Arsonist's Lullaby- Interativa escrita por Venus


Capítulo 13
XII- Misery Business


Notas iniciais do capítulo

Hello! Como prometido, aqui estou tentando manter uma frequência mais ou menos aceitável rsrs! Espero que gostem, boa leitura ♥



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Charlotte Griffin definitivamente não era o tipo de pessoa que tinha uma disposição alegre, especialmente em momentos de labuta, leitor. Após um dia puxado fazendo a faxina da delegacia na qual trabalhava, e ainda mais algumas horas adicionais trabalhando em projetos de armamentos, ela normalmente iria para algum bar, e relaxar antes de chegar em casa e ter sua merecida noite de sono.

Mas não naquele dia. Pois, além de todo o trabalho que já fazia diariamente, ela ainda tinha suas obrigações com a Ordem.

Veja bem, leitor, sob risco de soar como Adelaide Waldford (o que não é necessariamente ruim, sobretudo pois ela está correta a respeito desse assunto), me vejo obrigado a apontar que a Ordem, assim como a grande maioria dos empregadores daquela época, não tinha as melhores leis trabalhistas. Imagino que se Adelaide e Charlotte viessem a se conhecer sob circunstâncias pacíficas e comuns, elas não concordariam a respeito de muitos assuntos, mas sem dúvidas concordariam que os agentes da Ordem deveriam organizar um sindicato. Especialmente os agentes novatos, que costumavam pegar os piores horários na escala de serviço.

Enquanto trocava de roupa para ir até a sede da Ordem, Charlotte tentava se convencer que ela conseguiria tirar algum proveito da noite de trabalho sofrido que certamente a aguardava. Apesar de em geral as rondas pela cidade serem enfadonhas, e não a colocarem perto de nenhum feiticeiro perigoso contra o qual pudesse fazer justiça, elas lhe permitiam descobrir informações valiosas. Foi com informações conseguidas em serviço que ela havia localizado o charlatão Joel Aubert e o impedido de continuar extorquindo as pessoas de bem da cidade. E ela certamente planejava encontrar seu próximo alvo na patrulha daquela noite.

A caminhada até a sede da Ordem era um pouco longa, mas Charlotte se atrasou apenas alguns minutos. Passando pela entrada secreta dentro da biblioteca deserta, ela logo chegou aos túneis e galerias subterrâneos que compunham a sede principal da Ordem.

Ela ainda estava se acostumando com a estrutura do local, ele era supreendentemente espaçoso, e era fácil se perder ali. Porém, o caminho até a área de convivência era algo que ela havia aprendido após poucos dias, e logo conseguiu achar o grande salão repleto de outros agentes.

Haviam algumas mesas, nas quais agentes estranhos e conhecidos se assentavam. Alguns pareciam estar trabalhando com papeladas e afins, outros pareciam apenas conversar entre si. No canto, havia uma lista pregada na parede com os horários das escalas de serviço. Assentado de frente a ela estava o responsável por delegar as funções daquele turno, um homem de meia idade cujo nome Charlotte havia esquecido, mas tinha uma certeza razoável que começava com M (Martin? Marty? Marcus?).

—Nome?— ele perguntou quando Charlotte se aproximou.

—Charlotte Griffin. Com dois Ts e dois Fs.

Ele checou alguma coisa na prancheta que tinha em mãos.

—Você foi  alocada com outros dois agentes novatos hoje. Vão fazer a patrulha no Soho.

Charlotte bufou, insatisfeita.

—Por que sempre me colocam com agentes de merda em bairros de merda?— ela reclamou.

O homem deu um riso irônico.

—Se me lembro bem, foi você quem quis se tornar agente— ele retorquiu— Seus colegas já chegaram. Estão naquela mesa perto do corredor.

Charlotte fez uma careta, mas foi se encontrar com os outros dois agentes com os quais trabalharia.

Sua insatisfação apenas aumentou ao ver as duas pessoas que a esperavam. Pareciam jovens demais, baixos demais, magros demais. Decerto não estariam dispostos a sair da linha, e certamente a atrapalhariam mais do que ajudariam.

