Cabo Amaral escrita por P B Souza


Capítulo 1
Prólogo


Notas iniciais do capítulo

Esse textinho é coisa rápida... São 2 prólogos na verdade, duas introduções rápidas para situar a gente no que vai acontecer daqui pra frente.
Espero que vocês gostem, boa leitura :)



Quando o portão da penitenciaria se abriu o gosto da liberdade não era mais doce como pensou. Na verdade o amargo na boca fazia ele lembrar que sequer tinha para onde ir, quão menos alguém para lhe acolher. Era mentira, claro.

Márcio nasceu e cresceu no Moinho, uma das inúmeras favelas da cidade, e fez amigos quando criança, amizades tão verdadeiras que permaneceram depois de adulto. Depois de órfão as amizades se tornaram a sua única família, uma família que podia não ser de sangue, mas que dava o sangue por ele. E em troca ele fazia o mesmo, afinal como recusar um pedido tão simples? Era só assoviar quando a viatura passasse na rua debaixo. Afinal, era só levar um pouquinho de erva para o Jango. Afinal, era só carregar os revolveres para eles, mas ele nunca iria puxar o gatilho. Afinal, era só ficar de olho pro prisioneiro não fugir do “galinheiro” durante a noite. Afinal, era só apontar a arma, ele nunca iria puxar o gatilho. Afinal era só levar o pó para o outro lado da cidade. Afinal era só mais um favor. Afinal... E no fim, ele puxou o gatilho.

Errou, não o alvo, mas o peito do alvo. E seu erro em tirar uma vida talvez tenha salvado a sua própria, mesmo ele tendo sido condenado. Tentativa é, no fim das contas, melhor do que homicídio. Bom comportamento ajudou, ser réu primário também, muito embora aquele não fosse seu primeiro crime, apenas a primeira vez pego.

Agora ele precisa acreditar nas mentiras que disse a si mesmo lá dentro. Vão me negar, como eu os neguei. Pensou o homem feito olhando para a rua deserta na sua frente. Era oito da manhã e a única alma-viva ali era um cachorro vira-lata deitado em cima de um papelão. Agora ele pensava que pior que o dia que chegou ali, era o dia que saíra. Não ter ninguém para lhe receber de braços abertos causava mais dor que estar lá dentro apanhando. Pelo menos não vou mais apanhar.

Buscar algum consolo na situação era a única forma de não desistir e pedir para voltar, lá dentro ouvira, de mais de um detento, que quando suas sentenças acabavam eles cometiam crimes menores apenas para poderem voltar, porque lá fora... Não havia trabalho, não havia braços abertos, não havia família...

— Uma vez que você entrou, você pode até cumprir sua pena, pode até sair. Mas a prisão nunca mais vai sair de você! — Tinha ouvido de um dos guardas quando foi para a solitária pela primeira e única vez.

Márcio nunca pensou que fosse acabar daquele jeito. Sozinho no mundo e ainda assim sentia que o mundo tinha muito a lhe oferecer. Então começou a andar, passos curtos e afoitos, como se o chão lhe fosse estranho, como se o caminho fosse incerto. Mas que caminho? Para onde ia não havia placas de direção ou orientação, apenas o caminho sem fim de uma jornada... espetacular!

Foi apenas na marginal, após andar por quase dez quilômetros, que conseguiu uma carona. Dando sinal viu o carro se aproximando e leu na placa o lugar de origem do veículo.

— Para onde você tá indo? — O homem no volante perguntou, parando no acostamento. Era um homem de barba branca e cabelo grisalho, o carro era esportivo e aparentava ter saído do lava-rápido. Márcio se curvou um pouco para olhar o homem. Não estava em condições de negar nada, e não tinha motivos para negar nada.

— Litoral. Problema? — Apontou para a marginal e para o fluxo de carros.

— Coincidência. Também to indo pra lá! — O motorista disse, a porta destravou.

Márcio entrou no carro e partiu para o litoral, os destinos eram inúmeros. Podia chegar em qualquer lugar que aquele homem estivesse indo; de Bertioga a Peruíbe. Mas o destino lhe levou até Cabo Amaral. E lá sem ser ninguém, sem sequer perceber, ele recomeçou.

