Colônia de férias para pais solteiros escrita por Mebe


Capítulo 6
Dia 4 - Dinossauros são verdes




Geral

—Ela está bem?

Freddie olhou para o lado e viu Sam deitada numa espreguiçadeira, exibindo seu corpo para quem quer que a olhasse, enquanto tinha os fones nos ouvidos.

—Está - Carly respondeu passando protetor solar.

—Eu não quis causar tudo aquilo. Me senti mal depois por tê-la feito pensar que eu faria alguma coisa. Mas eu não entendo. Pensei que ela estivesse no mesmo jogo que eu.

—Eu te disse que ela é complicada.

—Sim, mas eu não imaginei que fosse nesse nível.

—Eu não quis te assustar.

Carly riu fraco e Freddie a olhou, mas não por muito tempo. Voltou o olhar para Sam uma última vez e, por fim, tornou-o para a morena.

—Como se conheceram?

—Quem? Sam e eu?

—Uhum. Porque, digamos, vocês duas são bem opostas.

—É o que dizem - a morena riu.

—Você não acha?

—Acho, mas para ser amiga da Sam, para tolerar ela, tem que ser o oposto mesmo.

Freddie ergueu as sobrancelhas, achando graça nas palavras de Carly. Suspirou e apoiou os cotovelos nos joelhos, passando as duas mãos por entre seus cabelos que ainda estavam úmidos por conta do recente mergulho que dera.

—Ela era namorada do meu irmão há alguns anos e, sei lá, acabamos ficando próximas, principalmente porque…

Ao notar que Carly se calou, o moreno a olhou.

—O quê?

—Acabamos ficando próximas principalmente porque ele a engravidou e, alguns meses depois… Alguns meses depois ele… Ele morreu…

Suas últimas palavras saíram um pouco embargadas.

—Sério? Nossa. Sinto muito.

—Foi num acidente de moto. Ele vivia prorrogando o momento de consertá-la e um dia… Bom, você já sabe.

—Nossa…

O clima, então, pesou.

—Mas agora já está tudo bem. Faz seis anos.

—Por isso você e a Sam são como irmãs?

—Sim. Ela, impressionantemente, sofreu mais do que eu com a morte, talvez porque ela estava assustada com a gravidez, não queria o Leon e a morte do Spencer só fez agravar o que…

De repente, enquanto falava, a morena notou que Sam vinha em sua direção, retirando os fones.

Freddie, porém, não percebeu, pois estava de costas. Por isso disse:

—É por isso que ela bebe tanto?

Carly não respondeu. Fez um gesto com a mão, reclamando o silêncio do moreno, e encarou Sam que se colocou diante dela.

—Passa um pouco mais nas minhas costas aqui, Shay - a loira disse e estendeu o frasco de protetor solar para a amiga, sentando-se na beira da espreguiçadeira onde estava Carly.

Puxou o cabelo para o lado, expondo suas costas, o que deu a Freddie a oportunidade de observar toda a extensão de suas costas.

—Por que não vem se sentar aqui conosco, Sam?

—Não quero, Carly.

—Mas você vai ficar lá sozinha, loira?

—Eu já disse que não quero ficar aqui, Carly. Mas que saco.

Ao dizer, a loira se levantou e, tomando o frasco de protetor solar das mãos de Carly, direcionou os passos de volta para a espreguiçadeira onde antes estava.

Vendo a atitude bruta de Sam, Freddie perguntou:

—Isso tudo é culpa minha, não é?

—O quê?

—Isso dela estar agindo assim.

Carly soltou o ar pesarosamente.

—É que, o que você fez ontem, a lembrou de certa coisa que não a deixa muito feliz.

—O quê?

—Não posso falar. Na verdade, ela ficaria muito brava comigo se soubesse que te contei.

—Claro. Não devia ter perguntado. Desculpa.

—Tudo bem.

Então, mais uma vez, Freddie desviou seu olhar para a loira que agora estava deitada à beira da piscina bronzeando as costas.

—Você acha que eu devo ir me desculpar com ela? - O moreno perguntou, voltando-se para Carly que provava de um drinque.

—Sinceramente? É melhor não. Quando ela está assim, é melhor deixá-la. Eu falo com ela porque já me acostumei com a arrogância dela nos momentos de estresse, então procuro deixar que as palavras entrem por um ouvido e saia por outro - riu só de pensar no quão natural lhe parecia toda a natureza abrupta da loira. - Mas se você não tem essa facilidade, é melhor deixá-la esfriar a cabeça sozinha, caso contrário só vai piorar a situação.

