Regress escrita por Melanie North


Capítulo 5
Capítulo Cinco




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 Todo mundo tem escolhas a fazer ninguém tem o direito de tirar aquelas escolhas de nós,  nem mesmo o amor. 

 

— Cassandra Clare, "Cidade das cinzas" 

 

 

Ronin guiou Mandrake, por corredores bem iluminados próximo ao salão onde a festa da rainha acontecia. Aos poucos conforme se afastavam a luz se tornava mais fraca até que a única luz que iluminava o caminho dos dois homens era a luz da lua cheia que entrava pelas janelas. 

O general levou o rei sombrio para o salão a céu aberto onde  grandes flores roxas se abriam em lugar do teto, entre elas era possível ver as estrelas. A luz passava entre as pétalas e iluminavam chão coberto por pequenas flores azuis. Mandrake nunca havia visitado aquele lugar em seus passeios pelo palácio,  e ficou encantado com a beleza de tudo ali.  

 

— Que lindo! - o rei soltou, com um sorriso encantado. Ronin sorriu e disse:

 

— Ece adora esse lugar, e... - Se interrompeu quando percebeu o que ia falar.

 

— Dara também, não é? - Mandrake disse, o sorriso morrendo em seus lábios. 

 

— Sim. 

 

— Ela não é um tabu entre nós Ronin. - o moreno disse e o grisalho suspirou. 

 

— Não, mas pelo visto a história que a envolve é. 

 

— O que quer dizer? 

 

— Sabe o que eu quero dizer Mandrake! A nossa amizade, tudo o que nos passamos juntos. E depois você foi embora sem me dizer uma única palavra! Apareceu anos depois me olhando daquele jeito, como se não me conhecesse. - Ronin disse, e pela primeira vez em anos Mandrake viu um sentimento no rosto sempre indiferente do  general dos homens folha,  e era dor. Mais profunda do que qualquer flecha poderia causar. 

 

—  Eu não queria. - Mandrake disse baixinho. 

 

— Então porque? Porque você nos deixou? Porque você ME deixou? - Ronin perguntou num tom dolorido. - Você sabe o quanto eu sofri?

 

— Eu também sofri Ronin! Também doeu em mim!  

 

— Então porque? 

 

— Porque não dava mais pra continuar daquela forma. - Mandrake disse sem olhar para o outro. - Você não sabe o que aconteceu de verdade, sabe? 

 

— Sei que magoei você. Foi por isso que você foi embora, não foi? Por causa daquele beijo com a Dara. - O general disse. 

 

— Pelo visto não sabe mesmo. - Mandrake sorriu um tanto quanto amargo. - De nada. 

 

— O que? - Ronin olhou sério para o rosto de Mandrake. - Do que você está falando Mandrake? 

 

— Da razão de eu ter ido embora Ronin. - O rei foi franco. - Ver vocês se beijarem daquela forma realmente me magoou. Ver a forma como vocês se beijavam, como pareciam querer tanto aquilo,  me machucou profundamente. Mas não foi por isso que eu fui embora. 

 

— Não foi? - O general disse  confuso, enquanto seus olhos claros se encontraram com os escuros de Mandrake. - Eu achei que você amava a Dara.

 

— Eu não amava a Dara. - Mandrake disse. - Eu amava você Ronin. 

 

Os olhos azuis de Ronin se arregalaram e o general sentiu o ar faltar e seu coração martelar descontrolado seu peito como se quisesse sair de dentro dele. 

 

— O que... - sussurrou. 

 

— Eu  te amava. - Mandrake repetiu sem desviar os olhos dos de Ronin. - Na verdade ainda te amo,  mas preferi me enganar por todos esses anos dizendo a mim mesmo que te odiava. Me obrigando a pensar que eu sempre quis te destruir. Mas não é verdade, eu nunca odiei você. - Houve um instante de silêncio. 

 

— Porque você nunca me disse isso? - Ronin perguntou. 

 

— Eu queria contar pra você, mas eu não sabia como. - Mandrake desviou o olhar para as flores azuis. - Então eu pedi ajuda para a Dara, eu contei tudo para ela. 

 

— Dara sabia? 

 

— Ela sempre soube. - o moreno deu um sorriso amargo. - Antes mesmo que eu contasse para ela. Foi por isso que doeu tanto ver aquele beijo Ronin. Ela sabia o que eu sentia por você, sabia que era difícil pra mim dizer que te amava. Sabia o quanto significava para mim e ainda assim... - o moreno se interrompeu fechou os olhos com força para evitar que derramasse lágrimas. 

 

— Naquele dia ela me disse que estava apaixonada por mim. - Ronin disse baixo, seu tom era neutro, ele não queria ser cruel nem nada disso só estava contando um fato. - Ela nunca te disse nada a respeito? 

 

 

— Não. - Mandrake respondeu. - Ela nunca me falou nada a respeito. As únicas palavras que ouvi da Dara antes de partir foram que eu era um monstro doente, e jamais seria digno de você. Que você a amava e que meus sentimentos eram nojetos e imundos. 

