Caminhos de um herói escrita por lennin foderozo


Capítulo 1
Dias de Mudança


Notas iniciais do capítulo

Os capítulos vão apresentar essa logística, o titulo real estará no tópico enquanto que um subtitulo será colocado antes de cada capítulo que designará que personagem terá seu ponto de vista aproveitado.



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Bernardo

Vocês já tiveram uma sensação ruim, como se o mundo fosse cair em cima da sua cabeça? Como se pudesse prever tudo que iria acontecer no seu dia com uma simples respirada mal-acabada? Bem, isso geralmente acontece comigo. Não estou falando que sou um vidente ou algo do tipo, pelo contrário, sou totalmente cético e um pouco chato com essas ‘baboseiras religiosas’. Talvez, eu estivesse apenas com medo de estar em uma cidade nova. Medo de viver em uma casa nova. Medo de frequentar uma escola nova.  Os mais velhos costumam chamar isso de “pressagio”. Porém, meu pai chama isso de ‘sinapses’, e apesar de não gostar tanto de dar crédito a ele, confesso, que ele parece ter razão.

Eu tenho 14 anos, e acabei de me mudar para a cidade de Cândida, no Rio de Janeiro, onde mais uma vez, irei iniciar tudo de novo. No entanto, eu entendo o lado do meu pai, estamos aqui por conta do seu trabalho, apesar de que as vezes eu tenho que me esforçar bastante para não surtar. Bem, ele é um tipo de professor de biologia que estuda uns bichos estranhos e procura tirar alguma vantagem deles, mas isso é coisa do governo, daí acabo não sabendo de detalhes. Também, costuma ensinar em algumas universidades por períodos de 6 meses, o que significava que nos mudávamos de cidade a cada 6 meses. Por isso acabei pegando um pouco de ‘trauma’ de ligações por telefone, pois toda vez que ele recebia um telefonema significava que teríamos que nos mudar.

Por um lado, era legal, eu tinha mais liberdade de ir a qualquer lugar e acabava conhecendo diversas culturas, mas por outro eu tinha que fazer amigos, o que não era uma das minhas grandes qualificações. Arrisco dizer que eu tenho ate um dedo podre quanto a amizades, lembro-me de uma vez que me envolvi com um menino de um circo que gostava de jogar fogo nas coisas e acabamos causando uma enorme confusão próximo a jaula dos elefantes. Sim, ele tentou jogar fogo em mim e não foi divertido, os elefantes enlouqueceram o que fez os cuidadores se machucarem e etc. Hm, ele era um garoto forte, deve estar bem! Ou talvez não...

Eu as vezes me sinto um pouco solitário por conta dessas viagens, mas eu não culpo o meu pai, ele ficou viúvo muito cedo, o que fez cuidar de mim praticamente sozinho, mas ele também não reclama. Ele fala que ‘mudanças são necessárias pra crescer’, mas eu sei que isso é um pilar para não o deixar desistir, de acordo com ele, foi a única herança que sua mãe adotiva havia lhe dado. Acabei de certa forma também me doutrinando por ela, mesmo porque o serviço o ocupava bastante não me deixando com nenhum espaço. Na verdade, fazia com que ninguém fosse tão presente assim na minha realidade. Isso não me incomodava tanto, a não ser quando eu via os outros colegas de turma com suas famílias na reunião de pais ou em jogos escolares. Estou perdendo o foco aqui! Onde estava mesmo? Ah, mudança, isso! Tínhamos acabado de chegar na cidade e havia uma imensidão de caixas para desempacotar, e como de costume, usamos a estratégia padrão de cada um fazer sua arrumação sem que o outro ficasse botando o dedo, o que me deixava com o meu quarto e a cozinha e ele com a sala, o banheiro e o seu quarto.

Nossa casa não era muito anormal, tinha uma cozinha, um banheiro, uma sala pequena, dois quartos e um quintal até que grande, de onde crescia um alto pé de castanholas. Levamos horas naquela arrumação, meu pai era muito exigente e as vezes enxia o saco, “Limpe isso!”, “Não está bom o suficiente!”, principalmente, porque ele era o único que não cumpria o combinado, mas eu não levava isso tão a sério...

— Filho, já terminou? – perguntou ele de forma calma segurando a barriga.

— Mais ou menos, falta ainda colocar algumas roupas... – Falei concentrado na tarefa.

— É que já são quase 11 horas e precisamos manter o nível de glicemia no sangue adequado. – Disse ele como se estivesse tentando me convencer e ao mesmo tempo me comandar.

