Doctor Who - The Dream Saga escrita por Caebri


Capítulo 2
Mr. John Smith




Rosebery Avenue. Londres, 2019...

Ema Draldy é o tipo de garota pela qual vale a pena esperar.

E por saber disso, Raymond Burton sentia-se inquieto enquanto caminhava de um lado para o outro, apertando os dedos das mãos e cedendo considerável atenção ao redor, inseguro. As duas primeiras ações eram tentativas tranquilizadoras e pouco efetivas, diferentemente da última, cheia de perícia quanto ao efeito. Não que qualquer perícia fosse necessária:  Ray já estava tenso desde o começo daquele fim de tarde, quando decidiu que diria algumas palavras ensaiadas à Ema, sua amiga de infância e, então, a melhor dentre todas.

A tensão certamente aumentou quando ficou sabendo que, para tanto, ele teria de abordá-la ali, no fracamente iluminado e principal corredor entre os camarins e o palco do Sadler’s Well, um dos mais modernos teatros de Londres, inaugurado no século XVII e cheio de vozes e expectativas, conservando uma capacidade para mais de mil pessoas e também uma beleza simples. Quando soube que além daqueles diretamente envolvidos com a peça e o seu público, muitos seguranças estavam presentes, em rondas circulares e dispostos a modificar gravemente aquele momento, caso algum deles notasse o rapaz no lado errado do palco.

Mas era um risco que Raymond Burton decidiu que precisava correr.

O pior que poderia vir a acontecer seria a sua expulsão do teatro. E a decepção crescente para Ema, que não o encontraria na plateia e no assento que conseguiu para ele, na segunda fileira inicial. E também a perda de sua coragem, cuidadosamente acumulada por algumas horas antes daquele preciso momento, escolhido para a exposição de certos sentimentos que iam além do excesso de carinho e admiração.

Em conjunto, consequências demais para alguém com a personalidade de Ray. Mas aquele era o momento.

O destino de Ema, após a apresentação (que remontava um suspense com excertos de percepções pouco identificáveis no ambiente natural humano, em mescla com situações fantásticas), era incerto. Ela disse a Ray, momentos antes, que estaria viajando para Copenhague, Oslo, Estocolmo e até mesmo Moscou, ao término das quase duas horas sob o palco, em Londres. Viajando para longe de mim, foi o primeiro pensamento dele, já incerto sobre as previsões de um retorno da amiga, estando a companhia de teatro da qual ela faz parte prestes a entrar em uma temporada de apresentações que, cada vez mais, conquistavam público e popularidade.

Para Ray, não era nenhuma novidade que Ema aspirava ser uma atriz independente e internacionalmente reconhecida, a atuar nos próprios roteiros e também liderar uma companhia teatral. A novidade partia de dentro de si próprio, hesitante e afobado para expressá-la e conter a força que ganhava a cada volta que o ponteiro digital, em seu relógio de pulso, completava.

Guiado pelos ouvidos e as pernas irrequietas, Ray percebe que precisa se esconder agora, à forma possível quando se está em um corredor (ou seja, sem muita eficiência e em uma das curvas), pois ouviu passos; viu três figuras em túnicas claras passando pelo outro extremo, e... em menos de dez segundos, ele as  deixou de lado, retomando o percurso "daqui-até-ali-e-para-lá-novamente". Julgou que as figuras eram atores, conhecidos de Ema...

O nome o envolve e o põe em nova divagação.

Ema. Seus cabelos cortados à altura dos ombros. Os grandes olhos. As expressões ingênuas e amáveis. O peso de seu corpo, quando carregado por seus braços sem jeito. O som de sua risada. O estranho barulho que vinha de fora quando...

Espera aí! O que é isso?

Acontece novamente. E novamente, e outra vez. Baques secos, como socos dados em madeira firme, divididos por intervalos curtos e a chamar a atenção, a curiosidade de Ray.

