Tales of Star Wars escrita por Gabi Biggargio


Capítulo 15
A vida que jamais teria em Tatooine AU (Anakin x Obi-Wan / Anakin x Padmé)


Notas iniciais do capítulo

Mais um conto, amores, e o deu hoje é ESPECIALMENTE longo hahahaha

Espero que gostem. É uma continuação para os contos 2 e 7.



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Era tarde. Tarde o suficiente para o fluxo de speeders no céu de Coruscant ter diminuído (mas não cessado... nunca cessava). Já era a quarta vez que bocejava, lutando contra o sono, quando Obi-Wan se deu por vencido: fechou o livro que lia e colocou-o sobre o criado-mudo ao lado de sua cama no templo Jedi. Com um aceno de mão, o interruptor (do outro lado do quarto) foi acionado e a luz se apagou. Ele puxou as cobertas por cima do corpo, ajeitou-se na cama e fechou os olhos.

            Foi apenas no silêncio de seu quarto, naqueles poucos instantes antes de adormecer, que ele percebeu. Havia algo diferente. Uma sensação de desconforto que sentira em alguns momentos do dia, mas que, naquele momento, retornava de forma alarmante, como se algo estivesse preste a acontecer. E ele não sabia dizer se era algo bom ou ruim. Uma sensação de desconforto imprecisa, que acelerava seu coração e o mantinha alerta. Uma sensação progressivamente crescente. Como se algo se aproximasse no corredor...

            Sem acender a luz do quarto, Obi-Wan se levantou. Seu sabre de luz voou de sua cômoda até a sua mão enquanto ele caminhava descalço, a passos leves, até a porta, atento a todo movimento que pudesse estar acontecendo no Templo Jedi. Sim... Algo definitivamente se aproximava... Parado ao lado da porta, ele empunhou o sabre de luz com as duas mãos, brandindo-o acima de sua cabeça, pronto para atacar.

            Quando a porta se abriu e um vulto pulou para dentro do quarto, o mestre Jedi acionou o sabre e desferiu seu golpe, interrompendo-o centímetros antes de a lâmina de plasma atingir um afobado e pálido Anakin Skywalker.

            — Anakin? – ele desligou o sabre. – O que está acontecendo?

            — Mestre – o rapaz arfava, recuperando o fôlego, curvado, com as mãos apoiadas nos joelhos. – É Padmé... Ela... O bebê está nascendo...

***

            — Acalme-se, Anakin – disse Obi-Wan, sua voz era calma e controlada.

            Desde que os dois subiram naquela nave, Anakin mal se sentara. Como era de se esperar, ele andava de um lado para o outro. Suas mãos se moviam de forma aleatória e descompassada, traduzindo a sua inquietude. Sua respiração estava acelerada e sua mente estava em Naboo, não ali.

            — Você precisa se acalmar – o mestre Jedi tornou a repetir. – Padmé deve estar com muita dor e, quando chegarmos em Naboo, ela vai precisar que você seja o amparo dela. E você não vai conseguir exercer essa função se estiver desse jeito.

            Nervoso e com gotas de suor frio escorrendo pelas suas têmporas, Anakin ocupou o assento ao lado de seu antigo mestre.

            — Tem razão – ele disse, tentando se manter calmo.

            Mas foi inútil: o rapa mal havia se sentado e seu pé direito começou a bater repetidamente contra o chão. Havia apenas uma coisa que podia ser feita.

            — Anakin, sente-se no chão – disse Obi-Wan, levantando-se da cadeira e se sentando no chão. – Vamos meditar um pouco.

            — O quê?

            — Sente-se-no-chão – Obi-Wan disse pausadamente, mas, dessa vez, com a voz dura e firme, do mesmo jeito que ele falava com Anakin quando ele era apenas um Padawan rebelde e incontrolável.

            E, mesmo tantos anos depois, ainda funcionava. Assustado ao ouvir o mestre falar daquela forma, Anakin obedeceu.

            — Não sei como isso vai ajudar Padmé.

