Arsonist's Lullaby- Interativa escrita por Venus


Capítulo 2
I- Tiny Tragedies


Notas iniciais do capítulo

Hello! Aqui está o primeiro capítulo, já com aparições de alguns personagens de leitores! Espero que gostem, boa leitura ♥



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Esse capítulo poderia começar em diversos pontos trágicos daquele dia trágico. Tragédia é algo que certamente não estava em falta naquela agradável tarde de domingo, leitor. Contudo, esse capítulo começa pela menor das tragédias que aconteceu naquele dia. E essa pequena tragédia foi Henrietta Raycraft ser acordada de sua merecida soneca no susto, com uma batida firme em sua porta.

Assim que a batida se fez soar, a Duquesa ergueu a cabeça de sobre a mesa de seu escritório, sentindo o pescoço protestar contra o movimento brusco. Seus cabelos castanhos e cacheados haviam escapado do penteado elaborado, e caíam sobre seus olhos conforme ela cambaleava até à porta.

—Espero que seja por um bom motivo- a mulher resmungou- Logo quando eu achei que teria um pouco de paz.

A interrupção de sua soneca era sim por um bom motivo. Aliás, por um mau motivo. Tão mau que logo sobrepujaria o desprazer do despertar impertinente da Duquesa.

Para entender o motivo que levaria alguém a bater à porta do escritório da mais nova líder da Ordem quando a mesma deu instruções explícitas quanto a não ser incomodada, é necessário voltar um pouco no tempo, para o início daquela agradável tarde de domingo. Já para entender o motivo que levaria Lady Raycraft a estar dormindo no momento fatídico, seria necessária uma regressão temporal bem mais acentuada. Por isso, em nome de um  relato minimamente objetivo, esse último motivo é melhor deixado em mistério. Por enquanto.

A questão é que Antigone Lascelle bateu à porta do escritório por pedido de Augustus Lockhart, que por sua vez intercedia em nome de Digory e Pollyanna Pembrook, que por sua vez jamais demonstrariam tamanha ousadia se não fossem os acontecimentos que se antecederam àquele momento naquela fatídica tarde de domingo. E, como sempre, tudo começou quando os mais jovens decidiram desobedecer seus pais.

Polly Pembrook normalmente não trabalhava aos domingos, mas aquele era uma exceção. Ela estava saindo do Palácio ao meio dia, após uma manhã bem tumultuada, quando deu de cara com seu irmão, Digory, e seu melhor amigo, Ronald, esgueirando-se pelos arredores do castelo.

—Mas o que diabos estão fazendo aqui?- Pollyanna perguntou, arqueando uma sobrancelha. Os meninos, que a aguardavam conversando entre si, interromperam o diálogo para encará-la.

—Oi para você também, Polly- Ron disse, arqueando uma sobrancelha- Oras, pensei que já tivéssemos um combinado. Você está atrasada, inclusive.

Polly lembrou-se da conversa que tiveram no dia anterior, e, de fato, estava atrasada, mas acabou dando de ombros.

—A culpa não é minha se Cecily pediu um penteado complicado- ela replicou.

Polly era uma criada no Palácio, e Cecily era a moça para quem ela trabalhava diretamente. Já estava acostumada a fazer horas extras para atender aos caprichos da jovem nobre, e isso nunca a incomodou. Contudo, Ronald sempre acabava um pouco contrariado que sua amiga tivesse de trabalhar horas tão longas, e era um costume seu reclamar de modo sútil sobre o assunto.

—Aquelas tranças de novo?- Digory perguntou, em um tom mais compreensivo, e Polly assentiu.

—As famigeradas. Ela vai encontrar mais um pretendente no almoço de hoje, então quer estar bem arrumada- Polly explicou, com uma careta- Mas, de qualquer jeito, eu pensei que estivessem brincando sobre ir ao lago. Está frio demais para isso, é uma ideia estúpida.

Foi a vez de Ron dar de ombros.

—Não estávamos pensando em nadar, só queríamos alimentar os patos e fazer uma caminhada pelo parque- ele respondeu- Seria bom se viesse com a gente, mas, se não quiser, podemos te deixar em casa antes de ir.

