Quebrada escrita por MarcosFLuder


Capítulo 13
Convite à armadilha


Notas iniciais do capítulo

Estamos nos aproximando do fim. Nesta semana eu escrevi, e já fiz até algumas revisões, o último capítulo, depois deste ser postado, serão apenas mais 3 capítulos que faltarão para a fanfic ser concluída. Nem preciso dizer da felicidade que é para mim, mais esta jornada. Enfim, vamos às referências presentes no capítulo. Serão referências aos episódios 15 da segunda temporada, 22 da terceira temporada e ao primeiro episódio da quarta temporada. Também teremos um flash-back referente ao episódio 5 da segunda temporada. Espero que quem continua acompanhando aprecie a mais este capítulo. Aproveitem.



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WASHINGTON D. C.

25° MÊS

 

Ela acordou lentamente, seus olhos tendo que se acostumar a uma luz forte bem no seu rosto. Estava deitada no que parecia ser uma mesa alta, correias prendendo-a firmemente. Como previsto, havia também uma coleira em seu pescoço, tal como da outra vez. Daisy estava dentro de um quarto, dentro deste, por sua vez, havia plástico por toda a parte, cobrindo as paredes, forrando o chão. Não era uma boa perspectiva para a jovem inumana. O barulho de uma porta abrindo faz com que ela vire o seu rosto, vendo um homem entrar. Era um sujeito de altura mediana, uma figura nada impressionante, embora tenha descoberto, da pior maneira possível, que foi um grande erro pensar assim. Não havia muito o que fazer, além de esperar que o sujeito começasse a falar.

 

— Daisy Johnson, Tremor, agente Johnson, senhorita Johnson – ele foi dizendo – eu não sei bem como chamar você.

 

— Você pode me chamar de “vadia inumana” – Daisy responde – muitos adoram fazer isso.

 

— Os que gostavam de fazer isso estão mortos, senão todos, certamente boa maioria – Hank sorriu discretamente para ela – além do mais, eu não sou esse tipo de pessoa, minha cara. Creio que vou chamá-la de Tremor. Simboliza o que você representou na minha vida, tanto pelo lado bom como pelo lado ruim.

 

— Então você é o Senhor H – ela sorri ligeiramente.

 

— Eu sei, eu sei, nomezinho ridículo, não é?

 

— Se a escolha foi intencional, então foi uma jogada esperta – Daisy mantém o sorriso – faz com que as pessoas achem tanta graça que acabam por subestimá-lo – ela notou a face dele adquirindo um aspecto mais severo.

 

— Eu nunca precisei criar qualquer estratagema para ser subestimado, Tremor – a severidade na face dele ganha um tom mais sombrio e rancoroso – eu tive que conviver com isso a minha vida toda.

 

CIDADE DE FILADÉLFIA

5 DIAS ANTES

 

Ela acordou naquele final de manhã, depois de ter virado a noite em suas pesquisas on-line. Foram algumas horas de sono profundo, resultado do cansaço de passar madrugadas em frente ao laptop. Daisy tinha um ar cansado em seu rosto, olheiras, um pouco de dor na coluna. Ao mesmo tempo, um sorriso se formou em sua face, pois tivera um sono tranquilo, sem pesadelos. Era uma sensação boa, esta que vinha experimentando. Desde aquela noite, na base do Ártico, que não voltara mais a sonhar com Hive. Nada da sensação das mãos ásperas em seu corpo, nenhum daqueles sussurros que lhe arrepiavam a pele, a deixavam inebriada, para depois acordar aos gritos. Tal como nos últimos dias, foi um sono sem sonhos, alívio para um corpo cansado.

Ela estava feliz, mas não era uma felicidade iludida. As lembranças ainda estavam lá. Tudo o que vivera, quando esteve sob a influência de Hive, ainda fazia parte dela, sempre fará. No entanto, a jovem inumana sentia em si uma tranquila conformidade. Estava confiante agora que era capaz de deixar Hive se tornar aquilo que deve ser, uma lembrança ruim. Ele era agora, algo para ser guardado bem fundo em suas memórias; nunca totalmente esquecido, mas deixando de ser lembrado, um pouco mais a cada dia. Aquela criatura nunca mais tomaria mais suas noites. Ainda não era a cura, que talvez nunca viesse. Daisy ainda não se perdoara a ponto de sentir-se confortável para reencontrar as pessoas que mais machucou naquela época. Talvez nunca conseguisse.