*****

O Abaporu estava ali, pendurado na parede de vidro, solitário e avesso dos Operários na sala ao lado.

O Grande Salão do Museus do Amaral era um cômodo de vidro, três das quatro paredes eram na verdade placas de vidro interligadas que deixavam o sol entrar de manhã e as estrelas serem vistas de noite, a visão dali era arrebatadora, podiam ver toda Cabo Amaral colina abaixo, mas normalmente ninguém que ia ali, ia para olhar apenas a paisagem. O Grande Salão tinha o papel fundamental de ostentar o orgulho de Cabo Amaral; o quadro mais importante da carreira da mulher que dava nome a pequena cidade; Tarsila do Amaral e sua obra definitiva, Abaporu.

As paredes tinham três metros de altura, o teto não possuía nenhuma lâmpada, pois também era de vidro e fazia-se curvado como um domo, a única parede de concreto era a da porta do salão, pintada de cinza, trazia poemas e trechos dos livros de Oswald Andrade, esposo de Tarsila. Fora esse detalhe o Grande salão possuía apenas dois móveis, um banco de praça feito em ferro fundido com o brasão de uma empresa inglesa que há muito deixara de operar no país, e o próprio quadro, pendurado do teto com cordas de aço, fixado ao chão com outras cordas de aço, protegido por um cordão de proteção para impedir que curiosos chegassem perto demais.

O museu nunca ficava cheio, e naquela época do ano raramente recebia visitas, sendo assim havia apenas duas pessoas solitárias em sua união, sentadas no banco gelado do Grande Salão.

— Quando eu voltar te encontrarei aqui. — Teodoro disse para Sabrina sem tirar os olhos dela. A vista da cidade e do mar era deslumbrante, a vista do Abaporu era um privilégio, mas poder olhar Sabrina era sua única vontade.

Queria olhar para ela por cada segundo possível, memorizar as curvas de seu queixo, a forma de seus olhos, o contorno dos seus lábios, queria eternizá-la na lembrança, para que nunca precisasse olhar uma foto, pois saberia sempre como Sabrina era. E como a poderia esquecer?

— Quando voltar eu estarei aqui. Te esperando como se não tivesse passado um dia sequer.

Os dois choravam, pois as escolhas nunca foram deles, como seria? Os dois tinham os rostos carregados da tristeza do primeiro amor rompido, dilacerado pelo acaso do destino que nunca os planejou juntos. Teodoro chorava em silêncio, tentando ser forte e fracassando miseravelmente nessa tentativa, seus dedos tremiam segurando as mãos de Sabrina nas suas, e Sabrina chorava a ponto de soluçar, como se perder Teodoro fosse tão cruel como perder a si mesma.

O primeiro amor, dizem, é sempre o mais difícil de superar.

Com os lábios salgados das lágrimas os dois se aproximaram o suficiente para que um tocasse o outro, os olhos se fecharam uma última vez e foi intenso, foi caloroso e sútil, foi arrebatador, porém inadvertidamente calmo, foi o último momento que os dois se tocaram, se sentiram, íntimos naquele segundo que perduraria para sempre na memória...

E quando abriu os olhos Teodoro podia ver Cabo Amaral abaixo do museu, desde a parte mais nobre aonde ficava as casas das grandes famílias, incluindo a sua própria, ao centro comercial com a Feira Local, até o residencial comum. Podia ver a torre dos bombeiros próxima do zoológico, podia ver o farol construído a partir das ruinas de um navio nas Rochas aonde diziam que Iemanjá tomava banho de sol nos dias de verão. Podia ver o Abaporu pendurado pelas cordas de aço em sua moldura de pau-brasil, intocado há anos. Podia ver graças ao pôr-do-sol o reflexo dos poemas da parede nas suas costas, projetados nas paredes de vidro. Só não via Sabrina.

Aonde ela está? Se perguntou. Havia voltado. Havia partido mas havia voltado. Ele cumpriu com sua promessa e estava ali, esperando por alguém que nunca chegou. Cadê você?

O problema com o primeiro amor, dizem, é que pode ser difícil, mas alguns sempre superam. Alguns!





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