Arsonist's Lullaby- Interativa escrita por Venus


Capítulo 12
XI- Blackburn


Notas iniciais do capítulo

Hello! Como prometido, retornei mais rápido dessa vez. Acho que vou conseguir manter uma frequência de atualização de quinze em quinze dias nos próximos meses, felizmente. Boa leitura ♥



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Há algo de igualmente trágico e poético em se colocar em perigo deliberadamente, sobretudo por uma causa nobre, leitor.

Entretanto, Mihai Beswick não conseguia enxergar muita poesia em sua atual e desfavorável situação. Só conseguia enxergar um casarão abandonado, o início da noite, e sua própria apreensão, que talvez fosse uma tragédia por si só.

Os últimos raios de sol já começavam a desaparecer no horizonte, e uma névoa fria e ligeiramente desagradável cobria aquela porção de Londres cada vez mais depressa. Mihai cruzou os braços, puxando o grosso casaco de tweed marrom para mais perto de sua própria pele, tentando evitar que o pouco calor que tinha se esvanecesse. Refletiu que deveria ter aceitado o cachecol que Digory havia lhe oferecido, afinal. Ele definitivamente tinha de parar de ser tão retraído, ou acabaria pegando um resfriado por vergonha de levar emprestado um pedaço de tricô. E não faria mal ter a reminiscência do outro rapaz aquecendo seu peito para lhe dar a coragem que precisava naquele momento.

O dia de trabalho havia sido longo, de modo que ele hesitava em gastar suas últimas energia com um feitiço para se manter aquecido. Sobretudo pois sabia que não ficaria nas ruas geladas por muito tempo, e também porque logo precisaria de todas as suas forças para concluir seus objetivos. Respirando fundo, ele decidiu aguentar mais um pouco, e deu a volta na relojoaria Pembrook até a rua que dava para os fundos do casarão ao lado.

O casarão do Barão Blackburn. O que costumava ser o lar do pai de Mihai.

As mãos do jovem estavam tremendo, e não somente devido ao frio. Podia apenas imaginar o tipo de problemas nos quais acabaria metido caso a pessoa errada o encontrasse ali, rondando a residência de um nobre. Sem dúvidas acabaria com problemas com a polícia, que notavelmente tinha uma desconfiança elevada para com ciganos como ele. Sem falar que seu grupo já não o tinha em alta estima, então nem queria imaginar o que aconteceria se lhes trouxesse ainda mais problemas, ainda mais problemas com a lei.

Ele respirou fundo, tentando acalmar os próprios nervos. Precisava ser corajoso. Seu pai, quem quer que ele verdadeiramente fosse, havia lhe deixado aquele livro por um motivo. E Mihai estava decidido a encontrar a verdade, custe o que custasse.

A cerca de ferro que delimitava a propriedade não foi tão difícil de passar por cima, principalmente porque ninguém estava por perto para impedi-lo. Ele passara os dias anteriores vigiando a casa, e poderia afirmar com absoluta certeza que ela estava vazia, o que se confirmou conforme ele passava pela grama alta do jardim até a entrada dos fundos da mansão. O silêncio daquele início de noite era entrecortado tão somente pelos ruídos distantes da rua principal, e pelas cigarras que pareciam ter estabelecido sua morada por entre as plantas.

Ao chegar à porta, suas mãos travaram uma curta batalha com a maçaneta antes de concluírem o que ele já esperava: estava trancada. Um simples encantamento proferido por debaixo de sua respiração foi o suficiente para fazer uma luz suave emanar do metal, e então a tranca se abrir com um “clique” quase inaudível.

Seus pés foram igualmente silenciosos conforme ele adentrava a cozinha deserta e empoeirada, e Mihai logo percebeu que seus olhos dificilmente se acostumariam com aquela densa escuridão. Mais um encantamento simples foi o suficiente para resolver esse problema: fez-se a luz com mais um comando de sua voz, runas suavemente desenhadas em um brilho dourado surgiram conforme todas as velas e candelabros se acendiam sozinhos ao seu redor.

