A Complexa Existência do ser Anômalo escrita por Line


Capítulo 4
Complicações Existenciais


Notas iniciais do capítulo

*Atualizei a capa e corrigi a sinopse.*
Este capítulo não foi revisado, pois é parte de uma antiga versão desta história. Eu iria retirá-lo, mas resolvi postar já que ele possui algumas deixas para "plots" que se desenrolarão mais para frente na história.



— Então, eu acho que deveríamos escolher algum ponto para focar a nossa abordagem inicial.  Só falar em inclusão de forma didática e generalizada é muito vago, e dá a impressão de que estamos apenas querendo cumprir um trabalho, sem se aprofundar verdadeiramente no tema em questão.

—Certo. O Seu argumento é válido, mas qual é a sua ideia para aplicá-lo na prática?

    São quase sete horas da noite de uma sexta-feira. Poderia estar em casa descansado e aproveitando a presença dos meus pets, porém, estou aqui, presa na escola com o motivo de meu suplício recente: Petrus, o professor de inglês que é um enigma para mim. Nós estamos discutindo estratégias para aplicação prática de um projeto de inclusão ao qual a escola nos incumbiu de realizar.  Qualquer outra mulher estaria em polvorosa por dividir o mesmo ambiente com o deus grego à minha frente. Se fosse Verônica no meu lugar, por exemplo, aposto que ela estaria bem à vontade, talvez até já tivessem ficado amigos, ou algo a mais neste tempo. Eu, todavia, sinto-me cada vez mais fora do eixo em tua presença. Petrus me desafia constantemente, e por isso, preciso mudar a personagem que uso com ele, de acordo com a ocasião. Agora mesmo, estou interpretando uma mulher confiante e focada, que propõe estratégias de trabalho com firmeza e desprendimento total. Esta é a minha última tentativa para achar o tom certo com ele. Só nesta tarde, já fui desde a brincalhona descontraída, à introvertida e desinteressada.

— Veja, eu pensei em fazermos uns panfletos, ou um mural para a parte demonstrativa. Também poderíamos agendar alguma palestra, e claro, buscarmos exemplos concretos de inclusão. E com relação ao ponto de enfoque, poderíamos escolher alguma deficiência, ou síndrome pouco explorada no ambiente escolar. — proponho com o objetivo de finalizar logo a nossa reunião.

— Realmente, neste último ponto eu concordo, as outras duplas estão desenvolvendo temas mais conhecidos, acho interessante trabalhar com algo menos divulgado, porque assim estaremos cumprindo com uma das metas que é orientar os pais e a comunidade escolar. —Petrus  responde, com tua voz rouca e firme. 

     Céus! A voz deste homem é perfeita! Além disso, o rosto dele consegue ter um formato único, que é másculo, e ao mesmo tempo suave. Petrus parece àqueles príncipes de comédias românticas da sessão da tarde que eu tanto gosto de assistir. Se eu pudesse olhar em seus olhos, mesmo que por um minuto, eu poderia descobrir se eles também são tão bonitos quanto quem os sustenta sobre mim.  Infelizmente, o máximo que consigo fazer é focalizar os seus ombros, orelhas e nariz, numa tentativa inútil de disfarçar a minha incapacidade latente de encarar os olhos  alheios. 

— Há algo de errado, Anise?

— Desculpe o que me perguntou?

— Eu perguntei se há algo de errado. Você ficou distraída de repente, se for pelo cansaço, porque já estamos aqui há muito tempo, podemos continuar depois. —Oh, droga, acabei de ter um novo momento de devaneio lúcido, mais um e posso pedir música no fantástico!— Ah, claro... Desculpe Petrus, eu acho que realmente já deu para mim por hoje. Podemos marcar na segunda? Tenho o último horário livre, pois é dia de educação física na minha turma. — proponho com certo acanhamento.

— Certo, nos reuniremos na segunda-feira, então.

— Ok.

— Você quer uma carona até sua casa? Notei que você não veio de carro hoje...

