Medicine escrita por Pandora


Capítulo 1
Capítulo único


Notas iniciais do capítulo

Espero que apreciem. Boa leitura a todos ♥



Com um péssimo humor, a atenção de Eddie Kaspbrak estava voltada inteiramente para o desenho animado que passava na televisão em uma tentativa falha de anima-lo naquele dia tedioso. Havia faltado do colégio devido a uma forte gripe que adquirira, o deixando extremamente preocupado quanto a sua saúde. Faziam alguns anos que não adquiria nenhuma doença verdadeira, por conta desse fato ele acreditava que a morte o alcançaria em questões de horas e ele morreria em casa, sozinho. 

 Seu salvador chegou! 

Foi uma surpresa para Eddie escutar a voz do melhor amigo, Richie Tozier, enquanto zapeava pelos canais em busca de algo mais interessante para assistir nas poucas horas de vida que lhe restavam. Não estava esperando nenhum tipo de visita para aquele dia, muito menos dos seus amigos. 

As pressas, ele cobriu a cabeça com as cobertas e gemeu. Não queria que o melhor amigo o visse naquelas condições terríveis e, menos ainda, que fosse o próximo azarado a pegar a doença e morrer dias após ele já ter partido dessa para melhor – pelo menos em sua concepção infantil e perturbada. 

Sem se importar com os motivos que levaram Eddie a se esconder embaixo das grossas cobertas de lã, Richie aproximou sorridente do sofá onde ele estava deitado e puxou as cobertas para frente, revelando a imagem do melhor amigo encolhido enquanto fazia caretas. 

 Vá embora  Ordenou Eddie puxando as cobertas de volta para si. 

 É ótimo te ver também  Richie ignorou o pedido do melhor amigo e sentou na poltrona vazia que a senhora Kaspbrak costumava passar horas sentadas.  Incrível como tem a marca perfeita da bunda gorda da sua mãe aqui. Falando nisso, onde ela está? 

 Saiu para dar uma volta e comprar medicamentos, ela sabe que as primeiras quarenta e oito horas são as de maior risco de contágio  Revelou Eddie mantendo a coberta sobre a face afim de não espalhar seus germes através da saliva enquanto falava  Você não deveria estar aqui. 

 Nah, não ligo para isso  Richie moveu os ombros com desdém e sentou na ponta da poltrona com a coluna ereta  Estaria fazendo um favor de passar gripe, não estou interessado em ir para o colégio. 

 Estou morrendo. Isso é grave, Richie!  Insistiu Eddie abaixando a coberta o suficiente para poder encarar o amigo. 

 Você não está morrendo  Richie revirou os olhos enquanto ajeitava a armação dos grossos óculos que utilizava. 

Quase que dando um salto, Richie levantou da poltrona e começou a andar pela casa, observando cada detalhe do lar dos Kaspbrak. Primeiro olhou para a televisão, mas o programa que passava não era o suficiente para prender sua atenção e deixar o julgamento sobre a casa de lado. Em seguida caminhou até as janelas, abrindo as cortinas para que a luz natural entrasse e iluminassem um pouco o ambiente. Eddie gemeu com a luminosidade extra, mas Richie ignorou e voltou para próximo do amigo.  

Dessa vez sua atenção caiu sobre a mesa de centro na frente da poltrona, ela estava uma completa bagunça, contendo desde lenços de papel sujos a bolachas e muitos remédios começados, alguns em capsulas outros eram xaropes e, é claro, a bombinha de asma de Eddie entre essas medicações. Fazendo careta enojada, Richie voltou a encarar Eddie. 

 Não me diga que só comeu bolachas o dia inteiro  Repreendeu Richie colocando as mãos na cintura. 

— Estou doente, tudo o que quero comer são bolachas — Falou Eddie revirando os olhos e fazendo careta. Caso aquelas realmente fossem suas últimas horas, passaria comendo o que mais lhe agradava, mesmo que doesse a garganta ferida pelo resfriado. 

 Certo  Fazendo caretas, Richie começou a juntar os lenços usados e embalagens vazias de remédio dentro de uma sacola de lixo. Não faria bem para o amigo doente ficar no meio daquele ambiente insalubre, a doença permaneceria ali e demoraria mais tempo para a gripe desaparecer  Mas você não pode comer apenas bolachas. 

 Tanto posso, como vou. Será a minha última refeição  Falou Eddie insistente quanto ao assunto de estar morrendo. 

 Pare de frescura, Eds  O moreno revirou os olhos, havia esquecido como Eddie ficava extremamente dramático quando o assunto era doença. Lembrava da última vez que Eddie pegou virose e começou a falar que estava com câncer  Já disse que você não está morrendo. Além do mais, Berv também pegou resfriado, mas foi na escola do mesmo jeito. 

 Ela não está morrendo — Reclamou Eddie cruzando os braços sobre o peito e fazendo careta. 

 Assim como você  Richie terminou de limpar o lixo da mesa de centro e puxou as cobertas do amigo pela segunda vez.  Ou talvez você esteja, está uma merda. 

