Caminhos de um herói escrita por lennin foderozo


Capítulo 4
Catarse


Notas iniciais do capítulo

Eu demorei bastante para trazer esse capitulo por conta de alguns problemas que tive de lidar. Nada muito importante, estou ajustando meu horário para evitar um novo hiato, boa leitura.



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Bernardo

 

A vida sempre é contada nos livros como um conto maravilhoso e fantástico, como uma brisa leve aconchegante de inverno que sucede uma estação quente e desgastante, como um ciclo de idas e vindas. Eu sempre busquei acreditar nisso, me parecia a coisa certa, pelo menos, antes de tudo isso. Eu menti de uma forma descarada por todo esse tempo. Romantizei tudo o que vi e aconteceu, e talvez seja exatamente por isso, que não dei a gravidade que a situação realmente precisava. Pelo menos, não até agora.

De fato, minha rua havia explodido por um atentado terrorista, não eram tiros como queria acreditar, desde sempre o estrondo lembrava explosivos, até mesmo a fumaça sufocante do fim da rua entregava isso. Aquelas pessoas no ônibus ao meu redor estavam desesperadas e seus olhares mostravam isso, mas não tanto aquelas pessoas que atualmente discutiam, se entreolhavam, esbarravam, choravam, se debatiam ao meu redor. Era um caos e tudo acontecia ao mesmo tempo que eu convivia com a situação sufocante de estar só.

Eu não sabia o que fazer, o barulho da sirene do carro, os gritos, os murmúrios, o contato, tudo me pressionava. Porém, entre todos, a única coisa que chamava realmente minha atenção era o chão. Contornado pelo antigo almoço despejado sobre o pedaço da rua sobrevivente, bem aos meus pés. Aquele que era destinado a saciar a fome de meu pai. Confesso que não conseguia se quer levantar a cabeça, nem mudar minha visão, nem mesmo falar nada. Me pegava com perguntas, mas que ao mesmo tempo as respondia, e infelizmente, não eram boas respostas, o que fazia ter raiva de mim mesmo. “Como poderia contar com algo assim tão rápido? Que tipo de ser humano eu sou? Não deveria ter esperança? “Gozava de mim mesmo em um leve pensamento descontraído, que apenas transformou minha raiva em lagrimas.

— Ehr oi? Tem algum parente no acidente? Sua mãe? – Perguntou uma voz masculina seguido de um toque frio e tremulo. – Não se preocupe, apesar das proporções disso, talvez consigamos dar um jeito e... – Ele falhou o que me fez falhar, sua mão tremeu ainda mais então ele a retirou do meu ombro, talvez tenha percebido que eu havia notado a instabilidade dela. Sobre o canto de olho, pude ver a figura que tentava me acalmar. Um policial de cabelos pretos e olhos castanhos, ele não tirava os olhos das chamas enquanto suas sobrancelhas davam sinais de medo e espanto. Aquele era o mundo real, e ele assustava até mesmo um policial, treinado para lutar contra o mesmo.

Foi quando sinais de bombas eclodiram mais adiante, causando espanto na grande maioria, mas diferente deles, elas me despertaram em um susto. Foi quando lembrei do tarântula, que poderia ser qualquer um no meio de todo o mundo. E que apesar de estar naquele desastre decidiu lutar. Aquilo me instigou, me fez começar a pensar que talvez houvesse realmente a possibilidade de meu pai estar vivo e aguardando ajuda. Porque aquele herói estava lá para garantir aquilo. Ao olhar ao redor novamente, eu comecei a ver olhares como os meus, aquele policial do meu lado, agora de punhos cerrados, via as chamas como forma de enfrentamento e não de temor. De alguma forma, esse devia ser o superpoder daquele herói, dar um sentido a nossa luta, nos deixar ter esperança mais uma vez.

— Estou bem – Falei. – Não se preocupe comigo, apenas derrubei o almoço do meu pai e terei que ser sincero com ele quando chegar em casa. – Decidi de imediato fazer algo, não poderia ficar de braços cruzados enquanto todos morriam. Eu precisava ser útil pelo menos uma vez na vida e aquela era a prova do meu valor.