Com a luz facilitando sua visão, os olhos castanhos de Mihai finalmente se focaram nos objetos largados pelo ambiente. A maioria do local estava coberta de poeira, e peças de louça estavam espalhadas, como se tivesse sido abandonado às pressas.

O jovem encarou uma xícara vazia, mas com manchas de café no fundo, por alguns segundos. Sem dúvidas parecia ser algo que o Barão havia tocado, e portanto poderia ser utilizado em seu ritual. Mas provavelmente não haviam memórias relevantes o suficiente atreladas a uma xícara, e ele não tinha forças o suficiente para gastar em rituais torpes. Se iria se arriscar daquela maneira, seria apenas para descobrir o essencial sobre o homem que investigava. Para acessar memórias relevantes, ele precisava de um objeto com maior carga de importância, de preferência um que estivesse com o Barão há anos.

Mihai saiu da cozinha, e começou a circular pelo térreo da casa, acendendo as velas conforme adentrava e inspecionava os recintos. Sucessões de salas, bibliotecas e quartos desertos o recebiam, mas sem nada que indicasse que o Barão havia estado ali há algum tempo. Ele achou um pouco estranho como a casa parecia abandonada, mas não vazia. Ainda havia um número razoável de objetos, ela não fora deliberadamente esvaziada, mas sim aparentemente deixada às pressas. Como se o dono planejasse voltar a qualquer segundo.

Isso deixava espaço para que sua mente vagasse entre os objetos inutilizados pelo abandono. Como teria sido crescer em uma casa como aquela? Com a certeza de um teto sobre sua cabeça mesmo nas noites mais difíceis e frias, e a certeza de que seria acolhido independente de suas origens?

Mihai tentava ser grato pelo que tinha, grato pelo amor da sua mãe, e pelo marido de sua irmã tê-lo acolhido em sua casa mesmo que seu povo o considerasse um forasteiro. Ele tentava se convencer que já havia levado pancadas demais da vida para se importar com coisas tão fúteis quanto conforto e certezas absolutas. Mas, no fundo, não conseguia deixar de se ressentir daquele homem sem rosto e sem presença em sua vida, que havia lhe manchado com seu sangue inglês e o marcado para sempre como um pária dentro de seu próprio povo. E que não havia sequer tido a decência de protegê-lo e proteger sua mãe da rejeição que um amor proibido entre uma mulher romani e um homem estrangeiro poderia causar.

Ele podia apenas sonhar em como seria andar pelos corredores daquela casa e saber que ela era seu lar. Porque, naqueles cômodos frios e abandonados, ele não encontrava nada além de melancolia.

Foi tão somente ao subir para o segundo andar que ele encontrou o quarto que parecia pertencer ao Barão. Alguns livros abertos espalhados sobre a escrivaninha, roupas jogadas pelos cantos do quarto, e objetos pessoais diversos largados a esmo. O Barão não parecia ser um homem muito organizado, mas Mihai não ficou incomodado, e sim animado. Havia uma abundância de objetos que sem dúvidas teriam memórias valiosas.

Mihai correu os dedos por cadernos, chapéus, relógios de bolso e diversos objetos pessoais, mas nenhum o satisfez. Pareciam usados e gastos o suficiente para terem colecionado uma quantidade razoável de lembranças do Barão, mas ele só tinha forças para realizar o ritual uma vez, e portanto precisava de algo que contivesse acontecimentos intensos e críticos da vida do homem que buscava investigar.

Por isso mesmo, quando o jovem feiticeiro avistou uma pequena pistola prateada no canto do criado mudo, seus olhos brilharam com um misto de medo e determinação. Ali estava o objeto que lhe mostraria o verdadeiro caráter do Barão. Pois eram nos momentos de maior perigo, um perigo que o obrigaria a empunhar aquela arma, que as pessoas mostravam suas verdadeiras faces.

