Colônia de férias para pais solteiros escrita por Mebe


Capítulo 9
Dia 7 - Girassóis amassados




Vídeo on

Sam terminou de enrolar um cigarrinho de palha e o esticou para Freddie que o colocou na boca, inclinando-se um pouco para que Sam o acendesse. Rapidamente, o aroma da erva verde inundou o carro. O moreno, dando uma longa tragada, prendeu a fumaça e passou o cigarrinho para Sam que fez o mesmo. E, assim, soltaram o ar ao mesmo tempo, formando uma cortina de névoa branca que custou se esvair.

Vídeo off

Marissa fechou o notebook e encarou Sam e Freddie que estavam à sua frente. A loira, destemida, encarava os próprios dedos com um sorrisinho exposto no rosto, enquanto Freddie estava sério ao seu lado.

—Sabe, eu fiquei sem palavras quando vi esse vídeo. Não sei o que me assustou mais…

—O reflexo da sua cara na tela do notebook - Sam resmungou provocativa.

—Sam! - Carly, que também estava na sala, mas à porta, exclamou e a loira, fingindo rendimento, ergueu as mãos.

—Você gosta de fazer piadas, não é? - Marissa perguntou com desprezo.

—E amor também. De preferência com o seu filho. Viu todos os vídeos?

—Sam… - Carly novamente tentou.

—Não, não. Deixe-a. Quero ouvir o que ela tem para dizer.

—Eu dizer alguma coisa? Eu não quero dizer nada, minha filha. Só quero sair dessa merda de sala. Parece até que voltei para a escola. Que porra é essa?

De fato, Marissa havia imaginado aquele momento de outra forma. Chegou a pensar que com a loira seria como com Carly e, ao perceber que não, endureceu a postura, encarando Sam com firmeza.

—Você sabe diante de quem você está?

—Diante de você - a loira respondeu ironicamente.

—Sim, mas quem sou eu?

—Olha, nisso eu não posso te ajudar. Se você está procurando se autoconhecer, existem bons livros de…

—Sam.

Carly, que até então procurava não intervir, deixou a porta e se posicionou ao lado da amiga que, novamente, ergueu os braços como se dissesse "foi mal".

—Eu sou Marissa Benson, Senhorita. Dona da escola onde o seu filho estuda e ex-prefeita da cidade.

—Bacana.

—Bacana?

—É, ué. Você queria que eu dissesse o quê? Oh, Alteza.

Sam se curvou, fingindo devoção. Carly e Freddie se entreolharam e disfarçaram o riso.

Sam é uma figura - era o que pensavam.

—Já chega! - Marissa se aborreceu. - Eu não sou uma palhaça. Se acha que pode ficar aí, sentada na minha frente, debochando da minha imagem, você está muito enganada.

—Se quiser, eu debocho pelas costas.

—Escute aqui, ô garota.

Marissa se colocou de pé, furiosa, e Freddie também se levantou.

—Não esgote a minha paciência. Continue com esse seu sarcasmo e num instante eu te prendo. Ouviu bem?

—Me prender? E eu por um acaso cometi algum crime, velha?

—Cometeu. Cometeu, sim.

—Qual?

—Corrompeu o meu Freddinho.

A gargalhada de Sam foi estrondosa.

—Eu te garanto que ele já era corrompido - disse e olhou com um sorriso travesso para o moreno que não retribuiu o olhar.

—Corrompida era você, sua vagabunda!

—Mãe… - Freddie a segurou.

—Epa! - A loira se levantou. - Aí, não. Vagabunda, não.

—Vagabunda, sim. Sua imprestável. Está querendo levar o meu Freddinho para o mesmo caminho que o seu?

—Para o mesmo caminho que o meu? Acha que fui eu que o ensinei a fumar a porra da maconha?

—Sam - Freddie, desta vez, olhou a loira, implorando para que ela não prosseguisse.

—Ele fumou porque ele quis, velha louca. Ele transou comigo porque ele quis.

—Vadia.

—Vadia é o seu cú.

—Lava a sua boca para falar comigo, garota.

—Eu vou lavar é o meu dedo para enfiar no seu…

—Sam! - Carly exclamou, puxando a loira pelo braço. - Vem. É melhor sairmos daqui.

—Isso, Carly. Defenda-a. Defenda essa sua amiguinha desbocada. Educação é o que falta nessa gente - Marissa, ao dizer, olhou Freddie e o viu a segurando. -Me larga, Fredward.

Sam e Carly saíram do escritório sem, contudo, terem resolvido os problemas que tinham para resolver.

—Velha filha da puta.

—Sam…

—Que foi, Carly? Você não viu do que aquele saco de pelanca estava me chamando?

—Sam, não acredito que você estava fumando maconha com o Freddie.

A loira olhou a amiga e fingiu desentendimento.

—Você disse que tinha parado.

—E parei.

—Não foi o que pareceu.

Novamente, Sam a olhou.

—Onde arranjou?

—Carly…

—Onde arranjou, Sam?

