Pegadinhas - CIP escrita por Casais ImPossíveis


Capítulo 1
Capítulo Único - Pegadinhas




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2009

Bia não deveria estar correndo para não suar no uniforme, mas aquela garotinha de sete anos sempre tinha energia demais para queimar, então estava em alta velocidade pelo corredor à caminho da sala de aula com uma lancheira das tartarugas ninjas na mão que fazia par com a mochilinha em suas costas, porém quando ia atravessar a porta de sua sala tropeçou e caiu no chão, ouvindo uma risadinha logo depois.

— Olha por onde anda, nanica. — ironizou o garotinho irritante, rindo enquanto voltava a encostar na parede o pé que havia colocado para a garota tropeçar.

Bia levantou sem chorar mesmo sentindo dor, encarou o sorrisinho cínico que conhecia tão bem e disse com uma calma assustadora. — Não pensa que não vai ter volta, Eduardo.

Duda balançou os ombros como se nem ligasse e desafiou. — Você pode tentar.

— Só espera pra você ver, seu fedorento. — a garotinha resmungou, bateu a poeira da roupa e entrou na sala.

...

A mãe de Bia estacionou o carro em frente à escola e se virou para ela esperando o típico pedido de “bença”, mas ao invés disso a garotinha juntou as mãos em frente ao queixo e fez seu melhor olhar de cachorrinho abandonado para pedir.

— Me dá dinheiro pra comprar lanche hoje?

— Só porque você tá indo muito bem nas aulas e tá merecendo um mimo. — a mulher respondeu tentando disfarçar que não conseguia resistir ao beicinho da filha. — Continua assim que você só tem a ganhar com a mamãe.

— Ebaaaa. Pode deixar, eu vou ser a menina mais inteligente de todas. — Bia prometeu com um sorriso que mostrava a “janelinha” do seu primeiro dente de leite caído enquanto via a mãe procurar o dinheiro na bolsa.

— Aqui, bebê.

— Mãe! Eu não sou mais bebê. — Bia resmungou de sobrancelhas franzidas, mas logo voltou a sorrir ao pegar a nota de cinco reais. — Obrigada. Eu te amo, mamãe.

A mulher riu e disse. — Até mais tarde. Comporte-se.

Então Bia tomou “bença” e desceu do carro. Naquele dia ela esperou pelo recreio com mais ansiedade do que os outros dias, não por causa do lanche, mas porque podia comprar um item essencial para sua vingança: chocolate.

Enquanto todos os seus colegas aproveitavam os últimos minutos de intervalo Bia voltou discretamente para a sala, colocou um pedaço do chocolate na boca até deixá-lo quente e mole, então esfregou na cadeira de Duda e saiu comendo o resto até o banheiro, onde lavou as mãos bem a tempo do sinal tocar. Depois foi só aguardar.

Lá pela metade do último tempo de aula Duda levantou a mão e pediu para a professora para ir ao banheiro, a resposta foi sim, mas assim que ele se levantou uma garota que se sentava logo atrás gritou.

— Aí, galera. O Eduardo vez cocô na calça.

— O que?! Não fiz não! — Duda gritou de volta, tentando fazer sua voz sobressair à uma explosão de risadas que dominou a sala.

A professora se levantou e olhou a parte de trás da calça dele que estava toda suja de marrom, então deu um estalo de pena com a língua e disse. — Vem, querido. Eu ajudo a limpar isso. Não precisa ficar com vergonha, acontece.

— Mas eu não... — o garoto tentou balbuciar alguma coisa, porém logo começou a ser puxado para fora da sala, só tendo tempo de olhar de relance para o resto da turma e ver Bia ali com um sorrisinho de deboche no rosto.

E foi assim que se iniciou uma guerra.

2013

Duda ouviu o sinal do fim do intervalo tocar e fechou muito rápido a bolsa de sua eterna rival, conseguindo sair da sala antes que seus colegas começassem a chegar e depois entrou no meio de todo mundo como se nada tivesse acontecido.

A aula era de matemática, então como o previsto a garota que sentava ao lado de Bia no fundão, Ana, pediu discretamente. — Amiga, me empresta seu celular só pra eu ver se minha conta tá certa?