Mihai pegou a pistola com cuidado, e a posicionou no meio do chão do quarto. Abrindo sua bolsa para retirar todos os materiais necessários ao ritual, ele começou a desenhar as runas e posicionar os elementos conforme o livro ilustrava, um pouco apreensivo com o que estava prestes a fazer. Aquele era um ritual poderoso, e também muito pouco convencional. Ele nunca havia sequer ouvido falar na possibilidade de usar Luz e Sombras no mesmo feitiço antes de ganhar aquele livro, e estava começando a ficar ansioso se realmente conseguiria domar ambas as forças para que contribuíssem com ele.

Ele respirou fundo, e terminou de posicionar o último elemento, flores frescas, desenhando runas em um círculo ao redor da pistola. Então ele fechou seus olhos, se concentrou, e sentiu a magia começando a fluir pelo seu corpo.

Mihai já havia usado magia de Sombras antes, embora não fosse o seu forte. Mas apenas em feitiços pequenos e inofensivos, como limpar as energias de alguma das casas paras quais haviam peregrinado. A magia de Sombras costumava ser densa, mesmo quando usada para uma finalidade leve. E ela costumava dar uma sensação estranha, sobretudo para alguém como ele, acostumado a usar a magia de Luz, que fluía sempre de dentro para fora, de sua energia vital para o mundo. Magia de Luz era sempre uma doação. Magia de Sombras sempre lhe dava a sensação que estava devorando tudo ao seu redor. E é o que ele sentiu naquele momento, conforme sentia as flores do ritual murchando, e o pequeno corte que havia feito em sua mão vertendo um sangue cada vez mais coagulado e viscoso.

O mais peculiar era que, ao mesmo tempo, ele também sentia magia de Luz fluindo de si, e com tanta intensidade e poder que ele já podia sentir suas forças minguando. Era como se a Luz estivesse alimentando as Sombras, e as Sombras estivessem aumentando o poder da Luz. Ele teve de apertar os olhos com força para tentar se concentrar mais, e ignorar a sensação de fraqueza que começava a se apossar de seu corpo.

Quando seus lábios finalmente começaram a entoar as palavras do feitiço, sua mente foi tomada por flashes de imagens de um homem, e diversas cenas nas quais ele tivera aquela arma em mãos. Lá estava o Barão Blackburn.

Ele era um homem alto e esguio, com pele clara e olhos castanhos. Os cabelos costumavam ser escuros quando ele era mais jovem, mas, nas últimas memórias atreladas àquela pistola, eles já começavam a apresentar pequenos trechos de cinza. E o seu rosto era terrivelmente similar ao de Mihai. Tão similar que o jovem, apesar de já ter entrado completamente em transe, começou a sentir suas mãos tremendo.

Mihai respirou fundo. Precisava se conter. Cada segundo que passava naquele ritual era um segundo em que sua energia era drenada com tanta intensidade que ele provavelmente passaria dias debilitado e tentando se recuperar. Então ele se concentrou nas diversas memórias, apresentadas diante dele em uma ordem caótica e embaralhada. De todas, duas pareciam brigar mais intensamente por sua atenção: uma que parecia antiga, mas muito intensa; e uma outra que parecia mais recente.

Mihai focou suas atenções primeiro na mais antiga, simplesmente porque ele sentiu uma emoção forte atrelada àquela. E, pouco a pouco, ele foi transportado para dentro da memória.

A sensação foi chocante, e estranha. Era quase como um sonho particularmente vívido, mas as sensações eram mais intensas, ainda que levemente distorcidas. As vozes tinham um eco estranho, e o ambiente ao seu redor parecia ligeiramente embaçado, como se a memória não tivesse capturado com precisão os detalhes.

Ele estava em um campo de grama alta, logo encima de uma colina. Antes da linha do horizonte, era possível enxergar uma outra encosta ainda mais alta, na base da qual abria-se a entrada obscura e parcialmente oculta de uma caverna. Ao lado de Mihai, estava seu pai.

Ele parecia jovem, o que foi estranho. Aparentava ter em torno de vinte e sete ou vinte e oito anos, o que não era sequer uma década mais velho do que Mihai era atualmente.