   Oh, não! Sinto o mundo parar ao meu redor, e ouço um alarme estridente, com luzes vermelhas ofuscantes, começar a apitar em meu cérebro. Definitivamente, eu não estava preparada para esta variável. Em nenhuma das hipóteses que eu supus para o dia de hoje havia esta possibilidade e, embora seja tentador aceitar a oferta, encontro-me paralisada sem saber como agir. Há duas respostas possíveis para a pergunta de Petrus, mas, inúmeras possibilidades podem se desenrolar a partir delas. Por exemplo: caso eu não aceite sua carona, terei que lhe dar uma justificativa plausível para a negativa, ou seja, terei que contar uma mentira, uma vez que a verdade está fora de cogitação. Todavia, caso eu aceite, como seria o nosso percurso até em casa? Como eu procederia em sua presença, qual é o código social vigente pare estas ocasiões? O que diz o manual de relações humanas, a cerca deste tópico?

  — Anise... Anise?! Você está me ouvindo?

  — Oi?!

  — Deixa para lá, vem, eu  vou te levar para casa, e é agora!

  —Oi?! Quer dizer, não precisa Petrus.  Eu vou te atrasar, minha casa é contramão da tua e...

  — Anise, com todo respeito, mas não seja teimosa, você está pálida e mais dispersa do que o normal, eu estou de carro e lhe darei uma carona para garantir que não passará mal!  Ok?

  — Ok. Como contrariá-lo depois dessa justificativa tão convincente!

  —Então, vamos.

  — Vamos...

    Ele pôs-se a caminhar em minha frente, enquanto eu o seguia atrás, em uma marcha um tanto quanto embaraçada. Acontece que a sentença: “mais dispersa do que o normal”, ainda ressoava como um eco ininterrupto em minha consciência. Ela confirmou o que eu já desconfiava: Petrus sabe dos meus devaneios lúcidos e, sem que eu entenda o porquê, isto me despedaça por dentro!

    Eu até tenho carteira de motorista, mas não gosto de conduzir, aliás, acredito que só tirei o documento porque os examinadores foram muito bondosos comigo; fiz o teste tantas vezes que até fiquei amiga íntima tanto do pessoal da autoescola, quanto da banca examinadora.  Eu prefiro o papel de passageira, pois sentar num banco sem compromisso com o caminho, me permite devanear sem culpa. Ao contrário de mim, meu colega de trabalho se mostra um exímio motorista, ele conduz de forma concentrada, e parece sempre estar atento ao caminho.

    Durante a primeira parte do percurso, desatei a falar tagarelices, depois, com o passar dos minutos, fui tomando consciência de que isso poderia o irritar; sendo assim, fiquei calada durante o restante do tempo. Este é mais um fato sobre mim: eu demoro a entender as entrelinhas das emoções das outras pessoas. Por isso, muitas vezes acabo provocando situações inconvenientes, ou constrangedoras.

 — É aqui, no prédio rosa — indico.

     Petrus desliga o carro, e eu, sem saber como proceder, fico quieta na poltrona de passageiro, esperando talvez; que ele abra a porta para eu sair. Ele, por sua vez, observa-me de forma silenciosa o que provoca dentro de mim, uma sensação excruciante. Falta-me a coragem necessária para virar o meu rosto e encarar-lhe face a face. Então, faço o que de melhor eu sei fazer, que é fingir costume: coloco o meu melhor sorriso falso e a seguir me viro em tua direção, depois, observo-o por cima de teu ombro, de modo que pareça que eu o estou encarando diretamente. E, por fim, falo:

— Muito obrigada, nobre cavalheiro. Já é a segunda vez que me salvas, isto porque estamos apenas no início do ano letivo! Minha dívida contigo só cresce, espero que o senhor não financie estas ações com juros muito elevados! Desculpa qualquer coisa e... até mais! – O som da risada de Petrus preenche o ambiente agora. É a primeira vez que o ouço sorrir abertamente, até então, só havia presenciado teus meios sorrisos, durante alguns raros momentos.