Polly mordiscou o lábio inferior, pensativa.

—Bem- ela disse- Uma caminhada não faria mal. Estou mesmo precisando espairecer.

Ronald comemorou, e Digory sorriu.

—Vamos logo, então- Digory disse, começando a caminhar em direção ao parque- Precisamos voltar para casa antes que mamãe volte.

Ron assentiu, apertando o passo para alcançar o amigo.

—Minha mãe também me quer em casa antes do anoitecer. Disse que estão acontecendo uns incêndios estranhos pela cidade, e que não é seguro andarmos por aí no escuro- o outro jovem comentou.

Polly riu, debochada.

—Podem ficar tranquilos. Se o maníaco nos atacar, eu protejo as duas donzelas- ela zombou, o que levou Ronald a fazer uma careta, e Digory a rir.

Os três jovens passariam uma tarde adorável no Hyde Park, embora Ronald tenha descumprido sua promessa, e acabado nadando no lago, apesar do frio. Polly e Digory dariam enérgicas risadas quando ele saísse, tremendo e arrependido, de dentro da água, e então os três se assentariam no sol juntos, esperando Ron secar enquanto conversavam.

Teria sido uma pequena aventura absolutamente agradável, se ao menos Ronald Butler tivesse ouvido aos avisos de sua mãe. O jovem logo aprenderia da pior forma que nunca é sábio ignorar os conselhos dos mais velhos, sobretudo quando se esconde um grande segredo. E ele também aprenderia que a verdade sempre acaba vindo à tona, de uma maneira ou de outra.

Enquanto os três amigos desfrutavam do último momento de paz que teriam naquele ano terrível, outros dois personagens de nossa história estavam imersos em seus próprios negócios e segredos, não muito longe dali, naquela mesma parte da cidade.

—Ele está ficando cada vez mais audacioso- Antigone comentou, se equilibrando para caminhar por cima de uma das vigas chamuscadas que haviam desabado do teto- É a primeira vez que ele ataca tão perto da Ordem. Está ficando mais forte.

Augustus a seguiu, mas resolveu contornar a viga, sujando a barra de suas calças nas cinzas que se acumulavam no chão. A casa incendiada estava em um estado precário, e ele não sabia como Antigone conseguia permanecer perfeitamente limpa em meio a tantas cinzas e sujeira.

—Ou talvez ele só esteja ficando cada vez mais desvairado- Augustus respondeu, com um sorriso espirituoso- Todos sabem que não é sensato mexer com a Ordem.

Antigone olhou por sobre o ombro para encará-lo. Sua expressão estava séria, como sempre. Augustus se orgulhava de conseguir fazer todos sorrirem, mas sua colega parecia ser esculpida em gelo, e, em todos os oito anos em que trabalhavam juntos, mantinha aquela postura pouquíssimo receptiva.

Antigone tinha quase a mesma idade de Augustus, no início da casa dos trinta. No momento, trajava um vestido cinzento, que destacava a cor pálida e fria de seus olhos. Os cabelos negros estavam presos para longe do rosto anguloso e austero, e a pele clara não apresentava qualquer indício das cinzas que os cercavam. Augustus já ouvira outras pessoas comentando sobre a boa aparência de Antigone, mas ele não conseguia achar muita beleza naquela fachada rígida e intimidante.

—Eu até poderia concordar com você, mas então seríamos dois crédulos. A violência progressiva dos incêndios não deixa dúvidas quanto ao verdadeiro motivo- ela replicou, e então voltou a caminhar em frente.

“Você deveria dar-lhe um gostinho do próprio veneno”- a esposa de Augustus, Anne, havia lhe dito, logo depois de conhecer sua colega pela primeira vez- “Gente como ela nunca recebeu uma má resposta na vida inteira, e você deveria ser o primeiro.”

Como havia feito quando ouviu o conselho da esposa, ele riu ao ouvir a resposta afiada de Antigone, não com despeito, mas com complacência.

“Antigone pensa que me assusta com toda aquela pose, querida, e me ver alterado é justamente o que ela quer. Vou fazer exatamente aquilo o que vai mais incomodá-la: absolutamente nada”- ele havia respondido, e Anne havia feito uma careta, mas também havia acabado rindo.

