NObody escrita por Cellis


Capítulo 5
O (não) conserto da bagunça




Kim Namjoon. Kim Seokjin. Min Yoongi. Jung Hoseok. Park Jimin. Kim TaehyungJeon Jungkook. 

Tudo bem, os nomes dos sete integrantes do tal grupo, tecnicamente, eu tinha conseguido gravar — mesmo que os benditos tenham uma pronúncia para lá de Bagdá de difícil. Agora, bem, quanto a reconhecer cada um...  

Não há nada de certo sobre isso. 

Digo, Minhyo tinha me dado uma dica ou outra enquanto descíamos os trinta e um degraus da escada, a qual eu não poderia ter descido mais devagar, mas eu sempre desconfiei seriamente de ser parente distante da Dory e ter problemas de perda de memória recente também. Eu sabia que alguém tinha cabelos azuis, outro num tom de salmão, tinha um que tinha abusado do descolorante e mais outro com os fios pintados de cinza. De resto, sendo sincera, eu já não me lembrava mais. Ah, tinha Jung Hoseok também. Provavelmente por conta do nosso primeiro encontro um tanto traumático para mim, eu me lembrava muito bem das suas feições e características físicas no geral. Eu me recordava de sentir um tanquinho confortável e bem definido quando fui abraçada por ele no hospital e... 

Espera, isso não deveria ser importante agora. Nem nunca. 

Tudo bem, Ana, nós precisaremos de foco se quisermos começar a aprender a diferenciar esses asiáticos todos. Nada contra, claro, até porque eu sempre respeitei e muito a cultura alheia, inclusive daqueles que viviam do outro lado do mundo... Mas oras, eles viviam do outro lado do mundo e não da minha rua, então eu não estava acostumada a conviver com eles e os seus costumes tão diferentes dos meus. Infelizmente, agora era eu quem estava presa do outro lado do planeta Terra, então se quisesse sobreviver ali teria que dar meus pulos — a começar pelo fim dessas gírias maravilhosas que só o brasileiro tem. 

Quando por fim alcancei os pés da escada, encontrei os sete rapazes de pé no centro da sala de estar, esperando por mim. Todos pareciam nervosos e ansiosos e, quando me viram, fizeram uma verdadeira bagunça de... reverências

Céus, por acaso os coreanos tratavam as celebridades como algum tipo de autoridade ou ser divino? Mas isso não fazia sentido, já que eles também eram famosos... Eu era mais famosa do que eles, era isso? 

Espera, isso também não fazia sentido... 

De repente, enquanto os sete ainda estavam numa dança bizarra de levantar e abaixar, eu fui atingida por um pescotapa. Isso mesmo, um pescotapa. Virando-me para trás já possuída por um Jedi furioso, eu me deparei com uma Minhyo fazendo os mais diversos tipos de mímicas. Franzi o cenho sem entender absolutamente nada. 

— Abaixa. — ela sussurrou, impaciente. — É um cumprimento! 

Diabos, era isso mesmo! Como eu pude esquecer que é assim que a grande maioria dos países orientais se cumprimenta? Sinceramente, para completar o micão, só faltou eu ir até lá e dar dois beijinhos no rosto de cada um deles. 

Acordando para a vida, eu finalmente fiz o que tinha que fazer: encarnar Lee Minah. Fiz um par de reverências com um breve sorriso no rosto, o que graças ao bondoso Pai os fez parar.  

— Olá. — foi o que eu disse porque, bem, não sabia mais o que dizer. Fitei Minhyo de escanteio, que fazia sinais aleatórios com as mãos na tentativa de me incentivar. Belo apoio. — Obrigada pela visita. 

Nada mal, Ana. Dá para o gasto, por enquanto. 

De repente, o rapaz que tinha errado a mão no descolorante deu um passo para frente, se destacando do resto da fileira de olhinhos puxados. Ele parecia ser um dos mais altos e tinha uma postura impecável, vestia um jeans lavado, uma camisa de manga com estampa camuflada e uma toca cinza, além de um par de tênis preto que deveria valer mais do que todo o meu guarda roupa junto. Quando sorriu simpático, exibiu também um par de covinhas um tanto fofas. 