O primeiro agente era um homem. Ou melhor, um menino. Não parecia ter muito mais que dezessete ou dezoito anos. Quando se levantou para cumprimentá-la, Charlotte reparou que ele tinha mais ou menos a sua altura, o que era mediano para uma mulher, mas um pouco baixo para um homem. O rosto era composto por dois enormes olhos de corça, inocentes e talvez levemente sonsos, e um sorriso bobo que lhe fez se perguntar se o garoto era meio retardado.

—Você deve ser Charlotte— o menino disse assim que ela chegou— Eu sou Digory, é um prazer conhecê-la.

Ele estendeu a mão para Charlotte, mas ela não a apertou, se limitando a apenas revirar os olhos.

—Guarde suas energias para o turno, garoto. Já estamos atrasados, vamos logo com isso.

A outra agente, uma mulher jovem, ergueu o olhar para Charlotte, com uma pontada de despeito.

Ela estava no início da casa dos vinte anos, e era bastante parecida com o garoto, mas certamente com um semblante menos receptivo. Tinha cabelos escuros e curtos, presos para trás com uma fita, e seus olhos, embora também grandes e castanho-claros, como os dele, pareciam atentos e afiados, e não vulneráveis. Ela era bonita, Charlotte decidiu pelos poucos segundos em que a encarou de volta. Talvez ela já a odiasse, mas não era como se Charlotte não estivesse acostumada.

—Eu não falaria assim com meu irmão, se eu fosse você— a agente se levantou, encarando Charlotte com uma pontada de  raiva— Você não é nenhuma agente de ranking superior para achar que tem esse direito, ou não estaria nesse turno horrível com o resto de nós.

Charlotte soltou uma risada seca e sem humor, encarando a moça de cima a baixo sem parecer intimidada com o seu tom de desafio.

—Qual o seu nome, garota?— ela decidiu simplesmente ignorar a provocação, talvez até mesmo levemente entretida com o quanto a moça parecia facilmente afetada.

A agente arqueou uma sobrancelha, a olhando com desconfiança antes de responder:

—Pollyanna. Pollyanna Pembrook.

Charlie assentiu distraidamente.

—Pois bem. Digory e Pollyanna Pembrook. Vamos logo com isso, então. Ou preferem ficar a noite inteira escondidos aqui na sede como dois bebês chorões?

Charlotte não esperou por uma resposta, simplesmente saiu andando na frente, certa de que eventualmente os outros dois a seguiriam.

Ela tinha uma ideia vaga do caminho que levava até o Soho através dos túneis subterrâneos que a Ordem disponibilizava para os agentes. Não sabia precisamente para que parte do bairro deveria ir, mas circulou pelo labirinto de caminhos como se tivesse certeza absoluta do que estava fazendo.

Podia ouvir as vozes dos dois Pembrook (que agora ela sabia serem irmãos) discutindo baixo atrás dela.

—Ela sequer leu o relatório do turno, Polly!— Digory protestou— Como vamos patrulhar direito com uma parceira igual ela?

Polly soava levemente sem paciência, mas definitivamente mais afável do que havia sido com Charlotte:

—Nós não precisamos dela, Dig— a jovem respondeu— Você já tem o endereço do assentamento que precisamos visitar, se ela não quiser cooperar, nós iremos sem ela.

Charlotte se virou para trás, encarando os dois com uma expressão de deboche.

—Vocês sabem que eu não sou surda, certo? Consigo ouvir vocês reclamando aí atrás— ela provocou— Se tem alguma coisa para falar, falem logo, não fiquem resmungando.

Polly novamente a encarou com aquele misto de impaciência e raiva.

—O que meu irmão estava dizendo é que faz parte da sua função ao menos ler o relatório do turno e se informar sobre os pontos de interesse aos quais patrulhar— a jovem replicou— Para sua sorte, nós já fizemos essa parte do seu trabalho por você.

Charlie resmungou.

—E o que diabos a porcaria do relatório estava falando, afinal?— ela perguntou, ainda que meio desinteressada.

—Bem— Digory se manifestou, a voz tímida— Eles querem que averiguemos um novo assentamento de peregrinos que chegou recentemente em Londres. Aparentemente, há alguns feiticeiros entre eles, e temos que descobrir se eles estão causando alguma confusão.

