A Complexa Existência do ser Anômalo escrita por Line


Capítulo 5
A complexidade relativa de um dia de domingo


Notas iniciais do capítulo

Então,este capítulo apresenta uma nova personagem que desempenhará um papel importante mais para frente na história. Como sempre, fiquem atentos as pistas que eu coloco sutilmente em cada capítulo.



    É manhã de domingo, encontro-me ainda deitada na cama, como consequência de mais uma noite mal dormida. Verônica me deixara em casa por volta das duas e meia da manhã (o que não é tão tarde considerando que ela já me arrastara para programas mais demorados), deitei para dormir logo em seguida, mas pensamentos noturnos afugentaram o meu sono. Como na noite anterior, repassei cada detalhe do dia, numa busca viciosa por prováveis falhas pessoais, todavia, alguns detalhes da minha conversa com Petrus na sala de estar parecem ter sido, propositalmente, apagados de minha memória. De modo que, ficara impossível para mim, mensurar até que ponto eu posso ter conseguido me comportar como uma pessoa adulta, “normal”, ou se a minha personalidade atípica; enfim, tornara-se conspícua perante Petrus. 

    Antes de descobrir a “Síndrome de Asperge” eu vivia em um estado de extrema pressão emocional, que era desencadeado, entre outros motivos, pelo medo de fazer (ou falar) algo indevido em público. Desde uma ida ao médico, ao simples ato de comprar um pão, qualquer coisa que envolvesse o contato direto com outras pessoas, que não fossem as de meu convívio comum, era motivo de desespero e cautela de minha parte; isto porque, indubitavelmente, o meu cérebro considerava que qualquer situação seria factível de ser transformada em momentos constrangedores. Eis um dos motivos que me levaram a trocar a carreira no ensino médio, pela educação infantil: lecionar para adolescentes causava-me arrepios, visto a natureza crítica destes seres. É fato que as crianças são seres extremamente imprevisíveis, contudo, lidar com o imprevisto no universo infantil, para alguém com a minha condição,  é  algo aceitável, uma vez que também comungo da mesma visão fantasiosa que as crianças têm da vida.

    Ai, droga! Lágrimas redundantemente salgadas começam a cair pela minha face... Relembrar fatos de minha vida de antes do diagnóstico me causa alguns efeitos colaterais, como estas lágrimas compulsivas! São nesses momentos que eu me pego pensando: talvez, se eu tivesse tido conhecimento do asperge mais cedo, poderia ter aprendido a minimizar as implicações deste, e consequentemente, eu não carregaria tantas cicatrizes, como as que marcam o meu íntimo. Porquanto que, o diagnóstico tardio implicou em diversas neuroses e traumas, que modificaram toda a essência que define o âmago do meu ser.  As lacunas que eu carrego em minha existência, só começaram a ser preenchidas, a partir do momento em que eu entendi o motivo de tudo. Afinal, tratar o efeito, quando se tem conhecimento da causa deste, é algo apaziguador.

       “Trriiim!” O relógio do celular me desperta para a vida. As reflexões matinais demoraram um pouco mais do que o desejável, desta vez. “Acorda para a vida Anise!”— Digo para mim mesma.

     Próximo das quatro horas da tarde saio de casa para passear com os meus “filhos”. Pikachu e Romero estavam praticamente implorando por um passeio na rua. E Miauzi, a gatinha, também nos acompanha, embora eu acredite que ela preferiria não ter os irmãos de companhia, já que a felina tem baixíssima tolerância com a algazarra de seus irmãos caninos.

   Nossos passeios tem o local certo, uma pracinha pequena, e silenciosa, que fica perto de casa. Como o dia está quente, escolhi usar um vestidinho cor-de-rosa de alcinhas, com estampa de minúsculos coraçãozinhos vermelhos, e no pé, coloquei uma sapatilha confortável. Optei por deixar o meu cabelo solto, já que ele está curto, e assim, não me incomodará tanto no decorrer do trajeto. No rosto, passei um protetor solar com cor e um batom hidratante rosa nude. Verônica costuma dizer que eu sou como uma Barbie mais contida,dado ao meu estilo delicado de vestir. O engraçado é que até alguns anos atrás o máximo que eu faria seria pentear o cabelo para trás, e pronto, nada mais precisaria ser feito.  A minha família era muito humilde, então não tínhamos muitas roupas ou sapatos, e no meu caso, isto incluía a maquiagem e outros produtos mais femininos. ironicamente,um dos meus passatempos preferidos na infância era observar as minhas colegas de escola; elas eram muito vaidosas, e andavam sempre arrumadinhas. Só que naquela época eu não sentia inveja delas, pelo contrário, me perguntava se era assim que todas as meninas deveriam ser, porque eu achava tudo aquilo deveras cansativo.

