Isso não é Romeu e Julieta escrita por Lady Black Swan


Capítulo 5
Foi só um acidente...


Notas iniciais do capítulo

Olá Joh-chan! ;)



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Talvez Julieta houvesse exagerado um pouquinho… só um pouquinho, mas com certeza ele estava exagerando muito mais, quer dizer, a bolada nem havia sido para tanto assim, e mesmo assim Aaron estava jogado imóvel no sofá da diretoria com uma toalha molhada sobre os olhos.

—Foi um acidente. — ouviu-se dizendo inutilmente.

A diretora, Dona Nazaré, uma mulher enorme cuja cadeira rangia alarmantemente sempre que ela se sentava, olhou-a severamente.

—Há pelo menos quinze testemunhas que afirmam o contrário. — afirmou.

Julieta encolheu-se um pouco, seu pai ficaria uma fera.

—Eu sei, mas eu… — pensou ter ouvido Aaron gemer qualquer coisa atrás de si, e calou-se se virando. — O que?

—Acidente. — ele gemeu baixinho — Foi um acidente.

Mas Nazaré não pareceu convencida.

—Só que as testemunhas…

—Que se danem a por…! — ele exaltou-se por um instante, só se detendo com um gemido de dor e voltando a falar entre murmúrios logo depois: — Estou dizendo que foi um acidente, deixa logo ela ir embora. — empurrou a toalha alguns centímetros para cima descobrindo o olho esquerdo e pareceu olhá-las, mas estava apertando-o tanto que Julieta não tinha certeza se estava realmente aberto — Quando minha mãe vai chegar?

—Ela disse que viria assim que pudesse. — Nazaré fungou mexendo-se em sua cadeira que de novo rangeu de uma forma bastante alarmante. — E quanto a você mocinha, eu também liguei para os seus responsáveis.

Julieta encolheu-se novamente, já conseguia até ouvir o longo sermão do pai, no sofá Aaron gemeu voltando a cobrir os olhos, aquilo tudo era um exagero absurdo, é claro, mas ela já estava começando a se sentir culpada… quem sabe não devesse ter mirado a bola mais embaixo como fizera com Alan? Mas é que a grade de proteção da quadra estava no caminho… de repente Julieta sobressaltou-se e virou-se alarmada quando ouviu que estavam batendo na porta, mas não era seu pai ainda, era apenas o inspetor chamando a diretora por causa de algum problema qualquer.

—Não se matem enquanto eu estiver fora. — os advertiu saindo da sala.

Aaron nem pareceu perceber que ela havia saído e permaneceu deitado imóvel onde estava e, por alguns instantes, Julieta também ficou onde estava, até que decidiu se aproximar e arrastou a cadeira de rodinhas para mais junto do sofá.

—Obrigada pelo que disse. — começou — Eu acho que realmente exagerei um pouco na f…

Deteve-se ultrajada quando Aaron simplesmente mostrou-lhe o dedo do meio.

—Eu só queria que a mulher calasse logo a boca. — resmungou asperamente — E agradeceria se você fizesse o mesmo.

Ele era realmente um imbecil! A bolada foi bem merecida sim senhor! Bufando Julieta tomou impulso e empurrou sua cadeira de volta ao ponto de origem.

—Também não foi pra tanto! — reclamou cruzando os braços — Não é como se eu tivesse rachado o seu crânio!

Ele não respondeu, ao invés disso apenas ajeitou-se no sofá virando-se de costas e encolhendo-se feito uma bola ali, bem no instante em que a diretora resolveu voltar para a sala, dessa vez acompanhada de uma mulher baixa, de pele morena clara e cabelos escuros que falava tão depressa que Julieta sequer conseguia compreendê-la.

—Mãe. — Aaron chamou erguendo o braço ao ouvir a voz da mulher — Aqui.

A mulher girou nos calcanhares e disparou uma impressionante torrente de palavras rápidas e quase incompreensíveis contra o rapaz:

— ¡Pelotudo! ¿Pero qué te pasa en la cabeza que te vas a la calle y…?

Ela continuou ali falando e somente quase meio minuto depois é que Julieta se deu conta de que suas palavras não estavam em português, apesar de, sem dúvida, ainda se tratarem de alguma língua latina… espanhol talvez?