—Mas e se ela nunca esfriar a cabeça em relação ao que aconteceu?

Carly olhou Freddie e o viu relativamente preocupado.

—Você não teve a intenção de machucá-la, não é?

—Não. Só me expressei de forma errada.

—Ela sabe disso, mas, conhecendo a Sam, ela vai levar um tempinho para admitir que sabe. Então, aproveite esse tempo para descansar das implicâncias dela.

—Gosto quando ela implica comigo.

—Claro que gosta. Eu soube desde o início.

A morena sorriu sabiamente e se levantou.

—Só toma cuidado para não gostar demais - Carly disse e pulou na piscina.

Freddie, que permanecera no mesmo lugar, coçou o cabelo, confuso, e pela última vez olhou Sam.

Mais tarde

Estavam todos os pais, junto às suas crianças, no nada pequeno salão de festas da mansão. À frente de cada pai/mãe e sua respectiva criança havia um cavalete e tintas de todas as cores. No centro do enorme espaço, uma jovem moça pedagoga estava ali para promover uma melhor relação entre pais e filhos.

—Muito bem, pessoal. Esse é um momento para que, junto com sua filha ou seu filho, vocês produzam uma obra de arte. Às vezes, na correria do dia a dia, acabamos não sendo tão próximos dos nossos pequenos anjinhos, preenchendo essa lacuna com presentes e tecnologia, mas esse é o momento em que vamos ocupar esse vácuo de uma forma artística. Então, fiquem à vontade para produzirem. Lembrando que todos os quadros serão usados para decorar nossa escolinha. Então, vamos lá? Mãos à obra.

O salão de festas logo foi infestado por murmúrios.

—Palhaçada - Sam reclamou, agarrando um pincel.

Carly, escutando aquilo, nada falou. Da mesma forma Freddie, que, estando do lado oposto de Carly, mas também ao lado de Sam - por coincidência ou não - nada falou.

—Mamãe, que tal fazermos um dinossauro? - Leon sugeriu animado.

—Eu não sei fazer um dinossauro, Leon.

—Mas eu sei.

—Que ótimo! - Exclamou e esticou o pincel para o filho. - Então faz.

Rapidamente a inocente empolgação de Leon se foi e, cabisbaixo, apanhou o pincel e afundou-o no pequeno pote de tinta verde.

Carly por mais que tivesse relutado não se aguentou.

—Sam, o que é isso?

—O que é isso o que, Shay?

—O que é isso que você está fazendo?

A loira revirou os olhos.

—Não adianta revirar os olhos assim. Sam, este é o pior erro que você pode cometer na sua vida.

—Que erro, Carly?

—Ora. Este. O Leon não tem culpa dos seus problemas, eu já cansei de falar com você.

—E eu já cansei de falar com você que eu sei disso.

—Não, você não sabe. Se soubesse não o trataria assim.

—Olha só, Carly. Me dá um tempo, tá legal?

A morena olhou ao seu redor e, cansada de tudo aquilo, mas sentindo-se na responsabilidade de dar algum jeito, abaixou-se na altura de Mia e prometeu-lhe que voltaria logo. Ao se erguer, agarrou o braço de Sam e a levou para fora do salão, sob os protestos da loira e o olhar de Freddie.

Do lado de fora, explodiu.

—Sam, eu sei que o que aconteceu ontem te deixou chateada, com raiva do Freddie e tudo mais, mas o Leon não tem culpa de nada. Ele é seu filho. Você tem que se lembrar disso todos os dias. Você não o queria. Sim, eu sei, mas ele não pediu para nascer, Sam, e você faria um grande favor a ele não o deixando triste. Ele tem seis anos, Sam. Ele não entende os seus problemas. E eu já te disse que não gosto quando você o trata assim.

—Claro que não. Ele é filho do seu irmão.

—Sim. Ele é filho do meu irmão, mas, mais do que isso, ele é uma criança que sempre é deixada de lado pela própria mãe. Você sentiu isso na pele, Sam, e sabe como é. É isso que você quer para o seu filho?

—Eu não quero falar sobre isso, Carly.

—Você nunca quer falar de nada, por isso guarda tudo dentro de si e depois desconta da pior forma em cima daqueles que te querem bem.

Carly, ao dizer, olhou para o lado e viu Freddie à porta do salão. Voltou o olhar para Sam e sentiu seus olhos arderem.