— Pra tá certa ou errada você tinha que ter feito, peste ruiva. — ela respondeu rindo e virando para trás a fim de pegar seu Moto G na mochila preta com estampa de caveiras brancas. — Diz logo que quer a calculadora pra colar.

— Desculpa. É que matemática é um mistério pra mim. — Ana murmurou sentindo suas bochechas corando, mas logo que destravou a tela do celular começou a rir. — Uiuiui, quer dizer que a dona Beatriz é fã do Justin Bieber agora?

— Claro que não! Qual é, pirralha? Você sabe que eu sou do rock! — Bia resmungou de sobrancelhas franzidas e fazendo sinal de chifres com ambas as mãos.

— Não é o que parece. Meninas, saca só isso aqui. — a ruiva continuou rindo enquanto mostrava para as colegas uma montagem de várias fotos do astro pop do momento no papel de parede do Moto G.

— Ei! Vamos cessar essa bagunça aí atrás? — a professora repreendeu as meninas que começaram a gargalhar também.

— Foi mal, prof. — todas disseram em coro, tentando rir mais baixo.

— Ah qual é, meninas? Vocês me conhecem, eu não ia botar essa foto aí, nem sei como... Duda! — a ficha de Bia caiu enquanto ela tentava se explicar, então seu olhar vasculhou a sala a procura do sorrisinho cínico daquele garoto.

Duda encostou dois dedos na testa e tirou rápido como um cumprimento, assumindo a culpa pela pegadinha e fazendo Bia estreitar os olhos e sorrir de leve, já planejando o troco para ele. Claro que para outras pessoas que vissem de fora aquela pegadinha podia parecer bobinha demais para revidar, porém a garota tinha uma reputação a zelar e não podia ficar com fama de ser mais uma tonta que segue modinhas como ser fã do Justin Bieber.

...

Da janela do carro de sua mãe Bia conseguiu ver Duda sentado em um banco da pracinha em frente à escola. Ele não estava usando a mochila, o que queria dizer que havia deixado dentro da sala para guardar seu lugar.

— Tá com carinha de que vai aprontar. — a mulher disse depois de estacionar o carro e ver um sorrisinho maquiavélico estampando o rosto da filha.

— Não to nada. — Bia resmungou, fechando a cara. — Mãe, a senhora sabe que eu sou um anjinho. Te vejo mais tarde, tenha um bom dia no trabalho.

— Te amo, coisa cínica da mamãe.

Bia riu alto e saiu do carro, aproveitando que seu arqui-inimigo não estava vigiando suas coisas para ir até sua sala e pregar mais uma de suas pegadinhas. Essa funcionaria ainda melhor naquele dia, pois haveria uma prova no primeiro tempo.

Logo suas amigas chegaram e sentaram todas juntas para conversar, não deixando que ficasse suspeito para Duda ela estar ali quando a aula começou.

Assim que a professora entrou na sala a turma ficou em completo silêncio, esperando-a distribuir as provas.

Bia dominava muito bem aquela matéria, então enquanto resolvia as primeiras questões com a maior facilidade podia dar olhadas de relance para Duda que tinha o costume de primeiro ler toda a prova e pensar um pouco antes de começar a responder, quando ele finalmente abriu o estojo já haviam se passado vinte minutos.

Assim que pegou a primeira caneta e tentou escrever percebeu que a tinta não estava saindo, então virou a folha e fez movimentos rápidos para ver se voltava a funcionar. Ele franziu o cenho, pois a caneta era quase nova, depois deu de ombros e pegou uma segunda caneta para usar, mas essa também falhou. Quando isso aconteceu com a quinta caneta e Duda olhou para o relógio vendo quanto tempo estava perdendo nisso, um sutil ar de desespero começou a lhe dominar, fazendo Bia rir baixinho de seu lugar.

Como a sala estava em silêncio por conta da prova, o garoto conseguiu ouvir e logo virou o rosto para encará-la com sua melhor expressão de “eu já devia saber que era coisa sua”, ao que ela fez uma pequena continência, se gabando por sua pegadinha, e então jogou uma caneta para ele, afinal, zoeira sim, malvada jamais.