—Vamos olhar esse tal assentamento, então. Precisavam mesmo fazer tanto drama? Era só falar logo o que precisávamos fazer— Charlie replicou, e então apressou o passo para que acabassem com aquela tortura logo.

Não demorou muito para chegarem no Soho através dos atalhos subterrâneos. Durante o trajeto, a voz baixa, mas irritada de Polly ecoava de tempos em tempos.

Eles emergiram no meio de um parque, abrindo um alçapão escondido no meio de uma vegetação densa. Charlie limpou as calças cheias de folhas antes de seguir até a rua.

O Soho, caro leitor, era um bairro mais humilde e afastado do centro, mas ainda assim tinha uma vida noturna deveras agitada. Charlie olhou, desejosa, para os diversos pubs, pensando no tanto que gostaria de uma bebida. Com um resmungo rabugento, ela procurou expulsar esse pensamento.

—Garoto— ela chamou, se virando para Digory— Você sabe chegar no endereço do assentamento?

Digory pareceu pensativo por um segundo.

—Não conheço esse bairro muito bem, para ser honesto. Mas, pelo mapa, fica para lá— ele disse e apontou.

Demorou alguns minutos, mas eles finalmente chegaram até um grande terreno baldio, onde, Charlotte pôde ver, várias barracas e tendas estavam instaladas.

—Você não disse que era um assentamento de ciganos— Charlotte comentou, reparando nas roupas características das pessoas que circulavam por ali.

—Nós também não sabíamos— Digory se defendeu— E “cigano” é um termo um pouco antiquado. Eles preferem romani.

—Tanto faz— Charlotte respondeu, e foi logo adentrando o terreno.

A maioria dos moradores os olhava torto, desconfiados de suas intenções ali, até que um homem jovem, alto e bastante forte, os abordou, uma expressão pouco simpática no rosto.

—Posso ajudá-los?— as palavras eram educadas, mas o tom deixava claro que a intrusão deles não era bem-vinda ali.

—Não, mas nós podemos ajudar vocês— Charlotte respondeu, em um tom igualmente seco e sem rodeios— Assuntos oficiais da Ordem. Preciso que me leve até o líder desse lugar.

O homem pareceu imediatamente mais tenso à menção da palavra “Ordem”.

—Olhe, dona, nós não queremos problemas. Eu particularmente acho que deveríamos ter expulsado aquela bruxa e seu bastardo há tempos, mas meu pai ainda acha que ela pode ser útil— ele respondeu, com desprezo na voz.

—Seu pai é o líder?— Polly interrompeu, ignorando os comentários anteriores.

O homem assentiu.

—Então é com ele que queremos falar. Por gentileza, nos leve até ele— a Pembrook concluiu, e o homem concordou, logo começando a guiá-los até o centro do acampamento.

Conforme eles se embrenhavam ainda mais no assentamento, Charlotte se mantinha atenta, olhos afiados procurando por qualquer resquício de magia.

Ela acabou concluindo que a grande maioria das pessoas ali parecia normal, no máximo alguns se atinham a superstições e crendices culturais, mas não pareciam ser tocados por nenhum elemento do sobrenatural.

No centro do acampamento, havia uma área aberta, na qual algumas crianças se reuniam ao redor de uma fogueira. Bem no meio delas, um cidadão de mais idade, com talvez setenta ou oitenta anos, se assentava sobre um banquinho de madeira. Ele parecia estar contando algum tipo de história ou lenda, pois os olhos das crianças brilhavam, atentos e encantados.

Por uma fração de segundos, Charlie se pegou encarando uma garotinha de cabelos cacheados e escuros, e olhos vivamente verdes. Ela pensou que, se seu bebê tivesse sobrevivido, ele já poderia ter a idade daquela menina, cinco ou seis anos. Nos seus sonhos, ele não era muito diferente daquela criança, com seus cachos de cabelos escuros e os olhos verdes de Thomas, e sempre com o mesmo sorriso travesso do pai no rosto. Mas agora seu marido estava morto, seu filho estava morto, e ela estava sozinha.