—Você não vai a lugar nenhum dessa forma, Sam. Já tivemos essa mesma discussão um milhão de vezes e mesmo assim você não muda. Sorte sua que eu tenho uma paciência do tamanho do mundo, mas até ela tem um limite.

Assim a morena saiu às pressas rumo à mansão, tendo os olhos avermelhados e lacrimejantes.

Mais do que depressa, Freddie saiu atrás de Carly, passando por Sam sem olhá-la.

Carly

Sim. Não era a primeira vez que Sam e eu tínhamos aquele atrito, mas foi a primeiríssima vez que entre nós duas houve alguém. Na maioria das vezes brigávamos por causa daquele mesmo ponto dentro de quatro paredes e ali mesmo resolvíamos - raramente com Sam se desculpando, mais era que fingia ter esquecido. Eu, de certa forma, já havia me acostumado, apesar das casuais lágrimas que também se tornaram comuns. Para Freddie, porém, aquilo foi difícil de processar. Notei isso no momento em que o percebi  vindo atrás de mim.

—Carly, você está bem? - Ele perguntou assim que entrei pela sala da mansão.

—Sim…

Enxuguei as lágrimas com facilidade, mas não o olhei. Direcionei meus passos para a escada que dava para o segundo andar, mas, antes que eu pudesse subir um degrau sequer, a confusão se armou.

—Saia daqui.

Olhei para trás e Sam havia nos alcançado.

—Como 'saia daqui'? - Freddie retrucou. - Essa casa não é sua e, além do mais, você não está em posição de me dizer isso. Fez a sua amiga chorar.

—Isso não é da sua conta.

—Não é mesmo, mas o que você fez foi muito errado.

—Você quer discutir sobre erros, Freddie? Quer?!

Vi Sam quase avançar no moreno que parecia irredutível. Então cogitei a ideia de intervir - eu conhecia aquela cena e ela poderia se tornar realmente alarmante - porém não houve tempo para que eu me metesse.

—Você é um idiota. Escutou bem? Um idiota.

Sam empurrou Freddie e eu recuei, decidindo não intervir. Ela precisava daquilo.

—Uma pessoa normal me deixaria explicar…

—Não tem o que explicar, imbecil. Eu te odeio.

—Mas eu não fiz nada.

—Não interessa. Eu te odeio.

Freddie ainda não sabia que por ‘eu te odeio’ a loira queria dizer outra coisa. Mas eu não o culpava, afinal, ele não estava muito longe de perceber isso.

—Você é doida, isso sim.

—Quem é doida aqui, Freddie?

Sam avançou na direção do moreno outra vez.

Eu até estava me sentindo culpada por não intervir, mas no fundo eu sabia que ela precisava cuspir aquelas palavras para depois começar a pensar direito.

—Você é doida.

—Eu vou te mostrar quem é doida.

Ao vê-la ir com tudo para cima de Freddie eu não me aguentei e acabei chamando-a, mas não foi necessária a minha intervenção. O moreno, vendo que ela o acertaria com um soco, segurou-a.

—Me solta, Freddie.

Ele nada respondeu, apenas a encarou.

—Freddie, me solta…

Nada.

—Me…

Não houve mais tempo. Eu pisquei e Freddie beijou Sam.

A princípio, parecendo um pouco desnorteada, ela se afastou dele e, por um segundo, pude imaginá-la dando-o um tapa, mas Freddie não a deu tempo. Voltou a beijá-la e ambos cambalearam para trás.

Ri com incredulidade.

Certamente aquele ‘eu te odeio’ significava outra coisa, pois depois, de onde eu estava, era perceptível que a loira não estava resistindo nem um pouco ao beijo.

No entanto, apesar de entregue à sensação, eu sabia que ela não admitiria assim tão fácil. Por isso, empurrando Freddie, ela passou por mim praticamente correndo, subindo a escada.

—Sam - Freddie a chamou.

—Deixe-a - aconselhei e olhei para ela que terminava de subir os degraus.

Sorri.

—É, você fez uma bela de uma confusão na cabeça dela - comentei e Freddie nada disse.

Olhei novamente na direção do segundo andar e dessa vez quem eu vi não me trouxe tanta tranquilidade. Cutuquei Freddie e ele, olhando na mesma direção que eu, pareceu engolir seco.

—Mãe?

—Fredward Benson, diz para mim que eu não vi o que vi.

Troquei olhares cúmplices com Freddie.





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