Isso não é Romeu e Julieta escrita por Lady Black Swan


Capítulo 14
Proibido jogar porcos!


Notas iniciais do capítulo

E o grande campeão dos jogos Capellettes e agregados é...!
Em quem vocês estão apostando?



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Margot achava que, se tratando de um jogo de tabuleiro, tudo seria mais tranquilo e seguro, mas quando, em menos de vinte minutos, Heleno simplesmente desvendou o crime afirmando que a culpada havia sido a dançarina na mansão — que também era o ponto de partida do “mordomo” o personagem dele — com a tesoura, ela ficou feliz por não haver nenhuma garrafa de vidro por perto.

—¡No mames! — Aaron reclamou erguendo-se furioso e batendo com ambas as mãos na mesa, fazendo peças e cartas do jogo se espalhar… para o desespero de Romeu, que estava tentando organizar tudo. — Você olhou as cartas! Confesse!

E Heleno, parecendo bastante calmo e até bem humorado, limitou-se a erguer as mãos e responder:

—Não olhei, eu juro.

A mesa voltou a sacudir quando Julieta bateu com o punho nela, fazendo uma das miniaturas das armas do crime cair e Romeu precisar arrastar-se para debaixo da mesa ao encalço dela.

—Eu quero revanche! — ela reclamou.

—Para quê? — Helena perguntou entediadamente conformada — quando se trata de jogos de adivinhação Heleno ganha sete de cada dez vezes.

—Não se pode fazer nada se o tio Leno é vidente. — Benjamin deu de ombros.

Na verdade, os únicos realmente inconformados com o resultado final ali eram Aaron e Julieta.

—Não sou vidente, Benjamin. — Heleno negou rindo.

—Vidente ou não eu quero uma revanche! — Aaron insistiu.

—Sim! — Julieta o apoiou colocando-se de pé — Revan…!

—Pessoal! — D. Valerie chamou surgindo pela porta dos fundos — É melhor que tenham terminado de jogar, porque está na hora de comer, então arrumem a mesa.

Margarida não pôde dizer o que a deixou mais aliviada: a chegada da comida que acalmou os ânimos, ou por naquele dia eles terem sido poupados da dieta vegana que parecia compor a maior parte do menu naquela casa, de forma que quase todos foram servidos com carne grelhada de hambúrguer — com exceção da mãe de Romeu que, em algum momento, havia pegado no sono no sofá lá dentro.

—Ela tem estado um pouco sonolenta ultimamente. — Romeu comentou. — Outro dia ela estava esquentando a água para fazer um chá e pegou no sono na mesa, toda água evaporou e o fundo da panela ficou completamente negro.

—É normal as mães ficarem sonolentas às vezes, principalmente depois de terem passado a noite em claro esperando com uma cinta na mão por um dos filhos que, por acaso, saiu pela janela durante a madrugada. — Aaron comentou sacudindo um vidro de pimenta sobre o prato dele.

—Cinta dói, mas é normal, já apanhou de bíblia?! — Helena questionou — Eu tenho certeza que isso é algum tipo de heresia!

—De bíblia nunca, mas minha madre arremessa um cabo de vassoura como ninguém. E tem uma pontaria! — Aaron respondeu, ainda sacudindo o vidro de pimenta sobre o prato — Aquela mulher poderia ir para as olimpíadas!

Foi quando Heleno segurou-lhe o pulso, detendo-o.

—Desse jeito vai abrir um buraco no seu estômago. — alertou-o — Tem certeza que vai conseguir comer com tanta pimenta assim?

Na verdade Margarida estava se perguntando justamente isso, já havia tanta pimenta no prato de Aaron que ele estava praticamente incandescente!

E talvez por estar tão distraída olhando aquele mar de lava que ela não se deu conta do perigo que se aproximava até que um focinho molhado se encostasse a sua canela e, com um grito estrangulado que sobressaltou todos à mesa, ela pulou para cima da cadeira.

—Está aqui! Está aqui! — gritou apontando-o com o garfo.

O porquinho roncou e sentou-se no chão bem ao lado de sua cadeira.

—Margot pare com esse escândalo, vai assustar Astolfinho! — Julieta reclamou estendendo uma mão e acariciando a cabeça do suíno, entre suas orelhas. — Desça logo da cadeira, ele não morde!

Como se concordasse o porquinho roncou, para o horror de Margot.