Ela apertou a mandíbula, sentindo a tristeza ser substituída por raiva. Precisava se agarrar à raiva, ela era tudo o que ela tinha. Era o único propósito que a motivava a seguir em frente.

—Com licença— Pollyanna se adiantou até o homem, e ele imediatamente parou de contar a história, causando um murmúrio insatisfeito entre as crianças— Eu sinto muito por interromper, mas temos assuntos urgentes para tratar com o senhor. Você é o líder dessas pessoas, certo?

O homem assentiu calmamente, e se levantou para falar com Polly.

—Eu sinto muito, crianças. Continuamos a história amanhã— ele se desculpou, e logo os pequenos começaram a se dispersar— Quem deseja falar com o líder de meu povo?

A voz do homem era calma, mas seus olhos, cercados por rugas e marcas do tempo, eram espertos e desconfiados.

—Meu nome é Pollyanna Pembrook, esses seus meus colegas, Digory Pembrook e Charlotte Griffin. E qual o nome do senhor?

—Eu sou Jibben Lakey. Eu diria que é um prazer conhecê-la, Senhorita Pembrook, mas quase nunca tratar com a Ordem se revela um prazer.

Charlotte ficou um pouco impressionada de o homem identificá-los tão rapidamente como agentes da Ordem, mas supôs que ele tinha experiência com o assunto. Uma pessoa que peregrinava com tanta frequência certamente já havia se encontrado com a Ordem mais vezes do que gostaria.

—Eu garanto ao senhor que não há nada a temer se você não tiver nada a esconder— Charlie replicou, deixando o mais leve tom de ameaça trespassar sua voz. Polly a olhou feio, mas ela continuou— Estamos aqui investigando alegações que você protege dois usuários de magia entre seu povo. Se cooperar, iremos embora antes que nossa presença se torne um desprazer.

Jibben a encarou com uma expressão impassível e indecifrável.

—Senhorita Griffin, você faria bem em não tratar como inimigo alguém cuja inimizade poderia provar-se mais inconveniente do que você possivelmente poderia imaginar— ele replicou, ainda com a voz extremamente calma— Mas a informação que vocês receberam procede. Temos dois feiticeiros dentre os nossos, mas eles nunca desrespeitaram nenhuma das regras que sua Ordem impõe.

Charlotte o encarou de volta, permitindo que um leve tom de arrogância perpassasse sua voz:

—Eu creio que cabe a nós determinar isso, Senhor Lakey. Agora faça a fineza de mostrar onde esses dois usuários se encontram.

O idoso a encarou por mais alguns segundos, aquele mesmo brilho impassível nos olhos.

—Leoni e o filho não são bem quistos por todos nessa comunidade, mas estão sob minha proteção. Se tentarem levá-los sem uma boa causa, esperem resistência— o Senhor Lakey falou, a voz com um tom mais firme.

Digory se manifestou pela primeira vez no diálogo inteiro, a postura tímida, mas a voz com muito mais firmeza do que Charlotte achava que ele era capaz:

—Não estamos aqui para levar ou punir ninguém, Senhor Lakey, só desejamos conversar. A Ordem é muito rigorosa, mas também é justa. Não somos assassinos ou sanguinários.

Jibben Lakey desviou seu olhar para Digory por alguns segundos. Então, inesperadamente, ele riu, mas foi uma risada seca, sem humor.

—Voce é jovem demais para saber, garoto, mas houve uma época na qual o simples azar de nascer diferente já era o suficiente para condenar qualquer um a uma morte brutal nas mãos da mesma Ordem que você tanto defende. Espero que você esteja certo, e que as coisas tenham mudado. Mas você faria bem em agradecer por não ter sangue em suas mãos, e rezar para que isso não mude mais cedo do que gostaria— o ancião disse, e então fez um gesto para que o seguissem e começou a mostrar o caminho.