—Blackburn— uma voz atrás do pai de Mihai chamou, e o Barão se virou para encarar um outro homem, definitivamente mais velho, e com uma expressão de superioridade—Você tem certeza que foi para cá que os cultistas trouxeram a garota?

Mihai conseguiu sentir a mistura de deferência e leve exasperação que seu pai costumava ter por aquele outro homem. Uma figura de autoridade, ele conseguia sentir, mas não necessariamente uma por quem ele tinha apreço em particular. Estranhamente, como se pudesse compartilhar dos pensamentos e emoções que seu pai havia tido naquele momento, um sobrenome surgiu no fundo da mente de Mihai: “Chapman”

—Sim senhor— Blackburn confirmou— Se me permite, senhor, não temos muito tempo. Creio que a garota esteja em perigo. E, se eles conseguirem sacrificá-la, não haverá como reverter o ritual.

O homem que se chamava Chapman assentiu, e disse:

—Não podemos esperar os outros, então. Vamos logo. Antes que seja tarde.

E os dois rumaram para dentro da caverna.

Mihai não se sentiu particularmente tentado a segui-los. Talvez fosse o medo que seu pai sentia sendo transferido para ele e o afetando, mas ele se viu tentando ficar um pouco para trás das duas figuras, o que logo se provou inefetivo. Era como se uma força invisível o prendesse ao Barão Blackburn, impedindo que ele se afastasse e vagasse pela memória, o mantendo restrito tão somente a um mero espectador. Então ele os seguiu, ainda sentindo o misto de seu próprio medo e o do dono daquela lembrança apertando seu peito.

A caverna estava terrivelmente escura e fria, e era bem maior do que parecia por fora. Dentro, era possível ouvir vozes ecoando pelas paredes de pedra, vozes que falavam em idiomas antigos, entoando feitiços tão poderosos que Mihai sentiu um arrepio agourento e intensamente desagradável trespassando cada centímetro de seu corpo. Ele também podia sentir o medo do Barão Blackburn, como ele segurava a pistola com força, como ele tentava manter-se em silêncio, apesar do coração disparado.

A caverna abriu-se em um amplo salão de pedra, cujo teto estava coberto de estalagmites e outras rochas de ângulos afiados. No centro, um grupo de aproximadamente cinco figuras encapuzadas desenhava runas no chão e entoava encantamentos, o ar ao seu redor brilhando intensamente em uma cor vermelha doentia e violenta.

Uma garota estava acorrentada a uma rocha no meio de todos os cultistas. Ela parecia desacordada, a cabeça pendendo para frente, os cabelos castanhos cobrindo parcialmente o rosto. Ela usava um vestido bonito, mas coberto de sangue. Parecia ainda estar respirando, apesar dos diversos ferimentos por seu corpo. Mihai ficou particularmente assustado ao constatar um enorme corte no centro de sua cabeça, que ensopava seus cabelos e sua testa de sangue. Ela não parecia nada bem, e Mihai finalmente compreendeu a urgência para salvá-la.

O Barão Blackburn e o homem chamado Chapman se entreolharam. Então entraram repentinamente no salão de pedra juntos, abrindo fogo contra as figuras encapuzadas sem nenhuma piedade.

Balas e feitiços voaram pelo ar, ferindo gravemente os combatentes de ambos os lados. No fim, Chapman estava no chão, sangrando, e Blackburn havia sido ferido no rosto, mas todos os cultistas encapuzados também haviam caído ou fugido.

A luz de energia mágica vermelha que começara a se formar dissipou-se aos poucos, mas não sem antes fazer uma pequena explosão, que mandou fragmentos de pedra voando por todos os cantos.

—Liberte a garota— Chapman murmurou quando Blackburn se aproximou para ajudá-lo— Temos que sair daqui e buscar ajuda.

Blackburn obedeceu, e caminhou em direção à menina acorrentada.

Quando ele finalmente conseguiu soltá-la, e a ergueu em seus braços com cuidado, ela abriu os olhos.

—Obrigada— ela murmurou, a voz fraca. Então ela desmaiou novamente.