 Eu disse a você  Disse Eddie convicto de que havia convencido o amigo de que sua morte chegaria a qualquer instante. Porém o outro apenas balançou a cabeça e gargalhou  Não entendi o motivo da graça. 

 Você é patético, Eds  Richie enrolou a coberta nos braços e revirou os olhos.  Está tão saudável quanto a Berv. 

 Mentira! Sei o que tenho, estou a um passo da morte  Eddie voltou a insistir, ele cruzou os braços sobre o peito na tentativa de esconder o pijama de flanela com desenhos de patos que utilizava antes que Richie notasse a estampa e mais piadas surgissem  Nossos vírus são diferentes, o meu deve ter sofrido algum tipo de mutação. Já li sobre isso, as pessoas morrem de vírus mutante. 

 Você precisa assistir menos filmes de ficção, está ficando maluco  Richie jogou a coberta para o outro sofá  Não o levarei mais para os cinemas. Além do que, mutação é coisa dos X-mens. 

 Não andou prestando atenção nas aulas de ciências?  Retrucou Eddie revoltado e aumentando o tom de voz  Mutações são reais. 

 Assim como o Wolverine  Disse Richie avaliando Eddie da cabeça aos pés enquanto sorria divertido. 

Finalmente estava conseguindo o que fora fazer ao visitar o amigo, deixa-lo mais animado. Não de uma forma agradável ou feliz, mas vê-lo irritado também servia. Dentro todas as coisas que Richie amava no mundo, a principal delas era provocar o melhor amigo. Amava vê-lo irritado, assim como amava vê-lo assustado, ou então alegre, sendo gentil, explicando sobre as coisas que gostava – mesmo que essas coisas fossem medicações. Na verdade, Richie amava Eddie independentemente de como estivesse o seu humor. 

 Quer saber, vai embora!  Ordenou Eddie atirando um travesseiro na cabeça de Richie, o qual gargalhou  Já chega. Saiba que você está tirando sarro de um moribundo. Já estou morrendo, não preciso servir de piada. 

 Primeiro de tudo, você não está morrendo  Falou Richie jogando o travesseiro de volta para o outro  Em segundo lugar, não estou tirando sarro de você, estou rindo de você. É diferente.  Eddie ergueu a mão e bufou irritado, um ato costumeiro quando provocado  Além de que, você não quer que eu vá embora de verdade. Você me ama  Por mais que Richie tivesse dito aquilo de maneira provocativa, sentiu o coração acelerar e torceu para não receber uma resposta negativa. Afinal ele amava Eddie verdadeiramente e a um bom tempo  Mas não posso negar que está parecendo uma merda. 

 E você fede a merda  Rebateu Eddie irritado  É sério, o que tem feito?  Richie abriu a boca para responder as provocações do outro, mas Eddie o interrompeu antes que ele pudesse responder  E não diga nada relacionado a minha mãe só por ter sentado na poltrona dela. 

Aquilo serviu de gatilho para que Richie começasse a gargalhar mais do que já estava rindo, além de ficar impressionado em como Eddie era capaz de prever os seus movimentos. Não que suas piadas não fossem previsíveis ou coisa do gênero, mas saber que Eddie conseguia captar os detalhes em seus movimentos e palavras antes que pudesse dizer, fazia com que seu coração batesse mais acelerado. Seria capaz de beijar Eddie ali mesmo, independente de toda a mucosa que o acompanhava por conta do resfriado. Aquilo servia como prova de que Eddie também o amava, poderia não ser do mesmo jeito romântico, mas já era alguma coisa. 

 Vou deixar essa passar porque você está doente  Disse Richie apontando para o amigo após ajeitar os óculos  E só para você saber, eu cheiro a merda por ter andado de bicicleta pela cidade inteira, primeiro fui a escola, depois passei em várias lojas diferentes, passei no Bill e vim visitar um moribundo em seus últimos momentos de vida. 

 Por que você passou em várias lojas diferentes?  Perguntou Eddie deixando as expressões irritadas de lado e dando espaço para expressões de curiosidade. 

 Oh! É que...  Richie ficou com a voz falha e sentiu as bochechas corarem, não esperava responder aquela pergunta curiosa de Eddie. Sua intenção era cuidar do amigo enquanto o provocava, sem que o mesmo notasse o que estava fazendo enquanto zombava da sua cara  Eu comprei umas coisinhas para você. 

 O que você comprou?  Perguntou Eddie sorrindo fraco enquanto sentava no sofá com a coluna ereta. Aparentemente não estava mais bravo com o melhor amigo pelas piadas e comentários. 

 Nada de mais  Richie pegou a mochila que estava no canto da sala, sentou ao lado de Eddie no sofá e começou a retirar as coisas que havia comprado para animar o dia do outro  Trouxe algumas revistas de atividades, daquelas que você gosta com histórias em quadrinho e palavras cruzadas. Também trouxe uma sopa, eu que fiz. 