— Não se preocupe Anise, o nobre cavalheiro aqui não costuma cobrar dívidas de lindas donzelas. Principalmente daquelas tão divertidas, quanto à senhorita. — a princípio, interpreto essa sua resposta como espontânea e bem humorada, no entanto, depois, intuo que ele também deixara algo implícito em suas palavras.

—Ah... claro...então, então, muito obrigada de novo... E desculpe qualquer coisa, de novo!—Digo um pouco gaguejante. Sempre que fico duvidosa sobre alguma situação, começo a gaguejar, ou falar de maneira incompleta.

—Disponha. Quando quiser carona, já sabe, é só pedir.

— Claro! Você é realmente muito cavalheiresco caro colega!

   Enquanto vislumbro um novo sorriso aberto surgir na face de Petrus, abro a porta do carro e desço. Dou-o um último aceno desajeitado, e pronto, assim nos despedimos.

   Já em casa, algumas dúvidas me vêm à cabeça: será que eu deveria ter chamado Petrus para entrar? Será que ele vai achar que sou mal educada, por causa disso? Será que eu me comportei do jeito certo? Será que eu não falei nada de esquisito? Ah, Deus, dúvidas, dúvidas e mais dúvidas!

  No dia seguinte...

   Passei a noite inteira em estado insone, remoí cada minuto do dia anterior numa tentativa vã de me convencer, de que eu havia me comportado de forma correta. Coisa que não funcionou, pois a cada vez que eu rememorava os acontecimentos passados, minha ansiedade me convencia de que eu havia feito, ou falado algo de errado com Petrus.

   Meus sábados, geralmente, são tranquilos.  Costumo passar o dia em meu apartamento com meus filhos de quatro patas: dois cachorros, e uma gatinha (Pikachu, Romero e Miauzi, respectivamente). Ficar em casa é o programa mais confortável possível para mim, uma vez que estando sozinha, posso ser eu mesma, sem precisar interpretar nenhuma personagem. 

   Sair de casa, no entanto, torna-se um ato complicado, pois o meu cérebro precisa de um motivo lógico para entender a necessidade da saída.  Por exemplo, de segunda a sexta-feira saio para trabalhar, e isto, é um motivo mais do que lógico; assim, meu cérebro o entende e eu consigo realizar bem esta atividade. Em contrapartida, nos meses em que há sábados letivos, eu tenho grande dificuldade em sair de casa, porque na minha cabeça este dia está reservado para o descanso, então, eu preciso estabelecer toda uma nova sequência lógica, para conseguir ir trabalhar e depois seguir o dia normalmente.

   Para mim, é torturante ser aspie.  Eu detesto, profundamente, esta minha condição! Esta síndrome me limita em todos os aspectos, e para piorar, não tem uma cura em específico. Eu me acho um ET social, literalmente!

    Sou tirada das minhas conjecturas internas pelo som da campainha. Obviamente, não esperava por visitas, por isso, demoro alguns minutos antes de atender, na esperança de que a pessoa pudesse desistir. Ledo engano, a campainha continua a ressoar! Preguiçosamente me desloco até a porta, e quando finalmente a abro tenho que lidar com “o furação” Verônica:

  — Anise Felícia Álvares Ferreira, arrume-se, nós temos um compromisso!

  — Quê, endoidou criatura?

  —Pelo contrário, estou muito lúcida, só que preciso de sua capacidade lógica de observação: nós vamos atrás de um escroto traidor!

   E foi assim, com esse decreto sem nexo nenhum que minha atual melhor amiga me arrastou pela cidade em horas intermináveis de salão de beleza e shopping, para no fim terminarmos aqui: numa festa aleatória, na casa de alguém possivelmente mais aleatório ainda, atrás do seu atual namorado, ficante, quase marido, ou seja, lá o que eles são um para o outro.

