Luz escrita por Labi


Capítulo 1
Único ♥


Notas iniciais do capítulo

Escrevi este drabble faz uns meses quando estava a sentir-me bem em baixo e ficou esquecido. Reencontrei o texto há alguns dias e resolvi editar e publicar porque o meu estado de espírito também não é o melhor e nada como angst para animar o kokoro



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Akutagawa sabia que tinha sido um erro. Aliás, ele sabia que ia cometer um erro e mesmo assim foi faze-lo, apenas pela sua teimosia e o seu péssimo vício de fazer o que quer quando bem lhe apetece. Não tinha como negar o magnetismo que Atsushi parecia ter, com os seus olhos dor de amanhecer e a sua voz suave.

Por meses, o moreno tentou ignorar o chamado do seu coração, lutando contra os seus próprios idealismos (quem diria). Dazai cada vez mais os manipulava a trabalharem juntos e cada longa missão parecia alongar-se ainda mais.

Akutagawa não era um homem impaciente, mas a sua rudeza e insensibilidade impossibilitavam-no de uma abordagem mais calma e ponderada. E, por isso, agia de cabeça quente. Sempre que Atsushi era o assunto, as suas decisões eram imponderadas e selvagens.

Em sua defesa, tudo tinha acontecido no final de uma longa batalha.

A adrenalina ainda pulsava em si enquanto a poeira dos destroços assentava e o faziam tossir ainda mais. Ao seu lado estava Atsushi ofegante e exausto, mas aliviado pelo resultado da batalha: tinha conseguido proteger Yokohama, a cidade amada de ambos, de novo.

O mafioso não conseguia identificar o que lhe passou pela cabeça. Se calhar eram os olhos bonitos de Atsushi, tão fixos e de aspeto felino. Aqueles malditos olhos cor de amanhecer, que tantas vezes passavam nos seus pensamentos quando regressava a casa do trabalho já o sol começava a raiar. Talvez fosse da sua determinação. Ou se calhar Akutagawa era como uma traça – uma horrível criatura da noite tentada pela luz e pelas criaturas da luz.

De qualquer das formas, agiu sem pensar.

“Jinko.”

Atsushi olhou na sua direção, já a fazer uma expressão amuada.

“O meu nome é-“

Atsushi

Akutagawa sabia bem o nome dele. Mas os seus lábios não o diriam porque ficaram subitamente ocupados. Puxou-o para próximo de si e beijou-o.

Finalmente.

Fazia meses que controlava a vontade de beijar aquele idiota. Tantas e tantas vezes tinha imaginado como o poderia calar quando ele começava com as suas ideologias pacifistas igualmente idiotas. O seu coração deu um pulo ainda forte e não havia nenhuma adrenalina que fosse tão intensa como aquela, nem mesmo uma batalha. Andava a negar os seus sentimentos pelo detetive fazia imenso tempo e trabalharem juntos mais frequentemente só tinha piorado a questão: passavam mais tempo juntos, longas horas de vigias durante a noite e longas perseguições atrás de suspeitos. Falavam mais, Atsushi baixara a guarda consigo, sorria mais, era mais sincero… O coração de Akutagawa permitiu que houvesse alguma esperança.

Que se pudesse agarrar naquela luz da sua vida.

Mas a verdade é que há criaturas que não estão destinadas a essa simples felicidade. Criaturas negras como ele, com as mãos manchadas de sangue inocente, com uma mente igualmente escura, densa e perigosa que exigiria muito trabalho para desbravar.

E quem, afinal, alguma vez se daria ao trabalho disso?

Atsushi suspirou e por um breve segundo uma das suas mãos cravou as unhas felinas nos ombros do moreno.

Mas fosse qual fosse o entusiasmo do frágil coração do mafioso, depressa murchou.