Charlotte sabia que o velho estava certo, já havia ouvido diversas histórias sobre os antigos tempos da Ordem. Antes de Lorde Ephraim e de Lady Henrietta, os Líderes eram consideravelmente mais truculentos, e os agentes, mais radicais. A mudança havia começado com o antecessor de Lorde Ephraim, mas não totalmente, pois durante o comando dele, muitos agentes ainda tinham verdadeiro ódio pelos feiticeiros, e ele não fazia muito para contê-los. Quem havia realmente consolidado uma mudança havia sido Lorde Ephraim, e Lady Henrietta parecia estar continuando as novas políticas, apesar do ódio por feiticeiros dentre os agentes estar se tornando cada vez maior devido aos crimes do Incendiário.

Charlie sabia que nem todos os feiticeiros eram assassinos, mas ela considerava a magia algo perigoso. E, de certa forma, não conseguia reprovar totalmente as ações do antigo regime da Ordem. Magia enfraquecia as leis naturais, causava caos, e aumentava a propensão de eventos paranormais descontrolados. Ela era capaz de corromper, e levar seus usuários à loucura total. Charlie nunca conseguiria se convencer de que era natural ou bom que algumas pessoas tivessem tanto poder injusto sobre as outras.

Jibben os conduziu até um ponto mais afastado do acampamento, na periferia das outras tendas e barracas. Parou na frente de uma em específico, menor e mais simples do que aquelas que ficavam mais ao centro, e bateu palmas, para atrair a atenção daqueles lá dentro.

Uma mulher jovem saiu de dentro da tenda. Ela estava no início da casa dos trinta anos, e tinha pele morena e uma cascata de cachos escuros soltos pelas costas. Um bebê estava pendurado em seu colo, e ela tinha um aspecto ligeiramente cansado, mas ainda assim sorriu ao ver o ancião.

—Jibben— ela cumprimentou, acenando com a cabeça— É um prazer recebê-lo. E quem seriam esses?

—Hadria, esses são agentes da Ordem— Jibben explicou— Sua mãe está em casa? Eles gostariam de falar com ela e seu irmão.

Hadria os encarou com uma leve desconfiança por alguns segundos, mas acabou assentindo.

—Minha mãe está aqui, mas meu irmão saiu. Não voltou do trabalho até agora— ela respondeu, segurando a aba de tecido que cobria a entrada da tenda para que eles pudessem  segui-la para dentro— Vou chamar minha mãe, esperem aqui.

O interior era simples, mas aconchegante, com almofadas e tapetes cobrindo a maior extensão do recinto. Hadria não demorou a voltar, dessa vez acompanhada de uma mulher mais velha, mas impressionantemente parecida com ela. Tinha os mesmos cachos de cabelo escuro e pele morena, mas já começava a ficar grisalha, e tinha marcas de expressão ao redor dos olhos, do tipo que sugeriam que ela ria com frequência e vivacidade. Seus olhos eram escuros e gentis, com um aspecto atento e vivaz, o que a tornava bastante bonita para a idade.

—Leoni, obrigada por vir— Jibben disse— Venha, Hadria, vamos esperar lá fora. Vou deixar que conversem com privacidade, mas não hesitem em me chamar se precisarem.

Dito isso, Jibben e Hadria saíram, deixando os três agentes sozinhos com a mulher.

—Você deve ser Leoni— Pollyanna tomou a frente do diálogo, provavelmente preocupada com o que aconteceria caso ela deixasse Charlie com esse cargo— Eu sou Pollyanna Pembrook. Esse é meu irmão, Digory, e nossa colega, Charlotte Griffin. A Ordem pediu para que viéssemos conversar com a senhora, mas não há motivo para preocupação. É apenas uma verificação de rotina para feiticeiros novos na cidade.

Leoni assentiu. Sua expressão parecia relaxada e receptiva, mas Charlotte conseguiu observar um brilho ligeiramente tenso em seus olhos.

—Muito bem— a feiticeira disse— Se vamos conversar, podem ficar à vontade. Assentem-se, e me deixem servir algumas xícaras de chá.

Charlie não aceitou o chá, mas Digory e Pollyanna sim. A mulher não parecia particularmente perigosa, mas Charlotte ainda assim preferiria não colocar nada em seu corpo que poderia estar contaminado com magia.

—Obrigada— Pollyanna agradeceu, pegando a xícara— Vamos começar com as perguntas, certo? Primeiramente, que tipo de magia a senhora pratica?