Isso ficou claro para ela dois dias antes, quando quase fora pega por Coulson e Mack. A jovem inumana sabia dos riscos quando foi se encontrar com Robin e a mãe dela, mas precisava saber se ambas estavam bem. Do alto de um prédio, foi possível observar o pai e irmão postiços caminhando ao longe. Daisy sentiu uma ponta de tristeza ao vê-los se afastando, uma lágrima furtiva deslizando por seu rosto. Ainda assim, nada fez para chamar-lhes a atenção. Olhar para eles, mesmo de tão longe, apenas evocava tudo de ruim que poderia ter feito com as pessoas que amava, quando esteve sob a influência de Hive. Ela não correu o risco de encontrar Robin e a mãe dela para isso. Tudo que o queria era constatar que estavam bem, o que conseguira.

Uma vez constatado isso, agora a jovem inumana podia voltar-se para a ponta solta a finalmente ser atada. Daisy precisava fazer isso o quanto antes. Suas últimas informações sobre os Watchdogs deixaram-na muito preocupada. Ela precisava urgentemente retomar a caçada a esse grupo, pois a cada dia se tornavam mais perigosos e influentes. Entretanto, antes de ir à Los Angeles, seguir a pista nova sobre o que estavam fazendo, era necessário resolver de vez a questão do Senhor H. A jovem inumana queria garantir, de maneira definitiva, o fim daquele soro, para ela maldito. O queria destruído mais do que tudo naquele momento.

Daisy levantou da cama bem disposta e muito determinada. Tomou um banho e depois comeu algo. Abriu o laptop e começou o seu trabalho de pesquisa. Ela havia copiado todo o conteúdo do celular de Scarlotti, antes de entregá-lo para Nick Fury. Ao mesmo tempo, colocara um programa espião no aparelho, tudo para estar a par do que ele estava fazendo. Graças ao programa descobriu que Fury e Maria Hill estavam caçando os soldados aprimorados restantes. Melhor assim, Daisy pensou, pois era do seu interesse encontrar o Senhor H antes de Fury. Por maior que fosse a consideração que Coulson tinha com ele, simplesmente não confiava naquele homem. Por isso mesmo, precisava chegar antes no vilão de nome ridículo. Era preciso descobrir se ele ainda tinha como fazer mais soro e destruir tudo, destruir qualquer vestígio de suas ações com Hive.

A jovem inumana não tinha nada que lhe permitisse estabelecer uma linha do tempo para o Senhor H, ou o seu intermediário. Ambos eram como fantasmas, em nada lembrando os vaidosos chefes da Hidra, sempre dispostos a se mostrarem, quando não estavam infiltrados na S.H.I.E.L.D. Felizmente ela tinha outra opção, justamente um dos representantes dos que queriam comprar o soro. Foi exatamente o que fez, descobrindo imagens de um deles. Foi seguindo os passos de um desses representantes que conseguiu chegar o mais perto do Senhor H, ou ao menos do seu intermediário, que qualquer um até então. Isso se deu quando localizou um aeroporto clandestino em Genebra.

 

WASHINGTON D. C.

5 DIAS DEPOIS

 

— Eu tenho de admitir, minha cara Tremor – Hank mantém uma pequena distância dela – fiquei impressionado por você ter descoberto que eu e Desmond Norton éramos a mesma pessoa.

 

— Não foi fácil de chegar a essa conclusão – Daisy respondeu – você encobriu muito bem os seus rastros.

 

— Eu confesso que estou bem curioso – Hank puxa uma cadeira e se senta. Daisy nota a preocupação dele em manter uma pequena distância dela.

 

— Você viu o vídeo, não foi? – ela perguntou, mas não esperou que ele respondesse – é claro que viu. Ele estava a seu serviço no final das contas.