—É o torresminho quem está aí?

Aaron perguntou abaixando-se para olhar por debaixo da mesa, Margarida o ignorou:

—Eu é que estou assustada aqui, Julys tire-o daqui, por favor!

Implorou, já cogitando pular da cadeira para a mesa e Benjamin, talvez prevendo suas intenções, retirou discretamente o prato e o copo da mesa, parece que Heleno não era o único vidente ali.

—É ele que mora aqui Margot, não você. — Julieta lhe respondeu severamente.

Ainda assim ela levantou-se e começou a chamar suavemente pela mascote, atraindo o porquinho para os fundos do quintal, guiando-o para a casinha com cercadinho que havia ali, onde lhe serviu o almoço e trancou o cercado enquanto ele comia.

Mas mesmo que Margarida não conhecesse exatamente as habilidades físicas dos porcos e não soubesse quão alto eles podiam pular, aquele cercadinho ainda parecia baixo demais para conter o mini porco…

—Hã… Julieta? — chamou sentando-se como se nada tivesse acontecido quando a amiga retornou — Tem certeza que aquele cercadinho ali pode segurar o seu porco? Ele não consegue pular por cima?

—Pular? — repetiu Romeu parando de comer — Mas para que ele iria pular se ele sabe abrir o trin… ai!

Reclamou calando-se automaticamente, quando Julieta pisou em seu pé.

Desse momento em diante, Margot não conseguiu parar de olhar para o porquinho no cercadinho nos fundos do quintal, nem mesmo quando o almoço terminou e D. Vanessa — já desperta de seu curto cochilo no sofá — começou a explicar as regras da brincadeira seguinte:

—Imagem e ação! — anunciou com seu sorriso tranquilo, diante da lousa branca — Tenho certeza que todos aqui já brincaram de mímica alguma vez na vida, mas nem todos brincaram de mímica com os Capellete, por isso é necessário que eu lhes explique algumas regras. — aquela altura Margot já estava imaginando se, talvez, Julieta e sua família davam um jeito de transformar um jogo de mímica em um ringue de boxe, isso realmente não parecia impossível. — Nós separamos um total de treze charadas, entre animais, objetos, emoções, comidas, nomes de livros e filmes etc. É permitido desenhar qualquer tipo de coisa e inclusive usar números e sinais de pontuação, no intuito de conduzir à resposta correta, mas escrever está estritamente proibido, mímicas são permitidas para indicar se alguém acertou ou se aproximou da resposta correta, mas nenhum tipo de som deve ser emitido. O primeiro que acertar ganha um ponto e será o próximo a desenhar, mas há um limite de cinco minutos para cada charada. — ela mostrou o celular com o cronometro já preparado. — E por último, mas não menos importante: se ninguém acertar, o desenhista perde um ponto. Isso é para evitar que ninguém dê pistas muito vagas e abrangentes no intuito de impedir que os outros ganhem pontos, certo Julieta?

Ao contrário da mãe de Romeu, Julieta cruzou os braços com uma expressão carrancuda e bufou — por que é que Margarida não estava surpresa? — enquanto Aaron ria.

Mas tudo bem, até agora não parecia haver nada de muito extremo ali.

—Heleno? — D. Vanessa chamou, estendendo o pincel piloto — Já que foi o último ganhador, você pode começar.

A princípio Heleno começou a desenhar algo que parecia um…

—Chapéu! — gritou Aaron.

—Montanha! — Julieta gritou ao mesmo tempo.

—Uma ilha! — Romeu gritou quando Heleno balançou a caneca para os dois anteriores.

—Um…

Margarida não sabia exatamente o que iria dizer, pois nesse instante, Benjamim se levantou com um salto e gritou:

—O pequeno príncipe!

Inacreditavelmente aquela resposta estava correta.

Mas por que um chapéu significaria… ah certo, não era um chapéu.

No geral brincar de verdade e ação com aquele pessoal não era muito diferente do que brincar com qualquer outro grupo, exceto pelo fato que pareciam um bando de feirantes gritando e que, a certo ponto, parecia mais que estavam competindo para ver quem gritava mais alto enquanto diziam coisas aleatórias, do que realmente tentando acertar as charadas, até o porquinho no cercadinho nos fundos parecia querer entrar na brincadeira, guinchando sempre que as vozes se erguiam.