 

— Ela disse isso?! - Ronin perguntou em choque. Dara realmente havia sido capaz de dizer algo como aquilo para Mandrake? Algo para alguém que era tão importante para ele. Os olhos do moreno se voltaram para ele.

 

— Sim ela disse,  foi por isso que eu parti e nunca mais voltei como amigo de vocês. - Mandrake disse a brisa noturna balançou a seus cabelos e a pele em seus ombros. - Mas você não precisa acreditar em mim, sei das coisas terriveis que fiz e do quanto sua amada Dara era importante para você. - a pele de Ronin se arrepiou e ele não soube dizer se foi pela brisa fria ou se pelas palavras do ex amigo. 

 

— Eu também fiz coisas horríveis Mandrake,  eu também lutei na guerra. Nenhum de nós dois é inocente, tenho certeza que sabe disso. - o grisalho disse. - E eu não amava Dara, não dessa forma pelo menos. Ela foi minha melhor amiga;  minha irmã; minha companheira mais proxima, a que me apoiava nos momentos difíceis, apenas isso. E independente do quanto eu amei Dara, eu acredito em você. 

 

— A-acredita? - Mandrake gaguejou incrédulo. 

 

— Eu acredito. - Ronin se aproximou mais do outro, Mandrake não recuou apenas permaneceu ali observando o general banhado pelo luar. - Acredito porque sei que como nós ela não era perfeita. Que como nós, ela também era capaz de fazer coisas cruéis simplesmente para magoar os outros. - o moreno desviou o olhar para as flores azuis. Os dedos de Ronin, ásperos pelo manuseio da espada e do arco tocaram seu rosto. Por um instante ficou imovel surpreso com o toque, mas logo o general ergueu seu rosto lentamente com gentileza,  como se ele fosse muito frágil e temesse machuca-lo com um movimento brusco. Seus olhares se encontraram e se prenderam um no outro. - Eu sinto muito por tudo o que Dara disse para você. Sei que não faz diferença, mas acho que ela não queria magoar você.  

 

— Eu acho que ela queria. - Mandrake segurou a mão do grisalho contra sua pele. - Mas agora não importa mais, ela não está mais aqui. - suspirou apertando suavemente os dedos de Ronin entre os seus. - Sinto muito por ter tirado ela de você. 

 

— Não posso dizer que esta tudo bem. Seria mentira se eu dissesse,  mas eu vou me recuperar. - o general disse sincero. - E... eu também tirei seu filho de você. Sinto muito por Dagda.  

 

— Minhas perdas foram uma consequência da minha escolha. - Mandrake apertou a mão do outro antes de solta-la e recuar um passo quebrando o contato físico entre eles. 

 

— Foi consequência das escolhas de todos nós Mandrake. - Ronin disse pesaroso. - Me desculpe se algum dia eu fiz parecer que a guerra foi culpa sua, porque não foi. E no passado,  eu... eu devia ter percebido como você estava se sentindo. Você era meu melhor amigo, era importante para mim, eu devia ter estado ao seu lado. 

 

— Não faça isso Ronin. - o estômago do moreno se revirou como se algo se movesse dentro dele. 

 

— Não. Você não entendeu. - Ronin disse abrindo e fechando as mãos nervosamente. - Estou tentando dizer que eu também amava você. - houve um pequeno instante de silêncio, ambos surpresos demais para dizer qualquer coisa. Mandrake por ter ouvido aquilo dos lábios de Ronin, o general por finalmente ter conseguido assumir aquilo para si e em voz alta. O grisalho suspirou profundamente. - E eu... Eu ainda o amo Mandrake, mesmo depois de todos esses anos. - O rei quis se jogar nos braços do general ao ouvir aquilo, quis beija-lo, quis pedir para que ele fosse seu. Mas aquela declaração não mudava  nada. 

 

— Eu não vou metir dizendo que não fiquei feliz em ouvir isso. Eu fiquei muito feliz. - o moreno disse. - Mas infelizmente não faz diferença para nós agora. 

 

— Mas... o que? - o general tornou confuso ao compreender as palavras do outro. Ele realmente pensava que depois de lutar internamente consigo mesmo para fazer uma declaração daquelas, poderia finalmente ficar com Mandrake, que ele sempre amou. Mas pelo visto estava errado. 

 

— Eu aceitei ter essa conversa apenas porque precisava te contar o que aconteceu. Em momento algum eu esperei que você retribuisse os meus sentimentos ou que desejasse ficar comigo. - olhou demoradamente para o olhar decepcionado do antigo amigo. - Há muito entre nós agora Ronin, uma muralha nos separa,  uma muralha de cadáveres e eu não estou disposto a escalar os corpos pra ficar com você. - disse com a voz despedaçada. - Eu sinto muito.  

 

Mandrake saiu dali o mais rápido que pode, ele não olhou para trás, não olhou para Ronin que estava tão destroçado quanto ele. Apenas  se foi para que o outro não pudesse ver as lágrimas que derramava por ele. 


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