—Eu sou uma curandeira, Senhorita. Ajudo principalmente as mulheres grávidas— Leoni respondeu— Uso mais magia de Luz, mas algumas Sombras também não fazem mal para certos tipos de doença. Mas em geral não faço nada muito grande, só ajudo como posso.

Charlie riu com escárnio.

—Bem típico— ela disse— Usando qualquer que seja o tipo de magia que dá mais lucro. Sei bem como funciona com o seu tipo.

Leoni a encarou por alguns segundos. Não parecia irritada, apenas surpresa. E talvez com um pouco de pena.

—Eu não recebo dinheiro pelos meus serviços, apenas a satisfação de ajudar— ela respondeu— Eu sinto muito que o mundo tenha sido cruel com você, criança, mas não precisa demonstrar tanto desprezo à face da gentileza.

Charlie revirou os olhos.

—Grande gentileza a sua. Realmente louvável. É estranho que seu povo não goste de você, então, se realmente está falando a verdade. O que mais você faz, sequestra criancinhas e as sacrifica em seus rituais? Joga pragas naqueles que te desagradam? Só assim para que te odeiem, mesmo que você tanto os ajude— Charlotte provocou, procurando arrancar alguma reação da mulher.

—Senhorita Griffin!— Pollyanna repreendeu, mas Charlie continuou encarando a feiticeira com desprezo.

Leoni, entretanto, não pareceu afetada.

—Minha magia não tem nada a ver com o ódio que recebo por parte de meu povo. Eu não espero que nenhum de vocês entenda nossa cultura, mas essa é uma questão completamente diferente— a mulher explicou.

—Você não precisa nos contar nada que não se sinta confortável em compartilhar— Digory disse, e Leoni sorriu.

—Eu não tenho nada de que me envergonhar, criança. E nada a esconder— ela disse— Eles me odeiam porque meu filho mais jovem nasceu depois que fiquei viúva. Porque ousei me apaixonar de novo depois que meu marido deixou esse mundo. Só toleram nossas presenças aqui porque usamos nossos poderes para o bem, porque os ajudamos. Eu garanto que, se realmente fôssemos esses bruxos cruéis e sanguinários que sua colega parece pensar que somos, eles já teriam nos expulsado há muito.

Charlotte não se deu por satisfeita.

—E o seu filho? Ele também é um curandeiro? Ou anda usando a magia para algo que não deveria?— ela perguntou, ainda medindo cuidadosamente a reações da mulher.

Leoni permaneceu com a mesma expressão calma.

—Meu filho não machucaria uma mosca. Ele é um rapaz doce, e gentil. Sempre mostrou grande aptidão para me ajudar com a cura, e, até onde sei, também tem afinidade com Luz e outras magias de Sombra simples. Ele jamais iria atrás de nenhum tipo de feitiço proibido, não senhora— ela respondeu.

—Perdão, mas acho que ainda não perguntamos o nome do seu filho— Pollyanna interrompeu.

—Ele se chama Mihai, senhorita. Mihai Beswick.

Nesse momento, Digory se engasgou com o seu chá, e começou a tossir descontroladamente. As três mulheres o olharam, confusas, mas Polly conseguiu desengasgá-lo com alguns tapinhas nas costas. Charlie achou estranho, mas decidiu ignorar. O garoto ainda estava com o rosto vermelho e os olhos arregalados quando sua irmã decidiu continuar a entrevista de qualquer forma:

—Bem, continuando— a Pembrook disse, tendo solucionado a interrupção— Mihai também é um curandeiro? Ou ele tem alguma outra ocupação?

—Não, Mihai não é curandeiro, embora tenha talento para cura. Ele está trabalhando em uma loja no centro, atualmente. Mas acho que quase nunca pratica magia, é bem raro vê-lo usando feitiços quando não está me ajudando com algum paciente— Leoni respondeu.

Polly estava prestes a fazer mais perguntas, mas, subitamente, a expressão de Leoni mudou. A mulher encarou o nada fixamente por alguns segundos, os olhos arregalados e vidrados, as mãos apertando o encosto da cadeira na qual ela se assentava com força.

