Amor Púrpura escrita por Maga Clari


Capítulo 5
Alvorecer: O primeiro amor na Via Láctea


Notas iniciais do capítulo

Olá, gente!
Desculpa a demora do capítulo, mas tendinite atacou e isso me impede de escrever :( por isso ainda não respondi os reviews. Assim que possível respondo tudo com muito carinho ♥
Beijos



Em algum momento do amanhecer, Lysander começou a ficar inquieto naquela posição. Embora o armário de vassouras não fosse exatamente um armário, mas uma saleta parecida com um depósito, o lugar não era o ideal para uma soneca. Primeiro porque a saída de ar era limitada, chegando apenas uma frestinha do sereno; segundo pela falta de colchões ou travesseiros; terceiro porque Lysander não estava acostumado a dividir seu espaço vital com outra pessoa. Na infância, costumava dormir num beliche com Lorcan, mas nunca, em hipótese alguma, na mesma cama.

Quando Lysander entendeu que havia um braço ao redor de seu corpo, que um aroma leve de flores exalava no ar e que estava acordando de uma boa soneca tão juntinho de Dominique, sentiu-se momentaneamente tonto. O movimento para desvencilhar-se da amiga foi o bastante para que a acordasse também. Ela parecia um pouco confusa e sonolenta, mas apressou-se em conferir o relógio de modo automático.

— Oh Meu Merlim… É melhor a gente ir! — ela disse, levantando-se. Ao notar que Lysander estava imóvel, com os olhos arregalados e encarando o nada, insistiu — Lys? Está tudo bem? Oh, trasgos que me mordam, você é fraco mesmo pra bebida, hein? Deixa eu te ajudar.

Dominique deu batidinhas nas costas de Lysander, que enfiava a cabeça num balde de limpeza para expelir todo o FireWhisky que bebera poucas horas antes. Essa havia sido a primeira vez, em muitos anos, que Lysander se deixara chegar a extremos. Talvez fosse toda a pressão, todo o nervosismo causando um colapso mental. Um curto-circuito em seu cérebro analítico.

— Temos que dar um jeito nisso — ele disse. Respirando fundo, levantou-se, encarando a saleta e, principalmente, o balde. Com a varinha estendida, sussurrou: — Limpar!

O balde saltitou e o conteúdo dentro dele sumiu como num piscar de olhos. Isso fez Dominique rir, quebrando a tensão que estava para se instalar entre eles. Mas antes que seu amigo dissesse qualquer outra coisa, Nique apressou-se em destrancar a porta e puxá-lo, segurando sua mão.

Do lado de fora, o que encontraram foi assustador. A casa do anfitrião da festa, cujo nome não se lembrava, estava quase vazia. Quem restava, dormia em qualquer canto que parecesse confortável. No entanto, ao descer as escadas para o térreo, os olhos de Lysander foram diretos na figura loira sentada no sofá, e que tinha os dedos apertando as têmporas, como se estivesse morrendo de enxaqueca. Já conhecia aquela cena. Portanto, não quis levar mais do que dois minutos para ir até ele.

— Lorc. — Lysander o puxou, pela camisa. Quando o garoto reabriu os olhos, sua expressão foi de susto para raiva, muita raiva — Ei, está tudo bem?

Está tudo bem?! — ele o arremedou, forçando uma voz de desagrado —  Lysander! — seu tom de voz havia tomado uma proporção descontrolada — Você sumiu por horas! Procuramos na casa inteira! Prometemos ficar de olho em vocês, e de repente… Cadê Lysander e Dominique?

— Lorc…

— Não, não, não, não! Não tem desculpa! Fiquei borrando de medo aqui. Imaginei centenas de possibilidades. Onde você estava, afinal?

— Olha, Lorc…

— Você também não, Dominique — Lorcan se levantou e estendeu a mão na direção dela — Foi errado e não tem nada que possa ser dito pra mudar isso. Se iam esticar ou transar a madrugada toda longe daqui ou seja lá o que porra fossem fazer, pelo menos me avisassem! Por Merlim! Hugo e Nott estão na rua atrás de vocês!