—Só me explica de novo Verônica, como você acha que vai surpreendê-lo, se provavelmente algum dos amigos dele já o avisou que você está aqui também?

— Ai é que está fofa, tenho certeza de que ninguém irá alertá-lo de minha presença, porque eu conheço todos os amigos dele, e esta não é uma festa do núcleo dele, nós estamos no meio da turma da “outra”! Eu interceptei umas mensagens suspeitas no celular dele com informações sobre esta festa, parece que é aniversário de algum amigo da dita cuja e ela o convidou para vir junto, ou melhor, ela o intimou a comparecer acompanhado dela.

—Verônica do céu, então tu não me inventa de bater nessa menina, nós estamos em menor número, e eu não sei brigar, ok?!

— Ai, Nise, tu é muito engraçada, mas não se preocupe meu negócio não é com a menina, eu vou acertar as contas é com o dito cujo mesmo. Sabe, para mim tanto faz que eles estejam juntos, o negócio é que eu não gastei preciosos três meses namorando este cara, para no fim ele me aprontar uma dessas! Miga, afinal de contas, quem trai uma ficante em pleno século vinte e um? Até parece que eu iria me importar caso ele quisesse terminar o nosso rolo, eu hein, era só ter sido sincero desde o início! E falando nele, olha lá quem acaba de chegar... —Volto a minha atenção para a direção que Verônica indica e vejo que um rapaz alto de camisa azul, adentra o local ao lado de uma moça morena, muito bonita, aliás. — Nise minha querida, observe bem o que farei agora, talvez algum dia você também precise acabar com a raça de um ser traíra!

  Resumindo, Verônica fizera o maior escândalo com o tal rapaz, sinto-me incapaz de narrar com exatidão todos os detalhes do show a parte que ela deu, mas posso dizer que ela finalizara tudo dando um belo banho de cerveja nele, o que o fizera ir embora mais cedo.  No entanto, acredito que o que mais incomodara ao "dito cujo", não fora a roupa molhada por bebida, mas sim, a vergonha por todo o acontecido em si. A minha amiga soubera utilizar as palavras certas para ofender a sua moral: além de falar que ele era ignorante e que por isso, não mereceria uma mulher tão deslumbrante quanto ela, ainda arrematara dizendo que ele tinha o “pinto” pequeno, e que por isso, seria "ruim de cama". Esta última frase, diga-se de passagem, levara ao delírio as outras pessoas da festa, que acompanharam atentamente à confusão. Pelo que eu entendi, de todas as ofensas, nada o incomodara mais do que ter tido sua masculinidade posta à prova. No fim, o rapaz (do qual eu nem sequer fiquei sabendo o nome correto) fora embora humilhado, e sozinho; uma vez que a outra garota saíra pela tangente, no mesmo instante em que a confusão começara. O que é uma pena, pois eu queria entender se ela, de fato, sabia que ela era a “outra” da relação.

   Neste momento, a minha amiga encontra-se no meio da sala desta residência aleatória, dançando como senão houvesse amanhã. Até pensei em ir para casa, já que meus serviços de observadora lógica, nem foram tão necessários, mas deixar uma amiga bêbada avulsa numa festa estranha é algo que no momento; não me pareceu o correto a se fazer. Acho que é assim que as mulheres modernas protegem uma às outras em situações como essas, não?

   Desta forma, sentei-me em um canto reservado, de onde poderia observar Verônica, sem que precisasse, contudo, estar no meio da muvuca. Um dos motivos pelo qual eu quase nunca venho a estes tipos de festas é porque eu odeio lugares com barulho excessivo, e grande aglomeração de pessoas.  Prefiro ficar confortavelmente em casa, com meus animais aos pés da cama, uma xícara de café segura em uma das mãos, e um livro na outra.