A professora viu a interação de longe, mas já estava acostumada com as brincadeiras e implicâncias casuais dos dois, sabia que não era passe de cola e nenhum dos dois estava fazendo muito barulho, sendo assim deixou aquilo passar só com um sorrisinho de canto e uma negação com a cabeça.

...

— Ei otária, espera aí. — Duda pediu enquanto Bia saía da sala para o intervalo.

— Fala, mané. — ela respondeu com um sorriso debochado.

— A pegadinha que você pregou em mim hoje. Como você fez? — perguntou curioso.

— Ah, foi fácil. — Bia riu e tirou um frasquinho de vidro do bolso. — Eu peguei as suas canetas e mergulhei as pontas em esmalte transparente. Dá pra tirar com um pouco de acetona ou você pode lixar com uma lixa de unha. E devolve minha caneta depois.

— Eu fiquei tipo “cara, não é possível, o quê que tá rolando?”. Foi muito boa, eu admito. — Duda comentou rindo, mas logo emendou. — Só não pensa que não vai ter volta, Beatriz.

A garota balançou os ombros e desafiou. — Você pode tentar, cabeça de melão.

— Só espera pra ver.

Mesmo que os dois gastassem de fato muito tempo planejando e armando um contra o outro, naquele momento eles perceberam que não se odiavam, havia algo como uma admiração ou respeito mútuo à genialidade “do mal” que tinham.

2015

O último tempo era educação física, então toda a turma estava na quadra da escola com as mochilas na arquibancada. Bia estava jogando queimado como a maior parte de seus colegas, distraída o bastante para Duda colocar mais um de seus planos em prática.

Quando a aula acabou, quase todos se amontoaram tentando chegar as bolsas primeiro para poder ir embora rápido, mas Bia, Cris e Ana estavam rindo e conversando sem pressa, assim sendo quase as últimas.

No entanto Bia percebeu que sua mochila preta com detalhes vermelhos da Grifinória estava muito mais leve assim que a pegou, além de parecer que havia algo se mexendo lá dentro, então de sobrancelhas franzidas ela decidiu abrir o zíper e dar uma olhada.

— Ai meu Deus! — exclamou encarando o interior da bolsa com um sorriso animado. — Ana, você tem uma sacola plástica?

— Tenho. — a ruiva respondeu.

— Me dá, rápido.

Ana pegou uma sacolinha de mercado que havia deixado bolsa depois de comer os doces que estavam nela e entregou para a amiga, dando um grito quando ela a usou para pegar o sapo que estava dentro da mochila.

— Credo, que nojo, que nojo, que nojo!

— Ai, para de frescura, pirra. — Bia a reprendeu com uma revirada de olhos. — Olha só pra esse mocinho que coisa mais fofa. Acho que vou chamar ele de... Grinch! Oi, Grinch, eu sou sua nova amiga. Meu nome é Beatriz.

— Eca. Você é estranha, Bia. — Ana respondeu ainda enojada. — Mas enfim, se tem um bicho na sua mochila só pode ser coisa do...

— Duda. — completou interrompendo a amiga.

— Eu. — o garoto confirmou saindo de onde estava escondido. — Só que isso não saiu como eu esperava.

— Se ferrou, mané. — Bia sorriu e colocou Grinch de volta na mochila com cuidado. — Agora você vai levar o meu material e deixar na minha casa mais tarde. Pra não machucar o meu amiguinho sapo aqui.

— Fazer o que? Umas a gente ganha, outras a gente perde. — Duda disse devolvendo o sorriso e dando de ombros, aceitando a derrota.

...

O sol já estava quase se pondo quando Duda decidiu sair para comprar um refrigerante, aproveitando que já estava saindo e que a casa de Bia era caminho para devolver o material dela que estava em sua mochila. Porém, assim que virou a esquina viu a garota chorando sentada no jardim da frente com o sapo na mão.

— É a primeira vez que te vejo chorar. — ele murmurou, se sentando ao lado dela.

— Eu não to chorando, seu mané. — Bia respondeu tentando sem sucesso enxugar as lágrimas com o braço já que as mãos estavam ocupadas.