 

— Do que está falando, Tremor?

 

— O vídeo da sessão de tortura que fizeram comigo – Daisy respondeu – com certeza vocês fizeram um. Foi assim que você viu como eu escapei. Por isso que evita chegar perto de mim – ela vê o sorriso surgindo no rosto dele.

 

— Aquilo foi impressionante, eu tenho que admitir – Hank passa a olhar o corpo de Daisy, um interesse que nada tem de sexual – você deveria ter ficado com algumas das marcas da tortura, mas eu não vejo nada. Imagino que herdou essa capacidade de regeneração corporal da sua mãe.

 

— O que sabe sobre a minha mãe?

 

— O suficiente para ter certeza de que era uma criatura extraordinária – responde Hank – gostaria muito de tê-la conhecido.

 

— Eu tenho certeza que você não ia gostar nenhum pouco de ter conhecido a minha mãe – a face de Daisy ganha um ar um tanto sombrio ao falar – confie em mim quando eu digo isso.

 

WASHINGTON D. C.

5 DIAS ANTES

 

Já era alta madrugada quando Hank guardou tudo o que tinha em mãos, nos lugares de onde retirara. O que era uma investigação se tornara uma obsessão para ele. A mulher que investigara era muito mais do que apenas a pessoa que liderou o grupo cujas ações destruíram seus planos. O legado que queria deixar, o dinheiro que iria ganhar, tudo perdido graças, em parte a ela. Ao investigá-la, entretanto, algo surgiu. De início foi um pensamento tolo, algo que passou rapidamente por sua cabeça, sendo logo afastado, como uma grande bobagem. O pensamento voltou, no entanto, e desta vez, ele não o afastou de imediato. Foi a semente de algo que germinou rapidamente, não podendo mais ser ignorado.

Ao juntar o conteúdo de dois relatórios diferentes, começaram a ser fornecidas todas as respostas que Hank precisava. Primeiro foi o relatório escrito por uma antiga diretora da Academia da S.H.I.E.L.D., sobre uma inumana de origem oriental, que comandara o ataque a um porta-aviões. O mesmo relatório falava sobre a ligação dessa mesma inumana com Calvin Zabo e uma outra inumana chamada Skye. Somado a isso, havia o relatório escrito por um militar chamado Glen Talbot, citando o nome Hive, além do fato dele ter colocado uma determinada inumana sob sua influência. A partir daí não foi difícil rastrear toda a trajetória dela, desde que era apenas uma hacker da Maré Crescente, conhecida como Skye; seu consequente recrutamento pela S.H.I.E.L.D., e tudo mais que veio depois disso.

Todas estas informações giravam agora pela cabeça de Hank. Somado a isso, teve também a resposta da senadora Nadeer, sobre a identidade da testemunha que entregara o sangue que deu origem ao terceiro elemento. O nome era Holden Radcliffe. Junto com a identidade veio também um endereço. Ele buscava ordenar todas essas informações, entender o que fazer com tudo isso. Em verdade, era preciso entender mesmo se deveria fazer alguma coisa em relação a isso. Hank precisava refletir sobre sua posição atual, que era muito tranquila. Tinha certeza de que todos os rastros até a sua pessoa tinham sido devidamente apagados. Ele estava a salvo. Ainda assim, havia algo, como uma coceira insistente, um incômodo que não passava.

Hank não conseguia evitar de pensar em sua vida, em todos os seus sonhos longamente acalentados. Toda aquela espera inútil pela Hidra, que ele sempre desejou compensar. O sonho de participar de algo importante, algo que sobrevivesse a ele. Este mesmo sonho que virou pó diante de seus olhos, bem como as circunstâncias em que se deram. Hank não parava de pensar sobre isso. A incrível coincidência, a respeito da jovem que comandara a destruição do que poderia ser o início de seu legado, não parava de atormentá-lo. Era muito difícil para ele lidar com o fato dela ter sido o começo e o fim de tudo. Sem ela, o terceiro elemento não teria sido possível; ao mesmo tempo, fora ela quem comandou a destruição do que orquestrara com tanto esmero. Tudo isso era algo que não saia da cabeça dele.