Só houve uns poucos incidentes, como quando Julieta estapeou, simultaneamente, os rostos de Helena e Romeu e quando Aaron se estressou porque ninguém adivinhou sua charada e ele perdeu um ponto.

—Como não conseguiram acertar isso?! — reclamou batendo na lousa branca, onde havia desenhado uma série de losangos com naipes de baralho. — Era tão óbvio!

—Óbvio onde?! — Romeu, cujos chutes haviam sido “uno”, “baralho” e “rainha de copas”, protestou — Quem no mundo iria adivinhar que isso significava “paciência”?!

—PA-CI-ÊN-CI-A! — Aaron soletrou batendo na lousa branca a cada sílaba, cada vez mais impaciente — ¡¿Quien nunca jugó paciencia en La computadora por no tener internet?!

Mas sem ninguém ferir-se gravemente, ao fim Julieta acabou ganhando o jogo, com um total de cinco pontos.

—Se não tivessem sido tão lerdos e acertado a minha pista óbvia, não teria acabado assim. — Aaron, que fizera quatro pontos, reclamou.

Sim, claro, isso e talvez se ele não ficasse gritando simultaneamente palavras em espanhol e em português na hora da agitação.

—E se meu querido Astolfinho fosse mais alto e magro e tivesse um chifre na cabeça, talvez ele fosse um unicórnio. — Julieta sorriu debochadamente.

E, como se concordasse, Astolfo roncou e sentou-se ao lado dos calcanhares da tutora, Margarida nem o tinha visto chegar — de novo! — mas gritou e pulou para cima da primeira cadeira que viu.

Aquele porco precisava de um guiso em volta do pescoço!

O jogo sorteado seguinte era uma espécie de “o mestre mandou”.

—Eu vou dar uma série de ordens para que toquem em diferentes partes do corpo, coisas como, orelha, tornozelo, joelhos, nariz, etc. — D. Alice explicou — Mas quando eu disser “sentados” todos devem se sentar, o último a sentar está fora, e assim por diante até que só reste um. Todos de acordo?

—E que jeito, não é? — Helena respondeu avaliando o que parecia ser um pequeno hematoma novo em seu antebraço direito.

E ela não parecia fazer a menor ideia de quando havia ganhado aquilo, mas pelo menos aquela brincadeira não parecia perigosa… ou foi o que Margot pensou até, já na primeira rodada, de alguma forma, a cadeira de Heleno, que estava sentado entre Aaron e Julieta, sair voando bem no momento em que ele iria sentar e o coitado se estatelar com força no chão de concreto.

—Ai meu cóccix! — gritou do chão — Ambulância!

A “famosa ambulância” acabou sendo uma cadeira de escritório com rodinhas e a maleta de primeiros socorros da casa, mas como Heleno não conseguia se sentar, Aaron e Romeu tiveram que praticamente carregá-lo para dentro de casa, enquanto D. Vanessa calmamente comentava que ia pegar um saco de gelo, e todos agiam como se fosse absolutamente normal.

—E eu podia jurar que você seria a primeira a passear de ambulância. — Benjamin comentou sorrindo ao seu lado.

Aquelas pessoas eram loucas, e ela devia ser a mais louca de todas por ainda estar ali!

Margot foi eliminada na rodada seguinte… nenhuma surpresa até aí, visto que quando D. Alice disse “sentado”, as pernas dela paralisaram e se recusaram a sentar.

—Você não é a pessoa mais atlética ou competitiva. — D. Valerie comentou quando Margot foi sentar-se ao seu lado.

Margot suspirou.

—Eu pensei que jogaríamos UNO. — confessou.

Valerie soltou uma risada curta e repentina.

—Oh minha flor, sinta-se aliviada por não termos UNO aqui hoje! — afirmou — A maioria dos Capellettes são extremamente competitivos e rancorosos, sabia? Carlos André ficou três anos sem falar com os parentes de nosso pai certa vez… até Helena, que geralmente odeia essas competições, quando resolve participar, se recusa a jogar a toalha. E olha que nunca vi alguém tão propenso a ficar cheio de hematomas quanto ela! — talvez por isso seja que Helena tivesse vindo com aqueles equipamentos de proteção? Se bem que Margot gostaria de ter pensado nisso também… mas, verdade seja dita, se ela soubesse que algo como capacetes e joelheiras seriam necessários, nem mil bonitões a teriam feito concordar com aquela sandice! — É por isso que fico preocupada com Benjamin.

