In Perfect Harmony escrita por EsterNW


Capítulo 4
Impulsividade em Westminster


Notas iniciais do capítulo

Olá, povo!
Dessa vez voltei mais rápido do que o esperado, não?
Depois do capítulo anterior, acabei encontrando meu ritmo com a história e creio que os próximos capítulos fluirão com mais facilidade :D
Boa leitura ;)



“Caro Sr. Edwards,

Finalmente terminei de ler Macbeth, acredita? Acabei intercalando a leitura com a de um romance e mais alguns compromissos ao longo do mês, o que explica a demora. De fato, como o senhor bem disse-me, foi a peça de Shakespeare que mais agradou-me até a data. Uma das minhas partes favoritas é a da morte de Banquo, quanta emoção! Creio que cheguei a derramar algumas lágrimas enquanto lia... E quanto ao senhor, qual sua parte favorita? Também chegou a emocionar-se?

Esses últimos dias foram divididos entre uma leitura quase ininterrupta do livro e a finalização de alguns desenhos que comecei. Um deles inspirado por uma de suas cartas, veja só! Estou mandando os dois ao senhor, como uma forma de agradecimento pela inspiração e pelo livro. Seria capaz de dizer-me o que representei no papel?

Sinceramente,

Elise Davies”

 

William aproximou o papel de carta do rosto, em um hábito, sentindo o leve perfume cítrico que sempre possuía as cartas feitas por Elise. Fechou os olhos em uma contemplação silenciosa, gravando o aroma em uma de suas memórias. Dobrando a folha com cuidado, colocou-a junto de uma pequena pilha de papéis, dentro de um de seus livros espalhados pela escrivaninha envelhecida no quarto do hotel. Os bilhetes acumulavam-se e, sem dúvidas, aquela conversação por correspondência não cessaria tão cedo.

O ator pegou os dois papéis, maiores que aquele que o acompanhava, desdobrando um por um, admirando a habilidade de Elise com a grafite e a aquarela. Ela desenhara com uma quase perfeição habilidosa o Palácio de Cristal de Moscou, também conhecido como Palácio de Pavlovsk. Ao menos, com a perfeição da qual William fora capaz de descrever em uma de suas cartas de duas semanas atrás. Era como ver cada linha de sua descrição transformada em linhas do desenho de tons pastéis, fiel em representar a falta de graça do inverno. Deixando-o de lado, pegou o outro, visualizando a famosíssima cena em que o fantasma do personagem Banquo, de Macbeth, aparecia no meio de um banquete do protagonista da peça. Ele ergueu as sobrancelhas para a representação, feita majoritariamente em tons negros, contendo apenas um tom de luz em cena: Banquo. Para sua surpresa, o personagem parecia demais com ele mesmo...

William não pôde deixar de sorrir, em uma expressão involuntária de seu rosto. Olhando para a pintura mais uma vez, não pôde deixar de sorrir ainda mais. Cuidadosamente, guardou as duas obras junto das cartas, evitando dobrá-las, não querendo marcar a precisão dos traços belos que Elise fizera.

O ator abaixou a cabeça, apoiando ambas as mãos sobre a superfície de madeira da escrivaninha. Seu lado impulsivo clamava pela decisão que estava prestes a tomar naquela mesma noite, enquanto seu lado mais racional pedia calma e ponderação. Contudo, William não desejava ouvir seu lado racional, poucas vezes o fazia. Era passional e impulsivo demais, sabia e censurava-se por isso.

Ainda teria tempo para o duelo interno durante o percurso até a casa dos Jones, a convite do próprio filho da família e seu amigo, Clinton. O boêmio dera como justificativa de que precisava de alguém para distraí-lo no meio de tantas conversas enfadonhas que permeariam a noite. Além, é claro, de dar uma ajuda ao amigo, sendo que a família Davies também estaria presente, a convite dos anfitriões. Segundo Clint, ele estava dando a faca e o queijo na mão de William, bastava ele decidir o que fazer. O ator torceu o nariz para a expressão, entretanto, não pôde deixar de sentir-se grato pela ajuda do outro.

