Colônia de férias para pais solteiros escrita por Mebe


Capítulo 5
Dia 3 - De pulsos bem firmes




Geral

Às oito da manhã, bem cedo, Marissa chegou ao enorme espaço onde todos desjejuavam. Freddie, que estava logo ao seu lado, apanhou um copo qualquer e bateu um garfo no vidro, chamando a atenção de todos.

—Bom dia, pessoal. Não quero interromper o café de vocês, então prometo que isso irá tomar apenas três minutinhos - Marissa começou a dizer. - Daqui a pouco, às nove horas, faremos uma caminhada ecológica com os pais até uma cachoeira aqui perto. Claro, não é obrigatório, mas quem quiser ir é só levantar a mão que o Freddie vai até vocês para pegar o nome de cada um.

Imediatamente, uma boa dezena de pessoas levantou a mão e o moreno se apressou em atendê-los. Carly, não se contendo, tentou animar Sam que estava totalmente alheia ao que era falado.

—Vamos, Sam?

—Carly, olhe bem para a minha cara. Eu pareço alguém que está a fim de caminhar no meio do mato?

—Mas nós viemos aqui para nos divertirmos, loira.

—Exatamente. E caminhar no meio do mato não é diversão.

A morena suspirou, cansada, e, olhando para os lados, acenou para Freddie que terminava de anotar o nome de um pai. Rapidamente ele veio.

—Qual o seu nome completo?

—Carlotta Taylor Shay.

—Carlotta… Taylor…

—Isso. Com ‘y’.

—Okay.

Freddie terminou de anotar, totalmente indiferente à loira que estava esperando ser notada.

—Não vai perguntar se eu vou? - Ela, no entanto, não se aguentou.

—Para mim tanto faz se você vai ou não.

—Ah é?

—É.

—Então anota a porra do meu nome aí.

—Eu não sou seu empregado.

—Mas não é você que está anotando os nomes, cabeção?

Freddie sustentou seu olhar sobre a loira por alguns segundos - se pudesse, fulminá-la-ia. Por fim, bufou irritado.

—Qual é o seu nome todo? - Perguntou desgostoso.

—Samantha Joy Puckett.

Com uma força extremamente desnecessária, o moreno anotou o nome de Sam e rapidamente direcionou seus passos para longe da mesa.

Carly, que não concordava com nada daquilo, voltou-se para a amiga.

—Você não vai me contar o que, afinal de contas, aconteceu ontem?

—Você sabe o que aconteceu, Shay. Aliás, você estava lá.

—Sim, mas eu não entendi nada.

—Aí eu já não posso resolver o seu problema.

Numa nítida tentativa de desviar daquele assunto, Sam se levantou da mesa, abandonando Leon. O que, muito obviamente, deixou Carly possessa.

Sam

Talvez ter me inscrito para esta maldita caminhada tenha sido uma grande burrada, mas pior do que estar debaixo de um sol dos infernos, no meio do mato, num terreno desgraçadamente acidentado, era ter que ir ao lado de Carly e do engomadinho  que iam batendo o maior papo.

—Eu até fui ao cinema para ver a continuação, mas não foi a mesma coisa. Quero dizer, eles gastaram uma grana para produzir o primeiro e parecem ter desanimado no segundo.

—Sim - Carly vibrou com aquela voz fina dela. Aff. - Na época, eu fui ver com o meu ex-marido e ele se recusou a ficar dentro do cinema de tão ruim que estava.

Os dois gargalharam juntos e eu quis vomitar.

Tá. Talvez eu não estivesse em posição de falar, mas esses dois estão tentando me provocar? Porra! Eu estou invisível ou o quê?

—Mas o ator principal é ótimo. Pena que aquele filme foi um desperdício na carreira dele.

O engomadinho prosseguiu e eu, não sei por que, quis batê-lo. Aliás, eu até sei o motivo, mas me recuso a pensar nele.

Por sorte, enquanto a voz dele e de Carly soavam no meu ouvido, dando-me náuseas, Yoan, o gato de ontem, se aproximou de mim e passou um braço ao redor do meu pescoço.

—E aí, linda?

Senti sua boca quase tocar a minha. Infelizmente, ele se limitou a beijar o canto dos meus lábios.