   Do no meu canto, pude reparar melhor no ambiente a minha volta. A sala é grande e há quadros (com ares de requinte), pendurados nas paredes. O sofá em que estou sentada parece àqueles móveis planejados e vendidos por encomenda ao dono – com certeza nada aqui fora comprado numa casas Bahia, ou Ricardo eletro da vida – seja quem for o dono deste lugar, obviamente é alguém de posses e de bom gosto.

— Sonhando acordada, em meio a uma festa. Só você mesmo, Anise!

Esta voz... Eu conheço esta voz!

—Ei, aqui, eu estou atrás de você.

—Petrus?! O que você tá fazendo aqui?

— Olha, acho que é mais fácil eu fazer essa pergunta a você, Anise, afinal, esta casa aqui é minha.

— Oi? Cuma? Quer dizer... Como assim?— ok, universo, legal essa brincadeira, mas para tá, você bem sabe que eu detesto surpresas!

— Como assim, pergunto eu, se eu soubesse que a senhorita gostava deste tipo de festa, tinha até lhe convidado. Mas, confesso que nunca imaginei “você” nesse tipo de evento.

— Primeiro: não era para você ter ouvido a minha conversa, eu estava dialogando em particular com o universo.  Segundo: eu realmente não curto esse tipo de evento, só estou aqui porque Verônica insistiu. E, terceiro: muito me admira você falar isto, EU que nunca iria imaginar que o senhor, tão formal e discreto, que só ouve música clássica nos intervalos entre as aulas, seria adepto deste tipo de festa em casa! —Petrus parece ter sido pego de surpresa pelo meu último comentário. Mas, só parece mesmo, porque no minuto seguinte ele se aproxima de mim com um sorriso de canto ladino, e rebate:

Touché! Perspicaz como sempre, Anise. Sinto-me lisonjeado em saber que a pessoa mais distraída daquela escola, notou algumas características de minha personalidade, e até o meu gosto musical!

   As últimas palavras ditas por ele soaram de uma forma nova para mim. Não consigo identificar qual é o sentimento implícito nelas. Qual é o sentido que Petrus quis dar a estas palavras: seria ironia? Comicidade,talvez? Ademais, o jeito com o qual ele falara o meu nome, fora algo tão singular, que admito ter sentido até um leve arrepio subir pela minha nuca.

— Oras, Petrus, pare de gracinhas, eu já entendi que o senhor já percebeu a minha mania de sonhar acordada, não precisa repetir isso de novo.

— Desculpa, se isso lhe incomoda, eu paro por aqui. Agora, você também vai me fazer o favor de parar de me chamar pela alcunha de senhor, acho que já temos intimidade o suficiente para nos tratar de forma mais pessoal.

  Se alguém estivesse filmando este momento, certamente eu apareceria vermelha tal qual um pimentão nas imagens. Eu estou totalmente desconfortável nesta cena. Nada que ocorreu até aqui foi planejado, então, estou tendo que seguir um comportamento automático, baseado em minhas observações primárias, sobre o comportamento humano. O que me leva a outro questionamento: o que eu devo dizer, a seguir?

—Ei, Nise e... Petrus? Por que vocês dois estão sozinhos aqui, neste canto?

   A presença de Verônica, como sempre, é a minha resposta e salvação.

— Nise, dá para olhar para mim, e responder à minha pergunta – Verônica me repreende.

— Verônica, é este seu nome, né? Eu estava aqui fazendo companhia à Anise, enquanto você estava por aí, dançando. Imaginei que ela pudesse estar desconfortável em um ambiente assim, onde ela não está acostumada. —  Petrus  é mais rápido, e responde por mim.

— Cara, é impressão minha ou você está querendo dizer que eu deixei a minha amiga sozinha, enquanto ia me divertir? – pausa dramática– Deixa pra lá, de todo modo, eu nem citei você nesta conversa, dá licença!

— Verônica! Ele é nosso colega de trabalho, tá doida?!

— Verônica, nada Nise. Vamos embora daqui, que essa festa já deu!       