—Com Benjamin? — repetiu confusa.

Mesmo que fosse completamente natural uma mãe se preocupar com seu filho acima de todos os outros, olhando em retrospectiva, Benjamin era, de longe, aquele que menos corria riscos durante os jogos, até agora ele não sofrera nenhum arranhão ou se queixara de um empurrãozinho sequer!

—Olhe para ele. — Valerie gesticulou — Ele parece um pintinho no meio dos lobos!

Dizia isso no exato instante em que, desesperado para cumprir a ordem de “tocar na ponta dos dedões dos pés”, Benjamin simplesmente saiu rolando e, por não conseguir se levantar rápido o bastante para se sentar na cadeira logo em seguida quando essa ordem foi dada imediatamente depois, acabou sendo eliminado.

—Tia Alie! A senhora fez isso de propósito! — ele protestou.

—Desculpe Benji, é só que eu não pude resistir. — a mãe de Julieta se desculpou enquanto ria. — Valerie me diga que você filmou!

—Desculpe! — Valerie respondeu com as mãos em volta da boca. — Benjamin, você quer um picolé?

Benjamin imediatamente parou de reclamar e veio saltitando em direção à mãe.

A ideia do picolé parecia boa, então Margot seguiu a mais velha para dentro de casa também, enquanto, ainda na competição, Romeu reclamava:

—Tia dá para parar de ficar nos mandando abaixar e levantar assim? — pingando suor, ele pressionou a lateral do corpo — Já estou com dor de veado aqui!

—Eu também. — Helena concordou também agarrando a lateral do corpo.

—Não termina até restar somente um! — Julieta declarou obstinada.

Mas, apesar de todas as reclamações, no final foi Romeu o ganhador.

—M-minhas pernas já quase não aguentavam mais ficar de pé, deve ser por isso que fui o mais rápido para sentar.

Comentou sorrindo nervosamente diante dos olhares fulminantes de Aaron e Julieta, enquanto sorteava a próxima brincadeira.

—Corrida sentada. — disse Valerie — Vocês terão que ir sentados daqui até o final do quintal e sem usar as mãos.

—E quer que nós arrastemos nossas bundas no concreto quente? — Helena reclamou.

—É uma brincadeira, então ninguém os está obrigando: vocês participam se quiserem. — Valerie girou os olhos. — Não é como se precisassem “se aposentar por invalidez” como Heleno, Margarida, por exemplo, escolheu não participar.

Ao invés disso, ela preferiu ficar lá dentro atuando como “enfermeira” de Heleno e fazendo companhia a ele, surpreendendo um total de 0 pessoas.

Romeu colocou uma mão sobre o ombro de Aaron.

—É cara, parece que sua ficha criminal tirou mesmo o interesse dela por você.

—Que ficha criminal? — Aaron reclamou — Já disse que ninguém denunciou o vandalismo, e aquela história de roubo foi um grande exagero!

—Mas não uma mentira completa? — Julieta perguntou desconfiada.

—O que você roubou? — Benjamin intrometeu-se curioso.

—Eu tinha quatro anos e o carro estava destrancado, eu não diria exatamente que o roubei…

—Então Helena, você vai participar ou não?! — Valerie interrompeu, olhando incisivamente para a irmã mais nova.

—Ah! Que se dane então!

Helena exclamou com impaciência, arrancando a camisa larga pela cabeça e depois a prendendo ao cós do short rosa curto, ficando somente de top. Valerie continuou com suas explicações:

—Empurrões, mordidas e cotoveladas são obviamente proibidas, então você e você. — ela apontou consecutivamente para Aaron e Julieta — Quero-os o mais longe possível um do outro!

Ambos fizeram uma expressão tão ultrajada que Romeu e Benjamin caíram na gargalhada, mas foi Helena quem tentou manter a maior distância possível dos outros competidores, enquanto Benjamin, sempre o mais despreocupado, se sentou justamente entre a chama e a pólvora… ou teria sentado se sua mão não tivesse interferido:

—Não Benji, de jeito nenhum, troque de lugar com Romeu agora!

—Tia! — Romeu reclamou — A senhora vai me jogar aos leões?!