Pensar sobre isso era difícil, ainda mais quando o sono e o cansaço se faziam presentes. Ele foi ao banheiro para lavar o rosto, tudo para manter-se acordado. O homem que todos fora dali conheciam como Senhor H, se viu diante do espelho. Sua face molhada mostrava uma pessoa com mais de 60 anos, saúde razoável, bons hábitos alimentares, mas totalmente sozinho no mundo. Ele nada tinha em seu cotidiano que não fossem os seus sonhos. Seus pais morreram relativamente jovens e não tivera qualquer outra convivência familiar além deles. Pouquíssimos amigos ao longo de sua vida, nenhuma amizade de fato, depois da morte de Desmond. Nem mesmo colegas de trabalho que se preocupassem com ele, podia dizer que tinha. Se morresse de repente em sua casa, seu corpo poderia ficar semanas, talvez até meses sem ser encontrado.

Hank deixou o banheiro e caminhou pelos longos corredores daquele lugar. A semi-escuridão, os espaços longos e estreitos, os sons noturnos típicos, tudo evocava nele uma grande desolação. Passou toda a sua vida em revista. A infância e adolescência solitárias, a convivência familiar fria, sem maiores emoções. Os poucos relacionamentos que tivera, tão desimportantes em sua vida, que mal se lembrava deles. Mais do que tudo, ele relembrou a sua longuíssima, e infrutífera espera, como agente adormecido da Hidra. O desejo longamente acalentado de ser parte de algo importante, de fazer parte de algum legado. Tudo isso tomava seus pensamentos enquanto arrumava suas coisas para finalmente ir embora.

 

********************************

 

Hank sempre fora um homem prático e racional, nada fazendo por impulso. Ele pensava sobre isso enquanto dirigia o carro de que se apossara, depois da morte de Desmond, chegando até a antiga casa deste. Tal pensamento ainda permanecia em sua cabeça quando entrou na casa, sentando na mesma poltrona em que seu amigo se suicidara. O laptop em suas mãos fora comprado a pouco mais de uma hora. Ele pagara a uma jovem prostituta para comprá-lo em seu lugar. Se a compra fosse rastreada, seria a imagem desta jovem que apareceria, não a dele. Até mesmo numa decisão de origem impulsiva, Hank não conseguia evitar algum cálculo.

Ele permaneceu um tempo sentado na poltrona, indeciso sobre o que deveria escrever em sua mensagem. O impulso que o levara àquela decisão já havia passado. Agora era apenas o lado prático e racional de Hank que se manifestava. Ele estava seguro. Não havia como chegarem até a sua pessoa. Desmond Norton era um muro de proteção intransponível. Ele poderia retomar à sua vida de vender informações e ganhar muito dinheiro, antes de se aposentar para aproveitá-lo. Era a decisão mais prática e racional a ser tomada. Deixar tudo isso de lado, esquecer os sonhos longamente acalentados, contentar-se com o confortável cobertor do anonimato, com as sombras protetoras onde sempre vivera. Ele podia se dedicar a gastar frivolamente, todo o dinheiro que ainda teria a chance de ganhar; viver o resto de seus dias de maneira hedonista; morrer sem deixar nada, cair em completo esquecimento, quase como se nem mesmo tivesse existido.

Este fora o destino de Desmond. Algo que não saia de sua cabeça. Além de Hank, ninguém mais se lembrava dele. A única indicação real de sua existência neste mundo eram as pedras acumuladas em forma de monumento, no túmulo que cavara para ele, além da própria lembrança que guardava dentro de si. Hank pensava nisso enquanto escrevia uma breve mensagem, dirigida à Maré Crescente, confiando que chegaria a quem estava destinada. Seus pensamentos seguiam frenéticos quando apertou o botão de “Enter”, a mensagem sendo enviada. O conteúdo era bem simples: “Se quiser encontrar o Senhor H, siga esta mensagem”. A decisão mais prática e racional ainda permanecia na mente dele, quando se levantou da poltrona, deixando o laptop ainda ligado sobre a mesa de centro, antes de ir embora.