— Posso ser mané e tal, mas não sou cego. Prometo que não vou contar pra ninguém, mas me conta o que aconteceu. — Duda disse com um sorriso gentil e solidário.

— Eu sempre quis ter um sapo desde que assisti Harry Potter a primeira vez e vi que era possível criar um, então eu pedi um bilhão de vezes pra minha mãe e ela nunca deixou. Quando eu apareci com o Grinch hoje, ela me esculachou toda e falou que não importava se era eu quem tinha comprado ou se era um presente, eu tinha que me livrar dele. — Bia contou sem conseguir reprimir alguns soluços de choro. — Eu não quero me livrar do Grinch. Faz horas que to sentada aqui sem saber o que fazer.

— Uau, você se apegou mesmo ao sapo.

— É só um bichinho como qualquer outro. Duvido que alguém ia estranhar se eu reagisse assim pra minha mãe me mandando me livrar de um cachorrinho.

— Verdade, as pessoas deviam valorizar mais os sapinhos. Minha mãe não ficou feliz de eu querer um de estimação, mas acabou aceitando. Eu comprei um terrário e tudo mais que ele precisa. — Duda revelou olhando com carinho para Grinch. — Não sabia que você curtia anfíbios também, eu só ia usar esse carinha pra te assustar. Eu fico com ele e você pode ir ver ele quando quiser na minha casa.

— Tá bom, só cuida melhor dele. Ele podia ter se machucado dentro da minha mochila. — Bia respondeu, aliviada por não ter que jogar o bichinho fora como se fosse lixo.

— Vem, vamos deixar o Grinch na minha casa. — Duda se levantou e ajudou-a a levantar também. — Boa escolha de nome. Eu já tinha pensado em um, mas acho que esse aí encaixou nele direitinho.

— Qual o nome que você tinha escolhido? — perguntou, dando os últimos soluços que restavam de seu choro já cessado.

— Te pago um refri se adivinhar. — o garoto desafiou com um sorriso.

— Hmmm... Hulk? — chutou a primeira coisa verde que veio à cabeça.

Duda riu antes de responder. — Passou longe. Ia ser Neville. Por causa de Harry Potter.

— Espera aí... Você gosta de Harry Potter? — Bia replicou surpresa, talvez até chocada ao receber um aceno positivo como resposta. — Mas Harry Potter é coisa de gente legal. E você é o maior mané.

— E você é otária. — ele rebateu rindo. — Quem sabe bem lá no fundo, bem bem fundo mesmo, você tenha um lado legal. Eu tenho um lado legal, só não ando usando ele com você.

— Secretamente você não é 100% mané e agora a gente cria um sapinho juntos? — Bia disse, fazendo-se rir com o quanto aquela frase soava ridícula dita em voz alta. — Caramba, que dia maluco esse.

— Né? — Duda concordou rindo junto.

2016

Um apito soou na quadra da escola e a professora anunciou que os alunos já deviam se lavar porque faltavam apenas alguns minutos para a aula de educação física acabar e logo eles teriam que voltar para a sala.

Duda, assim como os outros meninos com quem estava jogando futebol, foi em busca de sua garrafinha de agua que descansava na arquibancada e deu um golão com muita gana já que estivera correndo nos últimos quarenta minutos.

— Eca! — exclamou, cuspindo depois de sentir o gosto horrível.

— Ops. Acho que sem querer deixei cair um pouco de vinagre na sua agua. — Bia disse em tom bem cínico, fazendo boa parte dos colegas rirem.

— Mas tu é uma peste mesmo. — Duda respondeu rindo enquanto jogava fora o resto do liquido nojento na garrafa. — Hoje você vai lá em casa pra me ajudar a limpar o terrário do Grinch?

— Vou. — ela murmurou com um sorriso.

— Você já viu 12 é Demais?

— Já. Por quê?

— Poxa. — Duda lamentou, fazendo um pequeno estalo com a língua. — É que ontem eu aprendi a baixar filme e baixei esse. Se você quisesse a gente podia assistir junto.