—Tudo bem?

—Tudo - respondi alto o suficiente para os dois “amiguinhos” ao meu lado escutarem.

—Andei pensando. Será que rola hoje de novo?

—Com certeza.

—Mesmo lugar?

—Acho melhor não, sabe? Porque tem GENTE que tem a boca maior do que os olhos.

Olhei propositalmente para Freddie e ele não mais falava com Carly. Ambos me encaravam.

—Ah, agora vocês dois param de conversar? Agora há pouco estavam parecendo duas lavadeiras.

Voltei-me para Yoan e sorri.

—Te mando por mensagem o lugar, bebê.

—Beleza.

Ele segurou meu queixo e me deu um selinho, antes de apressar os passos.

—Então, Carly, como eu dizia… - Freddie tentou prosseguir, mas eu não deixei.

Meti-me no meio dos dois. Que palhaçada é essa agora?

—Sam!

—’Sam’ nada, Carly. O que foi? Eu fiquei invisível agora, porra? Tem uma hora que eu estou aqui do seu lado e você só fica aí de papinho com esse cabeçudo.

—Dá licença? ‘Cabeçudo’ é a sua…

—E você fica na sua!

Virei-me para o engomadinho que se achava na liberdade de falar comigo. Ah, me poupe.

—A amiga é minha e não sua - concluí.

—Engraçado, porque para uma amiga você a trata muito mal.

Mas é o cúmulo mesmo. Este ser mal me conhece e já quer dar pitaco? Ah, mas ele vai aprender o que é bom para tosse agora mesmo.

—Escuta aqui, senhor das amizades perfeitas. É melhor que você guarde essa sua linguinha dentro da boca se não quer que eu…

—Pelo menos eu sou capaz de guardar minha língua dentro da minha boca, não é mesmo?

—O que você está insinuando, bípede manco?

Olhei de relance para Carly que nos observava com os olhos arregalados.

—Você sabe muito bem do que eu estou falando. Pode fingir que esqueceu o tanto que for, mas eu sei que você se lembra.

Droga. Eu devia ter reservado um álibi para isso.

Lembrar-me do que aconteceu no estacionamento do supermercado? Bom, eu tinha alguns flashes sim, mas nem sonhando Carly poderia ficar sabendo daquilo e muito menos a anta do Freddie podia imaginar que eu me lembrava.

Pensa, Samantha. Pensa - eu me pressionava.

—Ficou sem resposta, linguaruda?

Ouvi-o dizer e fervilhei por dentro.

Merda!

—Isso é para você aprender a não dizer as coisas sem pensar antes. Vejo vocês mais a frente.

Ele saiu caminhando na frente e eu não segurei o palavrão que me subiu pela garganta.

Buceta!

—Sam…

—Tá. Tá. Eu sei. Foi mal pelo palavrão…

—Não. Não é isso.

Não é isso? Que milagre é esse que a Shay não vai me encher de sermão?

Olhei-a.

—O que você fez com a sua língua?

—Aff, Carly. Que pergunta é essa? Eu não fiz nada.

—Tem certeza?

—Claro que sim!

—Porque eu te conheço, Puckett. Não me diga que…

Encarei-a, tentando decifrar seu olhar, e logo entendi.

—Credo. Não.

—Certeza?

—Claro que eu tenho certeza. Eu prefiro lamber o chão do que passar a minha língua no corpo daquele cabeçudo.

Tá. Eu sei que não foi o que aconteceu no estacionamento, mas Carly não sabia e ela podia muito bem seguir assim.

Por sorte, ela pareceu acreditar.

Freddie

Eu estava 'p' da vida, se é que posso colocar assim. Sam estava me tirando do sério e depois do que aconteceu no carro - cena que eu não conseguia esquecer de jeito nenhum - meu desejo por ela se misturava a uma vontade incontrolável de mandá-la para aquele lugar que combina muito bem com ela. Aff. Juro que um berro estava preso na minha garganta. Maldita hora que eu fui colocar meus olhos sobre aquela loira. E o pior é que a desgraçada sabe me deixar louco.

—O que pensa que está fazendo, Freddie?

Virei-me e vi minha mãe me encarando. Nem para a caminhada ela trocava aquele traje social, até porque subir toda aquela ribanceira de carro é fácil. Ela planeja as coisas, mas ela mesmo não participa.

