Regress escrita por Melanie North


Capítulo 6
Capítulo Seis




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Mas esse é o problema, quando você ama alguém não tem uma escolha. 

 

— Cassandra Clare, "Cidade das cinzas" 

 

 

Tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. 

 

— Antoine de Saint-exupery, "O pequeno principe"

 

 

 

Os dias depois daquela conversar foram mais silenciosos que o normal para Ronin. Se antes era o general quem evitava o rei, agora era o contrário, Mandrake parecia fugir de si evitado-o o quanto podia. Ele não entendia, se Mandrake não queria se envolver com ele então porque fazer aquilo? Porque trazer a tona sentimentos enterrados por tanto tempo? Porque ele disse que o amava se não o queria?  "Ha uma muralha de cadáveres entre nós e eu não estou disposto a escalar os corpos..."  suspirou cansado escapando por pouco do golpe da espada de Finn, com quem treinava. 

 

— O que aconteceu Ronin? Esta tão distraído. - o ruivo perguntou arracando o elmo da própria cabeça. 

 

— É apenas cansaço. - Ronin disse, não era exatamente mentira estava realmente cansado dessa situação. O grisalho removeu o próprio elmo e se sentou no chão, Finn se sentou ao lado dele. 

 

— É apenas cansaço mesmo, ou problemas com Mandrake de novo? - o ruivo chutou e soube que tinha acertado quando o general suspirou profundamente. - Quer conversar sobre?  

 

— Não. - Ronin disse, Finn não sabia de seus sentimentos por Mandrake, ninguém sabia nem mesmo Nod, ele se sentia melhor em enfrentar aquela situação sozinho. Não achava que os outros pudessem compreender, na verdade nem ele se compreendia. 

 

— Vocês têm que superar sua raiva e a guerra Ronin. - o ruivo disse. - Não podem viver a sombra dela para sempre. 

 

— Eu superei a guerra. Acho que quem precisa supera-la é Mandrake. - Ronin apertou o elmo até as juntas de seus dedos ficarem brancas. - Já eu preciso superar outra coisa agora. 

 

— Hum... quer saber Ronin,  acho que você precisa de um  tempo amigo. - Finn se levantou. - Eu assumo as tarefas de hoje, e de amanhã também. - Sorriu. - Vá descansar, e quem sabe depois consiga resolver o que está te distraindo. - Ronin não podia dizer que estava surpreso com a atitude do companheiro. Finn era um homem muito gentil e que se preocupava com os outros. Era muito especial com certeza. 

 

— Obrigado Finn. - o general disse por fim, talvez aquele tempo lhe servisse bem para pensar no que fazer a seguir, não deixaria essa situação por isso mesmo. Finn estava certo, tinham que superar a guerra. 

 

*** 

 

Para Mandrake os dias depois daquela conversa foram estranhos. Ece  lhe perguntou no dia seguinte se havia contado a Ronin sobre o que sentia, ele respondeu que sim, mas sua voz soou tão triste que a rainha não insistiu no assunto. O passar dos dias só foi pior, sua própria mente o acusava lhe perguntando como  pode negar Ronin daquela forma quando ele lhe disse que o amava da mesma forma? Ele só não conseguia parar de pensar na guerra, não conseguia parar de pensar em em Dagda, e nos tantos outros boggans que morreram naquela guerra. E também nos que morreram do outro lado. Dara por exemplo, por mais que a odiasse ela era importante para Ronin. Ela também estava naquela pilha, junto de Dagda. O que seu filho pensaria se o visse nos braços de Ronin depois de tudo o que aconteceu? Não, ele não podia fazer isso. Ao menos era o que dizia para si mesmo,  já que não importava quantos argumentos usasse não deixava de amar e desejar Ronin por isso. Foi exatamente por isso que ele passou a evitar o general, quanto menos visse o grisalho menos doeria para si a escolha que se obrigara a fazer. Com passar do tempo, fugir de Ronin se tornou doloroso e cansativo demais para suportar, então Mandrake decidiu que apesar da cortesia e hospitalidade de Ece estava na hora de voltar para o seu lar. 

Ece olhava para o rei questionando se aquela decisão era a melhor naquele momento. 

 

— Isso não é por causa do general é? - A jovem perguntou com cautela. 

 

— Não Majestade. - Mandrake suspirou. - Eu só sinto que devo voltar para o meu lar agora, e infelizmente ele não é aqui. Eu agradeço a hospitalidade pelo tempo que fiquei em seu palácio mas realmente preciso ir. 

 

— O palácio não é meu. Ele é de todos. - Ece sorriu. - Bom, rei Mandrake eu respeito sua decisão de voltar para sua "ilha". Sinta-se a vontade para voltar para ficar conosco, ou numa visita se assim desejar. Foi um prazer te-lo conosco. 

 

— O prazer foi meu. - o moreno disse e se foi deixado uma Ece triste para trás, tudo o que ela  queria era que as coisas acabassem bem. Bem de verdade, bem para todos. 

