NObody escrita por Cellis


Capítulo 1
Intro: a bala do teletransporte




— Você tem certeza disso? 

Era muita audácia de Aline me fazer aquele tipo de pergunta, afinal, eu sempre tinha certeza das coisas. Até mesmo quando minhas decisões provavelmente não dariam certo ou, ainda, me colocariam no topo da pirâmide da vergonha num estalar de dedos. 

Como era o caso nesse exato momento. 

— Claro que tenho. — afirmei, encarando meu reflexo no espelho. — Eu serei a melhor Galinha Pintadinha que o Rio de Janeiro já viu. 

A enorme fantasia azul era ridícula e me deixava meia dúzia de vezes maior, por isso, eu resolvi relevar quando Aline não conseguiu conter uma risada no meu cangote de galinha. Aquele ditado que pergunta o que o ser humano não faria por dinheiro só existe porque quem o criou com certeza sabia que a resposta seria nada. Claro, não me imaginem como uma pessoa extremamente gananciosa e que vive para cobiçar o dinheiro, mas é compreensível que uma garota no auge dos seus vinte e três anos precisa de um sustento — até porque, comida não se compra sozinha e os fios de luzes no meu cabelo demandam uma manutenção nada barata. 

Por isso, aqui estamos, usando uma fantasia de uma galinha que nunca é questionada por ser malditamente azul, sob um calor de quase quarenta graus em um bairro carioca de classe média. A filha mais nova dos patrões de Aline, que é justamente a babá da criança, está fazendo aniversário de alguma quantidade de anos da qual não me lembro, e o tema escolhido pela menina eu não acredito que preciso citar qual foi. O casal estava à procura de alguém que pudesse cantar e estivesse disposto a receber para se fantasiar de Pintadinha e, como ambos estavam sem tempo para fazer uma visita a um galinheiro e eu o tinha de sobra (alerta de desempregada que já estava abrindo um buraco no sofá de tanto ficar deitada no mesmo), Aline me indicou.   

Com uma melhor amiga dessas, eu com certeza nunca precisarei arrumar uma inimiga.  

E esse é um breve resumo, que deixa de fora as unhadas que tentei desferir pela pele alva da minha amiga enquanto era arrastada para cá em pleno domingo, de como agora eu me encontro suando até o meu coro cabeludo e, consequentemente, minhas luzes recém-hidratadas também.  

 Está na hora.  a patroa de Aline anunciou, invadindo o quarto que, na verdade, era dela.  Você está pronta...  pausou, fitando-me da cabeça aos pés.  Desculpe, qual é o seu nome mesmo? 

Eu a fitei de volta, me perguntando mentalmente como diabos ela conseguia usar um vestido tão longo num calor desse e sua maquiagem ainda estar intacta 

 Ana.  respondi, com um sorriso simpático.  E sim, eu estou pronta. Só vou colocar a cabeça e desço logo depois.  

Vocês não acharam que eu não teria uma cabeça forrada de uma espuma que fritaria o restante dos meus miolos naquele calor, não é mesmo? 

 Tudo bem.  ela disse. Parecia estar prestes a voltar para a festa da filha, quando me encarou novamente.  É Ana de que? 

Eu teria revirado os olhos, se Aline não tivesse beliscado o meu braço no momento em que ouviu a pergunta  como ela conseguiu encontrar minha pele no meio de toda aquela espuma azul, não me perguntem. Ela sabia como eu detestava o fato de a grande maioria das pessoas simplesmente não conseguir aceitar que Ana, na verdade, nem sempre é um formador de nome composto.  

Vocês podem achar que é um exagero da minha parte, ou ainda essas frescuras com nome que algumas pessoas possuem, mas eu não estou mentindo quando digo que todo mundo faz essa mesma pergunta. 

— De Ana. — respondi, tentando permanecer educada, porém já começando a falhar na primeira tentativa.

— Diana? — ela indagou, confusa. — Ana Diana?

Tudo bem, agora eu estou autorizada a voar nessa mulher, certo?

Respirei fundo, contendo a minha ira da titã que cresceu ouvindo absurdos como aquele. 