— Entendi – Ele parou um pouco, como se estivesse me analisando. – Boa sorte então.

— Sim, iriei precisar, meu pai conta comigo. – Disse enquanto me preparava para distanciar dele. Eu não fazia a menor ideia de como fazer, mas precisava achar meu pai de alguma forma.

— Então, você realmente não conhece ninguém nessa rua? – Ele falou mais uma vez como se tivesse percebido minha mudança repentina de humor e postura.

— Um grande amigo meu morava nessa rua sabe? Mas não se preocupe senhor, a família que lhe restou deve estar chegando para ajudá-lo.

Dito isso, corri em direção ao contorno dos carros me afastando da multidão enquanto circundava toda a área limitada pela explosão. À medida que andava, mais fumaça encontrava e mais vazio se tornava. Não havia necessariamente uma cobertura de toda a área o que tornava alguns civis voluntários cruciais para manter todos os outros longe do fogo. Em certo momento, não havia ninguém, pelo menos não o suficiente para cobrir todos os pontos, foi perfeito para me esgueirar fogo adentro, segurando a mão do destino nessa burrice sem precedentes.

Eu diria que o destino não gosta que segurem sua mão, ou tem um humor bastante duvidoso, pois de todas as pessoas vivas que eu esperava encontrar de frente, a ultima que iria pensar seria numa mulher vestida de paletó com cabelos loiros e segurando uma faca que me parecia bastante cortante. Sua cara desgastada e olhos mortos mostravam que fazia tempo que buscava a saída daquela imensidão cinza, e apesar de ter corrido fogo adentro por apenas 20 segundos, já havia percorrido um enorme caminho para que ela pudesse chegar lá sozinha. Isso porque ela mancava enquanto segurava um pacote que me parecia bastante pesado, ou talvez ela estivesse fraca demais para aguentar.

— Quem é! – Praguejou ela o que me pareceu mais uma ordem do que uma pergunta em si, deveria estar alucinando. – Me tire daqui, agora.

— Desculpe, mas eu preciso seguir em frente. – Falei esperando uma reação negativa dela, mas não houve nada – Tem alguém que precisa de mim.

Foi então que uma explosão acontece mais uma vez fazendo-a se erguer enquanto olhava rapidamente para todas as posições esperando, talvez, algum ataque. Naquele momento, toda sua postura havia mudado, inclusive a forma que eu via a mesma. De algum jeito, ela parecia mais forte do que antes, e sabia exatamente onde estava, apesar de ainda continuar ali com todas aquelas explosões. Talvez realmente não conseguisse sair.

— O que foi isso? – Perguntei.

— Não importa, temos que sair daqui! – Ela gritou.

— Não vou sair daqui, preciso achar alguém importante!

— Droga garoto, você vai morrer se ficar aqui.

— E como isso poderia ser pior do que viver na situação que eu estou?

Então mais uma última explosão se fez presente, mas dessa vez, fez nascer uma luz forte que sobrepôs todas as outras. Fazendo minha atenção se focar para um ponto que não tinha percebido em primeiro plano. Nele um homem meio robotizado estava com os braços esticados enquanto outro pairava no chão a metros de distância.

Aos poucos então eu focava minha visão, percebendo que a figura despedaçada no solo era na verdade o tarântula que havia perdido aquela luta. Aquilo me fez tremer, me fez entender que estava no lugar errado na hora errada, mas por uma opção minha. Ele conseguiu matar o único ser que havia despertado minha esperança. No entanto, não era apenas isso que me abalava, mas a forma como ele lembrava alguém, sua armadura falhada aos poucos se despedaçava enquanto tentava entrar novamente em sua pele. De fiapos a fiapos, pude reconhecer a tonalidade da cor da camisa, então a cor do short, e por fim, o inteiro. O todo que me lembrava meu pai, aquele que estava em todos os lugares comigo, assim como o próprio tarântula que em todas as viagens pelo Brasil sempre fazia serviço na cidade que eu estava.