 

CIDADE DE FILADELFIA

16 HORAS DEPOIS

.

Ela chegou com todo o material que ainda faltava para o seu experimento. Olhou para aquilo com certa repulsa pela ideia que tivera, por tudo o que representava. Ter tais pensamentos passando por sua cabeça não lhe parecia nada saudável, mas era um preparo que se fazia necessário. Daisy tinha plena consciência de que estava indo para uma armadilha; ela esperava pelo melhor, mas sabia que devia se preparar para o pior, tal como May lhe ensinara. Era o que ia fazer. Não importa o quanto demorasse, o quão difícil fosse, mas ela estaria preparada para o pior que poderia vir. A jovem inumana tinha isso em mente, desde que vira a mensagem pela primeira vez.

Não demorou mais do que duas horas para que a mensagem do Senhor H chegasse até ela. Simples e direta. Um convite à armadilha, convite esse que Daisy não recusaria, mas também não iria sem estar preparada. Ela seguiu a mensagem, como dito. Era de um laptop comprado bem recentemente. A jovem inumana invadiu o sistema de segurança da loja e viu as imagens de uma jovem mulher comprando o aparelho. Era evidente que tinha sido paga para isso. Daisy reparou nos modos da jovem, na vestimenta e maquiagem. A linguagem corporal igualmente facilitou perceber que profissão tinha. Ela verificou os pontos de prostituição próximos dali, encontrando um perto de um hotel. Neste havia uma câmera de vigilância, que ela invadiu também, felizmente ainda encontrando imagens do dia em que a compra do laptop foi feita. Ela encontrou a jovem que procurava, viu quando um carro parou próximo. Não dava para ver o motorista, mas conseguiu ver a placa. Uma nova invasão, dessa vez no departamento de trânsito, deu o nome e endereço do dono do carro: Desmond Norton.

Após esta descoberta ela ainda passou quase uma hora em frente ao seu laptop. Era o mesmo endereço de onde veio o sinal do computador que enviou a mensagem. Daisy sabia que estava diante de alguém que era capaz de obter informações sobre operações secretas do governo. Esta pessoa devia saber tudo sobre ela, seus poderes e habilidades. Durante aquela hora, todo o seu plano foi elaborado. Todas as variáveis foram previstas, todas as conjecturas foram feitas. Antecipar o que o inimigo queria dela, quais trunfos usaria, que armadilhas teria preparado. Toda essa antecipação da parte dela a fez se lembrar de um momento mais tranquilo, de uma época que nada tinha de tranquila. Ao contrário, era a época em que se vivia a montanha russa que era a vida dentro da S.H.I.E.L.D., nos primeiros meses depois que a infiltração da Hidra foi revelada.

 

SEDE DA S.H.I.E.L.D.

7° MÊS

 

Era pouco mais de meia-noite, mas ainda estavam todos lá. Aquele sendo um raro momento de relaxamento, uma breve pausa de todos os desafios, todos os perigos e horrores que enfrentavam. Eles tinham Jemma de volta, depois de meses infiltrada na Hidra, resgatada por uma nova integrante do grupo. Era um raro momento em que todos estavam relaxados. Até mesmo May despiu-se um pouco da sua armadura de rigidez. Jemma e Fitz sentavam próximos um do outro, trocando breves olhares, conversando sempre através dos outros, mas evitando uma aproximação maior. Com tudo o que enfrentavam ainda era uma época mais simples, onde ela ainda não tinha descoberto a sua natureza inumana. Ainda era Skye, uma ex-hacker, agora agente de uma S.H.I.E.L.D. que buscava se recuperar dos escombros em que se encontrava. Mas aquela não era a noite para pensar nisso. Ela viu quando Coulson se levantou, indo para a cozinha. Aproveitou que todos estavam entretidos com uma nova discussão, cheia de faíscas e implicâncias, de Hunter com Bobbi, para seguir até ele. Encontrou-o olhando para o nada.