Eles vinham de fora, não de um ponto muito distante ao qual estava e permaneceria, caso passos não ressurgissem, e desta vez, em seu lado do corredor, velozes. Não pode ser Ema, ela está dentro de um desses camarins...

Visando não ser descoberto e enxotado, e equilibrando isso com a vontade de rever Ema ao fim de suas preparações e antes de sua entrada ao palco, ele aceita o receio e curiosidade, locomovendo-se rápida e silenciosamente até a porta mais próxima. A mesma que dava para o lado externo e abafava a causa daqueles sons.

TÁC. TÁCSHI. TÔUF.

Ao atravessar a porta, tornar a fechá-la e virar o corpo, Raymond fica surpreso com a reprodução que seus olhos transmitiam ao seu pouco entendimento.

Estava em um pátio. A tarde chegava ao fim, com uma luz natural e fria, cinzenta e clara, a ser despejada pela ausência do Sol. Ondas de ar viajavam sem ordem, soprando para todos os lados com uma velocidade agradável. As lixeiras, bancos, paredes lisas, grades, chão cor-de-mármore, vidraças escuras e demais portas estavam em perfeito estado, em seus lugares...

Nada estava faltando.

Pelo contrário: havia algo que, certamente, não era membro coeso daquele cenário.

Era uma cabine antiquada de polícia, em azul, a dez passos de Ray.

E era nessa cabine que uma mulher alta, dentro de uma combinação elegante e social, desferia golpes com um machado de incêndio enquanto seus cabelos avermelhados acompanhavam, para cima e para baixo, o ritmo das estocadas; enquanto gemidos de frustração eram audíveis, a escapar por sua boca, já que nenhum resultado além de talhos feios na madeira era atingido.

Um número alto de talhos.

Ray gastou alguns segundos observando e contou mais de vinte e quatro, ao tempo em que tentava compreender o que era aquilo. O que aquela mulher e aquela cabine, sozinhos no pátio, antes de sua chegada, faziam enquanto centenas de olhos, lá dentro, aguardavam os poucos minutos até o abrir das cortinas e o soar de timbres divergentes.

Provavelmente ela é uma atriz e está extravasando, ensaiando, descontando o nervosismo ou raiva naquela.... cabine, que podia ser encontrada nas ruas, cinquenta e alguns anos atrás. Mas, hã... essa cabine, então, faz parte do cenário. Por que não foi carregada para o palco? Será que foi descartada, explicando assim sua destruição? Ray matutou, em dúvida. Será que essa moça, mulher, se lembrou de ter esquecido algo importante dentro da cabine e está tentando recuperar em tempo para a peça? Ninguém mais está ouvindo os rugidos curtos e lamentos impacientes daqui, enquanto uma coisa inanimada resiste? E resiste bem... Bem, o que será que a atacante faria se eu a interrompesse? Será que ela está razoavelmente sã ou é confiável o suficiente, com esse machado em mãos? Eu...

Antes de decidir qual das opções era real ou o que fazer, a mulher parou, gritou, virou e o viu, paralisando-o no mesmo segundo. Soltou uma das mãos do machado, segurando-o displicentemente.

Seu rosto, marcado pelo formato do maxilar e do queixo, era de bochechas meio chupadas e vermelhas, lábios contraídos e comportados, sobrancelhas ao mesmo tom que a franja irregular e o resto dos fios na cabeça. Os olhos tinham uma cor de verde-mar.

John Smith? — Ela grita e sorri com expectativa. Sabe que, irreversivelmente, foi notada e ouvida por Ray, que nega com a cabeça, os olhos ainda no machado. O sorriso se desfaz em carranca e ela gira, atingindo a cabine novamente, doze ou treze vezes, com movimentos rápidos e em tempo suficiente para que Ray, incrédulo, saísse dali antes que... bem, antes que ela soltasse o cabo, com a lâmina agora presa na porta azul da cabine, e voltasse sua atenção para ele.