— Ei, também não precisa sair assim fugida, pode continuar aproveitando a festa Verônica, eu posso tomar conta da Anise. — Petrus me surpreendeu agora, isso na voz dele seria um tom de provocação?

—É o quê? por acaso acha que vou deixar a minha melhor amiga sozinha numa festa estranha, com gente esquisita, numa casa de um desconhecido, com alguém que é “mal, mal”, um simples colega de trabalho? Eu assisto a aqueles programas de teve, tá, você pode ser um psicopata disfarçado!

—Verônica, sem querer interromper a sua teoria de conspiração, só que você já fez tudo isso: foi você quem abandonou a sua suposta melhor amiga a esmo, numa festa qualquer. Mas, se te alivia alguma coisa, saiba que além de colega de trabalho, eu também sou o dono desta casa onde está acontecendo esta festa, logo, eu não sou tão desconhecido assim.

   A cara que Verônica faz em seguida é totalmente difícil de descrever, eu sinceramente não sei se ela está se sentimento encabulada, surpresa, ou tudo isso junto.

— Peraí, deixa ver se eu entendi, essa casa é sua, e você está dando uma festa de arromba? – outra pausa dramática – Quem diria, hein, Petrus, você com esse jeito de almofadinha, todo certinho... Jamais imaginaria que fosse adepto desse tipo de festa! –Verônica conseguiu com esta fala, provocar um sorriso, mesmo que discreto, em Petrus.

—Sim, a casa é minha. Mas quanto à festa, isso foi ideia do meu irmão mais novo, que mora comigo, e que por isso, acredita que também tem alguma posse sobre essa casa.

— Ah, tá, sabia disso não! Perae, neste caso, teu irmão seria tipo assim, a parte descolada da família, é isso?

— Olha, isso depende do que você considera descolado, se for alguém que tem mais de vinte anos, nunca trabalhou e vive à custa da família... Então eu concordo que ele é o mais descolado mesmo! — Uii... Por essa Verônica não esperava. Petrus a deixou sem fala, momentaneamente, mas minha amiga sempre tem uma boa saída para qualquer situação:

 — Nossa coleguinha, isto na tua voz seria um pouco de rancor? Desculpa se tua família é problemática, tá, prometo que não toco mais no assunto!

—Ei, Vê, pega leve também, tá?!— a repreendo novamente.

— Tudo bem Anise, sua amiga só está sendo um pouco sarcástica, talvez seja o efeito do álcool, por isso isto não me sinto ofendido. Na segunda-feira estaremos todos juntos confraternizando na sala dos professores, e nem nos lembraremos deste pequeno encontro. 

— Ei, eu não estou tão alcoolizada, tá! Eu vim dirigindo, e por isso, bebi só um pouquinho. Veja, admito que o meu modo de falar, soara um pouco rude para com você, colega. É tudo culpa dos meus hormônios, sabe; é complicado estar de TPM e ser chifruda ao mesmo tempo!

— Verônica, por Deus!

— Que foi, Nise, estou só falando os fatos, eu sou chifruda, corna, mesmo! Mas pelo menos, sou uma chifruda gostosa, e inteligente!

  O lado bom de ter a Verônica por perto, é que ela sempre arranja um momento para servir de alívio cômico nas conversas. 

— Agora que eu já me desculpei, vamos embora, amiga, que esta festa já deu o que tinha que dá.

— Eu acompanho vocês até o carro, afinal, tenho que manter a minha fama de cavalheiro. Não é mesmo, Anise?! –Meu... Deus... do...céu! Não acredito que Petrus teve a coragem de dizer isso na presença de Verônica!

— Como é que é? Gente, eu perdi alguma coisa, desde quando vocês dois têm tanta intimidade, assim?! –A pergunta pode ter sido direcionada a nós dois, mas eu sei que no fundo, Verônica que ouvir apenas a minha resposta. Contudo, eu a ignoro completamente, “finjo demência”, e acelero os meus passos em direção à porta de saída. Só que, como perfeita taurina que ela é, minha amiga teima em querer que eu a responda de qualquer maneira. —Anise, nem pense em me ignorar, eu sei que você me ouviu bem! –exclama, já com o tom de voz mais elevado.