—Senhora?— Polly chamou, preocupada— Leoni? Está tudo bem?

A mulher agitou a cabeça, parecendo sair da espécie de transe no qual havia entrado. Mas sua expressão ainda parecia perturbada.

—Mil perdões— a feiticeira murmurou— Foi só uma visão. É aquele tipo de poder que não tem como controlar quando vem, sabe?

Charlotte poderia ter usado aquilo como pretexto para insinuar que a mulher não controlava direito seus poderes, e por isso era perigosa. Mas teve um pressentimento, e se viu com mais curiosidade a respeito da visão que com desejo de recriminar a feiticeira.

—E o que você viu?— Charlie perguntou. Pela primeira vez na conversa, seu tom não era hostil.

Leoni ainda parecia perturbada, mas buscava disfarçar melhor.

—Desde que esses incêndios pela cidade começaram, eu ando tendo visões com fogo. Muito fogo. Dessa vez, vi um jardim bonito em chamas, e um píer incendiado sobre a água— ela respondeu, tomando um gole de chá para tentar se acalmar.

Charlotte e Pollyanna se entreolharam. Pela primeira vez desde que haviam se conhecido, pareciam estar em consenso sobre algo.

—Existe algum jeito de saber onde vai acontecer? Ou quando?— Polly perguntou.

Leoni pareceu refletir por um segundo.

—Vidência nunca foi um dos meus talentos, e sim um efeito colateral da minha magia de Luz— ela explicou, dando de ombros— Mas as visões não costumam anunciar um futuro muito distante, e sim próximo. E o lugar parecia bonito demais para não ser de algum nobre.

Polly parecia preocupada. Charlie também estava inquieta, mas mais devido a uma curiosidade, talvez até mesmo uma certa expectativa, de ver o Incendiário em ação novamente.

—Bem— Charlie resmungou— Nesse caso, creio que seria melhor que voltássemos para a sede da Ordem em caso de uma emergência. Não concorda, agente Pembrook?

Ambos os irmãos assentiram, não estando claro a quem ela se dirigia. De qualquer modo, era tudo o que ela precisava para ter uma desculpa para sair dali. Eles se despediram de Leoni, e Polly e Digory deixaram seus cumprimentos a Jibben e Hadria. Charlie simplesmente saiu o mais rápido que suas pernas permitiam, ansiosa para descobrir se haveria um incêndio ou não, afinal.

Ela já estava quase saindo do lote do acampamento, com os Pembrook a seguindo alguns metros atrás, quando, no horizonte, pôde avistar uma nuvem de fumaça cinzenta.

—Droga— ela ouviu a voz de Pollyanna praguejar atrás dela— Tarde demais.

Ela encarou as espirais ascendentes de vapor denso e permeado de cinzas. Vinha da direção do bairro mais nobre da cidade, como Leoni havia especulado.

Charlotte Griffin não sabia ainda, mas está caminhando em direção a uma decepção. O incêndio daquela noite não havia ferido nenhum usuário de magia, como ela no fundo estava esperando, e, além disso, apenas deixaria mais mistérios e dúvidas em sua mente. Talvez até mesmo a colocasse em um caminho ainda mais perigoso e arriscado.

Aquele incêndio não se provaria um enorme inconveniente tão somente para Charlie Griffin, caro leitor. Pois Antigone Lascelle logo teria sua noite adorável brutalmente interrompida pelas más novas.

A Marquesa Lascelle raramente tinha a oportunidade de descansar, dado que os plantões da Ordem sempre tomavam suas noites, e suas obrigações como nobre, a maior parte de suas manhãs e tardes. Naquele início de noite de segunda-feira, entretanto, ela tinha um horário livre, e planejava finalmente dar uma pausa de tanto serviço.

Como segunda no comando não oficial da Ordem, ela com frequência dedicava seus horários de descanso a alguma investigação, mas, naquele dia, ela decidira passar sua noite com um livro, uma xícara de chá, e uma mente livre de preocupações, mesmo que apenas momentaneamente. Mas a paz durou pouco.