Calma, Freddie. Sua mãe não tem nada a ver com isso e é até bom que ela fique fora de tudo.

—Vou dar um mergulho, mãe.

Olhei na direção da cachoeira e tirei minha blusa, não dando tempo para que minha mãe tivesse a oportunidade de me impedir.

—Mas, Freddinho, é perigoso.

—Que perigoso, mãe. Eu tenho trinta anos. Quantas vezes vou ter que dizer?

Vi-a suspirar insatisfeita. Então, beijei seu rosto para tentar aliviá-la e saí praticamente correndo até a cachoeira.

Lancei-me na água e, saindo dela, fui até onde estavam Carly e Sam, sentadas numa pedra observando os demais.

—Ano passado não viemos aqui, né? - A morena me perguntou quando me viu aproximar.

—Não. Na época estava fechado o acesso - respondi.

—É bonito aqui.

—É sim…

Não evitei olhar para a tela do celular de Sam, já que ela não largava ele, e, por sorte ou não, vi-a combinando com aquele sujeito o lugar onde se encontrariam: “Tem um quartinho embaixo da escada que dá para o segundo andar. Ele fica destrancado, já conferi. Nos vemos lá às dez, bebê.”

Ri por dentro, enquanto uma ideia maluca nascia na minha mente.

—Na verdade, eu vinha bastante aqui quando era criança - prossegui para não levantar suspeitas.

—Sorte sua. É um bom lugar - Carly respondeu, mas eu não dei muita atenção às suas palavras.

No mesmo instante, Sam se levantou e arrancou a roupa que estava usando, ficando apenas de biquíni. Não pude evitar olhá-la por completo.

Maldita.

Deixou o celular e a roupa com Carly e foi correndo até cachoeira.

Aguarde-me. Aguarde-me - era só o que conseguia pensar.

Mais tarde

Geral

O relógio estava quase marcando dez da noite e, dentro do quartinho combinado, Freddie roía as unhas em silêncio. Depois de muito esperar - principalmente porque calculara o tempo errado e chegara meia hora antes - cogitou ir embora muitas vezes, mas resistiu, pois, maior do que sua vontade de desistir, era seu desejo de pregar uma surpresa na loira. Quando, porém, a vontade de ir embora bateu mais forte, o destino permitiu que Sam chegasse na ponta dos pés.

A loira, então, entrou de costas, olhando desconfiada para os lados, e Freddie, querendo enganá-la, mas ao mesmo tempo não podendo controlar seus ímpetos, não hesitou em agarrá-la por trás e trazê-la para perto, estando ela ainda de costas. E, nem um pouco convencido de que já era o bastante, deu no pescoço da loira múltiplos beijos molhados, convidando-a a amolecer o corpo.

—Hum… - O gemido dela saiu meio falho.

Não se aguentando, Sam, crendo se tratar de Yoan, subiu uma de suas mãos pelo pescoço do moreno e, fazendo uma manobra brusca, virou-se e tudo o que encontrou foi Freddie com um sorriso vitorioso.

—Que gemidinho gostoso, hum?

Por longos segundos a loira encarou Freddie sem conseguir acreditar no que estava acontecendo e ele, obviamente, se divertiu a beça com a expressão confusa e assustada de Sam.

—Cuidado para não babar.

—Idiota…

—O quê? Eu não te escutei?

Freddie chegou o rosto perto da face da loira e virou um ouvido para ela, mas era óbvio que não queria apenas provocá-la. Queria também fazê-la desejar beijá-lo.

—Não vai repetir? - Perguntou e recebeu o silêncio em resposta.

Afastou-se novamente e apoiou as duas mãos na pequena estante onde estava encostado, quase sentado.

—Como descobriu que eu ia estar aqui?

—Um bom mágico não revela seus truques.

—Quero só ver quando o Yoan chegar.

—Desculpa. De quem é mesmo a mansão? De quem? Hã? Ah, sim. Sim, sim, sim. É da minha mãe.

Raivosa, a loira encarou Freddie. Mas não era só raiva, ela podia atestar e ter fixado olhando-o por muito tempo acabou deixando isso nítido demais.

—Te custa tanto assim assumir a verdade?