Ela suspira, relaxa os ombros, escolhe um novo sorriso de dentes perfeitos, um tanto estranhos e um tanto ingleses, e caminha em direção ao rapaz, que teria recuado mais dois passos, caso já não estivesse contra a porta.

— Você — diz ela, com uma voz sonora e calma. — Você. Pode me ajudar?

Era como um convite e não uma pergunta.

— Ajudar? Precisa de ajuda? Para quê? Eu consigo ajudar? — A voz de Ray sai rápida e se perde quando a mulher para em sua frente e pousa as mãos de dedos compridos em seus ombros suspensos pela insegurança e nervosismo.

Antes que ela respondesse qualquer coisa, torna-se estátua, congelada e com a posse de sua nova companhia, por alguns segundos. Os olhos estão distantes, como se procurando alguma recordação esmaecida.

— Para quê? Oras! — Recomeça, mais simpática. — Para encontrar John Smith, é claro. A não ser que...

As mãos caem dos ombros de Ray. Ele repete:

— A não ser que...

— A não ser que você seja John Smith e tenha dito não ser quando balançou essa cabeça com a ajuda de seu pescoço. — Colocou, mais para si mesma. — A não ser que tenha dito não ser por não querer ser, ou por ser até demais e assim ir deixando de ser. Como naquela história... Qual era mesmo o nome? Ah! "A Garota Dunamooniana de um só olho". Uma história absurda, cheia de luas e caramelos gigantes. Tão absurda quanto a minha atual situação.

— Hãa — era mais coisa para ser processada do que Ray esperava. — Eu não sou John Smith. Me chamo Ray. Raymond. — E sua falta de jeito pareceu divertir a mulher, toda ouvidos. Ray pensa pelos cinco segundos de silêncio que tomam participação nesse momento estranho e decide que, atriz ou não, ele a conduziria para junto das outras pessoas, contornando o que poderia vir a ser um empecilho aos demais ou alguma coisa pior.

Porém, para variar um pouco, Ray não tinha ideia de como faria isso.

— Jovem Raymond, então? Compreendo. Poderia ajudar minha busca por John Smith?

— Mas, quem é esse John Smith?

— Ele é o homem universalmente conhecido por suas traquinagens e boas ações, de doze faces e quinze vidas, dizem os minuciosos. E que deveria estar ali, naquela cabine. Mas não está, ou se está, finge não estar.

Isso não faz sentido algum. Estar ou se esconder em uma cabine, destruir as portas para conferir qual o caso, pedir ajuda assim. Nada cortês. Ray pensa, mas o que ele diz é: — Oh... Olha, eu... — os olhos de sua ouvinte estão atenciosos, cheios de curiosidade para o que será dito ou feito. — Eu não faço a mínima ideia de quem seja John Smith, não conheço nenhum.

A mulher ruiva fica inexpressiva, e seu tom de voz confortável perde o volume para um cochicho...

— Mas ele é o único que poderia me ajudar. Eu preciso dele.

... em uma frase que faz com que Ray sinta-se sensibilizado, responsável por auxiliá-la; por ela.

— Tudo bem — diz ele, indicando que abriria a porta atrás de si. — Eu tenho uma amiga, uma artista, que talvez saiba como... — ter mais jeito com estranhos, responder por palavras certas... — procurá-lo. E, se ela já não ter entrado em cena, podemos falar com ela aqui, nesse corredor.

E entrou, sem perder a imagem daquela que aceitou e o seguiu, caminhando ao seu lado.

— Como se chama, essa sua amiga?

— Ema Draldy. — Dizer o nome dela a uma estranha não pode ser tão prejudicial. Ou será que pode? — E o meu é Raymond Burton. Raymond. Quem chamam de Ray — emenda, pensando que se algo acontecesse por causa de um nome, aconteceria ao dele ou à ele, já que o seu foi o último a ser dito e, assim, era o mais fresco na memória.

Ema Draldy. Já ouvi algo familiar, assim, antes.

— Mas e o seu nome? Qual é? — Quis saber, tirar o foco de Ema.