Tirando a casaca azul marinho das costas da cadeira, vestiu-a, colocando cada botão na casa correta com uma calma comedida. Respirando fundo, tentava manter a cabeça no lugar. Quem disse que aqueles exercícios do teatro não eram úteis?

Saiu, trancando a porta atrás de si e tirando o relógio do bolso enquanto descia as escadas do terceiro andar para o saguão. Ainda possuía tempo para um percurso calmo até Westminster, no coração da cidade.

Chegando às ruas, ainda teve que retornar para buscar sua cartola, que cabeça de vento! Pronto para sair novamente, sentiu o vento quente do início da noite primaveril bater-lhe nas faces, obrigando-o a abrir os primeiros botões do casaco. Dentro dos próximos dias teria início o verão, talvez um dos mais quentes nos últimos tempos.

William andava alheio às ruas movimentadas por transeuntes e carruagens que pareciam brotar a cada esquina. Estava preso demais em suas próprias decisões para qualquer admiração à cidade. E não perdia muito, afinal, conhecia aquele lugar muito bem e não tinha muito o que admirar em ruas fétidas.

Em alguns minutos, chegou à casa da família Jones, sendo recebido pelo mordomo, que guardou a cartola para o ator e anunciou sua presença para os já aguardavam o jantar. William foi convidado pelo mordomo para entrar na sala de estar.

— Meu caro William, chegaste bem na hora. — Clinton foi o primeiro a levantar-se, cumprimentando-o com um tapinha camarada nas costas. O ator sentiu o olhar de todos na sala sobre si: toda a família Jones, os Davies e, para sua surpresa, a família Michaels com seus dois filhos. —Preciso de sua opinião em uma questão importantíssima, questão de vida ou morte.

William cumprimentou a todos os presentes, pela etiqueta, mesmo que Clint o puxasse logo para o sofá de três lugares ao centro da sala.

— Minha caríssima irmã insiste em dizer que Wagner é melhor do que Salieri, acredita?

Clint sentou-se na ponta do estofado, deixando para William o meio, ao lado de ninguém menos que Elise Davies. Os dois não evitaram uma breve troca de olhares e Edwards deu um sorriso discreto.

— Nossa querida amiga, Elise Davies, insiste em apoiar Caroline em suas afirmações estapafúrdias e coube a mim a tentativa de colocar bom senso nessas duas — o rapaz dramatizou, fazendo com que sua irmã revirasse os olhos.

— Sem exageros, Clint, sem exageros — Caroline, que estava em uma cadeira ao lado de Elise no sofá, soltou em um resmungo, muito mais do que ciente dos comportamentos do irmão em um debate.

— O que me diz, William? Ao menos, com seu apoio, seremos dois contra dois nesse embate — Clint incentivou-o, no que William apenas correspondeu com um sorriso maroto, rindo internamente daquela cena toda.

— Sou obrigado a concordar com as duas, Clint, sinto muito — terminou com uma expressão exagerada, fazendo com que o amigo se desse por vencido e cruzasse os braços em birra. As duas damas ao lado apenas riram.

— Tem um bom gosto para música, Sr. Edwards — Elise finalmente tomou parte no diálogo.

— Obrigado, El.... Srta. Davies — William corrigiu-se em tempo e engoliu em seco ao perceber o quase deslize que dera em público. Os pais da garota estavam próximos e poderiam ter ouvido -o chamar a filha pelo nome de batismo, expressando tanta intimidade.

Elise corou e baixou o rosto.

— O jantar está pronto para ser servido — o mordomo anunciou, guiando os presentes para a sala de jantar.

O quarteto separou-se, com cada um indo para seu lugar designado à mesa. Ambos pai e mãe da família Jones encabeçavam as cadeiras principais. Para William restava um lugar ao fim, ao lado de Charles Jones e de frente para Clint e Camille. Ao lado dela estava Elise. Ambos trocaram olhares discretos por sobre a mesa.

— Poderia passar-me o sal, por obséquio? — Charles pediu tão logo o jantar foi servido.

William suspirou, sabendo a conversa que teria que aturar vinda do militar ao lado. Passou-lhe o saleiro e Charles começou a tagarelar.

...

Todos haviam deliciado-se com o jantar e a sobremesa preparada pela cozinheira dos Jones, tanto que alguns mandaram seus cumprimentos à jovem talentosa.