 

— Um dólar pelos seus pensamentos – ela disse, com ele se virando para encará-la, sem nada dizer. Um breve momento de silêncio surge entre os dois, momento esse que Skye decide quebrar – você me deu um susto enorme naquele restaurante, quando recusou a proposta da Raina.

 

— Eu tinha plena confiança que a agente Morse cuidaria da segurança de Jemma – Coulson respondeu.

 

— Ela parece ser uma agente fantástica, mas duvido que pudesse adivinhar que a Raina o chantageava naquele momento – Skye retrucou – a Jemma teve foi muita sorte.

 

— Sorte nada teve a ver com isso, Skye. Já estava tudo combinado entre eu e a May. Ela mandou um sinal para a agente Morse, assim que ouviu Raina fazer a sua jogada – a resposta dele a pegou de surpresa – assim que recebeu o sinal, a agente Morse sabia que precisava tirar a Jemma de lá. O mesmo sinal foi mandado para o Tripp. Ele também sabia o que precisava fazer assim que o recebeu.

 

— Mas... como... como você poderia prever que a Raina ia te chantagear com a Simmons?

 

— Ela marcou o encontro porque queria algo de mim, com certeza algo que eu não estaria disposto a dar – Coulson bebeu mais um gole de sua bebida antes de voltar a falar – a partir dai foi só pensar que trunfos ela poderia ter para me forçar a dar o que ela queria, e me preparar para quando chegasse a hora de lidar com isso. A segurança de Simmons me pareceu a melhor possibilidade.

 

— Nossa! Isso é... nossa...

 

— Nada demais, Skye – Coulson não conseguiu evitar de sorrir, ao ver o olhar impressionado dela – anos de experiência, aprendendo com os próprios erros, e ouvindo quem veio antes de mim. Nada que não seja possível conseguir, não sendo um babaca arrogante. Você chega lá um dia.

 

— Nesse nível? Sem chance – ela riu por um breve momento, parando ao ver o olhar dele, a face agora com um ar mais sério – o que foi?

 

— Se você pudesse se ver do jeito que eu e a May a vemos – ele volta a sorrir para ela – eu tenho certeza de que você é capaz de fazer muito mais do que isso, Skye. Eu tenho plena e total confiança nisso.

 

CIDADE DE FILADELFIA

25° MÊS

 

Com um dedo, ela afasta uma lágrima furtiva, esfregando os olhos com as palmas de suas mãos. Um suspiro rápido é dado e ela decide se concentrar no quadro que montara. Ao longo dos dias, Daisy fez uma extensa pesquisa sobre o Senhor H, seus cúmplices, e principalmente o tal intermediário, tão citado por alguns. Com sua experiência de enfrentamento de organizações como a Hidra, a jovem inumana sentiu um estranhamento com algumas coisas que diziam respeito à organização do tal Senhor H. A maneira como montara o laboratório no Novo México, como contratou suas equipes de cientistas e de segurança. A própria operação na base russa deixou nela a sensação de que algo faltava em tudo isso.

Graças ao seu programa espião, ela teve acesso ao relatório sobre a operação no laboratório do Novo México, ao depoimento dos cientistas que foram capturados. Daisy também leu sobre a trajetória dos soldados aprimorados, um total de 20, segundo o depoimento do cientista chefe, que foram “criados” naquele laboratório. Todos os depoimentos tinham pontos em comum, com todos afirmando nunca ter encontrado o tal Senhor H. Até mesmo o intermediário dele só era visto pelo cientista chefe do projeto, que confirmou o fato. Nas poucas vezes em que esteve no laboratório, esse homem sempre se apresentava como intermediário do Senhor H, nunca dizendo o seu nome. As imagens dos dias em que esteve lá, também nunca foram encontradas. Descobrir quem era esse homem, bem como o seu nome, seria como encontrar uma agulha num palheiro.