O que não aconteceu. Antes de uma resposta da mulher alta, Ema surge, em um vestido azul escuro e elegante, cabelos curtos presos atrás da cabeça e calçados com saltos a tiquetaquear no corredor, em direção aos dois. Ray quase fica paralisado pela segunda vez em menos de dez minutos, estudando a amiga e realçando a cada segundo, com a aproximação, que ela é a criatura mais bonita de todo universo.

— Ray! — Ema diz, como se o reconhecendo somente naquele momento, dando-lhe um abraço rápido. — E você também está aqui, moça ruiva. Como disse que estaria. Por que não estão juntos aos outros espectadores?

Abobalhados, Ray e a mulher trocam um olhar desconexo.

— Vocês a conhece? — Pergunta ele à Ema.

— Nós nos conhecemos? — É a vez da mulher ruiva.

Ema ri, porque isso parecia ser algo combinado entre os dois. Faz que sim com a cabeça. Toma cada um pelas mãos, com as suas, e começa a conduzi-los até o outro lado do corredor. Esclarece:

— Eu não tenho muito tempo, participo logo na primeira cena e não sei se escolhi os melhores sapatos para pisar em terra. Vocês sabiam que há terra, terra escura, sobre o palco? Eu acho que não... E nem deveriam saber, não é mesmo? Bem, encontrem os assentos e sentem-se. Conversaremos depois.

Sem delongas, aos empurrõezinhos, ela deixa os dois e segue caminho oposto. Ray fica ainda mais lento; a ruiva, pensativa. Tanto que decide dar uma corridinha até Ema (com Ray em seus calcanhares) e perguntar, quando ao seu lado:

— Como e quando nos conhecemos?

— Aconteceu hoje mesmo. Você estava no pátio. — Coloca, gentilmente, sem deixar de andar, como se já esperasse por isso. — Não me disse seu nome, mas pediu para que eu guardasse uma coisa sua, o que estou fazendo, e que só a devolvesse quando fosse "o momento certo". Disse também que, caso me encontrasse antes desse momento, fingiria não se lembrar que deixou essa coisa comigo ou que nós nos conhecemos.

— E você concordou com isso? Parece—

— "Desconfiável e estranho" — completou. — Você disse que diria isso também, e que quando acontecesse, era um sinal de que "o momento certo" ainda não chegou. Fique perto de Ray que irei até vocês assim que possível. Agora, vão.

A mulher estacou, sobrancelhas arqueadas, e obedeceu. Ray gaguejou um "Ema, o que é isso?", por não estar entendendo, mas não obteve respostas. Tal como não abriu brechas no silêncio que se fez até que eles chegassem aos seus lugares apertados entre o público, na segunda fileira ante o palco. Na realidade, não foi Ray o primeiro a falar quando assim.

— John Smith... — disse alguém atrás dele, dono de uma voz arrastada e um rosto coberto por capuz, túnica clara. Era uma figura inusitada, mesmo para o ano de dois mil e dezenove. Tanto Ray quanto a primeira enunciadora de "John Smith", naquele dia, olharam para o homem. Ela, com mais rugas no rosto tencionado que o rapaz, parecendo querer exprimir tudo o que aquele homem poderia saber sobre Smith.

— Você sabe quem ele é ou como encontrá-lo? — Foi Ray quem quis saber, deixando-se levar pela situação, sentindo-se parte dela. Assim como Ema parecia ser, mesmo sem intenções.

As luzes, de holofotes e flashes, começaram a perder força quando acordes suaves de guitarra começaram a deslizar por detrás da grande cortina arroxeada suspensa sobre o palco. E esse som, como o nome de Draldy, foi familiar para a mulher ruiva, quem por um instante, no qual tudo pareceu silencioso para si, sentiu algo dentro de seu corpo pulsar, fazendo correr uma energia por todos os lados...

E quando passou, percebeu que as cortinas tinham sido abertas e que Ray, insistentemente abria e fechava sua boca.