            — Não vai – o mestre Jedi rebateu. – Vai te ajudar. Agora, cale-se e feche os olhos.

            De olhos fechados, os dois Jedi se mantiveram em silêncio por alguns segundos.

            — Inspire – comandou Obi-Wan. – Expire.

            Anakin obedeceu. Nesse momento, Obi-Wan abriu um dos olhos e constatou que o indicador robótico de Anakin batia repetitivamente contra seu joelho.

            — Anakin!

            — Desculpe, mestre.

            Novamente, silêncio. Dessa vez, Obi-Wan mantinha os dois olhos abertos, surpreendendo-se que Anakin conseguira se manter de olhos fechados por aqueles valorosos e grandiosíssimos quinze segundos. Mas ele continuava visivelmente impaciente e Obi-Wan sabia muito bem o que fazer. Lentamente, evitando ser percebido, o mestre Jedi estendeu a sua mão em direção ao seu antigo aprendiz, o que o possibilitou sentir toda a turbulência de sua mente e, com a Força, drená-la aos poucos.

            Os resultados foram evidentes. Ao longo dos próximos segundos, Obi-Wan viu a face de Anakin assumir uma expressão mais tranquila ao mesmo tempo em que seus músculos relaxaram e a sua respiração se tornou suave e ritmada. Completamente diferente do homem descompensado que conversava com ele instantes antes. Diferente até demais...

            Com medo de que tivesse feito algo mais grave do que apenas acalmá-lo, Obi-Wan se aproximou e tocou o ombro dele. Anakin nem sequer se mexeu. Como se não tivesse percebido o que havia acontecido. Preocupado, Obi-Wan optou por um novo movimento. Dessa vez, um pouco mais brusco: um leve tapa no rosto. Nada. Anakin estava em alfa.

            Sobre a bancada de controle da nave, o holocomunicador de Obi-Wan vibrou. Ele se levantou, dirigindo-se a ele. Ao acioná-lo, ele imediatamente acreditou que o holograma à sua frente era Padmé, mas essa possibilidade se desfez em sua mente quase imediatamente quando ele se lembrou de que, naquela exato instante, Padmé era uma gestante em trabalho de parto.

            “Saudações, mestre Kenobi”, disse Dormé (ou seria Sabé?). “Desculpe-me procurar pelo senhor, mas tentei contato com o general Skywalker e ele não me atendeu. A senadora Amidala disse que você estaria com ele.”

            — Estou sim – disse Obi-Wan. – E me desculpe por isso. A culpa é minha. Sem querer, eu deixei ele em transe e por isso ele não te respondeu.

            “Entendo”, disse a dama de companhia. “A senadora Amidala gostaria de saber se vocês ainda vão demorar para chegar.”

            — A julgar pelos dados do piloto automático, estaremos em Theed em cerca de cinquenta minutos – ele respondeu. – De lá, seguiremos para Varykino o mais rapidamente possível.

            “Perfeito! A senadora realmente gostaria que o general Skywalker estivesse aqui no momento em que as crianças nascessem.”

            Crianças?!

            — Perdão? – disse Obi-Wan, conseguindo evitar que gaguejasse mas não conseguindo evitar que a surpresa e o choque (e o horror) ficassem gravado em cada ruga de seu rosto. – Você disse “crianças”?

            “Exatamente”, foi a reposta. “A senadora está esperando gêmeos. Um infortúnio não terem percebido antes, pelo que o droide médico explicou, as chances de algo assim acontecer são muito baixas. Mas acabaram percebendo isso poucos minutos atrás, quando avaliavam a senadora. Você poderia informar ao general quando ele... acordar... desse transe?”

            A resposta de Obi-Wan demorou um pouco para ser proferida, pois seu queixo estava caído e tremia.

            “Mestre Kenobi...?”

            — Ah, sim... claro... eu... eu vou contar pra ele sim... sim, eu vou...”

            “Ah, e mais uma coisa”, continuou a dama de companhia. “A proibição de vôo de naves em Varykino está valendo apenas para naves militares. Um veículo oficial estará esperando vocês dois em Theed assim que chegarem.”