— Sarah Baker é a minha religião. Nunca é demais assistir 12 é Demais mais uma vez. — Bia respondeu com um largo sorriso. — Agora é melhor a gente ir se lavar se não quiser chegar na sala fedendo a suor.

— Verdade, né?

Com isso Duda seguiu para o vestiário masculino enquanto Bia foi para o feminino em companhia de suas amigas Ana, Cris e Pata.

— Miga, o que foi aquilo? — Ana perguntou com um sorriso animado quando fecharam a porta do vestiário.

— Como assim? Aquilo o que? — Bia perguntou com as sobrancelhas franzidas.

— Ora aquilo o que. — Cris debochou. — O Eduardo te chamou pra assistir filme com ele. Miga, eu acho que é tipo um encontro.

Bia começou a rir esperando que as amigas rissem junto, mas ao perceber que era sério voltou a franzir a testa e disse. — Pera, tá falando sério?

— Até eu que sou meio desligada dessas coisas percebi o clima. — Pata concordou.

— Pelo amor de Deus, né meninas? — Bia respondeu com um sorriso. — Até parece que vocês não conhecem a dinâmica da minha amizade com o Duda. Eu preguei uma pegadinha nele e agora ele tá preparando uma pra mim. Simples.

— Mas até uns meses atrás era “a dinâmica da inimizade”, né bonita? — Cris comentou ainda em tom de deboche. — E parando pra reparar ele é bonito até.

— Rum. Vocês inventam cada coisa.

...

Duda estava lavando as mãos na pia da cozinha enquanto Bia enxugava as dela com um pano de prato logo depois que terminaram de limpar o terrário de Grinch.

— Tem doces e salgadinhos pra comer enquanto a gente assiste o filme, mas descobri que tem o 2 e baixei também. Acho que a gente vai ficar com fome de alguma coisa a mais nesse tempo de ver dois filmes e pensei em pedir pizza. — disse Duda, estendendo a mão para pegar o pano de Bia. — O que você acha? Quer dizer, isso se você quiser assistir os dois comigo.

— Claro! Quanto mais Sarah Baker melhor. E eu nunca dispenso uma boa pizza, então... — ela respondeu com um sorriso.

— Beleza, então a gente já pode subir. — ele sorriu de volta, mas com ar de nervosismo. — Vamos só pegar as besteiras pra gente comer.

— Tá bom. — concordou franzindo o cenho, lembrando do que Ana, Cris e Pata disseram mais cedo naquele dia.

Duda pegou uma vasilha grande de plástico e encheu com vários pacotes de salgadinhos e latas de batatas chips, depois foi até a geladeira, abriu e perguntou olhando para dentro.

— Qual refri você quer? Tem coca-cola, fanta uva, guaraná e Sprite.

— Guaraná.

— Beleza. E eu fico com a clássica coquinha gelada. — Duda respondeu colocando alguns doces e sua garrafinha de 600ml na vasilha, segurando a garrafa de Bia com a mão livre porque não tinha mais espaço.

Pelo menos era isso que ele queria que ela pensasse.

Os dois subiram as escadas e foram para o quarto de Duda, onde ele já havia deixado o notebook conectado à televisão e um monte de almofadas no chão entre a cama e a TV. Primeiro o garoto colocou as guloseimas no chão e depois foi dar play no filme antes de sentar há pouco mais de meio metro de distância de Bia, fazendo um certo esforço para não olhar para ela.

Enquanto os personagens começavam a ser apresentados em tela, Duda pegou um dos pacotes de salgadinhos e Bia fez o mesmo com uma lata de batatinha e conforme eles comiam o mais natural era a sede ir surgindo, até que chegou o momento em que a garota decidiu pegar sua garrafa de refrigerante e abrir, mas assim que o fez por algum motivo o líquido começou a espumar e vazar para tudo que é lado.

— Mas o que... — ela resmungou tentando fechar a garrafa de volta ou ao menos não se molhar demais.

— Te peguei. — Duda se gabou, começando a rir.

— Idiota! Eu sabia que você tava armando alguma coisa. — Bia respondeu estreitando os olhos e tentando não rir pra manter a pose de durona. — Como você fez isso?