—Mãe. — Aaron chamou mais uma vez, sentando-se lentamente ainda tomando o cuidado de segurar a toalha sobre os olhos e enquanto estendia-lhe a outra mão disse pausadamente: — Devagar. Português.

A mulher bufou, colocou uma cartela de comprimidos em sua mão e então começou a falar mais devagar:

—O que aconteceu? 

Aaron jogou o comprimido para dentro da boca como se fosse uma bala e engoliu-o a seco.

—Um acidente. — respondeu deitando-se novamente.

Dona Nazaré pigarreou.

—O seu filho acabou sendo atingido por uma bola perdida durante uma partida de queimada de outra turma. — explicou gesticulando para Julieta, que envergonhada desviou o olhar — Mas ele está dizendo que foi um acidente, por isso terei que deixá-la ir apenas com uma advertência.

Encolheu os ombros sentando-se em sua cadeira que rangeu de uma maneira tão alarmante que dessa vez Julieta teve plena certeza que ela quebraria, mas o móvel milagrosamente aguentou.

A mãe de Aaron estava encarando-a agora, de repente Julieta queria não ter uma aparência tão facilmente lembrada.

—Então… eu posso ir? — arriscou-se.

Quando a diretora acenou com a gorda mão em sua direção, Julieta mais do que rapidamente saltou de sua cadeira e fugiu dali quase derrubando a pessoa do outro lado da porta que vinha prestes a entrar.

—Opa! — a mulher a segurou — Eles a liberaram bem depressa, então eu acho que nem vai precisar do dinheiro da fiança que eu trouxe… se bem que você está com bastante pressa agora, por acaso é uma fuga? Eu devia ter deixado o carro ligado?

Dava para ouvir o riso em sua voz, a recém-chegada era uma mulher alta, magra e elegante, hoje seus longos cabelos ruivos haviam sido presos em um rabo de cavalo e ali na pouca luz seus olhos pareciam cor de mel, mas Julieta sabia que na luz do sol reluziriam verdes.

—Tia Valerie! — exclamou.

—Sua mãe não pôde vir e eles não conseguiram entrar em contato com seu pai, provavelmente está metido em alguma cirurgia, então só sobrou a mim. — a tia piscou-lhe. — Mas a diretora parecia bem aborrecida, poderia me adiantar alguma coisa?

—Acertei um garoto. — confessou.

Sua tia sorriu compreensiva.

—Pelo menos não enfiou meio quilo de terra na boca deste, não foi? — ela estava acariciando sua bochecha descolorida, empurrando os cachos para trás de sua orelha.

—Ele não estava me provocando. — Julieta fixou o olhar nos próprios pés — E provavelmente não estava rindo de mim também…

Provavelmente… mas isso não mudava o fato de que ele era um imbecil.

Romeu e Margô estavam esperando por ela perto do bebedouro no fim do corredor e Romeu voou para cima dela assim que a viu.

—Julys! Você não foi expulsa, foi?! — perguntou apertando-a contra si.

—Não, claro que não. — negou.

O amigo suspirou aliviado, mas ainda permaneceu agarrado a ela.

—Mas francamente garota! — Margô reclamou — Romeu me disse que de repente você simplesmente nocauteou o meu gatão! 

—O seu “o que”?

Margô nem pareceu escutá-la:

—Eu tiro os olhos de você por uns minutinhos e é isso que acontece? Era pra derrubar as biscates em volta do meu Adônis e não o Adônis! — fez uma pausa para suspirar — Estão dizendo por aí que você o mandou direto para o pronto socorro para costurar a cabeça.

Julieta arregalou os olhos.

—É isso que estão dizendo? Quem está dizendo?!

—E quem não está? — Margô cruzou os braços e girou os olhos.

—Julys. — Romeu afastou-se. — Acha que ele vai levar pontos?

—O que?! Não! Primeiro que ele nem foi para pronto socorro algum, está só jogado lá na diretoria.

Mal havia acabado de dizer essas palavras e a porta da diretoria abriu-se e Margô afastou-se no mesmo instante para fingir estar bebendo água, Aaron saiu dali acompanhado da mãe, estava novamente de óculos escuros e vinha andando em silêncio arrastando os pés, ele era quase uma cabeça e meia mais alta que a mãe, mas ainda assim a mulher tinha o braço firmemente enganchado ao seu e vinha trazendo-o a reboque, e parecia muito, muito, brava. Prendendo a respiração Julieta virou-se para a parede assim que os dois se aproximaram o suficiente.