            Com uma notícia gigantesca como aquelas para dar para Anakin, ser preso por quebrar a lei de proibição de vôo de naves sobre a região dos lagos em Naboo era, de longe, o menor dos problemas de Obi-Wan naquele momento.

***

            Era um fim de tarde muito semelhante ao em que Anakin e Padmé haviam contado a Obi-Wan sobre seu casamento secreto e sobre Anakin ser o pai da criança que ela carregava dentro de si. Àquela altura, apenas algo muito grave iria requerer a atenção de um dos dois novamente e, dada a improbabilidade de algo assim, uma conversa entre os dois Jedi nos jardins do Templo era o momento perfeito para começarem a planejar com cuidado os próximos passos.

            Mestre, mais uma vez, obrigado – disse Anakin, caminhando lado a lado com o Jedi entre as árvores, quase não parecendo que estavam no coração de Coruscant. Ao fundo, ouviasse apenas o som de alguns Padawans treinando suas habilidades com o sabre de luz. – Não sei o que faríamos sem você. Estaríamos perdidos.

            Ah, com certeza estariam – disse Obi-Wan, em um tom de voz suave que fez Anakin ficar em dúvida quanto ao fato de seu mestre estar falando sério ou sendo sarcástico. – Mas fico feliz em ajudar. Mas, para isso, eu preciso de detalhes. Eu preciso que você me conte exatamente como é o seu sonho. Preciso de detalhes se vou tentar interpretar alguma possível mensagem que a Força possa estar tentando te transmitir. Consegue me descrever?

            Anakin fez um “uhum” com a boca, confirmando.

             Eu sonho com isso quase todas as noites desde que ela me contou que estava grávida, mestre – ele respondeu. – Detalhes são o que não falta.

            Por alguns segundos, os dois homens ficaram em silêncio. Anakin parou sobre um guardo-corpo de metal, conseguindo observar a face norte do centro de Coruscant em toda a sua movimentação.

            Eu vejo Padmé em trabalho de parto – ele começou. – Ela grita de dor. Por alguns instantes, parece ser apenas a dor do parto. Há sangue. Muito sangue. Ela está fraca. Mas, então, eu ouço o choro do bebê.

            Obi-Wan se aproximou de Anakin e viu os olhos dele lacrimejando. Uma lembrança muito vívida e dolorosa para ele, sem dúvida.

            Por um instante, parece que Padmé está bem – Anakin continuou. – Ela não tem mais dor e está sorrindo. Mas ela volta a gritar. Há ainda mais dor do que antes. Mais sangue.

            E...? – perguntou Obi-Wan, quando Anakin parou de falar.

             Eu não sei, mestre – ele respondeu. – É nesse momento que eu sempre acordo. Mas durante todo o sonho eu só consigo sentir medo. Angústia. Uma sensação estranha de que algo muito grave vai acontecer. Da mesma forma que eu sentia quando sonhava com a minha mãe.

            Era impreciso. Uma visão muito imprecisa. Mas o suficiente para gerar o sofrimento que Anakin e Padmé estavam sentindo. Obi-Wan inspirou fundo, aproximando-se do aprendiz. Como ele não se sentira confortável em contar sobre aquilo mantendo contato visual, o mestre Jedi respeito essa decisão, apoiando-se sobre o guarda-corpo de metal e observando Coruscant.

            Eu entendo o medo que deve estar sentindo, Anakin – Obi-Wan começou. – Ouvi sobre esse sonho é uma coisa, mas vivê-lo deve ser outra completamente diferente. Eu imagino o quanto deve estar se sentindo angustiado.

            Houve silêncio. Como Anakin não disse mais nada, Obi-Wan decidiu prosseguir.

            Mas eu quero que se lembre de uma coisa que eu te ensinei – ele disse. – Uma coisa que eu já ouvi até o Mestre Yoda validar pra você. As visões da Força...