 É só Ana, senhora.  

A mulher arqueou uma sobrancelha, com certeza surpresa por meus pais não terem criatividade suficiente para compor Ana a outro nome, mas deixou o quarto sem dizer mais nada. Eu só espero que eu não tenha sido grossa e no final do dia ela implique com o menor dos detalhes, para assim me pagar menos do que o combinado. Isso é outra coisa que sempre acontece. Eu não ficaria surpresa se a madame que finge ser de classe média (mas, na verdade, parcelou o celular de marca em doze vezes nas Lojas Americanas) tentasse roubar da Galinha Pintadinha.  

Tudo acontece no Rio de Janeiro.  

 Vamos, galinha.  disse Aline, entregando-me minha cabeça. Céus, eu tinha olhos extremamente assustadores.  Aquelas crianças estão esperando para fazer de você uma canja deliciosa.  

 Você consegue ser horrível quando quer, sabia?  rebati, tomando a espuma de suas mãos.  

Aline riu. Aquela carinha delicada de anjo e os cabelos negros e sedosos eram só um disfarce para o monstro que aquela mulher era.  

 Eu sei. Da próxima vez, sua fantasia será de Gummy Bear 

Eu a encarei, perplexa. Aquela gelatina verde nem existia mais, mas eu não duvido nada de que ela seja capaz de convencer qualquer criança na rua a fazer uma festa com ele sendo o tema apenas para me ver fantasiada de ursinho verde, gelatinoso e assustador. 

 Aline, você precisa de Jesus nesse coração sombrio.  

Assim, eu fui praticamente empurrada escada abaixo e a gritaria começou no momento que eu pus o primeiro pé na sala de estar onde acontecia a festa. Sinceramente, eu não sabia se as crianças estavam animadas por estarem me vendo, ou se estavam assustadas por conta da fantasia horrenda  eu não via muita coisa através dos olhos da Galinha Pintadinha, a não ser pequenos e agitados borrões. 

Antes de mais nada, deixe-me esclarecer uma coisa: há um motivo para eu estar desempregada e o mesmo seria o meu sonho persistente de ser cantora. Parece fútil se eu simplesmente citá-lo assim, mas a verdade é que é algo que eu desejo desde que tinha a idade dessas crianças fãs de uma galinha azul. Por isso, eu troquei a estabilidade de ser uma adulta com ensino superior completo, pela ralação sem fim que é encontrar um produtor que enxergue o meu talento. Porque sim, eu não sou humilde quanto a isso; tenho talento e isso ninguém rouba de mim. Quando as coisas começaram a estacionar ao invés de andarem para frente, eu comecei a recorrer a empregos temporários e bicos, tivessem ou não haver com o meu maior objetivo. 

E foi justamente por isso que eu aceitei ser a Galinha Pintadinha  além da grana extra, claro. Apesar de tudo, do calor produzindo óleo suficiente no meu cabelo para fritar uma dúzia de pastéis, eu estava cantando e essa era toda a minha vida. Ainda que meu público fosse composto por crianças que nem viam o meu rosto e eu estivesse sendo paga uma quantia nada honrosa por aquele mico, eu estava me divertindo por poder fazer aquilo que tanto amo 

Então, a moral dessa história motivacional (ou não, depende do seu ponto de vista e da minha paciência para explicá-la) é que, no fim do dia, não foi tão ruim. Eu mostrei alguma cultura infantil para aquela platéia e ainda recebi para isso, o que me fazia caminhar satisfeita de volta para casa. Eu nem sequer havia oferecido ajuda a Aline, que ficara depois da festa para arrumar a bagunça das crianças, porque arrumações estragam o meu bom humor. 