—Melhoras Aaron. — Romeu disse solicitamente.

Aaron ergueu os olhos.

—Cara, eu quero muito vomitar. — afirmou.

—Ah, mas não se atreva! — sua mãe exclamou apressando ainda mais o passo.

Os dois passaram por ali sem sequer notarem as garotas, mas ainda assim Julieta permaneceu olhando concentradamente para a parede e Margô logo já teria superado em muito o limite máximo de sua bexiga.

—Afinal o que é que os dois estão fazendo aqui? — Julieta virou-se novamente assim que Aaron e a mãe sumiram de vista — Não deviam estar na aula?

—Margô queria muito ir ao banheiro e eu queria beber água para não ter pedras nos rins. — Romeu respondeu apontando de si para Margô — Ou será que era o contrário?

—Independente de quem disse o que, acho que Margô vai ter que correr para o banheiro de um jeito ou de outro. — afirmou vendo a amiga finalmente erguer-se do bebedouro — Sabia que beber água demais também é prejudicial à saúde?

—É assim que você agradece minha preocupação? — reclamou.

—Você só queria saber se eu não tinha rachado o crânio do teu crush. — Julieta girou os olhos — Só Romeu é que estava preocupado comigo aqui.

—Claro, agora deixa esse papo meloso de casalzinho perfeito pra lá e vem comigo ao banheiro! — Margô chamou-a impaciente, agarrando a mão descolorida de Julieta e a arrastou consigo pelo corredor. — Romeuzinho você já viu que a tua donzela amada não vai ser expulsa então pode voltar primeiro pra sala!

Romeu ficou para trás de braços cruzados.

—Ninguém me chama de Romeuzinho. — bufou, reclamando para o nada — E por que é que as meninas sempre vão em par ou em bando para o banheiro?

Mas não havia ninguém ali para responder-lhe, então ele deu meia volta e voltou para a sala de aula, respondendo com bastante alívio para a professora quando ela lhe perguntou a respeito de Julieta:

—Eu a encontrei por acaso quando voltava. 

Completou com um sorriso amarelo, mesmo que soubesse que Thania não havia caído naquela história dele, mas a professora já os conhecias desde o fundamental em sua escola anterior e sabia que “Romeu não podia ficar por muito tempo longe de sua Julieta” — e diferente de Julieta, Romeu não se incomodava tanto assim com essas brincadeiras.

—Claro que encontrou. — Thania apontou o lugar vazio de Romeu — Aposto que Margarida também deve tê-la “encontrado por acaso” no banheiro, isso ou ela acabou ficando presa no vaso. — sorriu-lhe — Só espero que ela volte antes da próxima aula.

As garotas voltaram justo quando o sinal tocou, mas Aaron obviamente só reapareceu no colégio na segunda-feira… e convencer Julieta a ir se desculpar pareceu a Romeu tão difícil quanto tentar dar banho em Hades, Perséfone e Astolfinho todos juntos, na verdade em alguns momentos Romeu teve mesmo a nítida impressão de que Julieta realmente tentaria lhe arranhar e fugir dali.

—Por que eu tenho que ir me desculpar?! — ela reclamou puxando o cabelo sobre a bochecha esquerda — Foi ele quem começou, e nunca se desculpou! Eu só devolvi o favor, estamos quites agora!

—Menina desencana! — Margô a repreendeu, sacudindo-a pelo ombro — Pelo que Romeu me contou da história você levou uma bolada, que com certeza não foi nada compara àquela que quase me fez engolir o aparelho, e depois ficou bem em menos de um minuto e quanto ao coitado ficou lá passando mal! Você exagerou sim e vai lá se desculpar por que se não eu nunca vou conseguir pegar aquele gatão porque ele vai ficar com medo de chegar perto de qualquer um que tenha alguma ligação com você sua maluca!

Depois disso Julieta calou-se amuada e mal humorada e os seguiu sem mais reclamar, ainda puxando o cabelo por cima da parte esquerda do rosto. 


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Notas finais do capítulo

Até a próxima!



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