— Usei uma agulha pra prender uma linha em um mentos, coloquei na boca da garrafa, fechei e cortei a linha que sobrou pra fora da tampa. Depois foi só esperar você abrir. — contou ainda com ar de riso, então disse. — Se quiser trocar de short, mas não quer ir em casa, eu posso emprestar uma bermuda.

— É, acho que vai servir em mim já que você é todo magrelo. — provocou-o ao mesmo tempo que aceitava o favor.

Duda levantou e foi pegar uma bermuda preta de tecido leve no guarda-roupa, fazendo Bia estranhar a falta de réplica, mas a pegadinha dele já havia sido feita, então ela continuou razoavelmente tranquila.

— Pode se trocar no meu banheiro. Aproveita pra lavar as pernas e as mãos enquanto eu pego um pano pra enxugar esse chão.

— Tá bom.

Bia seguiu para o banheiro que havia dentro do quarto para se trocar, mas quando olhou para o espelho preso na parede acima da pia percebeu que havia algumas palavras escritas com batom. Poucas. Porém muito significativas.

“Eu gosto de você.”

— Eu não sabia com você ia reagir... — a voz de Duda soou às suas costas, fazendo-a se virar em um sobressalto. — Pra ser sincero, eu esperava até um soco. Só que eu não conseguiria mais guardar isso pra mim, se eu tentasse ia explodir. Pra ficar claro, com esse “gosto” eu quis dizer mais que ami...

Duda não conseguiu terminar a linha de pensamento porque Bia o interrompeu com um beijo. Lentamente ele fechou os olhos e repousou as mãos na cintura dela ao mesmo tempo que sentia os braços femininos envolvendo seu pescoço.

— Eu sei que é mais que amigos, mané. E sinto o mesmo por você. — murmurou contra os lábios dele, sorrindo enquanto voltava a beijá-lo.

2016/2017

Era a véspera do ano novo, os pais de Cris estavam viajando e ela chamou alguns amigos para festejar a virada, incluindo Bia e Duda que já estavam ficando há uns bons meses, o que foi motivo de muita zoação dos amigos no começo, mas agora já estavam acostumados.

Todos estavam do lado de fora da casa, sentados em cadeiras de balanço ou de plástico, comendo e conversando enquanto esperavam para fazer a contagem regressiva.

— Vou ao banheiro. — Duda disse, se levantando e indo para dentro da casa.

— Cara, esse menino tem a bexiga de um esquilo. — Mosca comentou, fazendo todos rirem, pois de fato fazia pouco tempo que ele havia ido.

Demorou alguns minutos até que Duda colocou a cabeça para fora da porta e gritou. — Bia, corre aqui! Você tem que ver o que esse cara tá fazendo na TV. Rápido, rápido.

Bia nem pensou, levantou e foi correndo, tropeçando no pé de Duda assim que entrou.

— Olha por onde, tampinha. — murmurou rindo.

Por um instante todos os xingamentos do mundo passaram pela cabeça de Bia, porém nenhum chegou a sair de sua boca, pois quando ergueu a cabeça percebeu que no chão bem à sua frente havia uma cartolina branca com várias barrinhas do seu chocolate preferido coladas formando as palavras: “Beatriz, quer namorar comigo?”.

Duda a ajudou a levantar e pegou o cartaz doce do chão, entregando-o a ela.

Bia olhou para as barrinhas que formavam o pedido e lembrou que havia usado aquela mesma marca de chocolates para pregar sua primeira peça em Duda, o que a fez rir.

— O que foi? — o garoto perguntou nervoso.

— Nada. Lembrei de uma coisa. — ela respondeu ainda com ar de riso.

— De que? — Duda franziu as sobrancelhas e sorriu ao mesmo tempo em que os amigos começaram a contagem regressiva para a virada do lado de fora da casa.

— Ah, nada de importante. — Bia sorriu de volta e faz carinho nos cachinhos dele. — E a resposta é sim. Eu quero namorar com você.

Duda a segurou firme pela cintura e selou o namoro com um beijo ao som das centenas de fogos de artifício que coloriram o céu da cidade.


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