 Sopa?  Eddie segurava cada um dos itens dados por Richie como se fossem um tesouro. 

 É, porque você está doente. Sabe?  Richie moveu os ombros e deu um sorriso tímido O Bill me ajudou, um pouco. 

Não era do feitio de Richie cozinhar, tanto que a única coisa que sabia fazer para comer que precisava de mais esforços do que acender o forno era macarrão com queijo e miojo. Tanto que a sopa foi a única coisa que o fez passar na casa de outra pessoa antes de vir direto para a casa do Eddie, ele queria fazer algo comestível e a única pessoa que ele lembrava que poderia ajuda-lo com isso e não estava muito longe dali era Bill. 

 Lavamos as mãos, caso esteja preocupado com isso  Disse Richie passando o recipiente de plástico para o outro. 

 Por que você fez tudo isso?  Perguntou Eddie tentando disfarçar o sorriso que insistia em brotar em sua face. Aquilo era a coisa mais legal que alguém que não era sua mãe já havia feito para ele em anos. 

O moreno abriu a boca para responder, quase dizendo a primeira coisa que lhe veio á mente. Que ele se importava com Eddie, que queria cuidar do amigo como ele merecia ser cuidado, que odiava vê-lo doente, que o amava muito para não ficar ao lado dele. Mas ao invés disso, ele preferiu se esconder atrás das piadas. 

 Você está morrendo, é um presente de despedida  Richie riu fraco e moveu os ombros com desdém. 

 Imbecil  Eddie riu fraco e balançou a cabeça, toda a tensão de antes havia evaporado.  Me traga uma colher limpa. 

 Uma colher?  Richie olhou levemente confuso para o melhor amigo. 

 É, vou experimentar essa sua sopa de merda  Disse Eddie com uma pitada de zombaria no tom de voz. 

Os meninos trocaram um sorriso breve antes de Richie ir para a cozinha pegar uma colher. A coragem para Eddie experimentar a sopa não era das maiores, mas não poderia negar algo que claramente fora feito com boas intenções e todo o carinho do mundo. 

 Obrigado  Agradeceu Eddie ao pegar a colher. Richie sentou do espaço vazio do sofá, ao lado do amigo. 

Quando Richie se acomodou no sofá, Eddie estendeu as pernas que estavam cruzadas sobre o colo do outro, mas permaneceu com as costas eretas para que pudesse comer tranquilamente a sopa. Em um movimento automático, Richie apoiou as mãos sobre as pernas do outro, acariciando o local que tocava com ternura. Antes de experimentar a sopa, Eddie trocou sorrisos com Richie. 

 Já aviso que vou cuspir em você se tiver intragável  Disse Eddie pegando uma farta colherada da sopa de legumes. 

 Justo  Assentiu Richie dando com os ombros. 

A princípio Eddie estava nervoso com a qualidade do alimento, assoprou devido a quentura que foi mantida dentro da bolsa do outro e deu uma leve bicada. O olhar do Richie estava preso sobre o melhor amigo, encarando ansioso suas expressões enquanto aguardava pelo veredicto final relacionado ao sabor da sopa. 

 Está saborosa  Elogiou Eddie levando uma segunda colherada a boca, dessa vez mais farta. 

 Coitadinho, está delirando  Zombou Richie sorrindo aliviado por ter recebido um feedback positivo em relação a sopa que preparou com tanto carinho. 

 Deve ser isso  Eddie concordou com a boca cheia de sopa, fazendo com que Richie risse.  Mas essa é a melhor última refeição que eu poderia comer. 

 Você não está morrendo, idiota  Repreendeu Richie revirando os olhos e dando um leve beliscão na panturrilha do amigo, fazendo com que o outro movimentasse a perna e reclamasse.  Mas caso estivesse morrendo, eu diria algumas palavras de despedida. 

 Como que Perguntou Eddie curioso baixando a colher. 

 Eu fodi a sua mãe  Disse Richie mantendo o bom humor do local. Não era aquelas as palavras que utilizaria como despedia para Eddie, mas não falaria a verdade, pelo menos não naquele instante. 

 Você é um merda  Da melhor maneira que pode, Eddie deu um chute de força mediana sobre o estômago do Richie. Fazendo com que ele desse um pulo no sofá e risse divertido. 

O silêncio caiu entre eles, mas não do tipo que incomodava. Eles trocaram sorrisos de felicidade e voltaram com as atividades, Eddie regressou a dar total atenção para o pote de sopa enquanto Richie buscava algo para assistirem juntos na televisão, sua mão desocupada permanecia acariciando as pernas de Eddie. 

Por mais que a piada sobre a morte tivesse reaparecido, com Richie presente ele tinha consciência de que não estava morrendo. E mesmo que estivesse com um vírus mutante no corpo, ele não se importava. Pois tudo o que precisava estava com ele naquele momento. Tudo o que ele precisava para se animar naquele dia era Richie e o pote de sopa. 



Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado. Mil beijos, com todo o amor do mundo, Pandora ♥



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