—Não diga besteira Romeu, não tem nenhum risco, você vai estar a, no mínimo, um metro de distância de cada uma dessas crianças problemáticas, afinal. — Valerie argumentou com um sorriso.

—Então por que está mandando Benjamin trocar de lugar comigo? — Romeu parecia à beira do choro.

—Porque você é um rapaz gentil e atencioso, diferente da minha irmã intransigente. Agora pode trocar de lugar com Benjamin, por favor?

—A senhora está claramente admitindo que essa é uma posição perigosa.

Romeu reclamou enquanto, ao mesmo tempo já se levantava para, por livre e espontânea pressão, trocar de lugar com Benjamin e “se atirar na cova dos leões”.

Assentindo satisfeita, Valerie afastou-se da “pista de corrida” e ergueu o celular anunciando:

—Então assim que eu der o sinal vocês…

—Hã… — Aaron interrompeu-a, erguendo uma mão — E o que fazemos com o presuntinho?

Pois bem no meio do quintal, parado há apenas alguns metros deles, Astolfinho brincava distraidamente com uma bola plástica com guizos dentro.

—Vocês desviam, é claro. — respondeu sem prestar muita atenção.

Assim que a largada foi dada, Aaron e Julieta dispararam na frente, com uma velocidade surpreendente para quem estava pulando sentado, ao contrário de Helena que, mais preocupada em manter a camisa debaixo de si do que com a competição, avançava lentamente e Benjamin que, quicando como uma bola de praia, mal conseguia sair do lugar… e mesmo que eles tenham sido ordenados a ficarem separados, a rota de ambos imediatamente começou a apontar para colisão imediata, fechando Romeu que estava entre eles.

Só que desviar do porco na pista não era tão fácil assim, pois ao perceber toda a agitação e gritaria, Astolfo tomado de animação imediatamente pensou que estavam vindo brincar com ele e, agarrando sua bolinha plástica, correu direto para sua tutora.

—Não Astolfinho! Não! — Desesperada para não perder a competição, Julieta pegou a bola do porquinho e instintivamente a jogou no colo de Aaron, a qual Astolfinho perseguiu com um guincho de alegria.

Disseram que empurrões, mordidas e cotoveladas eram proibidos… não disseram nada a respeito de jogar um porco em você.

— ¿Pero qué carajos…? ¡Cerdo malo! ¡Malo!

Aaron reclamou pegando a bolinha e a jogando no colo de Romeu, que gritou angustiado logo antes de jogar a bola para Julieta… que não levou nem dois segundos para jogar de volta nele.

E assim, com os três jogando a bolinha uns nos outros — e o animado mini porco pulando sobre eles como consequência — sendo que seis de cada dez vezes a bolinha era atira em Romeu, Julieta se consagrou como campeã.

—Quero revanche! — Aaron reclamou colocando-se de pé, enquanto Julieta comemorava esfregando as bochechas de sua mascote e prometendo recompensá-lo com ovos cozidos — Tú hicieses una trampa! Treinou esse porco para atacar os adversários!

Deixando de esfregar as bochechas do porquinho, Julieta olhou-o arrogantemente.

—Não seja idiota, eu nunca poderia fazer isso porque Astolfinho não consegue diferenciar amigos de inimigos.

—Julys! — Romeu chamou, aproximando-se mancando — Vocês dois ficaram jogando Astolfinho em mim! Ele quase quebrou minha perna, sabia? E ele por pouco não pisou em uma área bem sensível também… isso foi perigoso!

—Coloque gelo ou chame a ambulância. — Julieta não lhe dispensou mais do que dois segundos de atenção, antes de voltar-se para Aaron novamente — Eu ganhei honestamente!

—Eu deveria transformar esse seu cúmplice em torresmo! — Aaron reclamou de volta.

—Cúmplice? Astolfinho só queria brincar também! Não o culpe por você ser um péssimo perdedor…!

O uso de suínos foi banido dos jogos Capellettes a partir dali.

—Não se preocupe Astolfinho, tenho certeza que Julieta vai te recompensar com ovos cozidos e vai brincar muito com você mais tarde.

Vanessa, que havia se servido de uma estranha mistura de feijão e picolé de laranja para o almoço, o consolou passando a mão em sua cabeça, enquanto o mini porco bebia grandes goles de água em sua tigela depois de toda a agitação.

