlie assentiu com a cabeça.

—Quero dizer, eu não tenho certeza absoluta. Ainda não. Mas o jeito que todos parecem tão obcecados com ela não é natural. E eu ouvi boatos sobre a morte estranha e suspeita de seu finado noivo…— ela respondeu— Sem falar no anel. Aquele anel é amaldiçoado, disso eu tenho certeza.

—De que anel você está falando?— Leonard perguntou.

—Ela tem um anel no dedo da mão esquerda. Prata e quartzo rosa, em formato de gota. Um dos feiticeiros que eu matei tinha um colar com um pingente idêntico. Na hora, eu pensei que fosse apenas uma coincidência. Mas eu vi o jeito que aquilo estava brilhando no baile, não era natural. Aquilo está impregnado de magia, eu tenho certeza— Charlie disse.

Leonard quase sorriu, mas se conteve no último instante.

—Se o que você está dizendo é mesmo verdade— a voz dele, ainda assim, tinha um timbre excessivamente animado para o momento grave— Ela seria perfeita para incriminar Lorde Forrest. Ele já espalhou aos quatro ventos o tanto que o cortejo de seu filho a Cecily o desagrada. Se eu puder causar algum desentendimento público, as suspeitas certamente recairiam sobre ele.

—E, se realmente funcionar, com sua posição na Corte e minha posição na Ordem, nós teremos acesso a todo tipo de informação privilegiada. Com o caos que o Incendiário gera, então, seremos ainda mais imparáveis— Charlotte concluiu.

Dessa vez, Leonard não conteve um sorriso. Largo, cruel, talvez ligeiramente maníaco.

—Nós vamos limpar essa cidade do flagelo da magia— ele disse— De uma vez por todas.

Geralmente é uma coisa bela quando dois espíritos semelhantes se encontram, meu prezado leitor. Uma confluência de almas, uma sinfonia de mentes que vibram na mesma melodia.

Mas não dessa vez.

Mão detestável segurando mão detestável, eles estavam prestes a pular do abismo. Se havia uma coisa que Leonard Cohen e Charlotte Griffin poderiam fazer um pelo outro era ampliar as partes mais obscuras e perigosas de cada um. E as consequências disso seriam nefastas.

Leonard não conseguia deixar de enxergar o pai e suas ações perversas em cada pessoa que brandia a mesma magia que havia lhe tirado sua mãe. E Charlotte jamais conseguiria fugir dos fantasmas de seu marido, sua mãe e seu filho não nascido, que haviam perecido por culpa de um feiticeiro inescrupuloso.

Eu não sei se é possível realmente culpá-los pela escuridão que havia se enraizado dentro deles, leitor. Nessa guerra milenar ente feiticeiros e pessoas sem magia, ciclos de dor e vingança eram inevitáveis, e ambos os lados sempre teriam um motivo pra odiar o outro.

Eu me pergunto se esse é justamente o motivo pelo qual a Ordem sempre lutou para manter a magia secreta e sob controle: evitar a dor e a crueldade que poderes extremos nas mãos de pessoas sem princípios podem gerar.

Mas, no final, de pouco minhas elocubrações e vãs reflexões importam. Eu não estou aqui para falar sobre o que poderia ter se passado se o mundo fosse mais honesto e justo, e sim sobre o que realmente se passou.

E a verdade é que as tragédias e o ciclo interminável de ódio estavam longe de acabar.

Felizmente, na segunda parte desse capítulo, posso me dar ao luxo de deixar momentaneamente de lado os negócios escusos e obscuros de Charlotte e Leonard, e narrar o que acontecia bem distante dali, na segurança e no segredo do esconderijo no qual Digory Pembrook, Zoe Rodaki e Mihai Beswick se abrigavam.

Já era o final da tarde quando Digory e Mihai voltaram do trabalho juntos, um silêncio denso e desagradável durante o trajeto de bonde.

Apesar dos incêndios, e de toda a loucura que as descobertas dos últimos dias haviam gerado, ainda eram obrigados a manter uma fachada de normalidade. Afinal, os pais de Digory não sabiam que ele era um agente da Ordem, ou sequer sabiam sobre a existência de qualquer força sobrenatural, e a comunidade de Mihai não reagiria bem caso descobrisse seu envolvimento com um perigo tão grande quanto o Incendiário.

Digory recorria aos mais diversos artifícios para dormir fora de casa nas noites em que era sua vez de vigiar o esconderijo, incluindo simplesmente sair pela janela uma vez que seus pais tivessem adormecido. Naquele dia, felizmente, Mihai havia confirmado a história que ele havia inventado sobre o outro precisar de ajuda com uma reforma em sua casa.