A lembrança começou a ficar progressivamente mais embaçada e indefinida conforme Blackburn carregava a menina e Chapman para fora da caverna. Mihai decidiu que aquela memória já tinha lhe oferecido tudo o que tinha para oferecer, e a deixou ir.

Ele então se focou na outra lembrança mais nítida atrelada àquela pistola, apesar da exaustão que manter aquele feitiço por tanto tempo estava causando em seu corpo. De todas as memórias das quais ele tivera brevíssimos vislumbres, essa parecia a mais recente. O último trecho da vida do Barão que aquela humilde pistola havia presenciado.

Naquela lembrança, ele definitivamente estava mais velho. Parecia ter quarenta e tantos, cinquenta e poucos anos, e os cabelos já estavam acentuadamente grisalhos. Ele usava um tapa-olho, cobrindo o mesmo local em que havia sido ferido quando ele era mais jovem, na memória anterior, então Mihai assumiu que havia sido um machucado que deixou sequelas, afinal.

O Barão estava em uma sala ampla e muito luxuosa, assentado em uma poltrona de veludo azul-escuro. À sua frente, estava um outro homem de meia idade, cujos cabelos loiros milimetricamente arrumados e terno de seda cinzenta denotavam ser alguém de posses. Um nome surgiu na mente de Mihai, como se pudesse ler os pensamentos do Barão, assim como havia acontecido na outra memória: Wilson. Ottis Wilson.

Ottis fumava um charuto, e seus gestos eram pomposos, com uma certa grandiosidade teatral. Quando ele sorriu para o Barão, Mihai conseguiu ver que um de seus dentes caninos era feito de puro ouro. Ele também tinha diversas pedras preciosas pelo corpo, tanto em anéis quanto em correntes. Todas definitivamente pareciam encantadas.

“Um feiticeiro”— Mihai pensou— “Usuário de Sombras.”

—Me diga, Blackburn— Ottis se inclinou levemente para frente, fazendo uma nuvem da fumaça do charuto se dispersar pelo ar— Por que está sendo tão cooperativo? Chapman nunca teria sido pego conversando com alguém como eu.

Blackburn tinha uma expressão calma. Se limitou a dar um pequeno riso seco, e relaxar a postura sobre a poltrona.

—Chapman está morto há anos, para sua sorte, Wilson. As coisas são bem diferentes agora, e eu não tenho nenhuma rixa com você ou seu povo, desde que permaneçam dentro das regras que a Ordem dita— o Barão respondeu— Nós podemos nos ajudar mutuamente, sei que a influência de nenhum de nós dois é algo a ser subestimado.

Wilson meneou, parecendo razoavelmente convencido.

—Eu não discordo, Blackburn. Mas não consigo ver que tipo de ajuda um homem como eu poderia oferecer a um homem como você— o feiticeiro respondeu.

Blackburn parecia sério, e respirou fundo antes de explicar-se.

—É sobre o Hierofante, Wilson. Eu não tenho magia, e jamais poderei obtê-la. Há alguns mistérios que eu jamais poderei conhecer sem a sua ajuda.

Ottis imediatamente fechou a expressão, que até então parecia interessada. Mihai conseguiu enxergar um misto de terror e raiva em seu olhar.

—Então você realmente se tornou um Iluminado depois de resgatar a garota da seita— Wilson constatou, com algum desgosto— Olhe bem, Blackburn, não é só porque consegui ajudar vocês naquela época que sei a respeito da magia profana que eles costumavam praticar. E eu preferiria continuar sem saber.

Blackburn se inclinou para frente, o rosto tão sério que chegava a ser sombrio.

—Nós não temos essa opção, Wilson. Uma nova seita está surgindo. Ou ao menos alguém que pretende usar o poder do Hierofante. Eu consigo sentir sua presença cada vez mais forte, e, se não os impedirmos a tempo, o mundo como conhecemos será completamente destruído.

Wilson pareceu pensar por um segundo. Mas, no final, ele pareceu assustado o suficiente para cooperar.

—O que eu preciso fazer?