— Nott?

— É, Nott, o dono da casa. Meu amigo.

— Terminou? — Dominique perguntou, impaciente — Porque se não terminou, sinto muito, é minha vez de falar agora — então, reunindo todo o ar que conseguia, continuou: — Primeiramente, abaixa esse tom pra falar comigo. Ou com qualquer pessoa. Segundo, nós somos maiores de idade, não devemos satisfações a ninguém. Por Deuses, Lorcan, eu sou mais velha que você!

— E é por isso mesmo que tenho que proteger meu irmão!

— Oi?! — a incredulidade veio pelos dois, Lys e Nique, ao mesmo tempo.

— Lysander, todos nós sabemos que você é meio…

— Meio o quê? — agora foi a vez dele de se aborrecer.

— Você sabe…

— Não, não sei não — Lysander respondeu, ríspido — O que eu sei é que você, Lorcan, está saindo com um garoto que ainda estuda em Hogwarts!

— Ele já fez dezessete!

— Não importa! Para de bancar o conservador aqui com a gente. Sei que é difícil acreditar que eu esteja namorando com Dominique, porque eu também não acreditaria. Mas isso não lhe dá o direito de agir dessa maneira. E se quer mesmo saber, você tinha razão, é impossível que eu, Lysander Scamander, tenha uma namorada. Ou namorado. Não porque eu seja meio... Mas porque eu sou todo, inteiramente, assexual.

As narinas de Lysander pareciam fracas de tanto hiperventilar. Seu coração havia travado uma maratona ao despejar tanta coisa de uma só vez. E ao notar a expressão de choque no rosto do irmão-gêmeo, aproveitou para finalizar, antes que ele dissesse qualquer coisa.

— Acha que é fácil lidar com isso? Eu estava bem, eu nunca precisei de ninguém. De repente, todo mundo começou a me cobrar. Por isso pedi que minha melhor amiga me ajudasse. Todo o dia de ontem foi uma grande loucura.

Lorcan limitou-se a baixar os olhos, envergonhado. Lysander continuou:

— Eu não sinto nada, Lorcan. Eu sou puro nada. É estranho, é diferente, é inusitado. Mas sou eu. Sou eu, Lorcan. E você não pode me forçar a namorar, assim como não posso te forçar a ficar com garotas, por exemplo.

— Lys… — Dominique interviu, encolhendo-se em sua jaqueta — Você ainda pode ter uma namorada ou namorado sem precisar de sexo.

— Acha mesmo que isso é possível? Não seja ingênua.

— Dominique tem razão — Lorcan finalmente voltou a falar — Você não deve ser o único. E se uma pessoa desse jeito aparecer?

— Mesmo que isso acontecesse, não quer dizer que iríamos nos apaixonar. É como se eu te apresentasse um gay aleatório pra vocês se casarem.

— Oops, foi mal.

— Pois é.

Lorcan respirou fundo, sentindo-se momentaneamente desconfortável.

— Sei que já disse isso antes, mas vale repetir: Eu não preciso de uma metade quebrada, Lorcan. Você não entendeu nada?

Antes que ele pudesse responder, um ruído abafado surgiu. Entendendo que poderia ser Hugo e Nott, Lysander segurou a mão de Dominique e fechou os olhos.

— Mais tarde nos falamos, Lorc. Não estou com a menor vontade de ter uma segunda discussão com seus amigos agora.

E aí, pensando com fervor em pôr os pés na praia, seu lugar preferido no mundo, Lysander aparatou junto com Dominique.

Aos poucos, a sensação de repuxo foi transformada num borrão de cores azuis e amarelas. E então, o ambiente adquiriu nitidez. Estavam na praia de Tinworth, não muito distante do Chalé das Conchas.

A brisa matutina funcionou como um calmante natural. Aos poucos, toda a energia que havia surgido pela discussão começou a dissipar. Dominique reparou nisso quando Lysander desafrouxou o aperto de mãos.