            ... não devem ser interpretadas literalmente – Anakin completou, mostrando sua impaciência. – Mas esse não foi um sonho onírico e cheio de metáforas, mestre. Eu literalmente vejo Padmé a minha frente.

            Eu entendo, Anakin. Mas mesmo os sonhos mais concretos podem ser mal interpretados. Como você mesmo disse, você não chega a ver o final do sonho. Não acredita que isso possa ser uma peça chave para interpretar essa visão?

            Após um curto espaço de tempo, Anakin fez que sim com a cabeça.

            Mesmo assim, interpretações literais nunca devem ser descartadas logo de primeira – Obi-Wan continuou. – É por isso que eu avisei meus contatos sobre o caso. Eles vão conseguir um exemplar do modelo mais moderno de droides-médicos até a data do parto e vão estar pessoalmente presentes em Varykino quando acontecer.

            Obrigado, mestre – disse Anakin e, finalmente, se virou para encarar o mestre. – Quem são eles, afinal? Os seus contatos?

            Dessa vez, foi Obi-Wan quem demorou para responder.

            — Quando eu e mestre Qui-Gon precisamos proteger a duquesa de Mandalore, nós viajamos a galáxia inteira, sempre atrás de um novo esconderijo que julgávamos impossível de ser descobertos – ele começou. – Vou encurtar a história e dizer que conhecemos muitas pessoas. Eu devo favores a algumas delas e outras devem favores pra mim. Então, achei que esse seria o momento de cobrar uma velha dívida. Mas eu confio neles. Eles vão ajudar, acredite. Padmé e o bebê estão em boas mãos.

            Era difícil acreditar que aquilo seria seguro. Confiar a vida de Padmé e de seu filho a pessoas que deviam um favor a Obi-Wan. Mas Anakin confiava no julgamento de seu antigo mestre. Se ele achava essas pessoas confiáveis, ele também achava.

            — Anakin, posso te fazer uma pergunta?

            Dessa vez, era Obi-Wan quem evitava contato visual.

            — Claro, mestre – a resposta foi imediata.

            — Por quê? – perguntou Obi-Wan. – Para todo mundo, você é um Jedi exemplar, mas a verdade que todos desconhecem é que você escolheu ativamente violar o Código. Não que isso faça você ser um Jedi menos exemplar pelo meu julgamento, apenas deixando bem claro. Mas... por quê? Você tinha tudo. Tinha uma vida que jamais teria se tivesse continuado em Tatooine. O que te fez seguir por esse caminho?

            Obi-Wan praticamente vomitou essas palavras, mas, finalmente, estava feito. A pergunta que ele tivera na ponta da língua desde que soubera do casamento secreto de Anakin e Padmé. Em várias oportunidades, ele quase havia feito essa pergunta, mas acreditou que poderia ser mal interpretado. Mas o desejo por uma resposta era maior do que sua cautela.

            Precisava saber.

            Ao contrário do que ele esperava, Anakin não agiu de forma evasiva, como ele previra. O cavaleiro apenas demorou um pouco para responder.

            — Eu não tinha tudo – ele respondeu. – Eu não tinha nem tudo o que os Jedi podiam me oferecer. Desde que cheguei aqui, eu sempre fui tratado de forma diferente. Cobravam de mim uma disciplina e uma excelência que eu acho que nunca vou estar preparado para oferecer. Sem nunca mostrarem um único sinal de reconhecimento – nesse momento, ele se voltou para Obi-Wan. – Mas, por favor, mestre, não pense que me refiro a você. Você talvez tenha sido a única exceção.

            Havia dor na voz de Anakin. Uma dor acumulada ao longo dos últimos vinte e três anos.

            — Eu sei que não devia querer reconhecimento – Anakin continuou. – Humildade faz parte do Código. Mas é impossível não perceber a forma como outros Padawans eram recebidos por suas missões bem sucedidas enquanto apenas os meus erros eram constantemente jogados no meu colo. Como se eu estivesse me tornando o fracasso que eles sempre acharam que eu seria.