Guiados novamente para a sala de jantar, os presentes dividiram-se em pequenos grupos, com alguns conversando entre si, como os três patriarcas das famílias Jones, Davies e Michaels, enquanto outros poucos se divertiam com o carteado na pequena mesa que fora posta pelos empregados justamente com essa finalidade. William procurou Elise e Caroline com os olhos, porém, as duas estavam em lugar nenhum naquela sala.

— William, o que acha de irmos fumar na varanda? — Clint convidou, tendo saído do jogo de cartas, cansado de perder para o irmão. — Elise e Caroline não devem aparecer tão cedo, sabe-se lá onde elas se meteram — completou na tentativa de convencer o amigo, que assentiu.

Os dois saíram da sala de estar, caminhando juntos pelos corredores bem iluminados da casa da família. O status financeiro dos Jones era claramente visível através de algumas esculturas e obras de arte que adornavam os corredores pelos quais passaram, William percebeu.

— Clint, poderia aguardar por mim na varanda? Farei uma breve visita à biblioteca, se me permite— William disse de repente, para a surpresa do amigo.

Clint estranhou e olhou para as portas abertas do cômodo do qual acabaram de passar ao lado. Ele riu, dando um tapa no ombro do amigo.

— Cuidado com a reputação da menina — Clint brincou, ganhando uma encarada furiosa do ator, porém, apenas saiu rindo em direção à varanda.

William entrou silenciosamente na biblioteca. Elise distraía-se correndo os dedos pelas lombadas dos livros na estante, absorta na própria mente.

— Procura pela sua próxima leitura? — ele perguntou, causando um sobressalto na pobre garota. Elise olhou-o assustada, com a mão próxima ao coração.— Perdoe-me, não foi minha intenção assustá-la. Eu deveria ter anunciado minha entrada.

William foi para o lado oposto da mesma estante, repetindo a atitude anterior da dama e passando os dedos pelas lombadas dos livros.

— Não esperava que alguém viesse até aqui, estão todos entretidos na sala de estar.

— Nem todos — William retrucou e tirou um dos livros do lugar. No espaço deixado, foi capaz de ver Elise sorrir do outro lado. Ele acabou sorrindo onde estava, disfarçando-o ao olhar para o livro que tirara da prateleira.

— Caroline deixou que eu emprestasse um livro da biblioteca da família — Elise disse no vão aberto entre os livros, aproximando o rosto para observar William do outro lado.

— Foi o que supus... — ele fingiu-se de distraído, folheando as páginas do exemplar que segurava. De canto de olho, observava a moça que, por sua vez, fazia o mesmo com ele. — O que acha desse livro? — Passou o exemplar para ela pelo espaço aberto.

— Utopia de Thomas More— Elise leu título e autor em voz alta, surpreendendo o outro, que sequer prestara atenção no livro que pegara. — E isso é bom? — questionou, acreditando que o ator tivesse lido a obra.

— Não sei, nunca o li... — Elise riu do outro lado e William juntou-se a ela nas risadas. — O que acha de descobrir se é bom ou não? Assim teremos mais assuntos para as próximas cartas.

— Não sei... — Elise soltou pensativa, recolocando o livro no lugar e tampando a visão que ambos tinham um do outro.

— E o que deseja ler? — William questionou, passeando de volta com os dedos pelas lombadas dos livros. — Um romance, talvez?

— Talvez — Elise respondeu, fazendo o caminho de retorno pela estante. Os dois encontraram-se ao final dela. — Desejava por algo com aventuras. — A afirmação fez com que o ator erguesse as sobrancelhas, surpreso.

William apoiou as costas na lateral da estante, parecendo meditativo. Elise apoiou o rosto nos livros, de perfil, para que pudesse observar bem o ator.

— Confesso que estou surpreso pelo seu desejo.

— Não esperava que eu gostasse de livros de aventura? — Elise questionou, deixando William em dúvida se ela estava ofendida, curiosa ou os dois.

— Não... Pensando melhor, faz sentido que goste de livros de aventura — ele soltou, mirando o lustre no teto. Elise aproximou-se mais, deixando poucos centímetros de distância.