—Digory?— Mihai, assentado ao seu lado no bonde, chamou seu nome depois de um trajeto inteiro em silêncio.

Digory, que até então encarava a rua do lado de fora por vergonha de encarar o outro rapaz, virou o rosto para ele.

—Sim, Mihai?— havia um tom excessivamente esperançoso em sua voz. Como um cachorrinho abandonado que finalmente havia encontrado um dono. Ou um pecador que finalmente havia alcançado sua penitência.

—Por favor, não me faça mentir para o seu pai de novo. Ele é uma boa pessoa, não merece ser enganado também— Mihai disse, e qualquer esperança que Digory tinha se quebrou em milhares de pedacinhos.

“Também”— Digory repetiu em sua cabeça, com uma pontada de dor— “Ele acha que eu o enganei esse tempo todo”

—Eu… eu sinto muito. Não vou te envolver nas minhas desculpas de novo— ele respondeu, envergonhado e culpado demais para criar caso. Mesmo sabendo que havia mentido para mantê-los seguros. Mesmo sabendo que nunca realmente teve escolha.

Mihai assentiu, o olhar ainda um pouco triste, mas distante.

—Vamos logo, levante-se. Esse já é nosso ponto— o rapaz disse, e Digory o seguiu para fora do bonde.

Assim que chegaram ao esconderijo, Adel abriu a porta, uma expressão ligeiramente impaciente no rosto.

—Vocês estão atrasados— ela disse, mas não soou realmente como uma bronca.

—Eu sinto muito— Digory disse, e percebeu que essas provavelmente eram as três palavras que ele mais falara nos últimos dias.

Adel os deixou entrar, e então abriu um sorriso complacente, até mesmo ligeiramente maternal.

—Está tudo bem, garoto. Não vou me atrasar tanto assim, Gus vai entender— ela respondeu— Eu deixei chá na cozinha. Tentem fazer Zoe comer alguma coisa, se puderem. Ela passou o dia inteiro trancada no quarto.

E então Adel saiu, deixando os três sozinhos na casa.

Desde que haviam começado a proteger Zoe e Mihai, os agentes costumavam se alternar em duplas, ou eventualmente com Adel, para vigiar os jovens feiticeiros. Contudo, naquela noite, Digory havia ficado com a responsabilidade sozinho.

O que o obrigava a encarar seu pior medo: ficar totalmente a sós com Mihai.

—Eu vou esquentar o chá. Você quer alguma coisa?— Digory perguntou, após alguns minutos de silêncio constrangedor.

—Não, obrigado— Mihai respondeu.

Digory odiava que, mesmo estando bravo e chateado, Mihai continuasse sendo tão gentil. Gentil e triste. E ele odiava ser o motivo da tristeza dele.

Digory voltou da cozinha com duas xícaras de chá de qualquer maneira, e deixou uma na mesinha de frente à poltrona onde Mihai estava assentado.

—Você deveria levar isso para Zoe— Mihai encarou a xícara— Adel falou que ela não comeu hoje, e eu não estou com fome.

Digory baixou o olhar, hesitando, mas não pegou a xícara de volta.

—É chá de anis— ele disse, simplesmente— Talvez não seja tão bom quanto a receita da sua mãe. Mas eu achei que você gostaria.

Mihai o encarou por alguns instantes. Havia desconfiança em sua expressão, mas algo se suavizou ao ouvir o tom vulnerável de Digory, e a referência à primeira vez em que haviam conversado, quando ele havia lhe oferecido aquele mesmo tipo de chá.

Ele não disse nada, mas pegou a xícara, e bebericou o líquido fumegante.

Digory teve que conter um pequeno sorriso, mas foi fazer o que Adel pediu, e levou chá e biscoitos para Zoe.

—O que você quer, magrelo?— ela perguntou assim que abriu a porta para ele. Uma fumaça de cedro e incenso atingiu Digory em cheio, e ele percebeu que ela andava praticando magia dentro do quarto. Provavelmente o dia inteiro. O tremor nas mãos e o olhar difuso e ligeiramente hostil apenas confirmavam suas suspeitas.

—Adel me mandou te alimentar— ele disse, simplesmente, e estendeu a bandeja para ela.

Zoe pegou a comida, mas riu, debochada.

—Ela foi embora? Ótimo, agora estamos sozinhos com o agente novato— ela zombou— Mas obrigada pelos biscoitos. Se o Incendiário vier nos pegar, pelo menos vou morrer de barriga cheia.

E Zoe bateu a porta na sua cara.