—Suponho que todos conheçam as regras de “Pega Vareta”. — Maria Alice afirmou, virando dois tubos com as varetas coloridas, no centro da mesa onde haviam se reunido para a penúltima competição — Então me deixem acrescentar apenas isso: o primeiro que jogar uma vareta no olho do outro vai ser eliminado!

—Mãe, eu já disse que aquilo foi um acidente! — obviamente foi Julieta aquela quem protestou — Eu posso ser competitiva, mas nem eu sou tão louca assim!

Sentado em frente a ela, junto com Romeu, Aaron encarou-a dubiamente.

—Um acidente? Mas para quem usa até um porco para ganhar, atacar os olhos dos adversários não parece grande coisa…

—Oras você também estava atiçando Astolfinho contra Romeu e eu! — Julieta rangeu os dentes.

— Eu quase fiquei cego daquela vez. — Romeu a censurou com uma careta — Julys, você sempre age sem pensar, como uma Yop.

—Do que você me chamou? Yop? Que negócio é esse? — Julieta semicerrou os olhos.

Aaron estalou a língua.

—E já está se irritando, é muito Yop.

—Totalmente Yop. — concordou Romeu.

—Não sei que negócio é esse que vocês estão falando, mas estão pedindo uma surra. — o punho de Julieta se fechou sobre a mesa.

Aaron e Romeu se inclinaram um pouco mais um contra o outro.

—Ela está ficando irritada de verdade, é melhor pararmos por aqui. — sugeriu Romeu.

Mas, ainda que Julieta tenha afirmado veemente ter sido um acidente, tal como da última vez, novamente uma vareta voou direto para o olho do pobre Romeu e foi desclassificada sob forte — e inútil — protesto.

Por fim, Aaron ganhou a partida por uma pequena margem de dois pontos.

—Se minha noção de profundidade não tivesse sido afetada pela Julys… — Romeu lamentou.

Olhando-o seriamente, Julieta socou a palma da mão.

—Quer que eu comprometa sua visão por inteiro?!

—J-Julys! — ele gaguejou chocado.

—Julieta é melhor se comportar ou não brinca mais. — a mãe a advertiu como se ela fosse uma criança pequena — Vamos começar o último jogo agora, que tal?

E batendo palmas ela convocou as outras duas a trazerem uma porção de vassouras e rodos.

—O que é isso? Vamos bater uns nos outros? — questionou Julieta, esquecendo completamente a advertência anterior da mãe.

—Ou talvez iremos brincar de pinhata? — Aaron sugeriu fazendo alguns movimentos, como se estivesse com um taco imaginário nas mãos — Nesse caso, como nós ficaremos vendados, é meio que inevitável alguém sair golpeado.

—Posso estar errada, mas tenho quase certeza que não é assim que se brinca de pinhata. — Helena comentou com uma careta.

—Ninguém aqui vai bater em ninguém! — Maria Alice ergueu a voz para concentrar a atenção deles de volta em si. — O que faremos é uma corrida de vassouras…

—Tipo quadribol? — sugeriu Benjamin.

—Não, tenho certeza que teríamos ossos quebrados se eu resolvesse realizar uma partida de quadribol aqui. — ela riu — Apenas escutem…

Para a “corrida de vassouras” ao invés de correrem montados nas vassouras, como Benjamin pensou que seria o caso, todos iram atravessar o quintal enquanto equilibravam as vassouras de pé na palma de suas mãos.

—Isso sequer é possível? — Helena questionou, tentando inutilmente equilibrar a vassoura.

—Provavelmente é. — Benjamin confirmou, embora ele próprio também não estivesse tendo nenhum sucesso — O Chaves sempre equilibrava a vassoura na ponta do sapato.

—Então se alinhem, Valerie vai dar o sinal. — a mãe de Romeu os instruiu, abrindo um saquinho de pipoca, embora tivesse acabado de almoçar.

—O que fazemos se a vassoura cair? — questionou Romeu.

—Vocês a reequilibram novamente e voltam a correr depois de tê-la equilibrado. — Valerie respondeu prontamente.

Ainda assim ela deu a todos um tempo mínimo de cinco minutos para que todos tentassem equilibrar a vassoura antes de realmente fazer menção de dar o sinal.

—Todos prontos?

—Não!