            Obi-Wan não ousou contestar. Nenhum outro cavaleiro ou mestre usara exatamente aquelas palavras, mas ele reconhecia esses pensamentos em falas e gestos de muitos de seus companheiros no Templo.

            — No final do meu treinamento, eu cheguei a me perguntar muitas vezes se era isso que eu queria – Anakin disse. – Se eu ia ficar o resto da minha vida em um lugar onde eu era tratado mais como um peso a ser carregado do que como um membro integrante de uma equipe. E eu estava prestes a abandonar a Ordem.

            — Mas por que você não veio conversar comigo, Anakin?

            — Eu não queria te decepcionar mestre – a resposta foi imediata. – Você havia gastado os últimos dez anos da sua vida se dedicando em me treinar. Eu não queria te dar esse desgaste. Eu ia falar com você apenas quando tivesse feito a minha decisão.

            Obi-Wan voltou a se calar, satisfeito com a resposta.

            — Mas, então, Padmé entrou na minha vida de novo – Anakin disse. – E eu senti nela um apoio que não sentia em mais ninguém. Ela me entendia. Ela me apoiava. Ela me deu um novo motivo pra continuar. Então, depois que nós nos casamos, eu percebi que era aquilo que me faltava. Que, com ela do meu lado, eu poderia continuar na Ordem e cumprir o meu dever. Porque, no fim do dia, havia alguém do meu lado que me entendia e não me julgaria. E que me amava.

            Nesse momento, os dois homens se encararam.

            — Por muito tempo, eu achei que os Jedi estavam certos em me tratar daquele jeito – disse Anakin. – Mas Padmé me mostrou que não. Que eu merecia mais. E é por isso que eu não posso deixa-la morrer, mestre. Quando eu digo que eu não posso viver sem ela, não é só o delírio de um idiota apaixonado. É ela quem me dá forças pra continuar.

            — Mas os Jedi te reconheceram, Anakin – disse Obi-Wan. – Veja quantas condecorações você já tem acumuladas.

            — Agora nas Guerras Clônicas – ele rebateu. – Mas, esse reconhecimento veio, eu já estava casado com Padmé. Não tinha mais como voltar atrás. E, mesmo que tivesse, eu não voltaria.

            Obi-Wan se aproximou e tocou o ombro de seu antigo Padawan.

            — Eu te entendo, Anakin – ele disse. – Não vou dizer que concordo, porque não concordo. Mas eu te entendo. E mais do que isso, eu não te julgo pelas escolhas que fez. E é por isso que eu vou ajudar vocês. Padmé não vai morrer no parto. Os bebês vão nascer bem. E nós vamos encontrar um jeito de mantê-los em segredo pelo tempo que for necessário. Eu te dou a minha palavra.

***

Do transporte militar, que sobrevoava os lagos de Naboo a uma velocidade perigosamente excessiva, o rancho de Varykino se tornou visível. A maioria das luzes estava apagada, exceto as de alguns dos quartos nos andares mais altos. A nave, então, começou a perder altitude. A cada metro a menos, o coração de Anakin parecia acelerar dez batimentos a mais por minuto. Ele estava a ponto de saltar da nave, mesmo essa estando ainda há dez metros de altura.

            — Anakin, antes de você se encontrar com Padmé, eu preciso te contar uma coisa – começou Obi-Wan, parado ao seu lado.

            Ele havia postergado aquele momento até o último segundo, mas não havia mais chance. Sabia que, assim que a nave pousasse, ele perderia Anakin de vista em questão de segundos e, então, ele descobriria a verdade quando entrasse no quarto e visse Padmé segurando não apenas um, mas dois bebês.

            — Sim, mestre? – disse Anakin, sem nem sequer olhar para Obi-Wan.

            Ele apenas olhava o pátio em que pousariam, preparando-se para saltar e correr.

            — Eu acredito que descobri o verdadeiro significado dos seus sonhos – Obi-Wan vomitou as palavras.

            Como previra, ser direto daquela forma havia conquistado a atenção de seu Padwan. Anakin olhou para ele. A curiosidade e o desespero tatuados em cada linha de seu rosto.