"O ho... va aqu... rás... desaparecer...  como… aça… verdade… diss... Ema... o tal... Smith".

Focou a atenção, os sentidos, e entendeu o que ele queria dizer, repetindo: "O homem que estava aqui atpás acabou de desaparecer, como fumaça, de verdade. Você não viu ou ouviu? Ele disse que ninguém além de Ema sabe onde está o tal do Smith..."

Precisamos ir atrás dela, mulher! — Mulher por se tratar de uma mulher, que não disse seu nome e agora está envolvida em uma perseguição à John Smith. Tanto quanto eu e menos do que Ema. Precisamos é encontrar Ema, seja lá o que for isso tudo. Ray encarava a ruiva.

O palco do Sadler's Well estava forrado por uma camada grossa de areia escura, e o que intrigou os espectadores mais do que isso foi a aparição de um homem de ar misterioso, com uma túnica cinza-clara, por cima de um cavalo branco; foi a exasperação aparente de duas pessoas, uma mulher e um rapaz, que se levantaram em um salto, desviando das pernas até a passagem entre as fileiras de cadeiras, disparando como despirocados em direção ao ponto posterior ao palco.

Se ele e ela não estivessem tão preocupados em correr e encontrar Ema, teriam percebido que, salvo o fato do homem de túnica estar a segui-los, à cavalo, os seguranças do lugar pareciam ter fugido ou fechado os olhos para alardes, corridas nos corredores.

Ray fez que ia entrar em um dos camarins, mas foi puxado por sua dupla.

— Ela não vai estar em um desses. Se é a única que tem contato com John Smith e está correndo perigo, sua primeira ação, se possui o mínimo de sensatez ou senso de aventura, foi ir até aquela cabine azul; até ele.

Para Ray, essa ideia, emitida em voz alta, era tão ridícula quanto alguém desaparecer bem do seu lado. Ou seja, racionalmente crível, a partir daquele dia.

Por que não me contou nada, Ema? Martelou, em direção ao pátio da cabine azul.

— Você está pensando alto demais e ela provavelmente teve motivos para isso — respondeu a mulher. — E, ali está.

Eles pararam e viram Ema diante da cabine azul, ao mesmo tempo em que ouviram algo vindo do corredor, atrás.

Era o homem, agora à pé e bastante focado na garota.

A ruiva bate a porta e manda Ray segurá-la.

Ray abre tanto a boca quanto as pálpebras, pronto para protestar, mas olha para trás e vê que o homem ao fundo, agora sem o capuz, de pele macilenta e careca, não faria muito bem à nenhum deles, caso passasse por ali. Ele deve ser trinta quilos mais pesado, ter o dobro de força e é três vezes menos bonito que eu, assustador, mas, por aqui não vai passar. Ema...

Com as costas, ele travou a porta, usando de sua força e peso contra ela. Viu que Ema não reagia ao toque das mãos mulher em seu rosto, parecendo estática, hipnotizada pela cabine. Por um momento de lucidez, considerou que aquilo tudo tinha sido ensaiado… sem ele, o ator improvisado.

— Ema — a mulher disse à garota, com cuidado. — Existem coisas más no universo. Coisas belas, inacreditáveis, infinitas, triviais e más. Nesse momento, estamos diante de uma não muito boa, por isso eu preciso que você faça John Smith aparecer. Quero que o chame.

Não houve manifestos, um piscar sequer.

— Ele pode nos ajudar — continuou. — Eu sei quem ele é, e preciso que ele saía ou abra essa cabine agora. É o único que pode me auxiliar com... algo. O único que sabe como lidar com todos, inclusive aquele homem que, nesse momento, está perseguindo você e que não vai parar.

Nada.

— Não vai parar porque tem seus motivos, que não devem ser poucos. Reaja, Ema. Faça acontecer.