Helena e Benjamin foram os únicos a responder, mas quer tivesse sido apenas os dois ou os cinco de uma vez, Valerie os ignorou e deu o sinal do mesmo jeito, é claro que Aaron e Julieta foram os primeiros a se moverem, ambos tentaram correr imediatamente após o sinal, mas foram obrigados a parar apenas dois ou três passos depois para apressadamente reequilibrarem suas vassouras, enquanto Romeu tentava cautelosamente avançar um passo e Benjamin e Helena permaneciam grudados em seus lugares, poucos segundos depois tanto Aaron como Julieta já estavam prontos para saltar mais alguns passos na corrida antes de suas vassouras despencarem mais uma vez, ambos pareciam estranhamente sincronizados, porém, quando eles tentaram dar a largada uma terceira vez algo bastante inesperado aconteceu: um dos dois, não se sabe qual, tropeçou e caiu, atrapalhando o outro que logo depois caiu junto e, quase imediatamente seguindo com o efeito dominó, Romeu caiu sobre eles também.

—Ai, mas o que você está fazendo idiota?! — Julieta reclamou.

—Eu? Foi você que me derrubou! — Aaron retrucou igualmente irritado.

Ambos estavam tentando se levantar, mas de alguma forma haviam ficado presos ali.

—O que? Você caiu primeiro! — Julieta o acusou.

—Só porque você me chutou!

—Foi você quem…!

—PAREM! PAREM COM ISSO VOCÊS DOIS! — quem os deteve, antes que quaisquer uma das mães dissessem alguma coisa, foi Romeu, já de pé não muito longe deles com uma expressão chateada enquanto segurava sua vassoura firmemente em uma das mãos — Por que vocês nunca podem parar de brigar?! — ele bateu o pé no chão — Eu estava muito animado para os jogos Capellettes e agregados, mas vocês estão estragando tudo! Heleno está lá dentro com dor nas costas sem conseguir se mover e ninguém liga! Margot passou o dia inteiro apavorada! Helena está toda equipada e mesmo assim está colecionando hematomas e arranhões! Julys você quase me cegou de novo e nem sequer pediu desculpas dessa vez! Você sempre foi competitiva, mas hoje está pior do que nunca! Aaron você me lançou voando junto com a cadeira na dança das cadeiras! Qual o seu problema?! E os dois jogaram o Astolfinho em mim na última corrida, ele podia ter quebrado a minha perna!

De repente surpresos e envergonhados pela repreensão inesperada, Aaron e Julieta se moveram desconfortáveis, afastando-se um do outro.

—Eu… hum… posso ter exagerado. — Julieta admitiu.

—Não, eu também me empolguei… e… acho que não devia ter te dado aquela cotovelada nos rins. — Aaron pigarreou. — Especialmente com seu histórico, sabe? Aquela vez em que me nocauteou na escola…

Ambos foram interrompidos quando, do celular de Vanessa o som de um apito soou alto e estridente: alguém havia finalizado a corrida.

Na outra ponta do quintal, Romeu comemorava saltando e sacudindo sua vassoura no ar.

—UHUUUUUUUU YEEEEEEES! — ele gritava. — Eu ganhei a corrida de vassouras!

—E com três vitórias nos jogos, contras duas vitórias de Julieta, duas vitórias de Aaron, uma de Heleno e uma de Benjamin, Romeu é o grande campeão dessa rodada de jogos. — Maria Alice anunciou com um sorriso divertido.

—Sim! Eu venci! Eu venci! — Romeu comemorava — Eu convidei Aaron até aqui sabendo que se competisse contra ele a Julys ficaria ainda mais hiper competitiva e descontrolada! Eu gritei quando Benjamin caiu, para distrair Julys! Eu continuei mencionando as regras extras e os incidentes anteriores para deixar todos de olho na Julys! Eu me mostrei o mais acabado e cansado possível no jogo de o mestre mandou para não me tornar um alvo em potencial na competição enquanto eles destruíam um ao outro! Eu chutei o Aaron!

Ainda sentados onde haviam caído e diante de tantas revelações, Aaron e Julieta se entreolharam surpresos.

—E ele ficou com raiva quando eu o matei no Among Us?! — Aaron reclamou.

À distância, Romeu arrancava a camisa e a girava por sobre a cabeça, dançando e comemorando:

—EU GANHEI! AHÃ! OH YEAH! AHÃ! AHÃ! AHÃ!


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Notas finais do capítulo

Talvez depois de tudo Romeu mereça um troféu kkkk



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