 

*** 

  

Ronin começava a ficar realmente preocupado, já fazia dois dias que não via Mandrake no jantar, muito menos nos corredores. Queria falar com o moreno de novo, mas ele parecia ter simplesmente desaparecido. O grisalho suspirou com os olhos fixos na paisagem do lado de fora do palácio. Talvez Mandrake estivesse certo afinal. Porque deveria querer ficar com alguém como ele (Ronin), foi ele quem matou o filho do moreno. Foi ele quem ceifou a vida de centenas de Boggans no campo de batalha. E foi ele quem quase o matou quando o atirou para a prisão da árvore na qual sobrevivera milagrosamente por quatro anos.  Alguns diriam que ele estava apenas fazendo o seu trabalho de proteger seu reino e seu povo. Mas que tipo de homem diz que ama uma pessoa quando já fez isso com  ela?  Aparentemente ele. Ele era esse tipo de homem.  Ronin deixou os ombros caírem e deixou os olhos descerem para o piso de madeira com tristeza. 

 

— General Ronin? - O grisalho tentou ajeitar a postura diante da rainha, mas já era tarde, ela já havia visto o quanto ele parecia destruído. - Esta tudo bem? Aconteceu algo? 

 

— Esta. - Pigarreou quando a voz saiu rouca. - está tudo em ordem majestade. - colocou as duas mãos atrás do corpo em uma postura confiante. - Eu preciso conversar com Mandrake, a senhorita o viu? 

 

— Oh você não soube ainda. - A rainha disse e a confiança de Ronin vacilou. - o rei Mandrake decidiu voltar para a ilha dele, partiu há dois dias. 

 

— Voltou para aquele lugar. 

 

— É o lar dele. Foi lá que ele nasceu e cresceu. - Ece disse suavemente. - É compreensível que ele queira voltar para lá. 

 

— Tenho razões para pensar que não foi por isso que ele voltou para lá. -  Ronin disse baixinho depois olhou para a rainha. - Com licença alteza, tenho assuntos a resolver. 

 

—  Tem toda general, espero que consiga resolve-los todos. - Ece disse com um sorriso que Ronin não viu, afinal ele já estava no final do corredor se dirigindo a saída do palácio. Iria até Mandrake e dessa vez ou o ganharia ou o perderia para sempre, porque ele era um homem de tudo ou nada.

 

 

O vôo até a "ilha" de Mandrake foi mais rápido que se lembrava, e o lugar também não era nada como se lembrava plantas rasteiras cresceram por toda a ilha espalhando flores das mais diversas cores e odores por ela. Havia um boggan na entrada do castelo de Mandrake. Alguns poucos haviam sobrevivido a guerra e se reunido ao saberem que seu rei ainda estava vivo, embora tenham se surpreendido com a mudança de Mandrake não se pode dizer que eles acharam ruim. Os boggans não eram criaturas más ou violentas apenas as situações os forçava a agir dessa forma. No geral eram um povo extremamente pacífico, até a guerra iniciada pelo rei pai de Mandrake. Talvez por isso estivesse fadados a perde-la. 

Ronin deixou o pássaro a alguma distância e terminou o percurso a pé. 

 

— Preciso falar com Mandrake! - o homem folha disse sério quando estava perto o bastante. 

 

— Meu rei não deseja falar com você. - disse o boggan na entrada. - ele me disse que você viria, perdiu que dissesse a você para ir embora e não voltar mais. 

 

— Infelizmente eu não posso fazer isso. - Ronin disse. - Eu preciso mesmo falar com Mandrake, é importante, e é pelo bem dele. - o boggan na entrada suspirou e deu um passo para o lado. 

 

— Tudo bem. Vá. - ele disse, Ronin não esperou que o boggan dissesse uma segunda vez para adentrar o largo corredor de pedra. O general gostava de lutar pelas coisas,  mas alcança-las sem luta era melhor.

 

Continuou andando pelos corredores de pedra. Ali também estava diferente de como se lembrava. O que antes era uma massa rochosa cinzenta e estéril, agora estava coberto por plantas com pequenas flores. Tudo ali transbordava vida, tão diferente do dono na última vez que o viu.  Encontrou Mandrake em uma grande galeria de pedra cujo piso estava cheio de flores vermelhas, brancas e azuis. Ele estava sentado no chão brincando com uma florzinha entre os dedos.  

 

— Sabia que em algum momento você viria. - disse o rei sem desviar o olhar da flor.

 

— Deduziu isso porque não terminamos a nossa conversa ou porque você fugiu de mim? 

 

— Eu não fugi de você Ronin. - Mandrake respondeu neutro enquanto se levantava e andava para o trono de pedra do outro lado do salão onde plantas trepadeiras se espalhavam. - E tenho certeza que terminamos a conversa. - Mandrake se sentou. - E eu deixei claro minha decisão a esse respeito. - Ronin suspirou profundamente e andou a passos largos até o trono.