—Ai, Carly. Por aí. Para que você quer saber, se você não fuma?

Sem poder crer nas palavras que havia acabado de escutar, a morena parou de caminhar e encarou a amiga.

—Sam, você sabe muito bem aonde isso te levou da outra vez.

—Você tem que se lembrar disso agora?

—Sim, tenho. Porque é bom que você se lembre dos seus erros para não cometê-los outra vez.

—Aquilo é passado. Eu não estou mais com o Jace, aquele filho da puta morreu e eu não quero mais me lembrar daquela época.

—Se não quisesse lembrar, não estaria fazendo as coisas que aprendeu com ele.

Carly ergueu o olhar e viu Freddie em pé há alguns metros. Olhou novamente para Sam e, sem nada dizer, continuou caminhando, deixando a loira a sós.

—Quem é Jace?

Ao se aproximar, o moreno perguntou.

—Ninguém.

—Ninguém?

—É, Freddie. Ninguém.

Sam soou grossa ao responder e, notando o silêncio que se seguiu às suas palavras, bufou com as lembranças em mente.

—Não confia em mim para contar as coisas?

—Não é questão de confiança, Freddie. Eu simplesmente não quero te contar.

—E por quê?

—Porque é a minha vida. Eu não assinei nenhum contrato que diz que tenho que te contar todos os detalhes dela.

No momento não se deram conta, mas aquela pequena discussão, que pouco a pouco foi ganhando magnitude, tinha uma razão óbvia. Marissa podia não ter dado conta de se sobrepor à loira, mas desde o seu escritório ria, pois sabia muito bem que ao menos uma “sementinha do mal” havia lançado no meio dos dois.

—Então quer dizer que tudo que tem acontecido ultimamente não significa nada para você?

—Porra… O que você quer ouvir de mim? Que eu estou apaixonada por você, que eu te amo e que vamos nos casar no próximo verão? - Riu com escárnio. - Não me diga que você é assim tão inocente.

—Eu não esperava escutar nada disso, mas achei que haveria ao menos uma consideração. Afinal de contas, quando você está gemendo sobre mim, você é a pessoa mais carinhosa do mundo…

Sam interrompeu o moreno com sua gargalhada.

—Meu filho, quando eu estou transando eu sou muitas coisas.

Freddie não encontrou uma resposta adequada. Incrédulo, permaneceu encarando a loira que sequer notou uma certa frustração em seus olhos.

Enquanto isto

Algumas dezenas de pezinhos inquietos se erguiam num conglomerado de crianças que, num piscar de olhos, havia se formado no parquinho. Todos os pequeninos se espremiam, curiosos, para ver Leon e Violet que estavam no centro da roda.

Mesmo tão pequenos, traziam consigo conflitos um tanto incomuns para tão pouca idade.

—Você não precisava pisar na florzinha que eu te trouxe - Leon se abaixou na grama e apanhou o girassol amassado pelo tênis brilhante de Violet.

—Eu não gosto de flor.

—Não perguntei se você gosta. Titia Carly sempre diz que devemos aceitar as coisas e agradecer.

—A sua titia é boba.

—Não fale assim da tia Carly!

Com uma veiazinha saltada no pescoço, Leon arremessou o girassol no chão novamente e marchou até Violet que, cruzando os braços, ergueu o queixo de forma ostensiva.

—Pede desculpa.

—Me obriga.

O pequenino não pensou duas vezes, empurrou Violet que caiu com tudo sobre a grama. Mas ela não deixou assim, ergueu-se com rapidez e fez o mesmo com Leon que, não se contentando em cair sozinho, agarrou a jardineira que Violet usava. Num instante, estavam rolando no chão.

—Ei. Ei. Ei.

Carly apareceu de repente, metendo-se no meio da roda e espalhando as crianças.

—Meu Deus. Mas vocês dois, hein.

—Foi ela que começou, tia Carly! - Leon se esgoelou aos prantos.

—Ele me trouxe flor. Eu não gosto de flor.

—Não interessa. Você devia ter aceitado.

—E por que, se eu não gosto?

—Tia Carly, fala com ela - Leon implorou.

A morena, que no meio de toda aquela discussão tinha uma enorme vontade de rir, abaixou-se à altura dos dois e os trouxe para perto.

—Escutem aqui, vocês dois são muito novos para isso - disse com um sorriso exposto no rosto.

Leon e Violet se olharam timidamente e a morena se ergueu novamente.

—Peçam desculpas um para o outro.

—Desculpa - Leon foi o primeiro.

—Foi mal - Violet murmurou olhando em outra direção.

Carly riu baixo e beijou a testa dos dois, vendo-os sair correndo imediatamente.

—Pelo menos esses são controláveis - murmurou para si voltando ao se posto: um simples balanço.

Sentou-se e sacou o celular do bolso, mas logo notou que alguém se sentou ao seu lado.

—Oi.

—Olá - a morena respondeu simpática, notando que se tratava do mesmo rapaz do dia anterior, Gibby, mas a princípio não foi de recordar o nome.