As habilidades de Hacker de Daisy estavam um tanto enferrujadas, mas esta ainda confiava que era capaz de encontrar a tal agulha. Ela criou um algoritmo de rastreamento, este permitindo que checasse as listas de passageiros viajando de várias cidades para o Novo México, até um mês antes do laboratório ter sido estourado pela operação comandada por Nick Fury. Os nomes seriam comparados com os das listas de passageiros que viajaram para Genebra, no dia da operação na base russa. A jovem inumana confiava que esse algoritmo encontraria a sua agulha no palheiro, um nome em comum nessas listas. Demorou algumas horas, mas suas expectativas se mostraram corretas. Pelos menos três nomes em comum apareceram, embora apenas um deles tenha chamado a sua atenção: Desmond Norton.

Daisy olhou para a tela, o nome piscando para ela. A ideia de que seria o nome verdadeiro do intermediário do Senhor H lhe pareceu disparatada. Não poderia ser coincidência, entretanto, ser o mesmo nome do documento do carro. Ainda assim, tratou de vasculhar a internet para descobrir tudo que tivesse ligado a Desmond Norton. Um número não tão grande de opções apareceram diante dela. Ela passou um bom tempo trabalhando as opções em torno deste nome, até que algo chamou-lhe a atenção. Uma foto tirada num resort nas Bahamas. Duas mulheres jovens e lindas, ao lado de dois homens que só poderiam estar com elas se as estivessem bancando. Um dos homens era bem alto e careca, o outro tinha uma estatura mediana, cabelo liso, barba e bigode. Os nomes estavam marcados na foto. O homem alto era Desmond Norton, o outro homem estava identificado apenas como Hank.

Pela foto era possível ver que Desmond Norton era bem mais alto, devendo ter mais de 1,90 de altura. Esse detalhe chamou a atenção de Daisy. Ela retomou o relatório sobre o laboratório do Novo México, mais precisamente sobre o depoimento do cientista chefe do lugar. Ao descrever o intermediário do Senhor H, este disse que o homem era da mesma altura que ele, fato que chamou a atenção da jovem inumana. Pelo relatório, ela sabia que o cientista chefe tinha pouco mais de 1,70 de altura, não combinando em nada com o homem da foto. Daisy se levanta e volta a olhar para o quadro com o esquema que montou, da organização do Senhor H. Uma ideia aparentemente louca passando por sua mente. Podia não ser nada e podia ser tudo.

 

WASHINGTON D. C.

4 DIAS DEPOIS

 

Daisy se lembrava da noite em que conheceu Gordon, de tudo o que este dissera sobre seus poderes e potencial. Naquela época ainda se via como alguém que tinha algo de muito errado dentro de si. O medo do que poderia fazer, daquilo que parecia ser incapaz de controlar, ainda estava presente dentro dela. Gordon foi o primeiro a dizer que nada que havia dentro dela era para ser temido, mas sim celebrado. Era a sua herança de direito, o início da realização de todo o seu potencial. Sua mãe também dizia isso, enquanto a ensinava a controlar o seu poder. Apesar de tudo o que fizeram de errado, do quanto a decepcionaram, ambos estavam certos. Era por confiar nesse potencial que Daisy estava ali.

Desde o início ela especulava o porquê do Senhor H ter mandado aquela mensagem. Não fosse por isso ela só teria encontrado o nome Desmond Norton partir do seu algoritmo. Isso poderia não ter significado nada para ela, sem a pista fornecida pela mensagem. O homem que conhecia como Senhor H tinha montado uma barreira praticamente intransponível. Todas as pistas até ele tinham sido cuidadosamente apagadas. Criar um intermediário interpretado por ele próprio fora uma jogada de mestre. No entanto, ele acabou por abrir mão de tudo isso. Deixou a pista que levou Daisy até a sua pessoa. O homem que ela conhecia como Senhor H queria ser encontrado, mas por quê? Nem foi preciso pensar muito para responder a essa pergunta. Ele queria o seu sangue.

Ela estava naquela situação a mais de meia-hora. O homem que ela sabia agora ser o Senhor H tinha ido providenciar tudo o que precisava para obter o sangue de Daisy, que agora não estava mais sozinha na sala. A jovem inumana olhou para o homem ainda inconsciente, amarrado numa cadeira. As lembranças que ele despertava não eram nada boas. Sabia o porquê dele estar ali. O fato de seu sangue ainda não ter sido extraído só indicava que suas suspeitas sobre tudo o que dizia respeito ao Senhor H, e sua pretensa organização, eram verdadeiras. Ainda assim, ela não podia cometer de novo, o erro de subestimá-lo. Era a hora de começar a mostrar que todo aquele treinamento que fez valeu de alguma coisa.