“Só Deus sabe o que eu faria para ter esse seu temperamento, Gus”- ela havia dito, e lhe dado um beijo na bochecha- “Não mude jamais”

E Augustus não planejava mudar. Por isso mesmo, se limitou a dizer:

—Nós, crédulos, temos esse péssimo hábito de questionar coisas que parecem óbvias demais. Talvez você devesse tentar algum dia.

Antigone não respondeu, até porque já havia se ocupado de analisar alguns livros chamuscados caídos no canto de uma das paredes despedaçadas, mas Augustus se deu por satisfeito com seu silêncio. Não tinha nenhum sentimento negativo pela colega, mas havia feito questão de delimitar alguns limites ao longo dos anos, e sentia que a ausência de uma resposta por parte de Antigone era mais um marco que tinha alcançado. Augustus gostava de pensar que aquilo era um início de respeito, mas duvidava que a Marquesa Lascelle tivesse muito respeito por qualquer um que fosse.

—Se já tiver terminado de resmungar, seria bom que desse uma olhada nisso- Antigone disse, pegando um dos livros do chão- Tem algo de muito errado com essa casa.

Augustus se aproximou de onde Antigone estava, pegando o livro que lhe foi oferecido.

Era um volume pesado, encadernado em couro escuro, e supreendentemente bem conservado tendo em vista o estado desastroso do restante da casa. Ao virar o livro para analisar a capa, Augustus imediatamente soube o porquê.

—Obsidiana- ele murmurou, tocando a pequena pedra negra encrustada bem no meio da capa, o que lhe causou um pequeno arrepio- Um livro da Ordem.

Antigone assentiu, abrindo o livro e mostrando as páginas parcialmente chamuscadas.

—Antigo, mas definitivamente nosso. E essa era a casa de um feiticeiro. O que esse livro estava fazendo aqui?- ela murmurou.

Obsidiana era uma das únicas substâncias capazes de conter a magia, e era usada quase que exclusivamente pela Ordem. Uma pedra vulcânica negra, retirada das entranhas mais profundas da terra, extremamente antiga, e portanto tinha uma conexão profunda com aquele plano de existência e suas leis naturais. Sua mera presença parecia enfraquecer a magia até mesmo dos usuários mais poderosos, e, quando usada em amuletos e relíquias, parecia ter um intenso efeito de proteção. O que provavelmente havia acontecido com aquele livro.

—Qual era mesmo o nome da vítima?- Augustus perguntou, tentando se recordar do histórico do dono da casa, que havia morrido na semana anterior.

—Ottis Wilson- Antigone respondeu, tirando algumas anotações de dentro de sua bolsa de carteiro- Tinha cinquenta e quatro anos, e era um conhecido praticante de magia, sobretudo do tipo de Sombras. Seu principal ofício no momento era vender livros e pergaminhos sobre o conhecimento proibido, e ele tinha uma das maiores bibliotecas mágicas da região. A grande maioria dos livros queimou durante o incêndio, como pode ver. Exceto esse.

Augustus devolveu o livro para Antigone, que o guardou na bolsa.

—Como esse homem conseguiu ter acesso a um livro da Ordem?- ele questionou, pensativo- Ainda mais um volume desses: antigo, raro, tão importante que tinha até mesmo um amuleto de proteção.

Antigone também parecia intrigada, mas acabou dando de ombros.

—Vamos apenas acabar de investigar a casa, e depois voltamos para a Ordem e descobrimos mais sobre o assunto. Não há nada que possamos fazer sobre isso por aqui- ela disse, e Augustus concordou, a seguindo pelos corredores arruinados.

Enquanto analisava os destroços por entre as cinzas, Augustus se pegou pensando sobre as circunstâncias daquele incêndio em específico. O ataque havia acontecido no início da semana anterior, e agentes da Ordem infiltrados na Scotland Yard haviam conseguido ter acesso a algumas das provas iniciais, mas Henrietta, a líder, havia pedido que Antigone e Augustus fossem até a cena do crime assim que a polícia se dispersasse para coletar qualquer evidência que pudesse ter sido deixada para trás. Ambos eram agentes antigos e experientes, então fazia sentido que essa tarefa fosse confiada a eles. Nada escaparia de seus olhos atentos, e Augustus, em especial, tinha um histórico de ser particularmente bom em identificar itens mágicos. Isso estava conectado a alguns episódios de seu passado distante, episódios que ele preferiria esquecer, mas que ao menos o tornavam inegavelmente competente em seu trabalho.