Atsushi usou a sua força para o empurrar para longe e Akutagawa apenas não caiu de traseiro no chão porque Rashoumon o protegeu. Ao abrir os olhos de novo, confuso, percebeu que Atsushi tapava a boca com a mão e estava furioso.

Akutagawa sabia que ele estava. Reconhecia bem o brilho intenso no seu olhar e aquela expressão. Eram, no final, rivais ainda assim.

“Mas que merda pensas que estás a fazer, Corta-Relvas?!”, berrou consigo, de lagrimas no canto do olho, e parte do tigre transformou-se de novo, “Como te atreves?!”

O moreno franziu o sobrolho. Não era bem aquela reação que Akutagawa queria, mesmo que a esperasse. E doía. Ele não sabia o por quê, mas doía. Sentia a necessidade de se justificar. O aperto no peito piorou e era uma dor intensa que se alastrava por todo o seu corpo. Um tipo de dor que se tinha proibido de sentir e sucumbir depois de anos e anos na Máfia. Depois de anos e anos de treino sob a alçada de Dazai.

“Que achas que estou a fazer Jinko-“

“Tu és um lunático!”, continuou a reclamar e agora tinha lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, de frustração e raiva. Ele sempre chorava por raiva, Akutagawa sabia.

Raiva por si. Para ser exacto.

“Jinko-“

“Não te atrevas a fazer uma coisa horrível destas!”

“Jinko--!”

Ele deu um rosnado felino e perdia gradualmente o controlo, assumindo a sua forma de um imponente tigre branco. O verdadeiro Jinko.

“Eu posso explicar.”, Akutagawa murmurou entre ataques de tosse, derivados da poeira e dos seus ainda mais frágeis pulmões após uma batalha tão intensa. Uma rejeição não o devia incomodar quando era previsível… mas incomodava.

O que aconteceu depois, surpreendeu o próprio moreno.

O Tigre atacou-o. Fúria refletida nos seus olhos e uma raiva intensa que o mafioso reconhecia, mas que não via direcionada para si fazia meses.

Akutagawa não se defendeu. Rashoumon tentou proteger da patada sem atacar de volta, mas a enorme pata do tigre mandou o mafioso a voar contra a parede no outro lado do velho edifício.

Ele não queria magoar Atsushi, nem o Tigre. Essa realização, enquanto sentia o sangue a acumular-se na sua garganta pela tosse intensa e as dores no seu corpo era muito pior que a ideia que podia gostar de Atsushi, de ter sentimentos por uma criatura da luz. Pela sua honra, precisava de lutar de volta, mas era como se o seu corpo simplesmente recusasse a mexer.

Outro rugido mais alto foi ouvido e aproximava-se. Akutagawa fechou os olhos, exausto. Vagamente, lembrou-se das palavras do seu antigo tutor;

 “Os fracos temem a felicidade. Conseguem aleijar-se até com algodão. Às vezes sentem-se feridos até com a própria felicidade.”

 

~*~

 

Mori encarava o executivo pacientemente e Chuuya estava nervoso, alterando o seu peso de uma perna para a outra. Era demasiado energético, fácil de ler e expressivo, Mori gostava disso nele.

O ruivo suspirou numa espécie de irritação, “Boss, nem sei que lhe diga. O Akutagawa está bem. Perdeu algum sangue e o arranhão que levou é meio chato, mas ele vai ficar bem.”

“Hum…” , pousou o queixo sobre as mãos e continuou a encarar Chuuya. Aqueles olhos azuis faiscantes e cheios de emoção lembravam o chefe da Máfia de certo presidente irritadinho e impaciente na juventude.

Sabia que Chuuya parecia medir as suas palavras e sabia também que o executivo era direto demais para esconder o que quer que fosse, era só preciso dar-lhe tempo.

“Chuuya-kun, o Tigre atacou um dos nossos mais preciosos membros em tempos de trégua. Isto era o suficiente para declaração de guerra.”, sorriu, fingindo-se pensativo, e viu o ruivo ficar um tanto aflito.