Daisy sabia que não teria muito tempo para agir e tratou de se empenhar ao máximo. Todo o treinamento dos últimos dias estava em sua mente, enquanto respirava fundo, buscando se manter o máximo possível concentrada. Todo o foco de seu poder concentrado num local específico. Ela procurando ignorar os pequenos choques elétricos que sofria. A jovem inumana sabia que era uma aposta arriscada, mas confiava nas cartas que tinha em suas mãos. Ela só aceitou o convite para a armadilha que o Senhor H tinha preparado depois dela mesma ter se preparado para o pior que poderia acontecer. O pior estava acontecendo, de fato, ela estava amarrada numa mesa, com o Senhor H, e quem sabe mais alguém, chegando em breve, para tirar dela, todo o sangue que pudessem conseguir.

 

WASHINGTON D. C.

DIA ANTERIOR

 

Havia mandado a mensagem já tinha vários dias. O homem que muitos conheciam como Senhor H estava impaciente. Junto com seu cúmplice, ficara a espera dela aparecer na casa de Desmond, sabendo que chegaria lá através do sinal do laptop. A vigília durou todos esses dias, mas ela não apareceu. A frustração de Hank era enorme. É claro que ele não a subestimava. Com certeza ela devia ter consciência de que se tratava de uma armadilha. Ainda assim, esperava que a confiança em seus poderes a fizesse arriscar. As dúvidas de Hank cresciam, junto com a sua frustração. Abrir mão de sua posição segura, de sua zona de conforto, das sombras que sempre foram o seu abrigo, tudo isso lhe parecia um erro, à medida que sua frustração aumentava.

O homem que muitos conheciam como Senhor H deixou essas especulações de lado, pois sabia que eram inúteis agora. Não havia mais como voltar atrás. Ele decidiu que precisava atrair Daisy Johnson com um chamariz que fosse irresistível. Esse chamariz morava numa casa localizada num bairro suburbano, com um belo quintal, e uma fachada que parecia ter algo de futurista. Havia outro carro parado próximo ao portão e Hank esperou, pois preferia que seu alvo estivesse sozinho. A espera se mostrou sensata ao ver o casal saindo. Estavam de mãos dadas, sorrindo, trocando olhares apaixonados que eram reconhecidos de longe. Ambos entraram no carro e foram embora. Agora sim, Hank podia agir. Ele não estava sozinho nessa empreitada, sabia que precisaria de apoio profissional para o que estava prestes a fazer. Em verdade, tudo o que faz é ficar na van enquanto o seu cúmplice se dirige até a casa.

A espera é um pouco angustiante. Hank sempre se orgulhou muito de sua paciência em situações assim, mas esse é um momento em que está fora de sua zona de conforto. As dúvidas voltando a assaltá-lo novamente. Uma parte dele se recriminando por abrir mão da segurança garantida, do conforto do anonimato. Ele podia muito bem mergulhar nas sombras onde sempre viveu e esperar por um momento melhor. Do mesmo modo que surgem, esses pensamentos são mais uma vez espantados. Hank não quer mais esperar. Ele já o fez por tempo demais. Seus pensamentos são interrompidos quando a porta de trás da van se abre, com o seu cúmplice jogando o corpo de um homem desacordado no veículo.

 

— Como ele está? – Hank pergunta.

 

— Apenas inconsciente, como você determinou – foi a resposta do homem a seu lado – qual a finalidade dele?

 

— Vamos dizer que ele terá uma dupla finalidade – Hank olha para a figura inconsciente de Holden Radcliffe – ele será ao mesmo tempo uma isca, como também me ajudará a conseguir o que eu quero da pessoa que ele atrairá para mim.


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Notas finais do capítulo

Capítulo 13 postado como prometido. No próximo domingo tem o capítulo 14. Aguardem.



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