—Lockhart!- a voz de Antigone o arrancou de seus pensamentos bruscamente. Havia um tom de urgência no jeito que ela o chamara, então ele correu até onde ela estava, já pousando a mão sobre o coldre de sua arma- O que diabos está acontecendo ali?

Antigone estava de frente para uma janela chamuscada, com visão para a parte mais baixa da cidade, nas redondezas do Hyde Park. Ao longe, era possível ver uma fumaça densa se erguendo de uma casa antiga e imponente, que começava a arder em chamas com violência.

—Não é possível- Augustus murmurou- Você acha que é ele?

Antigone o encarou. Sua expressão não estava assustada, mas havia uma rigidez única em seu rosto, uma que somente aparecia em momentos críticos.

—Poderia ser. Nós temos que verificar- ela respondeu, e ele assentiu.

—Você está armada?- Augustus perguntou.

—Sempre estou- Antigone replicou, os lábios se curvando minimamente, no que ele presumiu ser um minúsculo sorrisinho.

—Espero que consiga correr com esses sapatos- ele comentou- Porque nós temos um Incendiário para capturar.

O incêndio que eles avistaram, caro leitor, é um ponto crítico de nossa história. Pois seria ele que conectaria a história dos irmãos Pembrook às histórias de Antigone e Augustus. Logo Pollyanna e Digory estariam em um perigo mortal, do qual poderiam ser salvos tão somente pela intervenção das outras duas figuras apresentadas nesse capítulo, e seria justamente essa conexão que pavimentaria o restante dos caminhos tortuosos pelos quais seguiriam.

Como já dito no capítulo anterior, tudo começou quando os irmãos decidiram virar na esquina errada. Um erro aparentemente inofensivo, mas que logo se provaria fatal.

—Vocês tem certeza de que esse é o caminho?- Ronald, que os seguia, enrolado em seu sobretudo, questionou.

Pollyanna olhou para trás, arqueando uma sobrancelha ao encará-lo.

—Eu já disse, Ron, que esse é o atalho mais rápido- ela replicou, com confiança demais para alguém que estava começando a se perder- Então, a não ser que queira chegar em casa atrasado e levar uma bronca da sua mãe, pare de reclamar e ande mais depressa.

Os três jovens haviam perdido a noção do horário, de modo que, enquanto caminhavam de volta para suas casas, o sol já começava a se por. Pollyanna sabia que sua mãe e de Digory, assim como a mãe de Ron, não ficariam nada satisfeitas de vê-los andando por aí após o anoitecer, de modo que esperava que o suposto atalho os levasse para casa antes que a luz de esvanecesse completamente.

Não era um plano necessariamente ruim, leitor. Muito pelo contrário, era um plano que provavelmente teria dado certo, se eles ao menos tivessem passado pelo beco em que entrariam a seguir alguns minutos, talvez até mesmo alguns segundos, antes. Mas o destino tinha outros planos para os jovens. Porque assim que Digory, Polly, e Ronald colocaram seus pés naquela ruela maldita, eles ouviram uma explosão.

Polly sentiu uma dor intensa e lancinante ao bater as costas com violência contra uma parede de tijolos. Estava sem ar, o impacto havia expulsado todo o fôlego de seus pulmões; e também zonza, uma vez que, além do torso, havia acertado com a cabeça diretamente na pedra.

Ela soltou um gemido sofrido ao tentar se colocar de pé, e acabou cambaleando e novamente caindo de joelhos. Sua visão estava embaçada, mas ela conseguia sentir o cheiro distinto de madeira queimando em algum lugar próximo a si. Ela estava prestes a chamar pelo irmão ou por Ron, quando um grito desesperado a puxou de volta para a realidade bruscamente.