Blackburn pegou um livro de dentro de sua bolsa, e o entregou para Ottis. Era um volume relativamente pequeno, mas de aparência antiga. Tinha um amuleto de proteção robusto na capa, com uma pedra de obsidiana encrustada.

—Esses são registros oficiais que consegui surrupiar da Ordem. Aqui estão os nomes de todos os envolvidos com a investigação da seita de vinte anos atrás, e também os feiticeiros mais poderosos que poderiam conseguir acesso a alguma relíquia do Hierofante. Não estão incluídos os Iluminados, por razões óbvias.

Wilson soltou um resmungo.

—E você quer que eu use meus contatos e minha magia para investigá-los?

Blackburn assentiu.

—Preciso que me diga a que tipo de magia eles têm acesso. E como posso impedi-los.

Wilson pareceu insatisfeito, mas acabou concordando.

—Em troca, mantenha a Ordem bem longe de mim. Eu e meus negócios já fomos incomodados o suficiente— ele disse.

—Você tem minha palavra— o Barão respondeu.

Wilson e Blackburn então apertaram as mãos, e o Barão saiu da sala para um corredor escuro, começando a trilhar o caminho para fora da casa de Wilson.

Foi no andar de baixo, completamente deserto e envolvido na penumbra, que o momento em que ele sacou a pistola, até então em sua cintura, e a segurou firmemente em suas mãos, aconteceu. Mihai conseguiu sentir o exato sentimento que seu pai havia experienciado naquele momento: um arrepio agourento, a terrível sensação de estar sendo observado. E, quando ele se virou bruscamente, ele teve a impressão que viu dois olhos muito brilhantes e muito cruéis o observando em meio às sombras densas do corredor por um segundo, famintos e odiosos. Mas, quando ele piscou, eles já haviam desaparecido.

Conforme o Barão saía da casa e a memória se esvanecia, Mihai acordou do transe.

Seu corpo estava tão fraco que ele se sentiu tonto, mas, mesmo em meio ao misto de emoções que ele sentia, conseguiu obter uma certeza: seu pai estava em perigo. E esse era o motivo pelo qual ele havia fugido com tanta urgência. E o motivo pelo qual ele havia lhe confiado aquele livro.

Por uma fração de segundos, Mihai se lembrou dos olhos que haviam observado seu pai na penumbra do corredor, e ele temeu. Não havia nenhum resquício de humanidade ou piedade neles, apenas caos e uma sede por sangue indescritível. Seriam esses os perigos que ele haveria de enfrentar para ter seu pai de volta? Para finalmente conseguir unir sua família?

Mihai definitivamente estava se colocando em perigo por uma causa nobre, mas não conseguia enxergar nenhuma poesia na situação. Apenas tragédia e medo. E, por mais que o jovem feiticeiro sempre tentasse se manter otimista, naquele momento, ele havia esgotado suas esperanças.

Em um ponto da cidade não muito afastado dali, duas pessoas discutiam sobre assuntos não tão distintos dos assuntos dos quais Mihai Beswick investigava. Assuntos sobre lealdade, erros do passado, e sobre o fogo que ameaçava destruí-los a todos.

—Talvez não tenha sido ele— a mulher murmurou, tentando colocar seus pensamentos em ordem— Ele não era sempre o mais transparente, mas em geral era confiável.

O homem se recostou contra a parede de frente à mulher, e cruzou os braços, com um ar relaxado demais para aquele momento crítico.

—Eu sei que vocês, Iluminados, tendem a defender uns aos outros. Mas é inegável que tenha sido ele. Apenas Blackburn conseguiria acesso a registros tão secretos da Ordem, e apenas ele era pragmático o suficiente para confiá-los a Ottis Wilson— ele replicou, ainda se atendo à sua postura calma e amena, embora a mulher começasse a demonstrar indícios de ansiedade.