Meus olhos então irradiaram de lagrimas, não havia mais o que fazer. Tudo que eu realmente temia aconteceu e da pior forma possível, pois de mim foi tirado um pai e um herói de uma única vez. Como se a minha existência fosse destinada ao castigo e ao sofrimento.

— Qual sua relação com ele? – Perguntou tentando decifrar minha reação, mas eu estava muito envolvido com tudo para dar atenção devida a ela. Meus punhos estavam cerrados, mas minhas pernas estavam fracas e minha respiração pesada. Eu despenquei naquele chão quente e denso de destroços.

— Por que disso? Levante-se daí! Vamos embora. – Ela insistia em uma comunicação, mesmo que meu estado em desgaste provasse que não havia mais nada a me apegar. Desabei em choro enquanto socava o chão. Não era uma forma muito madura de se lidar com o caos confesso, mas pular no meio de chamas também não era.

— Espera. – Ela olha bem para o corpo imóvel no chão e após isso olha novamente para mim. – Eu acho que lembro de você. – O corpo do inimigo desaba em risadas e enquanto respirava o que restava de O2 naquele lugar. – Você estava no porta-retratos na casa daquele homem, você é algum parente dele? Filho? – Eu solucei.

Como ela saberia de detalhes como esse sem se quer estar lá, ou talvez ela poderia ter estado. Uma assassina, como ela, poderia estar relacionada a tudo isso. Faz todo sentido ela querer fugir agora, ela só não quer fazer o trabalho sujo. As autoridades já chegaram e ela não quer se manchar. Maldita! Ela é a responsável por matar meu pai, deve ser uma cumplice. Mas de que importa, não é mesmo? Ele já está morto.

— Você. – Falei. – Quem é?

— Resolveu falar? – Ela deu uma baforada por conta da grande quantidade de fumaça. – Não importa quem eu sou temos que sair daqui.

— Quem é você! – falei de forma impotente, porém não tão alta. No entanto, sua reação foi totalmente impulsiva, erguendo a faca e esperando para lançar-se contra mim. Nesse momento, eu me erguia do chão não me importando com nada. Confesso que minha mente estava vazia, eu apenas queria matar todos ali.

— O que deu em você? – Falou ela – Não ouse se aproximar de mim.

— Você acertou, eu sou o filho dele. E mesmo que sobrevivamos a isso, não vai durar muito até que eu vá atrás de você.

— Isso é uma ameaça?

— Não, isso é uma promessa. Eu vou pisar na cova de todos os que estão envolvidos na morte dele.

— Entendo...- Ela fala olhando para o pacote. – Eu realmente estive envolvida com esse evento, mas eu não trabalho para eles. – Ela desembrulhava o pacote, e logo após, envolvido de um cachecol azulado, um cinto reluzente em tons de prata chamava completamente minha atenção. – Fui enviada para proteger isso, e evitar que ele morra.

— Enviada por quem?

— Descubra isso sozinho. – Falou – Se quer realmente seguir esse rumo de vingança, então tome. – Ela me entrega o cinto. – Essa é sua herança.

— E o que exatamente é isso?

— É um novo projeto pelo qual seu pai estava trabalhando esse tempo todo. É como algo próximo da armadura do tarântula, só que extremamente aprimorada.

— Então você quer que eu a use?

— A decisão é sua. Se vingar ou fugir. – Nesse momento, eu lembro de tudo o que aconteceu comigo todo esse tempo, de todas as minhas ações. Da mudança repentina daquela mulher que agora confiava em mim de forma clara.

— Sabe? Eu realmente cansei de fugir. – Envolvi então aquele equipamento sobre minha cintura e o apertei. Naquele momento, meu corpo urgiu de dor, como se cada átomo fosse arrancado e reajustado. Sensação seguida de um grande alivio e ao mesmo tempo de um grande vigor.

Meus olhos agora pareciam ganhar uma configuração robotizada que me fazia ver a realidade em velocidades totalmente diferentes. Como se um gênio pudesse ver tudo em câmera lenta. Eu sentia que havia me tornado uma máquina de combate perfeita.


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