Eram por volta das nove horas da noite quando um cheiro pungente de fumaça chegou às narinas da Marquesa. Indo até a janela, uma fina camada de cinzas imediatamente recobriu sua pele clara conforme a brisa trazia uma névoa escura na direção de sua casa, o que acionou todos os seus instintos de perigo.

Ela pegou seu casaco, e saiu até a varanda apenas para constatar que, apenas a algumas quadras de distância, o Palácio de Buckingham pegava fogo.

Foi apenas de madrugada que o incêndio foi finalmente contido pelo corpo de bombeiros, e que Antigone foi permitida no local.

Um alvoroço de nobres histéricos se concentrava no jardim, então não foi um grande problema para a Marquesa passar desapercebida para coletar evidências. O incêndio havia sido no jardim, mais especificamente perto do lago, no qual havia um píer. Alguns arbustos haviam sido consumidos pelo fogo, mas o maior estrago havia sido à estrutura do píer em si.

Passando em meio a policiais que coletavam depoimentos e testemunhas desesperadas, Antigone analisou a carcaça de madeira totalmente destruída do píer. O estrago era tão considerável que, mesmo nas partes completamente submersas na água, o material havia sido reduzido às meras cinzas, e desabado. Entretanto, o fogo não havia se alastrado com tanta violência até as estruturas adjacentes, e a maior parte do jardim circundante estava intacta. Era como se o Incendiário, de algum modo, estivesse visando especificamente o píer.

Esse era um padrão consistente com o de todos os outros incêndios cometidos até o momento: uma destruição metódica, controlada, sem dúvidas fruto de uma magia poderosa e bem exercida. A única coisa que não era nenhum pouco consistente era a ausência completa de uma vítima. Ninguém havia se ferido naquela incêndio, apesar da histeria generalizada.

E aquele incêndio em específico havia permitido à Marquesa observar uma peculiaridade deveras curiosa sobre a magia do Incendiário, que não havia ficado explícita até então: ele usava magia de Luz e de Sombras ao mesmo tempo.

Estava claro na maneira como o fogo havia sido minuciosamente controlado, e em como tinha a característica sobrenatural de queimar mesmo debaixo de água. Magia de Luz comum poderia criar e controlar chamas, mas não deturpar tão completamente suas propriedades a ponto de alterar as regras naturais de um elemento. A ponto de anular completamente o efeito da água sobre as chamas. Isso era magia de Sombras, muito forte, e usada em conjunção à de Luz.

Lembrou-se da conversa que havia tido com Zoe Rodaki alguns dias antes. Sobre como a avó dela, Sofia Rodaki, e seu pai, Joel Aubert, ambos pareciam ter conhecimento a respeito de magias com essa característica rara, embora apenas Joel as usasse. Se perguntou se haveria alguma relação ali. Se o Incendiário, quem quer que fosse, também tinha acesso àqueles feitiços peculiares.

De qualquer forma, o mistério que a Marquesa Lascelle tinha em mãos se provava cada dia maior e mais complexo. Pois, a cada novo crime, mais ela percebia que não entendia patavinas a respeito do Incendiário e de suas motivações. Por que diabos ele havia incendiado um píer, mas não havia ferido ninguém? Pra ameaçar os moradores do Palácio? Para finalmente ser considerado uma ameaça por todos os setores da sociedade londrina? Ou talvez não houvesse um padrão verdadeiro às matanças, apenas caos e crueldade?

Antigone sabia que precisaria investigar ainda mais a fundo, com ainda mais afinco. O próximo incêndio poderia não ser tão controlado, ou misericordioso. E, a cada nova morte, ela se sentia como se o sangue também estivesse em suas mãos.

Encarou o padrão bizarro das chamas mais uma última vez, e limpou as cinzas do seu vestido antes de sair dali. Se o Incendiário achava que havia conseguido colocar o terror nos corações de todos os nobres londrinos, ele estava enganado. Pois aquela Marquesa havia aprendido bem cedo na vida a manter a cabeça erguida, e não seria nenhum ser escondido nas sombras que a faria vacilar.


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Notas finais do capítulo

E Digory descobriu a identidade de Mihai. E acidentalmente conheceu sua candidata a sogra? Rsrsrs vejamos no que isso vai dar.

Espero que tenham gostado, até o próximo ♥