Aaliyah Najjar respirou fundo antes de responder. Poderia não ser tão próxima do Barão Blackburn, mas sabia que seus pais eram, e isso já era o suficiente para que ela confiasse nele. O homem poderia tentar vilipendiar a imagem do Barão, mas ela estava determinada a não lhe dar ouvidos. Entretanto, isso era difícil quando ele apresentava provas pertinentes. Afinal, um livro da Ordem realmente havia sido encontrado nas cinzas da casa de Ottis Wilson, a sétima vítima do Incendiário, e isso indicava que ele e Blackburn talvez estivessem trabalhando juntos há algum tempo.

—Tudo bem, vamos supor que o livro que a Ordem encontrou na casa de Ottis Wilson tenha realmente sido entregue por ele— ela disse— Isso não quer dizer que ele tenha entregado sua relíquia para alguém. A relíquia pode ter sido roubada, assim como a de Sofia Rodaki depois que ela faleceu. Ou a pessoa pode ter aprendido os feitiços do Hierofante de cor, e não estar em posse de nenhuma das relíquias.

O homem pareceu refletir por um segundo.

—Estou seguro que ao menos a relíquia de Sofia Rodaki está em posse do Incendiário— ele replicou— É muito estranho que tenha desaparecido logo depois de ela morrer, sendo que muitos itens do acervo sobreviveram ao incêndio. Mas você não está errada. Teoricamente, alguém poderia aprender esses feitiços e conjurá-los mesmo sem acesso às relíquias. Mas a pessoa teria de ser um feiticeiro extremamente talentoso.

—Então é fora de questão que Blackburn tenha se envolvido com isso— Aaliyah argumentou— Ele não tinha magia, nenhum dos Iluminados tem, e todos são impedidos por juramentos sagrados de tentar obtê-la. Seria impossível para ele aprender ou ensinar os feitiços para alguém.

Ela, Blackburn, Sofia Rodaki e muitos outros haviam jurado proteger os conhecimentos do Hierofante, e impedir que eles caíssem nas mãos erradas. E, para se tornarem guardiões das relíquias com o conhecimento proibido, os Iluminados sempre eram pessoas que juravam permanecer sem magia. Para que jamais pudessem ser tentados pelos feitiços e pelo poder daqueles escritos.

—Mas é justamente sobre isso que eu queria conversar com você, Senhorita Najjar— o homem disse, um minúsculo sorrisinho emplastrado em seu rosto— Quando me procurou meses atrás buscando ajuda, nós dois chegamos em comum acordo de que a pessoa por trás dos crimes, quem quer que seja, era um usuário de magia.

—Sim— Aaliyah concordou, sem entender muito bem onde ele queria chegar— Por isso eu preciso de sua ajuda para pará-lo. Não tenho magia, não posso impedir o Incendiário sozinha.

Ele assentiu.

—Mas, veja bem— ele prosseguiu— Os dois últimos incêndios foram cometidos, ao que tudo indica, sem o uso de nenhum feitiço. Fontes confiáveis me confirmaram que o padrão das chamas e a causa de morte das vítimas não foram compatíveis com o uso de magia. Quem quer que tenha praticado esses crimes, conseguiu copiar o padrão o Incendiário sem artifícios mágicos. Pode muito bem ser um dos Iluminados.

Aaliyah ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo a gravidade dessas informações.

—Não— ela murmurou, um pouco confusa— Não é um Iluminado. Nenhum de nós se deixaria corromper dessa maneira.

O homem abriu um sorrisinho levemente condescendente.

—Você não se corromperia, eu tenho certeza disso— ele disse, em uma voz gentil, se aproximando de onde Aaliyah estava assentada e se abaixando para ficar no nível de seu olhar— Mas tem tanta confiança em seus irmãos juramentados? Já aconteceu antes, e precisamos ter certeza que não é nenhum deles, ou corremos grande perigo.

Aaliyah negou com a cabeça, apreensiva.

—Não é nenhum deles. E eu não vou revelar a identidade de ninguém— ela disse, um leve tom de desprezo em sua voz— Não para você.

Ele não pareceu ofendido, simplesmente resignado que sua estratégia de se mostrar gentil e calmo não havia funcionado. Se levantou e voltou a se afastar, novamente com uma postura de indiferença.