— Como você está, Minah? — indagou, sutil. — Você nos deixou bastante preocupados. 

Fitei Minhyo mais uma vez e, desta em específico, ela erguia apenas o indicador da mão direita com o máximo de discrição que conseguia. Aquilo só podia significar uma coisa: número um da lista, Kim Namjoon. 

— Agora eu estou bem, Namjoon. — respondi e, quando não recebi nenhum olhar confuso nem nada do tipo em troca, concluí que tinha acertado o nome dele. Até que eu e Minhyo conseguíamos nos entender bem. — Eu agradeço e peço desculpas ao mesmo tempo pela preocupação. 

— Não, tudo bem. — disse, balançando as mãos. — Fico feliz que você esteja bem depois de um acidente tão grave. 

Clima mais desconfortável do que esse, só se eu resolvesse dormir em cima de uma tábua no alto do Morro da Urca numa noite de temporal — a situação era tão ruim, que eu nem consegui pensar numa comparação melhor do que essa meia boca. 

Bem, querem saber de uma coisa? Está na hora de colocar um pouquinho de Ana nessa Minah. 

— Por que vocês não sentam? — eu perguntei e já disparei em direção à sala de estar, sendo seguida pelos olhos hesitantes. Quando alcancei um dos três enormes sofás do cômodo, me sentei. — Aceitam alguma coisa? Água, suco... Café? 

Devo dizer que o máximo que eles fizeram foi se virarem na minha direção?  

O que foi, gente, nunca viram hospitalidade na vida? 

— Noona... — um deles se pronunciou, receoso. Era o de cabelos azuis e, deixo aqui minha sincera consideração, um dos mais bonitos dos sete. — Você tem certeza de que está bem?   

Engoli o seco e, por trás de suas cabeças desconfiadas, vi Minhyo pulando feito uma louca aos pés da escada para chamar a minha atenção. Ela erguia seis dedos e tentava não fazer barulho conforme seus pés batiam contra o chão; sabe-se lá como, mas ela estava conseguindo. 

O número seis era... Kim Taehyung, certo? 

Não custava nada tentar. 

— Eu estou ótima, Taehyung–ah. — respondi, rindo. Minhyo também tinha me ensinado sobre os tais honoríficos e, apesar de achar tudo aquilo uma baita de uma formalidade desnecessária, eu seria obrigada a adotá-los. A mais nova, ao longe, ergueu um polegar num sinal positivo, o que significava que eu estava indo bem. — Vocês realmente não vão se sentar? 

Finalmente, sem jeito por causa da minha insistência, os meninos começaram a se mexer e, feito uma filinha indiana, vieram empurrando uns aos outros até os sofás. Espalharam-se e, de repente, estavam acomodados. 

Mesmo que ainda me olhassem como se eu fosse uma lunática. 

Tudo bem, eu precisava dar um jeito nisso. 

— Então... — eu iniciei, ainda que estivesse no meio do meu processo criativo de inventar um assunto. — O que aconteceu nos dias em que eu estive... Bem, fora, digamos assim? 

Ao longe, vi Minhyo atingir a própria cabeça com um tapa. Em sua testa recém agredida estava nitidamente escrito uma mensagem do tipo parabéns, não poderia ter sido pior

Oras, essa fedelha que fizesse melhor, então. 

— Vejamos... — o rapaz de cabelo salmão iniciou, coçando o queixo pensativo. Park Jimin. Eu me lembrava dele por ser o menor de todos e, de acordo com a minha opinião que é o que importa nessa história, o mais fofo. — Nós falamos sobre o seu acidente numa V Live sem querer, o que gerou um caos no país... Minhyo foi obrigada a fazer um pronunciamento na imprensa por causa disso e eu flagrei o Hoseok hyung chorando sozinho no quarto ontem e... 

— Jimin! — um rapaz de pele bem alva e cabelo acinzentando exclamou, pronto para voar na jugular do menor. Esse era... Min Yoongi? Bem, eu e a minha falha memória cremos que sim. Os demais tinham os olhos arregalados e expressões que deveriam estar considerando naquele momento se ainda era um bom negócio manter o Park no grupo. — Informação de mais, não acha? 