“Boss, eu não creio- Quer dizer, se me permite-“

“Claro, Chuuya-kun. Força.”, o sorriso aumentou. Se tinha planos de entrar numa guerra? Não. Mas amava causar transtorno nas pessoas. Era médico, nada como usar cobaias para testar as suas teorias. Além do mais, Chuuya estava próximo demais de Dazai de novo e Mori sabia que isso só traria desgraça.

“O Atsushi não controla o Tigre ainda, não me pareceu um ataque propositado.”

“Mas então como é que o Ryuunosuke foi parar ao hospital? Incompetência?”

Chuuya engoliu em seco. Não queria dizer abertamente ao seu chefe que o idiota não se tinha defendido, simples assim. Ouvia na sua cabeça a voz de Dazai (que era sempre um mau sinal e uma pontada mais próxima da loucura)  implicar consigo que ser coração mole e ter protegidos que ia ser a sua queda.

Bufou de leve e estalou com a língua, “Boss… Se lhe disser que é uma maldição, acreditaria em mim?”

Mori pestanejou, o sorriso caindo pela surpresa – Chuuya era sempre uma surpresa- e voltou a encostar-se atrás na cadeira, “Maldição?”

Chuuya bufou de novo e resmungava sozinho. Maldito Dazai com as suas malditas filosofias estúpidas, “A maldição da Double Black.”

“…O Dazai-kun fez bruxaria?”

“Não diria que não, Boss.”, resmungou mais irritado só por falar no demónio em pessoa, “Mas segundo a Múmia Estú—o Dazai falou-me uma vez que pelos vistos as Criaturas da Luz são quase como uma armadilha para nós. Consomem a nossa energia… Algo idiota do tipo.”

Mori levantou uma sobrancelha e o comentário que fez foi quase como se estivesse cravado um bisturi em Chuuya, “O mesmo Dazai que ficou tão encantado com uma criatura da Luz que decide nos trair e abandonar? Parece-me hipócrita, não achas, Chuuya? Quem é ele para insinuar isso quando ele mesmo é que é uma traça?”

Voltou a sorrir e bebeu um pouco do seu chá, não lhe escapando como o ruivo baixava o olhar e parecia sério demais. Ainda não tinha perdoado Dazai, era bom saber.

“Talvez, Boss. Foi uma opinião estúpida.”, murmurou e fez uma vênia, “Prometo treinar com o Akutagawa assim que ele sair do hospital.”

“Obrigado, Chuuya. Mas não te esqueças que deixar-se ser atacado pelo inimigo ainda dá direito a punição.”

O ruivo levantou o olhar de imediato para o encarar outra vez e Mori, de novo, conseguia ver os olhos de um certo presidente idealista que não acreditava em punições como castigo e que sempre o julgava por isso. Teve vontade de rir.

“Boss…”

“É uma ordem.” , sorriu de novo, amável, “Não podemos permitir que os nossos membros se afastem dos ideais da Port Mafia. Quem quebra regras, é punido. Ah nestas alturas o Dazai-kun faz muita falta, ele adorava essa tarefa~!”

“Afirmativo, Boss.”

Chuuya desviou o olhar endurecido e o chefe da Máfia quase que sorriu por dentro. Apesar de tudo, entendia o que o Chuuya queria dizer. Era sim uma maldição. As criaturas da luz existiam para criar tormentas e falsas esperanças de uma vida fora da escuridão. Mas as luzes apagam-se facilmente e as trevas prevalecerão. Quanto mais depressa Akutagawa, cuja habilidade era útil, tirasse da cabeça aquela ideia estúpida sobre Atsushi, mais depressa o caminho ficava livre para que melhorasse como mafioso.

Porém, também Mori ouvia uma voz na sua cabeça, talvez a da sua consciência, a dizer-lhe com desagrado, “Rintarou, isto é um erro.”

Mas Mori era excelente em ignorar essa voz.


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