— Por que nos trouxe aqui? — a pergunta escapou sem querer.

— É onde me sinto seguro. Gosto de ouvir o barulho do mar.

— Engraçado você dizer isso.

— É mesmo?

— É.

Dominique até poderia prosseguir com o assunto. Mas preferiu puxá-lo para as ondas que dançavam logo atrás; correndo, sentiu o ligeiro frio à medida que seu corpo submergia para mais e mais fundo, até que a água batesse quase no ombro. Uma vez lá, tapou o nariz e mergulhou por alguns segundos, com a gostosa nostalgia de voltar ao jardim de infância. Quando ela e Lysander brincavam na praia, longe dos pais.

Na época, nenhum dos dois se preocupava com aparência ou namoro. Eram apenas duas crianças brincando de nadar e aproveitando o longo verão da Cornuália, como se fossem os donos do mundo. Como se fossem capazes de controlar até mesmo o Tempo e Espaço.

— Lys — Dominique chamou-o, depois de dar vários mergulhos — Preciso te dizer uma coisa.

— Então você tem um segredo — a pergunta soou mais como afirmação.

— Não é bem um segredo. Olha só… — ela respirou fundo e tirou a água dos ouvidos, só para se concentrar em qualquer coisa que não fosse Lysander — Você já parou pra pensar no que vai fazer quando sua família não estiver mais entre nós e ao olhar ao redor não enxergar mais ninguém que possa ajudá-lo quando necessário?

— Ah, Nique, esse papo mórbido a essa hora da manhã?

— Estou falando sério! Se você não se casar, quem vai cuidar de você? Eu gostaria de ser cuidada quando tiver doente se eu for uma solteirona sem filhos, netos e pais. Entende o que eu digo? Eu acho que gostaria muito de uma companhia, também.

— Aonde você quer chegar?

— Lys — ela respirou fundo e fechou os olhos — Não sei se um dia vou encontrar o meu Príncipe Encantado. Alguém que entenda que meu tipo de relacionamento é diferente, e que os sentimentos são muito importantes para que esse amor entre nós exista. 

— Você é como eu?

Dominique limitou-se assentir, então Lysander retomou a fala:

— Como consegue? Quero dizer... Eu me sinto um foragido de outro planeta. Condenado ao isolamento que pode ser uma benção certas horas, mas um pesadelo em outras. Como você consegue lidar com isso tão bem?

— Lido de outra maneira, Lys. Eu ainda sinto vontade de ter uma companhia, sabe? Me sinto muito sozinha, o tempo todo. Principalmente ao constatar que o súbito interesse das pessoas em mim é tudo menos eu.

— Então a sua luz de veela apagou.

— Então a minha luz de veela apagou — ela imitou-o, pensativa.

— Sinto muito, Nique.

— Não tem problema. Eu só quero é que você saiba que, independente de eu estar casada ou solteira, você sempre, sempre, vai ter Dominique. Está me ouvindo?! Você não vai se livrar de mim assim tão fácil. Okay, bocó?

Dominique teve a impressão de que Lysander estava emocionado. Mas poderia ser apenas água do mar em seu rosto. Não havia como ter certeza. De qualquer maneira, ela não hesitou em abraçá-lo, que correspondeu sem demora.

— Existem diferentes formas de amor, Lys — Nique retomou o assunto, acariciando o cabelo dele — Milhares de formas.

— É, você chegou a falar disso por alto.

— Pois então! O amor, Lys, nem sempre é vermelho. Calorooooso e apaixonaaado. Às vezes ele pode ser púrpura. Doce. Com o sabor de liberdade e transgressão que a gente tem quando experimenta bolo de chocolate e recheio de uva, igual ao que você me deu ontem.

— Mas... Nique..?

— Diga.

— Por que púrpura? Tem alguma coisa a ver com seu novo cabelo?

Dominique afastou-se um pouco dele, sem controlar o riso.

— Isso você vai ter que descobrir — ela disse.