—Que verdade, cabeção?

—De que desde aquele dia na escola você ficou louquinha por mim.

—Louca de raiva, só se for.

—Mentirosa.

—Seu cú.

—Olha a boquinha.

Destemido, o moreno levou um dedo indicador até os lábios de Sam.

—Tira a porra da sua mão de mim…

Agarrou o pulso do moreno firmemente e quis se livrar dele, mas de forma ágil Freddie desfez o processo, agarrando ele os pulsos da loira.

—Você é muito bravinha, hein…

—Me solta.

—O que tem de mais nisso? É só você confessar que me quer…

—Me. Solta.

—Eu não vou rir de você…

—Eu estou te avisando. Me solta, porra.

Só então o moreno se atentou para a expressão séria de Sam e notou que ela bufava.

—Calma, eu só estou brincando com você - disse e soltou os pulsos da loira.

—Eu não gosto desse tipo de brincadeira.

—Sam…

Freddie tentou segurar a loira outra vez, mas ela desviou de seu gesto e caminhou até a porta, abrindo-a e saindo em passos largos.

Carly estava deitada numa das camas do quarto, rodeada por Leon e Mia que assistiam com ela um desenho qualquer no celular. Quando, de repente, Sam entrou no quarto batendo a porta com força.

—Quebra, Sam.

—Não enche, Carly!

Confusa a morena olhou de Leon para Mia e deixou-os sobre a cama, indo até a amiga que havia se deitado na outra de costas para ela.

—Sam, o que aconteceu?

—Nada.

—Sam…

—Nada, Carly! Porra. Que saco.

Virou-se para a morena para gritar, dando uma deixa para que Carly notasse seus olhos avermelhados.

—Mamãe?

Carly se virou e viu Leon descalço sobre o chão.

—Leon, querido, não…

—Mamãe, o que acont…

O garotinho, então, foi interrompido pela loira que se virou bruscamente na cama e quase o acertou.

—Cala a boca, Leon. Porra. Para de me encher o saco.

Carly, mais do que depressa, segurou a amiga, afastando-a do filho que pôs-se a chorar.

—Sam, o que é isso? O que deu em você?

—Me solta, Carly.

—Não vou soltar, não. Você ficou louca? Bater no seu filho? Onde você está com a cabeça?

Com os olhos marejados e avermelhados a loira encarou Carly que logo se sensibilizou.

—O que aconteceu? Conta para mim. Alguém fez alguma coisa com você? Aquele cara fez alguma coisa com você?

Não houve tempo para que a resposta viesse. Logo batidas soaram à porta.

—Não abre a porta, Carly. Não…

Mas foi tarde demais.

A morena abriu apressadamente e se deparou com Freddie.

—Freddie, agora não…

—Cadê a Sam?

—Ela…

—Some daqui!

De repente a loira apareceu querendo empurrá-lo, mas Carly, mesmo sem entender, segurou a amiga.

—Sam, eu não ia fazer nada com você. Eu só…

—Não me interessa, Freddie. Some daqui.

—Sam, para com isso. Você sabe que eu jamais…

—SOME DAQUI, PORRA.

A loira esvaziou os pulmões naquele grito e imediatamente se virou para Carly jogando-se em seus braços.

—Amiga, eu…

—Que gritaria é essa daqui?

Não demorou muito e Marissa apareceu surpreendendo os três jovens. Num instante todo mundo olhava desde as portas dos seus quartos.

—Nada, mãe - Freddie tentou segurar a barra.

—Como nada, Freddie?

Olhou Sam.

—O que houve com ela?

Carly e Freddie se entreolharam e o moreno implorou pelo olhar para que Carly não dissesse nada.

—Não é nada demais, Senhora Benson.

—Certeza?

—Sim. Sim. Eu cuido dela.

Marissa, não muito convencida, olhou desconfiada para Freddie.

—Então, tá. Vamos, Freddie.

Antes de seguir a mãe, o moreno tentou, uma última vez, amenizar a situação. Então, erroneamente, passou uma mão nas costas de Sam o que fez com que ela se virasse imediatamente, dando socos certeiros no braço de Freddie.

Carly voltou a encarar o moreno que balbuciou um 'desculpa' e foi embora.





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