—Seus filhos?

—Quem?

—Os dois que estavam brigando.

—Ah. Não. São filhos dos meus amigos. A menininha é filha do Freddie. Não o conhece?

—Hã, na verdade, não. Sou de Oregon. Acabei de me mudar para cá e consegui esse emprego quinzenal.

—Ah… Legal. O Freddie é filho da Marissa, a mulher que organiza a colônia.

—Sim, sim. A Marissa eu conheço. E o garotinho?

—Quem?

—O garotinho.

Apontou para Leon que ao longe corria atrás de uma bola.

—Ele é meu sobrinho, filho da minha amiga. A minha filha é aquela dali.

Carly apontou na direção de Mia que brincava com uma porção de bonecas junto à outras crianças.

Gibby, avistando-a, sorriu suspirando.

—Ela se parece com você.

—É o que dizem - sorriu corada.

Carly, ao dizer, firmou o olhar sobre Gibby por curtos instantes, tentando se recordar de seu nome, mas quando, por cima dos ombros dele, notou Sam e Freddie vindo discutindo entre si, logo se pôs de pé, tentando não transparecer para os amigos o corado em seu rosto.

Mas Sam e Freddie estavam entretidos demais em suas trocas de insultos para notar a vermelhidão da morena.

—Cabeçudo.

—Bruxa.

—Ei. Ei. Vocês dois, por que estão brigando?

—Esse enxerido aí que está querendo saber demais da minha vida - Sam respondeu apontando com desdém para Freddie.

—Eu enxerido? Eu só te fiz uma pergunta.

—E eu não quis responder. Posso pelo menos exercer esse direito?

Encararam-se por curtos instantes e logo se voltaram para a morena.

—Carly - clamaram em uníssono.

—Ai, vocês dois. Agora mesmo o Leon e a…

Uma bola, vinda da rodinha de garotinhos que ao longe jogavam, caiu no meio dos três, obrigando Carly a parar de falar. De repente, quando olharam na direção de onde a bola veio, viram Leon vindo correndo.

—Pegue aí, amigão! - Freddie exclamou, enquanto equilibrava a bola sobre o seu pé, preparando-se para arremessá-la.

Para o moreno, aquilo não fora nada, mas, para Leon, foi tudo. Seus olhos, tão azuis quanto os da mãe, saltaram de alegria e admiração, por isso até quis dizer algo, mas, envergonhado, limitou-se a pegar a bola e voltar correndo para onde antes estava.

Mais tarde

No quarto, estava Sam jogada de qualquer forma sobre a cama com seu celular em mãos. Embora a TV estivesse ligada, a loira não dava a mínima atenção. Enquanto rolava o feed do seu Instagram, escutava a barulheira que Leon e Mia faziam no banheiro.

Carly, na sua infinita criatividade, havia feito da banheira uma espécie de piscina, para assim conseguir economizar tempo. Meteu Leon e Mia lá dentro, cada qual com seu traje de banho, e agachou-se logo ao lado, ajudando-os a lavar os cabelos.

—Tia Carly, aquele moço é namorado da mamãe? - Leon perguntou com o rosto coberto por espuma.

A morena riu, enxaguando-o.

—Quem? O Freddie?

—Uhum.

—Isso você vai ter que perguntar para a sua mãe.

—Posso perguntar agora?

—Agora?

—É. Por favor. Por favor. Por favor.

O pequenino insistiu incessantemente, enquanto batia seus finos braços na água.

Diante daquilo, Carly não se aguentou. Apesar de Freddie, e tampouco Sam, não ter notado o brilhinho nos olhos de Leon mais cedo, quando ele viu Freddie dominar a bola com habilidade, a morena havia percebido e, logo de imediato, concluiu que aquilo poderia fazer bem a todos. Por isso não impediu que o pequeno saísse da banheira empolgado, enrolando-se em seu roupão do Mickey, indo para fora do banheiro rumo à loira que se assustou com seu aparecimento repentino.

—Mamãe. Mamãe. Mamãe - repetia animadamente, enquanto subia na cama.

—Que foi, Leon?

—Aquele moço é seu namorado?

—Qual moço?

—O que chutou a bola para mim.

—O Freddie?

—É.

—Claro que não. Deus me livre.

Do banheiro, Carly escutava tudo com um sorriso exposto no rosto.

—Por quê?

—Ué, porque não.

—Você podia ser namorada dele.

A loira encarou o filho, confusa.

—Carly, pode parar de colocar merda na cabeça do Leon - bradou Sam para a morena que, no mesmo instante, apareceu no quarto com Mia ao seu lado.

—Eu não coloquei nada - cantarolou divertida.

Sam, no entanto, não acreditou em suas palavras. Sabia que a morena era uma especialista no ramo dos cupidos. E, ah, como a loira odiava isto, mas só a princípio, pois, no final de tudo, acabava dando créditos à Carly que raramente errava em seus palpites.





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