— Verônica, dá um tempo, estou com sono e sem paciência para os seus chiliques. Sinceramente, vamos embora de uma vez! Ah, e Petrus, não precisa se incomodar em nos acompanhar. Viemos sozinhas, e conhecemos perfeitamente o caminho de volta. — Meu eventual destempero parece ter surtido efeito, pois Verônica se calara, e enfim pudemos sair da casa.   

    Já no carro, a minha amiga inicia uma conversa sobre como eu não deveria confiar em homens bonitos demais, porque segundo ela, estes são os piores.

— É sério, Nise, ouça o que digo: o Petrus é um gato, claro, e aquele jeito todo fechadão dele dá um ar de mistério que te deixa molinha, molinha — ela abana o rosto enquanto diz esta última parte —, porém não se deixe levar, este tipo de homem muito trabalho, principalmente quando eles têm um alvo como você...

— Como eu? Como assim, especifique Verônica.

—É minha querida, como você: inocente e inexperiente. Vai me dizer que  não percebeu as indiretas que ele mandava para você, vez ou outra , hein senhorita?

— Quê?! Lógico que não! Ele só estava sendo educado comigo, amiga. Para o Petrus eu sou apenas uma colega de trabalho um pouco irritante, definitivamente, ele não tem interesses amorosos para comigo!

— Ai, Nise, pode até pensar assim, mas eu como mais experiente lhe digo que aquele cara tá de olho em você, só não sei ao certo o que ele quer contigo. Por enquanto!

   Durante o restante do trajeto para casa, reflito sobre o quê Verônica quis dizer. Ela, assim como as outras pessoas, relaciona a minha aparente personalidade romântica, a uma convergência social de superficialidade que eu chamo de “donzela facilmente influenciável”, ou seja, ela acredita piamente, que eu seja passível de me apaixonar pelo primeiro homem que dispensar-me minimamente, alguns minutos de atenção.  Mal sabe ela que, para mim, o amor é tão somente o resultado de reações químicas finitas, que são processadas em nosso organismo, e que desta forma, não têm nenhuma aplicabilidade real. Quer dizer, eu gosto de histórias de romance água com açúcar, do tipo que tem um príncipe encantado e uma mocinha apaixonada, mas, daí a querer aplicar isto na vida real é bem diferente!

    No verão passado, por exemplo, me matriculei numa disciplina isolada de física quântica aplicada. Durante o curso fiz amizade com o professor, uma vez que tínhamos muitos interesses em comum. Pronto, foi o suficiente para Verônica começar a insinuar que eu estava apaixonada por ele! De fato, eu era muito solícita para com ele, e sempre estava buscando uma forma de agradá-lo, mas este é o tipo de coisa que faço com quase todo mundo. Eu tenho medo de decepcionar as pessoas porque nunca sei realmente como proceder em determinadas situações, então, opto por agradar o outro ao máximo, porque acredito que desta maneira, os outros, irão me considerar uma pessoa afável. Faço isso com qualquer ser humano, e isto independe do gênero. Infelizmente, é difícil para a maioria das pessoas entenderem que nem sempre gestos de carinho, e sorrisos abertos, estão vinculados às possíveis segundas intenções.



Notas finais do capítulo

Alguns pontos sobre o capítulo, para reflexão :
1-Percebam que Anise utilizou várias vezes o verbo fingir em suas falas. Qual o motivo para isso ?
2- Verônica demostrou certa preocupação para com a relação de amizade, entre Petrus e Anise. Isto seria uma preocupação genuína, ou há algo mais implícito,aí. Será que ela não tem medo de perder a presença da amiga, ao qual ela consegue influenciar perfeitamente ?
3-Aliás, o que vocês acharam da dinâmica de amizade das duas, é uma relação saudável ? Hum?!!!!



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