Finalmente percebendo o que tinha feito, Jimin encolheu os ombros. 

— Desculpa. — murmurou, sem graça. 

Ele realmente tinha soltado informações de mais, inclusive para que o meu cérebro — se é que aquele cérebro era o meu, sei lá — processasse aquilo tudo. Bem, vamos por partes: 

1 – O que diabos era uma V Live? 

2 – Lee Minah cair de uma escada era motivo de caos nacional? Chocada

3 – Minhyo teve que lidar com aquilo sozinha? Digo, essas duas não tem algum responsável legal? 

4 – Jung Hoseok... chorando? Por quê? 

Mesmo organizando as informações em tópicos, eu ainda não sabia sobre o que perguntar primeiro. Sendo sincera, eu tinha até medo das respostas que poderia ouvir, o que me fazia repensar a parte de perguntar

Encarei os sete, cada um desviando o olhar para um canto diferente da sala. O dito cujo citado em si, Hoseok, era o único que vez ou outra me fitava, mas parecia não ter coragem para continuar o fazendo. Mesmo curiosa, eu fiz o que qualquer ser humano sensato faria naquela situação — em especial um brasileiro.  

— Então... — iniciei, chamando a atenção deles. — Água, suco ou café? 

 

*** 

 

— Esse encontro de hoje... — Minhyo iniciou, jogando-se frustrada sobre a cama que aparentemente era minha. — Foi um desastre

— Para, nem foi tão ruim assim. — rebati, mais tentando convencer a mim mesma do que qualquer outra coisa. Sentei-me na beirada da cama, encolhendo os ombros. — Não foi, né? 

Minhyo se remexeu e, à contra gosto, sentou-se. 

— Eu nem sei dizer, sendo sincera. — bufou. — Apesar de tudo, eles pareceram terem acreditado que você é a Minah e, bem, essa não deixava de ser a nossa intenção. 

— Mas? — indaguei, sabendo que tinha um mas naquela história. 

— Mas a gente não vai sobreviver assim. — respondeu. — Você pode ter os convencido, mas e de resto? Seus fãs, os produtores do dorama... 

— Espera, eu vou ter que aparecer para essa gente toda? — perguntei com os olhos mais arregalados do que os de uma coruja assustada. — Eu não sei se posso fazer isso, Minhyo.  

Sim, eu estava dando para trás. Sinceramente, eu gostava de ser uma mulher forte, decidida e que não fugia dos pepinos que a vida lançava na sua direção; contudo, naquele momento, eu devo admitir que estava começando a ficar apavorada e não tinha vergonha disso. Sim, aquela era a vida rodeada de fama e fãs que eu sempre quis, o sucesso através da música que eu almejo desde criança, mas também pertencia a alguém que não eu não conhecia. Eu estava do outro lado do mundo, sozinha e tendo que interpretar a tal Lee Minah por sabe-se lá quanto tempo. O que aconteceria se não acreditassem em mim? Eu não fazia ideia do tipo de pessoa que Minah era e, mesmo sempre querendo ter sido famosa, eu não fazia ideia de como lidar com toda aquela atenção voltada para mim. 

Céus, eu era a carioca que cantava fantasiada de Galinha Pintadinha para, no máximo, duas dúzias de crianças... 

— Eu já sei do que você precisa! — Minhyo exclamou do nada, assustando os meus pensamentos já apavorados. 

— Voltar para o meu corpo? — retruquei. 

— Bem, isso também. — ela respondeu e, em seguida, deu de ombros. —Mas, enquanto isso não acontece, eu estava pensando em algo mais acessível. 

— Tipo...? 

— Youtube. — disse, firme. 

Oi? 

— Minhyo, você bebeu? — indaguei, me perguntando que tipo de linha de raciocínio ela tinha seguido para chegar àquela conclusão. — Como que o Youtube vai resolver esse problemão todo? 