Esboçando um sorrisão, Dominique voltou a mergulhar e deixou Lysander sozinho uma última vez dentro daquelas vinte e quatro horas. Ele ficou estático, parado no meio do mar, tentando decifrar mais um dos enigmas criados por sua melhor amiga. Quando percebeu que Dominique ia mesmo embora, não aguentou:

— Nique! — chamou-a, aos berros.

— O quê?! — ela gritou em resposta.

— Você queria que fôssemos metades que se completam? Que eu fosse a sua alma-gêmea?

Dominique precisou pensar antes de responder.

— Somos inteiros juntos, Lysander. A gente não se completa. A gente se adiciona. Como uma faixa bônus, num disco de rock and roll.

Lysander sorriu. Por alguns instantes, apreciou a luz da manhã ao redor do rosto de Dominique, que parecia mais brilhante que o próprio sol. Era uma amizade confortável, aconchegante. Segura o bastante para que ele gritasse, a plenos pulmões:

— Eu amo você, Dominique. Nunca se esqueça disso.

— Não tem como esquecer o que eu já sabia. Eu também amo você, bocó. Vê se põe juízo nessa cabeça. Vê se começa a se amar, só pra variar. Tenha orgulho de ser quem você é. Tudo bem?

— Você é a melhor amiga de toda a Via Láctea!

— De toda a Via Láctea? — ela sorriu, em tom de deboche — Tem certeza?

— Absoluta. Algum palpite?

— Não faço a menor ideia, Lys.

— A Via Láctea tem tons de púrpura. 



Notas finais do capítulo

Algumas considerações:

1. Não vai ter epílogo. Vou tentar escrever uma continuação, quando tiver tempo e paciência.

2. Existem, de fato, vários tipos de amor. O amor que Lysander experimenta é o de amizade, fraterno. Além de ser assexual estrito. Dominique é demissexual e completamente apaixonada por Lysander, não sei se deu pra perceber rsrs.

3. Se eu fizer uma continuação, pretendo explorar uma fluidez em Lysander. No sentido romântico. Na minha cabeça, eles poderiam ter um relacionamento sim, mas sem nenhum tipo de "paixão". Na verdade, a premissa era essa antes. Mas comecei a escrever e a fic ficou assim. Acabei aceitando essa história desse jeitinho mesmo e quem sabe um dia eu consiga mostrar o relacionamento dos dois de maneira mais detalhada.

4. Eu não quis, em nenhum momento, dizer que bissexuais são confusos no capítulo que Lysander "experimenta" beijar Scorpius. Faz parte do processo de descoberta da assexualidade tudo isso.

5. Teve gente que não entendeu o lance da aposta. Lysander disse pra Dominique que tinha falado aos pais que eles namoravam. Mas era mentira. Ele nunca tinha dito isso. Ele só queria aparecer em casa com ela pra que eles parassem de cobrar que ele arrumasse alguém.

6. Achei interessante colocar a visão de Lorcan, irmão-gêmeo de Lysander, porque Lorcan o conhece como ninguém, tem a mesma idade dele e está tentando ajudá-lo. Só que não percebe que o que ele pensa ser "ajuda" na verdade só atrapalha. É uma visão muito comum de um alossexual (pessoas que se atraem sexualmente) pensar da mesma maneira que Lorcan pensa. Por isso a cena do debate entre eles. Mostrar que mesmo alguém da comunidade LGBT pode agir de maneira problemática com os assexuais.

7. Veelas são uma condição de nascimento no universo de Harry Potter parecida com as ninfas. Elas soltam uma espécie de ferormônio que fazem os homens se apaixonarem por elas loucamente. Fleur Delacour, mãe de Dominique, é uma veela. Então na minha fanfic as duas filhas dela são veelas também.

8. Tem dois grandes símbolos da comunidade assexual. A cor roxa (púrpura) da bandeira e bolo. Pela frase que viralizou "Sexo? Não, obrigado, prefiro bolo".

9. Obrigada por lerem ♥

10. Nos vemos por aí, beijo, beijo!



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