— Por quê? — ela perguntou de súbito e espontânea.

— Tem um espírito aventureiro, Elise... — ambos coraram ao perceber que William chamara-a pelo nome de batismo. — Perdoe-me, por favor, não foi minh...

— Não se preocupe... William — Elise chamou-o de volta pelo primeiro nome, fazendo com que ambos rissem do constrangimento momentâneo na conversa.

— Tudo bem, Elise, desde que isso fique entre nós — respondeu com leveza, junto de uma piscadela, o que fez com que a dama sorrisse.

— De acordo. — Ambos colocaram-se em silêncio, incertos do que dizer para continuar a conversa. — A sua companhia está mesmo indo embora? — Elise questionou de repente e William surpreendeu-se com o tom melancólico da jovem.

— Sim, este é o último final de semana da peça em Londres — respondeu baixo, como se não quisesse admitir a verdade em voz alta.

— E para onde irão depois disso?

— Paris. Continuaremos com apresentações pela Europa.

— Sempre quis conhecer Paris... — ela devolveu, soltando a frase como um suspiro sonhador.

William virou o rosto, visualizando com clareza Elise a centímetros de distância. Ele encarou os olhos castanhos da moça, perdendo-se com a visão. Iria ser impulsivo? Com certeza. Mas quem se importa? Com certeza Elise, se ele estragasse tudo por causa disso...

— Por que não vem comigo? — Pronto. Estava feita a pergunta que William desejara fazer durante aquele dia inteiro. Em seus pensamentos, nunca imaginaria que seria em uma conversa como aquela.

— O que? — Elise espantou-se, boquiaberta. Ela afastou-se com alguns passos para trás. O ator ficou no mesmo lugar, dando espaço para ela.

— Venha comigo, Elise. Viaje comigo pelo mundo — ele pediu em desamparo, observando as feições de espanto da jovem. Sua impulsividade tinha estragado tudo, tinha certeza.

— Mas não seria corre...

— Venha comigo como minha esposa, Elise — a interrompeu, sabendo qual era a linha de pensamento dela. Céus, sua frase anterior soara desrespeitosa? Era óbvio que ela acreditou que sim, afinal, o que ele pensara ao pedir para que ela o acompanhasse se não possuíam nenhum tipo de compromisso ou laço familiar?

Elise postou-se boquiaberta, levando as mãos à boca em espanto.

— Perdoe-me, eu não deveria ter sido tão inci... — William interrompeu suas escusas e a saída da biblioteca ao sentir os dedos de Elise tocarem os seus.

— Eu aceito — ela disse baixinho e com certa timidez. O sorriso de William iluminou-se como nunca. — Mas não será fácil convencer papai, estou certa disso — alertou, temerosa pelo futuro, afinal, conhecia muito bem o próprio pai.

— Lise, escolheu o livro? — perguntou a voz de Caroline não muito distante.

Os dois coraram como nunca ao verem que seriam pegos sozinhos na biblioteca. Em um ímpeto, Elise ergueu o rosto, depositando um beijo rápido na bochecha de William. Parecia um beijo de um beija-flor, William analisou para si mesmo.

Elise saiu da biblioteca e ele escondeu-se entre as estantes, caso Caroline resolvesse entrar com a amiga no recinto.

— Por que você está corada? — Ainda conseguiu ouvir, antes que as duas afastassem-se demais.

William sentia-se exultante, como se fosse capaz de dançar de tanta felicidade pelas ruas de Westminster. Dessa vez, agradecia pela sua impulsividade ter levado a melhor na disputa com a razão.





Notas finais do capítulo

Será que o pai da Elise vai mesmo apoiar esse casamento ou eu estou sendo boazinha demais? Sexta no Globo... -n
Antes que eu me esqueça, a história agora tem uma playlist que eu quero compartilhar com vocês: https://open.spotify.com/playlist/0GEEIN2FZHa3j0utoula3e
E no YouTube: https://www.youtube.com/playlist?list=PLtd2o93Ew-C0tZHsm9OrG8OvrOo00qIIc
Como diria minha amiga Stelfs, é algo bem "eclético" pra uma história na era vitoriana xD
Até mais, povo o/



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