Olhei para a vitrine de uma padaria. Apesar de ser fim de tarde, alguns frangos suculentos ainda rodavam na assadeira, o que fez o meu estômago se contorcer de fome, já que o pobre coitado só havia se alimentado de três bolinhas de queijo durante a festa. A Galinha Pintadinha que me perdoe, mas eu estava mais do que disposta a gastar o dinheiro que consegui com o nome dela para devorar um possível ex-marido seu. Assim que pus o pé na calçada da padaria, encarando aquela assadeira como um cachorro de rua, meu celular fez um barulho nada discreto no bolso traseiro do meu short. Saquei-o, já entrando no estabelecimento, porque carioca raiz não fica no meio da rua esperando feito um idiota o assaltante levar seu celular, e fitei a tela. Era uma notificação do meu aplicativo de segurança (mais uma vez, carioca raiz), que, quando apitava, geralmente trazia más notícias.  

Comecei a ler a mensagem sem sequer desbloquear a tela, porque sou curiosa demais para isso. 

"Se estiver voltando para casa, siga por um caminho alternativo. Há relatos de tir..." 

Droga, não dava para terminar de ler. Sendo vencida pelo sistema de segurança do meu celular, corri a tela para o lado.  

Só havia conseguido digitar o primeiro dos quatros dígitos, quando o barulho começou. Uma sequência de estouros, na verdade, altos, ocos e assustadores. 

Infelizmente, eu sabia o que era aquilo. 

Abaixei no mesmo instante, mas, pelo pouco que entendi em seguida, não consegui ser rápida o suficiente. Um impacto forte e quente atingiu um pouco acima da minha cintura, no lado esquerdo, e me fez cambalear violentamente. Antes de bater com os joelhos contra o chão, eu vi o dono da padaria olhar desesperado na minha direção 

E sim, aquela foi a última coisa que meus olhos vislumbraram: o padeiro 

 

*** 

 

Seria um clichê exagerado dizer que todo o meu corpo doía? Se for, dane-se, porque é o que eu estou prestes a dizer. 

Meu corpo inteiro doía.  

Céus, então é assim que alguém que foi baleado se sente? Claro que isso nunca me pareceu uma atividade agradável e nem nada do tipo, mas eu estaria mentindo se dissesse que já imaginava que seria toda essa dor. Até as minhas luzes doíam, se bobear. 

Espera. Um minuto. Mais um pouco. Está vindo o raciocínio.  

Eu levei um tiro.  

Deus, eu fui baleada! Bem, pelo menos eu acho que foi isso que aconteceu. Eu me lembro de ter escutado barulhos nitidamente de tiros, porque são os mesmos que eu escuto todo final de semana pela janela do meu quarto, e depois do impacto nas costas. Só pode ter sido isso. Bem, eu suponho que minha dúvida acabaria se abrisse os olhos, mas algo dentro de mim pedia desesperadamente para que eu não o fizesse. Droga, geralmente a minha intuição não falha, mas eu também não posso ficar me perguntando se fui baleada ou não enquanto finjo que estou dormindo.  

Esse não é o tipo de dúvida que uma jovem com seus vinte e tantos anos deveria ter, sinceramente. 

 Acorde, por favor. Se você acordar, prometo que nunca mais a tratarei daquele jeito e que vou cuidar de você.  

Pausa. Eu deveria estar sonhando ou tendo um daqueles estranhos sonhos dentro de um sonho, porque a última voz que eu esperava ouvir ao meu lado em um hospital  isso julgando que eu esteja em um hospital, devido ao cheiro excessivo de limpeza e porque, bem, eu acho que levei um tiro  era a de um homem. Com certeza não era o meu pai, porque aquele eu não via há décadas, e eu definitivamente não tinha um primo ou namorado, pelo menos não que soubesse. Além disso, ele estava prometendo cuidar de mim se eu acordasse. Um estranho não faria isso, não sem ser um stalker. 

Aquele seria mais um ótimo motivo para eu manter os meus olhos fechados, se não fosse por um pequeno detalhe: um toque quente e repentino na minha mão direita. Meus olhos se abriram instantaneamente, a claridade e as paredes brancas do quarto quase me cegando, e os eventos que se sucederam depois disso foram... bem, um tanto caóticos. 

Tratava-se de um rapaz que aparentava ser poucos anos mais velho do que eu, tinha traços faciais aparentemente planejados pelos deusescabelos escuros e os olhos puxados.  