Um homem saiu de dentro da casa no final da rua, correndo e chorando. A construção estava em chamas, e havia sido de dentro dela que a explosão se originara quando o ar quente e o fogo arrebentaram as janelas e as portas violentamente.

O sujeito parecia extremamente desesperado, gritando aos seus plenos pulmões enquanto tentava fugir. Polly estava relativamente longe dele, uns dez ou quinze metros, mas conseguia ver que ele estava ferido, segurando uma lesão no abdômen enquanto mancava, e também tinha cortes e hematomas por todo o corpo.

—Por favor, me ajudem!- o homem pediu conforme tentava correr em direção a Polly- Você precisa ir buscar ajuda! Você precisa chamar a Ordem!

Polly estava prestes a se levantar e ir ajudar o homem a sair dali, quando, de dentro da casa, uma figura assustadora emergiu.

A primeira coisa que ela viu foram os olhos: completamente negros e vazios, mas ainda assim brilhantes de uma maneira sobre-humana. O vulto flutuava, vários centímetros acima do chão, e estava envolto em luz ofuscante e sombras densas, que ocultavam completamente sua forma e suas feições, se mexendo em espirais calculadas sob seu comando. Apenas seu olhar maligno e seu sorriso cruel e branco eram visíveis através do completo caos que lhe servia de armadura.

Antes que o homem pudesse alcançar Polly, a figura ergueu o braço em sua direção, o que o fez ser erguido bruscamente no ar, se debatendo e chorando.

—Por favor…- o homem implorou- Eu não sei de nada…

A figura abriu um sorriso macabro, e então fechou seu punho lentamente. Polly percebeu, com horror, que o homem começou a sufocar, seu rosto se tornando azulado, sons engasgados escapando de sua garganta, onde vergões arroxeados começaram a surgir, o corpo se debatendo com desespero.

Ela queria correr. Queria fugir e se esconder. Aquilo ia além de qualquer pesadelo e alucinação que sua mente poderia conjurar, era assustador além de qualquer coisa que ela jamais poderia imaginar. Polly olhou ao seu redor, procurando por Ron e por Digory. A única chance de saírem vivos era se corressem antes que a figura voltasse suas atenções para eles. Ela se colocou de pé sofregamente, e estava prestes a correr em direção ao seu irmão, alguns metros atrás dela, quando viu Ron se erguendo com dificuldade mais à frente, perto do vulto e do homem enforcado.

—Deixe ele em paz!- Ron disse, parando de frente para o vulto.

Polly amava Ron com todas as suas forças. Era seu melhor amigo, quase como um segundo irmão, e sabia muito bem do péssimo hábito de ser destemido além da razão que ele tinha. Mas ela não podia acreditar que ele estava mesmo enfrentando aquele demônio de luz e sombras como se aquela fosse uma briga de bar qualquer.

Ron ergueu seus braços no ar, e Polly observou, completamente embasbacada, conforme pequenos destroços começaram a flutuar ao redor dele. Pedaços de pedras e madeira responderam ao seu comando, e o rapaz os fez girar no ar antes de lançá-los em direção ao vulto com uma velocidade impressionante. Por um segundo, Polly teve esperança de que o ataque seria efetivo. Ela estava sendo uma tola, é claro, como ficaria evidente em poucos segundos.

O vulto olhou para o rapaz. Com um mero aceno de sua mão, todos os pequenos projéteis que Ron lançara em sua direção se desfizeram em cinzas. O garoto esboçou uma expressão completamente horrorizada conforme a figura erguia o outro braço, o içando no ar com violência.

—RON!- Polly gritou, desesperada, e começou a correr em direção ao amigo, que se debatia inutilmente conforme sentia seus pés cada vez mais longe do chão.

Polly tentou alcançar a figura. Não sabia o que faria, só sabia que tinha que tentar salvar seu amigo de alguma forma, qualquer forma. Antes que pudesse sequer chegar perto, contudo, o vulto olhou em sua direção, e, com um discreto aceno de cabeça, a lançou violentamente para trás.