Digory provavelmente já deveria estar acostumado a ser tratado daquela forma, mas mesmo assim mordiscou o lábio inferior, chateado por novamente por tamanho desprezo.

Ele sentia falta de Polly. Sua irmã certamente não deixaria ninguém o tratar daquela maneira se estivesse ali.

—Sabe, ela tem razão— Mihai comentou após alguns segundos, quebrando o silêncio.

—O que?— Digory se virou para ele, tentando esconder a expressão chateada.

—Zoe. Ela tem razão— ele repetiu.

Digory sentiu um nó na base de sua garganta, a humilhação crescendo ainda mais do que ele achava que era possível.

—Eu devo ser mesmo uma piada de agente— ele soltou, por fim— Bem, eu sinto muito por ser tão inútil, Mihai. Eu estou me esforçando, juro que estou, mas não faço sequer ideia do que diabos está acontecendo na maior parte do tempo! Então me desculpe por não conseguir fazer nada além de me atrapalhar o tempo todo!

Ele percebeu que estava vermelho e cerrando os punhos tarde demais. Provavelmente só quando Mihai se levantou, caminhou até ele, e muito calmamente colocou ambas as mãos em seus ombros.

—Não foi isso o que eu quis dizer— a voz dele era suave e calma apesar do estado claramente afetado de Digory— O que eu quis dizer é que ela tem razão em achar injusto que coloquem tanta responsabilidade em um novato como você. Mas Zoe não tem direito de descontar em você, a culpa não é sua, e, da próxima vez, você deveria se defender.

Digory baixou o olhar, ainda sentindo o rosto queimar e um nó no estômago.

—Talvez eu mereça que ela me trate assim. Talvez eu mereça tudo isso que estou recebendo— ele disse— Desde que entrei pra essa maldita Ordem, tudo o que eu faço é mentir e me enrolar em tantos fingimentos que eu nem sei mais o que está acontecendo. A culpa definitivamente é minha por deixar as coisas chegarem a esse ponto.

Mihai tirou as mãos dos ombros dele, mas não se afastou.

—Você não está sendo razoável— ele comentou, na mesma voz calma— É claro que você está perdido, todos estamos. E você mentiu, é verdade. Mas você também fez coisas boas, quando pôde. Se não tivesse me ajudado, eu estaria preso agora, e não teria descoberto a verdade sobre o meu pai.

Digory, que até então encarava o chão, ergueu o queixo para encarar Mihai nos olhos.

—Então… você não está mais bravo comigo?— ele perguntou, a voz não mais irritada, e sim novamente frágil.

Mihai riu.

—É claro que estou! Eu passei a vida inteira fugindo de agentes e da Ordem, e agora descubro que não apenas meu pai era um, mas que a melhor pessoa que conheci nessa droga de cidade também é— ele respondeu.

Estranhamente, isso fez Digory ter que conter um sorriso.

—Eu sou a melhor pessoa que você conheceu nessa cidade?— ele perguntou, mal captando o resto da frase.

—É impressionante o tanto que sua audição é seletiva quando você quer… Mas sim, Digory. Apesar de tudo, você ainda é a melhor coisa que me aconteceu desde que eu coloquei os pés em Londres. Talvez a única coisa realmente boa. E, mesmo que você tenha mentido para mim, e mesmo eu estando com raiva, eu ainda não consigo deixar de gostar de você, muito menos te odiar. Mesmo sabendo que eu deveria. E isso torna tudo mais difícil— Mihai respondeu.

Mesmo com o calor descomunal que ele sentiu subir às suas bochechas com essa frase, Digory não conseguiu desviar o seus olhos dos de Mihai.

—Você também é a melhor pessoa que eu conheci desde que essa loucura toda começou— ele disse, sem pensar— Eu não ligo se você é um feiticeiro. Para mim, não tem nada de errado com você, com magia ou não. A Ordem é realmente estúpida se acha que tem.

Mihai sorriu, mas era um sorriso triste, com uma pontada de dor.

—Acredite, Digory, têm muitas coisas erradas comigo— ele murmurou.

Foi a vez de Digory erguer as mãos, e segurar os ombros de Mihai com força.

—Não fale isso. Não tem nada de errado com você— ele repreendeu— Eu, pelo menos, gosto de você do jeito que você é.

Mihai baixou o olhar.

—Talvez, mas você não gosta de mim da maneira que eu queria que você gostasse. Da maneira que eu gosto de você. E eu não quero me meter no que quer que você possa sentir pela Zoe, mas eu só queria que você soubesse que eu não odeio você. Muito pelo contrário— ele disse. Dessa vez, seu tom de voz não era mais calmo, e sim profundamente melancólico.