Quem diabos era esse chinês?  

Com esse pensamento um tanto preconceituoso em mente (relevem, eu fui baleada e eles realmente não são fáceis de diferenciar), eu gritei. Por isso, ele se assustou e gritou também. E ficamos eu e o meu possível stalker gritando por alguns segundos, até ele parecer se lembrar de que estávamos em um hospital e criar algum senso.  

 Por favor, não se assuste. Está tudo bem.  ele repetiu algumas vezes e, quando eu finalmente parei de berrar feito uma hiena, reparei que ele tinha uma voz notável Você acordou. 

Bem, eu achei que o nosso momento escandaloso já tinha deixado isso bem claro. 

 Quem diabos é você? 

Eu não era o ser humano mais delicado desse mundo, muito menos quando se tratava de um estranho segurando minha mão em um quarto de hospital  mão a qual eu puxei sem cerimônias para perto do meu peito quando comecei a gritar minhas cordas vocais para fora da garganta.  

O garoto me encarou, franzindo o cenho.  

 Como assim quem sou eu ele perguntou, só não parecendo mais confuso do que eu.  Sou eu, o Hoseok 

De algum modo, eu havia me sentado sobre a cama. Hoseok era um nome estranho demais para que eu não reconhecesse, por isso, o encarei desconfiada.  

 Eu não conheço você.  

Tudo bem, eu estava sendo um pouco radical. A minha memória era péssima, então era até possível que eu o conhecesse e só não lembrasse de seus olhinhos puxados. Mas céus, o único chinês do qual eu me lembro é o da pastelaria e, bem, nós definitivamente não estamos em uma pastelaria. 

 Não é possível...  ele sussurrou, fitando-me com certa angústia.  

Eu estava prestes a exigir que ele me dissesse, pelo menos, de onde ele acreditava que nós nos conhecíamos, quando a porta do quarto foi aberta sem aviso prévio. Por ela passaram um garoto de cabelos alaranjados (eu acho, pois sinceramente não sei definir aquela cor) e outro de mechas de um azul vívido demais para passar despercebido em meio a qualquer multidão. 

Pelos céus, eles estavam se multiplicando feito, literalmente, as cores do arco-íris. 

Um não vira três através de multiplicação, mas vocês entenderam. E não esqueçam que tudo indica que eu levei um tiro.  

 Hyung, os repórteres já foram...  o de cabelo azul adentrou contando, mas parou no exato instante em que me viu. Arregalou os olhos, o que não surtiu muito efeito dado o tamanho restrito dos mesmos Minah, você acordou! 

Minah?! Céus, quem é essa agora? 

E quem é esse tal de Hyung? 

 Desculpe, vocês devem estar me confundindo com alguém.  constatei, tentando ser educada e recebendo três olhares confusos como resposta, os quais ignorei.  Onde estou? 

 Confundindo?  o de cabelo laranja indagou, mais perdido do que cego em tiroteio. Na verdade, eu não estou em condições de fazer essa piada, então vamos ignorá-la O que você... 

 Hospital Central de Seul.  o meu stalker respondeu, cortando o amigo. Ele me olhava como se pudesse ler a minha alma, o que me incomodou bastante. 

 Seul? Onde fica isso? 

Agora sim eu via três pares de olhos arregalados.  

 Coréia do Sul.  ele respondeu, soando mais como uma pergunta.  Você realmente não se lembra? 

Espera. O raciocínio está vindo novamente. 

Coréia do Sul? 

Não, a brincadeira desses três pasteleiros de fim de feira tinha passado de todos os limites; uma brincadeira de péssimo gosto, diga-se de passagem. Eles queriam, por acaso ou por algum motivo incompreensível por mim, que eu acreditasse que a bala na minha coluna tinha magicamente me tele transportado até o outro lado do mundo? 

Eu podia até ser brasileira sofredora, mas estava longe de ser idiota. 



Notas finais do capítulo

E então, o que acharam? Prontos para embarcar nessa aventura com a Ana, ou melhor dizendo, Minah?
Espero que sim!



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