Polly novamente atingiu o chão, sendo arrastada até se ver perto de seu irmão, no final da rua, que parecia desacordado. Não havia qualquer esperança de eles saírem vivos, ela compreendeu de repente, sentindo seu corpo todo tremer. Ela tentou se colocar de pé, mas suas pernas falharam, e ela caiu mais uma vez.

Ron e o homem ainda estavam erguidos no ar, e a figura os encarava com um sorriso cruel. Com um movimento brusco de seus braços, um som terrível e oco, de algo estourando com violência, se fez soar pela ruela, e os corpos de ambos caíram ao chão, completamente inertes.

Tudo o que Polly conseguia fazer era chorar. Ela apenas aguardou enquanto o vulto flutuava lentamente em direção a ela e Digory, aceitando seu fim. Segurou a mão do irmão e fechou os olhos. Não havia absolutamente nada que ela poderia fazer além de estar com ele.

Mas não era o destino dos irmãos Pembrook morrer naquela noite. Pois logo Antigone Lascelle e Augustus Lockhart chegaram correndo em direção à cena, pistolas em mão, expressões de horror ao encontrar tamanha destruição em seus rostos.

—Lockhart, ajude essas crianças! Eu lido com ele- Antigone disse, passando direto por Digory e Polly e caminhando com passos firmes em direção ao Incendiário.

O assassino sorriu conforme viu a mulher se aproximando. Ela não se intimidou, e ergueu sua pistola em direção ao vulto, atirando duas vezes. As balas simplesmente pararam no meio de sua trajetória conforme o Incendiário ergueu sua mão, e então se desfizeram em cinzas com outro aceno.

Ele tentou levitar Antigone com mais um movimento de seus dedos, mas o amuleto de obsidiana que ela trazia ao peito se provou efetivo em repelir o ataque, e ela apenas flutuou a poucos centímetros do chão antes de voltar ao solo. A agente da Ordem tentou mais uma vez abrir fogo contra o Incendiário, mas ele repeliu o ataque com facilidade, erguendo a mão e novamente parando as balas no ar.

Dessa vez, contudo, Antigone observou, horrorizada, conforme as balas se viravam para ela. O assassino abriu um sorriso cruel antes de lançá-las em sua direção. A agente se jogou no chão rapidamente, e as balas passaram voando sobre sua cabeça.

Estava prestes a se levantar e tentar outro ataque, mas, quando ergueu o olhar, tudo o que viu foi uma casa em chamas e uma rua vazia.

—Antigone!- ela ouviu a voz de Augustus a chamando às suas costas, e se levantou para encontrá-lo, pistola em mãos, um olhar confuso no rosto- Onde ele está?

Antigone soltou um suspiro.

—Ele simplesmente desapareceu- ela respondeu, encarando o incêndio com desgosto- Precisamos sair daqui antes que o corpo de bombeiros chegue. Conseguiu ajudar os civis?

Augustus assentiu.

—O garoto está desacordado, mas a garota viu tudo. Está em estado de choque, coitada- ele explicou- O que devemos fazer com os corpos?

Antigone encarou os dois cadáveres no final da rua. Já estava acostumada a ver a morte de perto, mas se sentiu mal ao constatar que um dos corpos parecia pertencer a um garoto que mal parecia ter saído da adolescência.

—Não temos tempo de levá-los. Depois arranjamos um jeito de conseguir acesso aos dados da autópsia, mas agora temos que ir. Os vizinhos sem dúvidas já viram a fumaça.

Augustus concordou tristemente, e eles deixaram a cena de crime e o incêndio para trás, com uma sensação esmagadora de fracasso e frustração.

E é por isso, leitor, que quando Henrietta Raycraft foi acordada de sua soneca por Antigone Lascelle, ela não teve tempo absolutamente nenhum para se enlutar por seu sono perdido. Pois logo notícias muito mais trágicas a fariam esquecer de todo e qualquer pequeno incômodo que se assomou sobre ela antes daquele momento fatídico daquele dia fatídico.

E é assim que acaba esse capítulo: com a notícia da maior tragédia de todas interrompendo a menor.


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Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado de como os personagens foram retratados, e do capítulo em si! Críticas construtivas são sempre bem-vindas.

XOXO
—Venus ♥