— Ta, mas idai? – Falei ainda dobrando algumas roupas e colocando no meu quarto.

— Eu esperava que você pudesse ir comprar o nosso almoço. – Falou – Sabe, eu ainda tenho muito pra desempacotar.

— E você acha que eu estou fazendo o que? – Falei olhando pra ele. – Olha eu sei que você tem essa síndrome de não sei la quem e precisa controlar seu nível de Ferro ou açúcar, mas eu não posso deixar isso assim.

— Deixa que eu arrumo por você então. – Ele sugeriu, mas logo fiz um sinal de negação.

— Toda vez que você arruma minhas coisas eu não encontro quase nada, prefiro fazer do meu jeito e não ter que perder 30 minutos da minha vida por nada. – Falei.

— Nossa, não precisa ser rude, estava tentando ser gentil.

— Gentileza? Ah, ta bom! – Voltei a dobrar as roupas.

— Você vai me fazer mesmo ir? Que tipo de filho é você?

— Nossa, tava demorando... – murmurei. – Tá, me da logo o dinheiro que eu vou ver se acho alguma coisa pelos quarteirões. – Ele estampou um sorriso no rosto satisfeito enquanto pegava o dinheiro. – Devia aproveitar esse lado dramático e ser ator.

— Quem sabe um dia, não é mesmo? – Falou ele rindo um pouco – Você já sabe como eu gosto né?

— Feijão, carne e arroz. – Ditei revirando os olhos enquanto ele me entregava o dinheiro.

— Fique bem. – Falou baixinho antes de sair.

— Como se você se preocupasse – Falei sem paciência, mas ele apenas sorriu.

— Eii, Bernardo, antes de ir, você não quer uma bolsa? – Perguntou.

— Pra que eu ia querer, acho que consigo carre... – Ele me interrompeu com um sorriso quase de gargalhadas – Pra guardar sua antipatia.

— Se continuar com isso. – Falei de maneira séria, como se não tivesse gostado da brincadeira, na verdade, eu não via graça nela - eu saio de casa. – Deixei-o rindo da horrível piada na sala enquanto saia pelo quintal em direção a qualquer lugar que pudesse vender comida.

Ao longo da rua, percebi que as casas faziam um tipo de jogo de cores, em que alternavam de amarelo e azul, algumas bem mais arborizadas quebravam o jogo com flores e rosas de cores diversas. As casas eram todas de paredes compartilhadas e os telhados pareciam uma passarela meio marrom de subidas e descidas. As calçadas eram meio esburacadas, pareciam antigas, e a estrada também não era das melhores.

Apesar disso, não quer dizer que era um completo deserto, pelo contrário, pessoas iam e vinham, todas em seu tempo conversando sobre quase tudo. Ao ultrapassar a primeira esquina pude notar crianças bem distantes provavelmente indo para sua casa, subindo aquela imensa estrada que tornava as casas cada vez mais entrelaçadas e até mais frágeis. Outras pessoas também vinham de la, algumas com paletós apresentáveis e outras com caixas de isopor que pareciam bem pesadas.

Seguimos juntos até o primeiro ponto de ônibus, que não era muito longe, onde la se aglomerava tamanho contingente populacional. Alguns olhavam impacientes o relógio, enquanto outros tentavam se proteger a todo custo do sol das 11:30. Algumas pessoas não tiravam os olhos de mim, ou melhor, do meu cabelo. Um garoto de uniforme então decidiu falar comigo, provavelmente, havia pensado que eu pudesse estar perdido. Bem, não é como se eu tivesse, eu só não sabia para onde deveria ir.

— Ruivo? – Falou ele, uma voz infantil até, aparentava ter 10 anos. Sua pele era clara e cabelos escuros como seus olhos. – Tudo bem?

—  Hm. Ah, claro. Tudo bem, sim. – Falei me virando pra frente novamente.

— Nunca te vi por esse lugar, é novo por aqui? – Insistiu o moleque.

— Sim, acabei de me mudar.

— Ah, e de onde você era? – Perguntou ele

— Eu nasci lá pras bandas do Sul, mas meu pai viaja muito, então fui criado por todo lugar- disse dando uma leve gargalhada.

— Entendi. – disse ele olhando pro chão, enquanto a conversa morria lentamente.

— Ehrr... Você sabe onde posso comprar comida? Tipo um almoço? – Perguntei tentando voltar ao papo.