 

— Mas eu não deixei claro o que penso sobre isso. - o general disse.  

 

— Ronin... 

 

— Não! - O general interrompeu o outro, colocou as mãos nos braços do trono ficando perto de Mandrake o suficiente para sentir o cheiro de ervas que vinha dele. - Isso não é justo com a gente. Eu passei anos com esse sentimento guardado Mandrake, passei anos negando isso, me dizendo que era impossível! Mas agora você está aqui Mandrake e você sente a mesma coisa que eu, finalmente posso te ter e não vou deixar essa chance passar. 

 

— A vida não é justa Ronin. - o moreno disse pronto para desviar o olhar, mas antes que o fizesse as mãos de Ronin estavam em seu rosto impedido que ele o fizesse.

 

— Eu sei que não é. - Ronin disse, seus olhos profundamente nos do outro. - A guerra não foi justo conosco, nem as escolhas que nos obrigou a fazer; ou as perdas que tivemos. A dor que veio com tudo isso. Nada disso foi justo. Mas eu estou aqui agora é você também, e eu sei que ficar juntos é o que nós dois queremos. Porque nós negar isso depois de tanto que já nos foi negado. 

 

— Ronin... - o moreno sussurrou, a voz dele tão baixa que o general pensou que ele iria chorar. - nós já falamos sobre isso. 

 

— Nos não precisamos escalar os corpos Mandrake. Podemos contornar a muralha, ela não precisa estar entre nós dois. - Ronin disse. - Dara me amou, e ela iria querer me ver feliz, e eu só poderei ser feliz ao seu lado. Dagda também o amava Mandrake, ele gostaria de ve-lo feliz. Todo o seu povo iria querer ve-lo feliz. Eu quero ve-lo feliz,  e vou lutar cada dia do resto da minha vida por isso. - O general se inclinou e uniu seus lábios com os dos rei, as mãos foram para seu ombro e nuca. Mandrake se arrepiou sentindo o sabor adocicado quando a língua do mais alto se encontrou com a dele numa dança lenta e quente. Elas se acariciavam se conheciam tocando cada canto da boca alheia famintas. A mão do rei foi para a nuca do general, estava beijando Ronin como sempre desejou; seu coração acelerou e os dedos seguraram firmemente os fios curtos do cabelo grisalho o puxando mais para si. Ronin gemeu no beijo e apoiou um joelho no trono de pedra para evitar uma queda, e acabou por se sentar sobre uma das coxas do rei sombrio. Desfizeram o beijo respirando com dificuldade. 

 

Mandrake apoiou a cabeça sobre o ombro do general, este plantava beijos tão suaves quando pétalas de flores caindo sobre a pele pálida de seu pescoço. 

 

— Eu te amo Ronin... - Mandrake sussurrou acariciando os cabelos grisalhos do homem em seu colo. 

 

— Eu tambem te amo. Então esqueça o mas que dirá após essa frase e fica comigo. - Ronin sussurrou de volta. Mandrake fechou os olhos com mais força. sabia que no momento não importava que argumentos usasse, e não tinha mais nenhum, havia perdido aquela discussão. Sabia que Ronin tinha razão,  tinha razão sobre seu filho e seu povo desejarem sua felicidade. Tinha razão sobre superar a guerra e a sombra dela que ainda estava ali. Mandrake levantou a cabeça, Ronin também quase ao mesmo tempo; o moreno sorriu e o general lhe deu um pequeno sorriso também. 

 

— Você não mudou tanto quanto pensei desde que éramos crianças. Continua com um sorriso lindo e fácil. - Mandrake disse. 

 

— Não tão fácil. - disse o grisalho. 

 

— E eu continuo a amar seu sorriso. - confessou o moreno e o maior corou levemente. - Lembra quando éramos adolescentes, quando ficávamos conversando até tarde a noite?  - perguntou acariciando a bochecha bronzeada pelo sol com a mão livre. 

 

— Lembro. - Ronin disse e sorriu. - Costumávamos falar de um dia em que o mundo poderia ser perfeito,  boggans e homens folha se uniriam na paz do equilíbrio. 

 

— Eu acho que esse dia finalmente chegou.  - Mandrake sorriu acariciando as maçãs do rosto de Ronin. - Eu quero ficar com você Ronin. - o sorriso de Ronin se alargou. 

— E eu com você. - disse e beijou o amado, amoroso, ardente, inesquecível como nunca havia feito antes e faria tantas vezes depois. Pois enquanto ele vivesse amaria Mandrake; e seus beijos, seu amor seria inesquecível. 

 

O amor só não florece quando não lhe dão espaço, e os dois estavam dispostos a dar espaço para que seu amor florescesse e quem sabe algum desse frutos. 

 

 

Fim?

Não existem fins, eles são apenas o novos começos. 

 


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