  Fora preciso muito treinamento e observação, para que eu conseguisse compreender que existem diferentes tipos de códigos de vestimentas e de condutas sociais, para cada ocasião. Por exemplo, aprendi que há roupas que devem ser usadas em casa, e outras que devem ser usadas para sair à rua.  E que, quando alguma peça não nos servir mais, devemos trocá-la por outra, pois definitivamente, não é aceitável usar um número menor do que o que realmente usamos.

   Quando eu era criança, volta e meia eu estava precisando de roupas novas, isto porque, quando as minhas antigas rasgavam, ou não servia mais, eu não “sabia” que seria preciso contar este fato aos meus pais, para que assim, eles pudessem comprar peças novas. Então, eu usava a mesma saia rasgada, ou o tênis apetado, até que algum dos meus pais (normalmente a minha mãe) percebesse o problema. Consequentemente, este detalhe de meu comportamento, servira como munição para o bullyng que eu sofria constantemente na escola. Aliás, ainda não se usava este termo na época.

  Conforme fui crescendo adquiri o hábito de copiar o comportamento das mulheres que despertavam admiração nas pessoas, e foi assim, que também aprendi sobre maquiagem e vestimentas.  Devo admitir que ainda mantenho o  hábito de copiar as pessoas ao meu redor. Verônica, por exemplo, é o meu alvo predileto, eu a observo constantemente a fim de imitá-la em seus traquejos sociais. Atualmente, desenvolvi o meu próprio estilo de ser, e vestir; algo feminino que mistura leveza e romantismo, com toques lúdicos, e modelagem retrô.

Oh, meu Deus, me perdi em devaneios novamente!"

—Falando sozinha tia Anise?— Ouço uma vozinha familiar...

—Aqui, atrás de você tia, na bicicleta... (risos)

—Ou, é você Jasmim! Está passeando aqui sozinha?!

— Não tia, minha vó quem me trouxe, ela está ali ó— a pequena aponta na direção de uma senhora que acena para nós, enquanto senta em um dos bancos da praça— viu, ela tá me olhando... Acontece que os pés dela estão doendo, e ela disse que eu corro rápido demais, e por isso, não consegue me acompanhar.

  Jasmim, ou apenas Mimi, é uma das minhas alunas do quarto ano. Ela é uma menina linda, e espevitada, que possui longos cachos negros e dois pares de grandes olhos castanhos — do tipo que parecem estar sempre analisando tudo a sua volta – e, desde que descobrira que moramos em ruas próximas, tornara-se presença quase que constante, durante os passeios com os meus pets.

— Tia Anise, pode pegar o Pikachu no colo?

— Se ele quiser, pode, mas toma cuidado...

— Ele quer tia, olha, já até pulou no meu colo!—Pikachu é um vira-latinha de cor amarela, extremamente dócil, mas tem seus dias difíceis. Por exemplo, quando ele resolve que não quer brincar, é melhor deixá-lo quieto. Daí surgiu seu nome, ele é fofo e, ao mesmo tempo, arisco, e forte; como o Pikachu do desenho animado. 

— Tia, o Romero tá correndo atrás da Miauzi de novo, olha!

—Oh, droga!—solto sem querer. — A criança ao meu lado, coloca as mãos na cintura e com um tom acusatório, me repreende:

Tiaaaaaa, você falou uma palavra feia! — Pronto! Muito bonito Anise, os pais vão adorar saber o quê você anda ensinando para os filhos deles nas horas vagas.

— Mimi foi sem querer, viu... Agora, vamos pegar o Romero, senão ele vai fazer sanduíche de Miauzi, e você não quer que isso aconteça, ou quer?

— Não tia! Tadinha dela, vamos, vamos logo... vamos salvar a Miauzi tia Ani!

  Por sorte, conseguimos chegar a tempo de evitar um crime em família e, também por sorte, o resgate felino distraiu a pequena a ponto dela se esquecer do pequeno incidente com a “palavra feia”.

— Romero Nonato Sorín, eu já te falei para não brincar assim com sua irmã, ela é frágil.  Veja como o Pikachu é comportado, porque você não pode ser como ele? Ai, ai,ai...— o bichinho abaixa as orelhas e se encolhe todo como se entendesse  alguma coisa da  bronca que estava levando.

 —Vish, tia, Romero é muito indisciplinado, tem que ficar de castigo e sem recreio!

— Ou, sim, ótima ideia Mimi, Romero ficará uma semana sem passeio na praça. Que tal? Acho que é um bom castigo para ele.  

— Excelentíssima sentença para o réu em questão, tia Ani.  Tenho plena certeza de que Romero irá se regenerar após cumprir esta pena. — decreta de forma confiante a minha pequena aluna.