— Ah, certo. Eu costumo almoçar na praça leste da cidade, la vende um ótimo sushi – falou ele rindo. – Mas vende outros tipos de comida também, claro.

— E como posso chegar la? – perguntei.

— Parece que você deu sorte, só pegar aquele ônibus que esta vindo mais a frente e pegar o mesmo pra voltar. Ele costuma passar de meia em meia hora.

— Nossa, sério você salvou a minha vida. Muito obrigado, ...?

— Ah nem me apresentei, meu nome é Marcos. – Disse mostrando um grande sorriso.

— E o meu é Bernardo, prazer em conhece-lo. – Falei retribuindo o carisma. Nesse momento, o ônibus chegou abrindo as portas para que uma imensidão de pessoas pudesse entrar.

— Bem, chegou minha hora, até mais. – Falei enquanto caminhava para dentro do ônibus. Ouvi um grito de uma menina próximo a mim, mas não consegui ver o que era devido as pessoas do ônibus. Quando ele deu partida, pela janela, notei que era uma garota, talvez irmã do Marcos devido a imensa semelhança. Ela parecia irritada enquanto segurava o braço do garoto que pela feição dele deveria estar incomodando.

Aos poucos, as casas de paredes compartilhadas deram lugar a prédios cada vez maiores e mais modernos, e locais cada vez mais movimentados. Dentro do ônibus passava-se vendedores e pessoas completamente diferentes que falavam sobre suas vidas e riam de alguns dos seus problemas. Não demorou muito ate chegar no meu ponto.

A praça ficava bem ao lado de uma grande instalação branca e cheia de câmeras onde ficava o ponto de ônibus. As arvores da praça praticamente se entrelaçavam com a instalação enquanto que os prédios a sua volta formavam ruas em um formato quadrado e bem arquitetado. Ao redor da praça havia todo tipo de loja, quase como um centro comercial. Um locutor de radio que saia de algum poste da cidade anunciava as 12 horas da tarde assim como minha barriga. Acabei indo na primeira lanchonete que vi, comendo logo por lá e certificando que a comida do meu pai não fosse esquecida por puro desleixo.

Aproveitei para caminha pela praça, pude ver um grande amontoado de pessoas que observavam um garoto que conseguia fazer cartolas voarem enquanto recebia trocados por isso. Ele parecia ter outros truques, mas não me importei muito. Fui de encontro então ao ponto de ônibus, onde um senhor de idade ouvia o radio no volume máximo, além de algumas mulheres que pareciam falar sobre seu emprego.

O locutor da radio falava novamente sobre os feitos do ‘Tarântula’ enchia-o de bajulações enquanto clamava pela policia para proteger a população. Depois seguia a falar de crimes e mais crimes. Nesse meio tempo, o ônibus chegou e pude voltar a rota de casa.

No caminho, ambulâncias, bombeiros e policiais passavam em alta velocidade do ônibus. As poucas pessoas que estavam começaram perguntar se havia acontecido algum acidente ou algo do tipo, o rádio do velho também não informava nada de diferente, fazendo com que as pessoas logo parassem de dar importância ao assunto.

Ao descer do ônibus, pude ver varias pessoas comentando sobre o assunto e até as que estavam fora das casas haviam saído para saber informação. Eu achei aquilo um alarde desnecessário e bastante inconveniente, mas as pessoas pareciam assustadas e falavam que escutaram o estrondo. “Mais que estrondo, tiros?” pensei.

A medida que andava mais carros surgiam estacionados e outros buzinavam engavetando aquela rua estreita. Pessoas assustadas e em prantos apareciam a cada passo que avançava. Uma fumaça intensa cobria cada vez mais o céu e por fim, a minha rua, que não estava mais lá.

Um circulo de pessoas rodeavam aquele lugar pedindo informação enquanto outras corriam das chamas que se emergiam naquele corredor. Os policiais controlavam a situação enquanto os bombeiros se arriscavam correndo buscando pessoas. Eu observava tudo de olhos arregalados enquanto caminhava pela multidão. Andava em círculos, sem saber o que fazer, mas não encontrava o que procurava, ou melhor, quem procurava.

Foi então que um homem é lançado das chamas levando um dos bombeiros consigo. De acordo com o policial, o herói havia chegado para salvar a todos que estivessem precisando.

 


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Notas finais do capítulo

Cândida é uma cidade fictícia do Rio de Janeiro, aos poucos irei caracterizando suas zonas no objetivo de dar mais vida a mesma na mente de vocês, espero que tenham gostado. Serão capítulos semanais postados toda segunda :)



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