— EMA! — Gritou Ray, quando a primeira investida contra a porta aconteceu, empurrando seus pés para a frente e fazendo-o jogar o corpo para trás, a fim que a porta continuasse fechada. Houve mais uma, e mais duas investidas. O vidro que decorava a parte superior da porta se partiu, caindo sob Ray, que insistiu: — EMA!

Esse deve ser o momento certo — sibilou a ruiva.

E, de repente, Ema aspirou uma boa massa de ar, expirando-a em seguida, de volta a si. Não precisou de mais que um vislumbre ao redor para perceber o que estava acontecendo. Levou uma das mãos para trás da cabeça, puxando aquilo que, junto a um laço, prendia os cabelos.

Era uma chave. Uma que inseriu na fechadura em uma das portas talhadas da cabine e girou, mas a tranca não cedeu, engasgando na metade. Do outro lado, Ray era atirado para a frente, desequilibrado, tendo a porta, empurrada das dobradiças, não lhe acertando por pouco, com o homem careca a ganir um uivo estranho, para logo depois dizer "Emmaaaa" de forma arrastada e maliciosa. O que enfureceu e proporcionou um soco de coragem em Ray.

Ele se virou, correu contra o homem enquanto a mulher ruiva gritava "Não!" e Ema tentava girar a chave por inteira. Com os ombros, Ray chocou-se contra o homem, que também se enfureceu e titubeou para trás. Foi quando notou que, no lugar de seus olhos, havia duas pequenas esferas com afiados dentes. E isso o assustou como nunca.

Quando, por sua vez, o perseguidor gritou, Ema conseguiu abrir a cabine e empurrou sua porta.

— Raymond, venha. Ela conseguiu! — chamou a ruiva. E Ray obedeceu, vendo Ema entrar enquanto a outra esperava por ele, ao lado da cabine que, somente naquele instante, pareceu meio pequena para três pessoas e pouco segura quando alguém que derrubou uma porta e tem três tipos de arcadas dentárias está atrás de você.

Aconteceu de forma rápida. Ray passou veloz pelo arco da cabine de polícia, lançando um olhar para trás e vendo que a mulher fez o mesmo, logo em seguida, fechando a porta e suspirando. Um baque, frustrada tentativa do homem de túnica, atingiu a mesma. E foi então que os três perceberam uma coisa...

Aquilo não era uma simples cabine antiquada. Ela era...

— Bem mais espaçosa por dentro do que parece, por fora — colocou Ema, impressionada e com os ombros envoltos pelos braços tremeluzentes de Ray. Os olhos de ambos filtravam todos os detalhes estranhos e atraentes daquele lugar, até que pousaram sobre uma outra mulher, próxima aos botões e alavancas ao centro.

— Olá! — Disse ela, com uma voz forte que ecoou pelo ambiente feito de impossibilidades.

A mulher ruiva tomou a frente, passando por Ray e Ema, dizendo "guarde aquilo que é meu, seja lá o que for". Parou diante da outra, que dali, parecia-se mais com uma projeção, existência etérea feita de energia e raios dourados a simular uma aparência feita de cabelos escuros e meio cacheados, compridos, presos sobre a cabeça, vestes longas e esverdeadas, cheia e rendas e detalhes.

— Você não é John Smith — concluiu a primeira. — Ou é?

— Não. E você — ela tocou a testa de sua próxima, afastando a franja desalinhada para o lado — não conseguirá encontrá-lo assim. Não dessa forma. Ele está preso dentro... dele.

Dito, o corpo da ruiva cedeu e caiu ao chão, agitando Ray e Ema, ainda mais quando um som incomum, aspirador e deslizante, como uma respiração mecânica e viva, passou a ser ouvido; quando toda a estrutura chacoalhou e, por fim, quando a mulher de vestido disse:

— Não se preocupem. Tal como vocês, ela vai se lembrar de tudo quando acordar…



Notas finais do capítulo

Olá, você que chegou até aqui. Talvez com alguma suspeita, crítica ou similar, sim? Comente qual ou quais foram, e também se achou o capítulo muito longo.



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Doctor Who - The Dream Saga" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.