— De onde você tirou estas palavras, tão categóricas e sérias, Mimi? — questiono de forma descontraída.

—Oras, dos livros de meu pai, tia Ani... Às vezes eu leio alguns deles, quando estou entediada.

— Ahh...já entendi. — o pai de Jasmim é advogados, e um dos mais influentes da região. — Então vamos voltar Mimi, senão sua avó ficará preocupada.

—Tá bom, tia. —assente de forma resignada.

   Deixo Jasmim aos cuidados da avó e continuo o passeio com o meu trio “parada dura”. A bronca que dei no Romero parece ter surtido efeito, e ele agora se comporta muito bem, caminhando calmamente, ao lado da irmã. Eu adoro os meus alunos, mas é um pouco incômodo tê-los por perto em situações fora da sala de aula. Eu nunca sei como agir, e às vezes, acabo dando umas “bolas” fora como no caso anterior da “palavra feia”. Isto sem falar nos momentos de contato físico inesperado, tais como os abraços e toques espontâneos. Não é que eu não goste das manifestações de afeto que elas dispensam a mim, é só que, ainda e complicado lidar com esse tipo de aproximação humana. Qualquer toque repentino gera em mim um efeito repulsivo, tal qual a cripnotnita gera no Super-Homem. 

 “Dona Anise, olha o carro... POW!”

  Em instantes, sinto o cenário ao meu redor começar a girar, e a luz ambiente ir pouco a pouco, se esvaecendo. Ouço em seguida, um zumbido abafado misturado com o som do latido dos meus cães, este barulho reverbera até sumir por completo...

Algum tempo depois...

  A luz forte causa um leve incômodo quando tento abrir os olhos novamente. Aos poucos vou tomando ciência do que provavelmente pode ter me acontecido: a julgar pela cama dura onde estou deitada, e pelo cheiro forte de álcool misturado com algo familiar, devo estar na área de emergência de algum hospital. Provavelmente devo ter tropeçado na calçada, ou “atropelado algum veículo motorizado na rua”. Qualquer uma dessas duas opções é compatível com a linha do tempo de minha vida.

—Olha, parece que a bela adormecida finalmente acordou! — uma voz feminina, ligeiramente conhecida, interrompe as minhas suposições.

  Forco um pouco a visão e enxergo uma mulher alta, de traços orientais e jaleco branco vindo em minha direção.

— É bom tê-la conosco Anise, está sentindo alguma dor?

  Dor. Como qualificar este sentimento? Para as pessoas “normais”, ou seja, aquelas sem síndromes associadas ao comportamento em sociedade, esta pergunta soaria como coisa banal, mas, para alguém como eu, ela pode parecer extremamente complicada de ser respondida. Afinal, que tipo de dor ela quer saber se estou sentindo? Além do mais, o que é mesmo a dor, como exteriorizar este sentimento? Estas são algumas das indagações que permeiam a minha mente sempre que me deparo com este tipo de situação.

— Oi... Anise, você está me ouvindo?

— Ah, desculpa, voei um pouco (para variar). Então, doutora... Estou me sentindo normal, sinto um leve incômodo na parte de trás da cabeça, acho que é uma dorzinha só... E de resto, mais nada, estou bem, quase 100%, certeza! Agora, posso ir para casa?  Tenho que ver como os meus bichinhos estão...

— Anise, presta atenção no que vou lhe dizer: essa dorzinha é por causa da sua queda, você bateu a cabeça no meio fio da calçada e desmaiou. Fizemos um exame clínico e uma radiografia, parece estar tudo bem, mas, se você estiver sentindo qualquer sintoma anormal, é melhor que me avise agora para que eu possa verificar se é algo que não foi detectado anteriormente. Entendido?

—Sim, senhora, entendido. Agora, posso ir para casa, eu realmente preciso ver os meus animais.

— Não se preocupe, o síndico de seu prédio pediu para avisar que seus animais estão seguros com ele, e que assim que você for liberada poderá vê-los. 

— Ai, que amor, o seu Zé cuidou deles para mim!— exclamo aliviada.

— Anise, “cê” não mudou nadinha, né, continua a mesma menina avoada de sempre. — a fala da médica me surpreende.

—Uai, mas você me conhece da onde, doutora?— inquiro.

—Oras, Anise, eu estudei com você, não se recorda? Eu sou a Lia, nós fomos colegas na escola, mais que isso, éramos grandes amigas... Acaso se esqueceu?

  Oh, my! Pressinto uma forte angustia começar a invadir a minha alma.  A constatação de que encontrei, sem querer, um fio perdido de meu passado depressivo, me acerta de modo devastador. Definitivamente, terei que marcar uma nova consulta com o Samuel!



Notas finais do capítulo

Até breve!



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