            — Você me disse que ouviu o choro do bebê e que, logo em seguida, Padmé voltou a sentir dor, não é? – ele começou, e Anakin fez que sim com a cabeça. – Talvez, não seja porque Padmé está morrendo no parto. Mas porque o parto ainda não acabou.

            Anakin recuou, sem entender o que seu mestre estava querendo dizer. Talvez, a abordagem sutil não seria o suficiente para uma pessoa tão ansiosa como Anakin. Ansiosa a ponto de prejudicar sua capacidade de raciocínio.

            — Por favor, Anakin – Obi-Wan o repreendeu. – Você é mais inteligente do que isso!

            O veículo pousou. No pátio, Gregar Typho e Sabé (ou seria Moteé?) já os esperavam no momento em que as portas se abriram. A vibração causada pela chegada da nave ao solo e o impacto avassalador da notícia derrubaram Anakin no piso frio do pátio.

***

            Varykino era realmente um lugar apaixonante. Sob a tímida luz do sol nascente, o céu em Naboo assumia uma coloração violácea que contrastava com as luzes amareladas das casas que acordavam nas margens opostas do lago. Alguns pássaros começavam a cantar e havia um frescor de orvalho no ar. Era tudo tão calmo, tão sereno. Um pequeno pedaço de paraíso que fez o mestre Jedi esquecer, por alguns instantes, que a galáxia estava em meio a uma violentíssima guerra. Um pequeno pedaço de paraíso tão sereno que, mesmo sentado, fazia a cabeça de Obi-Wan pender levemente por algumas vezes, sendo seguida de uma guinada brusca para se çevantar quando ele percebia que estava adormecendo.

            — Mestre Obi-Wan?

            Ele foi retirado de seu limbo entre a vigília e o sono. À sua frente, uma das damas de companhia de Padmé estava parada ao lado de uma das portas. Provavelmente Ellé. Ou Miré. Ou seria Rabé? Pela Força, eram todas parecidas. Como raios Anakin e Padmé sabiam qual era qual?

            — Sim? – ele respondeu.

            — Lady Amidala e general Skywalker estão chamando o senhor – ela disse. – Querem que conheça os bebês.

            Um calafrio percorreu a espinha de Obi-Wan. Por que raios estaria tão nervoso? Talvez porque estivera esperando por esse momento mais do que qualquer outra coisa nos últimos meses? Talvez...

            Ele limpou o suor das palmas de suas mãos nas calças, sobre os joelhos e se levantou, deixando os jardins e seguindo a dama de companhia para dentro da adorável construção que era o palácio de Varykino. Eles passaram por alguns corredores até chegarem a uma escada em espiral. No primeiro andar, a jovem conduziu Obi-Wan até um quarto, parando ao lado da porta e permitindo que ele entrasse.

            Seu coração dançava freneticamente em seu peito quando ele cruzou a porta. Não era um quarto grande, mas havia muitas pessoas lá. Eirtaeé (ele sabia que era ela, era a única loira) estava ao lado da cama, ajoelhada enquanto conversava com Padmé. No colo da senadora, um pequeno embrulho branco. Quando Padmé viu Obi-Wan entrar, ela sorriu para ele.

            Do outro lado do quarto, estava Anakin, em pé. Assim como a esposa, ele tinha um pequeno embrulho de tecido branco nos braços, mas, ao contrário dela, ele não conseguia desviar o olhar. Era como se o mundo tivesse se dissolvido para o cavaleiro e mais nada importasse. Ele demorou a notar a presença de seu antigo mestre no quarto, mas, quando o fez, avançou até ele.

            — Mestre, quero que conheça o Luke.

            O pior pesadelo de Obi-Wan se concretizou no momento em que Anakin estendeu o bebê para que ele o segurasse. Não fazia a menor idéia de como segurar um bebê, mas antes que pudesse protestar, Luke Skywalker estava em seus braços. Pequeno, frágil e dormindo.

            — Parabéns pra vocês dois – ele disse, aproximando-se de Padmé para poder ver o outro bebê.