—Mas que droga, Mihai! Eu já disse que eu não gosto da Zoe desse jeito!— o garoto respondeu, tirando as mãos dos ombros de Mihai e fazendo um gesto revoltado.

—Digory, está tudo bem, você não precisa mentir de novo…— Mihai começou— A culpa é minha por ver coisas onde elas não existem, e por sonhar demais. Você não precisar mentir para poupar meus sentimentos. A culpa da minha dor não é de ninguém além de mim mesmo.

Digory parecia ao mesmo tempo confuso e ligeiramente revoltado.

—A questão é que talvez você não esteja vendo coisas que não existem— ele replicou, com a voz fraca— Eu me atrapalho, e eu sou uma droga em demonstrar… e tudo isso é muito novo e confuso para mim. Eu nunca tinha gostado de ninguém antes, pelo menos não desse jeito. Mas você definitivamente não está sonhando demais, ou vendo coisas que não existem.

Mihai tinha abaixado o olhos, mas arriscou erguê-los para Digory naquele segundo.

—Então, você realmente seria capaz de sentir o que eu sinto? Apesar de eu ser um feiticeiro? Apesar de eu ser… um garoto?— ele perguntou.

Digory tocou seu rosto muito suavemente, os dedos como o fantasma de um sopro sobre sua pele.

—Não “apesar”, mas justamente por todas essas coisas. Eu nunca mudaria nada em você, Mihai, nenhum detalhe sequer. A Ordem e quem quer que tenha um problema com isso podem ir para o inferno, pelo que me importa— e, dito isto, Digory segurou o rosto de Mihai entre suas duas mãos, se alçou na ponta dos pés, e o beijou.

Mihai arregalou os olhos, surpreso, mas logo a sensação dos lábios de Digory nos seus foi o suficiente para sobrepujar qualquer choque, e fazê-lo simplesmente se entregar ao momento e beijar de volta.

Foi um pouco desajeitado, no começo, com dentes se chocando levemente e ainda sem muita sincronia. Mas foi doce, muito doce, e, de certa forma, faminto. Os lábios de Digory ainda tinham o sabor levemente especiado do anis do chá, e também uma reminiscência de seu calor, e suas mãos trêmulas seguravam o rosto de Mihai com força. Mihai o puxou para o mais perto que conseguiu, enrolando os braços ao redor de seu pescoço, enterrando os dedos em seu cabelo, e sentindo o coração bater tão rápido e tão forte que ele seria capaz de explodir ali mesmo.

—Você é ainda mais lerdo do que eu se não percebeu o tanto que eu gosto de você. Desde o primeiro dia em que te conheci. E exatamente desse jeito que você disse que queria que eu gostasse— Digory disse assim que o fôlego faltou e ambos se separaram, mas ainda segurando o rosto de Mihai em suas mãos— Eu só precisava saber que você também sentia o mesmo.

Mihai abriu um sorriso enorme e bobo.

—Eu sinto. Claro que sinto. Por que outro motivo eu ainda estaria aqui, e confiaria em você mesmo depois dessa confusão toda na qual você nos meteu?— ele replicou.

Digory sorriu de volta.

—Eu prometo que não faço de novo. Que nunca mais vou esconder nada de você, Mihai. Nem o tanto que eu gosto de você, nem qualquer outra idiotice na qual eu tiver que me meter por causa da Ordem. Somos eu e você daqui para frente, está bem? Juntos. Sem mais segredos— ele disse.

Mihai assentiu.

—É tudo o que eu mais gostaria— ele respondeu.

E dito isso, Mihai o puxou para outro beijo.

Há pouco mais de uma dezena de capítulos atrás, caro leitor, eu lhe contei que Digory Pembrook e Mihai Beswick eram, acima de tudo, pessoas que sempre permaneceriam leais a si mesmas.

E é com muita alegria que eu reitero essa informação. Digory e Mihai sempre souberam seguir a verdade de seus corações, e, felizmente, a verdade os levou um para o outro. Mesmo que através de caminhos tortuosos, e muitas vezes trágicos. Eles encontraram um ao outro, e é um deleite poder dizer que, de todos os acontecimentos dessa história obscura, esse foi um dos únicos pontos de luz genuína.


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Notas finais do capítulo

Zoe usando magia no quarto tem a mesmíssima energia de um adolescente fumando escondido dos pais kkkkk! E foi supreendentemente prazeiroso escrever as interações Charlie x Leonard, eles se parecem bem mais do que percebem.

Espero que tenham gostado, até o próximo ♥



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