— Não vai resolver tudo, mas vai ajudar, oras. — rebateu. — Pensa comigo: a minha irmã é famosa, portanto, já deu dezenas de entrevistas e participou de diversos realitys. Sabe por que os fãs se sentem próximos dos seus ídolos? Porque eles assistem essas coisas e acreditam que assim estão conhecendo mais sobre a personalidade deles. Os fãs se sentem próximos dos seus ídolos. 

— E daí? — eu a incentivei a ir direto ao ponto, já que não estava entendendo onde diabos esse tal ponto era. 

— E daí que tudo o que você precisa fazer é o que eles fazem. — afirmou, mais empolgada do que o necessário. — Se você assistir a vídeos da minha irmã sendo a minha irmã, vai saber como agir na frente das câmeras, fãs e pessoas no geral. Você vai aprender a ser Lee Minah. 

— Isso... — eu iniciei, revoltada. Contudo, só precisei de um par de segundos para pensar melhor. — Até que faz sentido.  

— É claro que faz! — exclamou confiante. — Confiei em mim, gerenciar crises como essa é a minha especialidade.  

— Crises de troca de corpo também? — ironizei, o que a fez criar uma tromba no lugar de um bico. 

De repente, esticou-se até alcançar algo debaixo da cama. De lá, puxou um notebook rosa — não me perguntem o porquê de um notebook estar ali — e decorados pelos mais diversos tipos de adesivos. Ligou o eletrônico e, em seguida, praticamente o lançou na minha direção. 

— Você deveria começar a trabalhar imediatamente. — disse. — A sua rotina de atividades volta ao normal em dois dias. 

— Dois dias?! — indaguei, chocada. — Céus, a minha alma levou um tiro e o meu corpo caiu de uma escada sem fim... Eu não mereço um pouco mais de descanso?  

— Não é o que o pessoal da KSM acha. — deu de ombros. 

— Isso é exploração! — continuei esbravejando. — Eu vou denunciar esse tal de Kang Seokmin para o Ministério Público. 

— Ministério Público? — a mais nova franziu o cenho e pendeu a cabeça para o lado feito um filhote de cachorro confuso. — O que é isso? 

Céus, esse país não tinha sequer um Ministério Público? 

Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas aqui vai: saudades do meu Brasil

— Esquece. — eu fui vencida pelo cansaço e, resmungando, voltei minha atenção para o notebook em minhas mãos. 

— Bem, o que quer que seja, nós não temos tempo para isso. — afirmou. — Você precisa estudar e aprender a como ser a minha irmã e eu também tenho algo importantíssimo para fazer. 

— Mais importante do que me ajudar a salvar a vida a carreira da sua irmã? —perguntei, arqueando uma sobrancelha desconfiada na sua direção. 

— Na verdade, tem tudo a ver com isso. — Minhyo respondeu. — Eu preciso encontrar você. E antes que você me pergunte, não é a você que está aqui, agora, mas sim o seu corpo

Tudo bem, agora eu tinha sido pega de surpresa. Até então, devido ao turbilhão de acontecimentos que tinha encontrado desde o segundo o qual abri os olhos, eu sequer tinha parado para pensar sobre mim. Onde estaria o meu corpo e o que tinha acontecido com ele? E tinha mais: se eu estava ali vivendo a vida de Minah, poderia ela estar vivendo a minha

— Você acha que a sua irmã pode estar nele? — questionei.  

Minhyo não pareceu pensar duas vezes para me responder. 

— Bem, você está aqui no corpo dela, não está? — disse e, de repente, a menina assumiu uma expressão séria que eu ainda não tinha visto no seu rosto. — Eu ainda não sei como vou fazer isso, mas eu vou encontrar o seu corpo. Nem que eu tenha que ir até o Brasil para isso.  

— E se você a encontrar? — perguntei receosa, já que não sabia qual reação esperar. 

Minhyo respirou fundo e, em seguida, me encarou decidida. 

— Aí a gente dá um jeito de desfazer essa bagunça toda. 



Notas finais do capítulo

E então, o que acharam? Eu peço MIL perdões pela demora absurda com o capítulo e prometo que farei de tudo para que isso não aconteça de novo, de verdade.

Até ♥



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