            — Obrigada a você, Obi-Wan – rebateu Padmé. – Não teria sido possível sem você. Essa é a Léia.

            Naqueles rápidos instantes, todo a galáxia podia ser resumida ao que acontecia naquele quarto. Que se explodissem o Conselho, o Senado ou os Separatistas. Tudo havia corrido bem. Padmé estava bem, os bebês estavam bem, Anakin estava bem. De certa forma, Obi-Wan se sentia um intruso por estar dividindo aquela felicidade com ele, mas, ao mesmo tempo, sabia que os dois de verdade queriam ele ali. Era um momento que podia durar para sempre. Mas, infelizmente, a verdade era outra e todos no quarto foram despertados para o mundo real no momento em que o comunicador de Obi-Wan bipou.

            — Acho que devemos voltar para Coruscant, não é? – perguntou Anakin, a decepção marcada em sua voz. – Devem estar nos procurando.

            — Devem – Obi-Wan concordou.

            Rapidamente, Eirtaé aceitou Luke dos braços de Obi-Wan enquanto ele se sentava na cama ao lado de Padmé.

            — Me desculpe não poder ficar mais – ele disse, olhando mais para Léia do que para Padmé. – Mas estou muito feliz por vocês. Por todos vocês.

            — Obrigada, Obi-Wan.

            Padmé segurou a mão dele com força e com carinho. Quando ele se levantou, Anakin se abaixou ao lado dela e a beijou nos lábios. Apesar de saber há muitos meses que os dois eram casados, aquele era o primeiro beijo que Obi-Wan presenciava.

            — Eu vou voltar o mais rápido que puder – Anakin prometeu. – Ainda hoje.

            Aquilo cortou o coração de Obi-Wan. Por quanto tempo os dois ainda teriam que viver aquela mentira? Quantas viagens e encontros secretos aquela família teria que fazer para se manter unidade?

            — Anakin, fique – disse Obi-Wan.

            — Como? – o cavaleiro não entendi como seu mestre podia estar sugerindo aquilo.

            — Fique em Naboo com Padmé e as crianças – Obi-Wan se explicou. – Volte para Coruscant em dois dias. Ou três. Você merece isso.

            — Mas, mestre, e o Conselho? – ele perguntou. – O que vou dizer a eles?

            — Deixe que eu vou driblar o Conselho – Obi-Wan garantiu. – Eu conheço eles há muito mais tempo que você. Sei exatamente como lidar com cada uma daquelas pessoas.

            Um sorriso surgiu no rosto de Anakin quando ele abraçou seu antigo mestre.

            —Obrigado, mestre.

            Obi-Wan, no entanto, apenas sorriu. Anakin se voltou para a esposa e para os filhos quando Obi-Wan deu as costas a eles e se dirigiu para fora do quarto. A dama de companhia que o trouxera até ali ainda estava parada lá, observando tudo de sua posição.

            Ele parou ao lado dela e sussurrou.

            — Foi você que me contactou na nave, não foi?

            — Sim.

            — Ótimo. Então você sabe como entrar em contato comigo?

            A moça confirmou com a cabeça.

            — Se Anakin ou a senadora precisarem de qualquer coisa, promete que vai me avisar? – ele pediu. – Ou se eles resolverem começar uma nova guerra. Talvez. Não sei...

            A dama de companhia riu e confirmou com a cabeça.

            — Pode voltar tranquilo para Coruscant, mestre Jedi – ela disse. – Você será informado dos delírios dos dois.

            Saber que contava com uma das damas de companhia de Padmé era um alívio.

            Obi-Wan inspirou fundo, e se dirigiu aos jardins de Varykino, onde o transporte militar o aguardava. Talvez, a vida que Anakin jamais teria em Tatooine com os Jedi não era a vida que ele precisava. A vida que ele precisava estava ali, em Varykino. Era Padmé, eram aqueles bebês.


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Notas finais do capítulo

E ai? O que acharam?

Beijinhos e até o próximo!



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