—Então eu recomendaria que você se certificasse de que não é nenhum Iluminado pessoalmente— ele disse, em um tom mais frio— É claro que pode ser simplesmente alguém se aproveitando do caos. Mas, se for alguém que tem acesso às relíquias, e que esteja trabalhando com o Incendiário para reerguer a seita do Hierofante, estaríamos mortos antes de sequer podermos reagir.

Aaliyah sabia que ele estava certo. Quase duas décadas antes, uma seita havia surgido, e havia sido auxiliada por um Iluminado. O preço havia sido muito sangue e sofrimento, e, se não fosse o Barão Blackburn, o Hierofante poderia ter se reerguido em toda sua antiga glória. E Aaliyah não queria sequer pensar no que poderia acontecer caso isso acontecesse.

—Bem— ela disse, após alguns segundos refletindo em silêncio— Eu suponho que não custe nada investigar. Mas você precisa respeitar meus limites. Há juramentos que não posso quebrar, promessas tão antigas quanto o tempo e tão intrínsecas ao meu ser quanto meu próprio sangue.

—Eu jamais iria contra o que é sagrado para você, Aaliyah. Assim como sei que você também não iria contra o que é sagrado para mim— ele respondeu prontamente, e Aaliyah sentiu verdade em sua voz— Eu só quero manter o que eu construí em segurança, nenhum de seus segredos de Iluminada me dizem respeito.

Aaliyah queria confiar nele. Talvez porque, naquele momento, ele lhe passava confiança. Talvez porque não tivesse escolha.

—Tudo bem— ela cedeu, por fim— Não estou acusando ninguém de nada, mas, se houver mesmo um dissidente entre os Iluminados, tenho minhas suspeitas quanto a quem.

O homem se inclinou levemente para frente, interessado.

—E quem seria?

—George Midgar Cohen.

Ele riu, o que fez Aaliyah fazer uma careta.

—O pai do seu namoradinho?— ele indagou, ainda parecendo bastante divertido com a nova informação— Bem que eu suspeitei que deveria haver algum outro motivo para você estar com ele.

—O que está insinuando?— ela replicou, na defensiva.

—Que você costuma preferir cavalheiros mais abastados que Leonard Cohen— ele respondeu, sem vacilar— Mas não estou julgando, claro.

—Claro que não— Aaliyah revirou os olhos, levemente insultada— De qualquer maneira, George Cohen perdeu a esposa sob circunstâncias misteriosas depois de receber a relíquia da qual é guardião. A maioria dos outros Iluminados desconfia que ele possa ter usado magia no passado, também, mas não tivemos escolha, ele presenciou coisas demais durante a última ressureição do Hierofante, e a única solução foi submetê-lo aos juramentos para evitar que se virasse e usasse os conhecimentos contra nós.

Ele assentiu.

—Bem, a desconfiança tem fundamento, ao que parece— ele replicou— Mas George Cohen é irlandês, não é? Como poderíamos investigá-lo sem ter se atravessar metade do Reino Unido?

Foi a vez de Aaliyah abrir um sorrisinho.

—Você está com sorte. George chegará a Londres antes do final do mês, a convite de Leonard— ela informou, satisfeita—Suponho que você tenha que me agradecer pelo meu “namorico”, afinal.

Ele deu de ombros, com uma expressão tranquila.

—Eu jamais desvalorizaria o poder de uma pessoa que sabe usar suas conexões. É uma habilidade útil, Aaliyah— ele disse— E essas são excelentes notícias. Acha que consegue entrar no evento e abordá-lo?

Aaliyah assentiu.

—Leonard já me levou a eventos antes, suponho que não fará caso se eu pedir um convite.

—Ótimo. Quando tiver informações o suficiente, podemos marcar um novo encontro, e descobrir o que fazer daí.

—Tudo bem. Mas não me contate antes disso. Ninguém pode sonhar que estou trabalhando com você.

O homem sorriu.

—Fique tranquila, Aaliyah. A recíproca é verdadeira.


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Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado! Até a próxima ♥