Amor Púrpura escrita por Maga Clari


Capítulo 3
Noite: Segredos, bolos e ovelhas coloridas




Quando Lysander entendeu o que estava acontecendo, a vontade era se esconder num buraco e fugir para o País das Maravilhas. Lorcan observava da porta, com um sorriso travesso desenhado em seu rosto de moleque.

— O jantar já está na mesa, mamãe mandou avisar.

— Diga que desço em um minuto — Lysander respondeu, meio atordoado, pulando para fora da poltrona  — Ei! O que está esperando?

— Devo pedir para acrescentar um lugar na mesa? — o tom divertido de Lorcan não parecia ir embora nunca — Você ainda gosta de macarronada, Dominique?

— Adoro — ela respondeu, pondo a camisa de volta ao corpo e olhando-o em desafio — Talvez minha sogra linda tenha visto na bola de cristal a minha chegada.

— Pode ser. Vocês deram sorte que quem abriu a porta foi eu.

— Também acho! Agora nós dois estamos quites!

A expressão de confusão era compartilhada por ambos os gêmeos, então Dominique fez um gesto, como se estivesse dando uns amassos em suas próprias costas, causando o súbito rubor de Lorcan, que deixou o quarto a passos constrangidos e aborrecidos. Lysander achou graça.

— Você pegou ele no flagra também, foi?

— Quando eu escalei as janelas. Mas não deu pra saber quem era.

— Pois seu queixo vai cair — Lysander colocou as mãos nas costas de Dominique, tomando uma distância quase nula enquanto iam em direção às escadas — É a última pessoa que eu imaginaria.

— Você conhece bem o seu irmão, hã?

— Somos unha e carne. Praticamente gêmeos.

Dominique riu com a brincadeira. Os irmãos Scamander nasceram da mesma barriga e na mesma hora, com a ínfima diferença de dois minutos. Mas, fora isso, não havia qualquer outra semelhança.

Ao pôr os pés no último degrau, Lysander pensou que fosse desmaiar. Todos tinham olhos para a cena incomum que se desenrolava: uma garota de mãos dadas com o certinho da família.

— Mãe. Pai. — seu tom era sério — Dominique veio jantar conosco. Tudo bem?

— Por quanto tempo você escondeu uma garota no andar de cima? — Rolf apressou-se em questionar, curioso — Não lembro de ter visto a Senhorita Weasley chegar.

— Eu que abri! — Lorcan interviu, sorrindo em cumplicidade para o irmão — Dominique veio pelo jardim.

— Entendo…

— Você é sempre bem-vinda, docinho — Luna levantou-se para cumprimentá-la — Fique à vontade.

— Obrigada, Senhora Scamander — Dominique sorriu e escolheu um lugar vago na mesa de pedras — Posso me servir?

— É claro! — ela respondeu, voltando à mesa — Temos macarronada, salada e batatas. Você ainda gosta de macarronada, minha querida?

Dominique e os meninos compartilharam risadas pelo quase deja vu. Luna não pareceu perceber, pois estava concentrada demais em seu genro querido que havia acabado de retornar da cozinha:

— Oh! Aí está nosso chef!

— Às suas ordens, madame! — o menino fez uma reverência, pouco antes de pôr os olhos em sua prima francesa — DOMINIQUE!

— HUGO!

— PELAS BARBAS DE MERLIM! Nique, o que faz aqui?! Oh, cara! Olha só pra você!

— Olha só pra você. Gay, hã?

— E totalmente apaixonado — Hugo sorriu, ocupando um banquinho ao lado de Lorcan.

— Difícil resistir aos Scamander — Lorcan atalhou, arrancando algumas gargalhadas — Falando nisso, acho que seria uma boa hora para ouvirmos sobre esse esplêndido namoro, hein, Lys?

Lysander engasgou com o suco de abóbora, mas Dominique tomou a fala.

— Acho que a gente sempre se gostou, não é, amor?

— Totalmente! — Lysander desviou o olhar para as bochechas salientes de sua acompanhante, que não parecia saciar-se tão cedo com o jantar — Pena que só percebi isso quando você sumiu da minha vida.

— E sorte eu ter percebido isso quando você entrou na minha.

— Oh, meus bebês! — Luna exclamou, encantada — Tenho os melhores genros do mundo! Dominique e sua doçura desde menina… E Hugo e seus excelentes dotes culinários!

— Obrigada, Senhora Scamander. É uma pena que o Senhor Finnigan não tenha ficado para experimentar.

— O Senhor Finnigan precisou adiantar alguns processos no Ministério — Rolf explicou, um pouco disperso — Pode me passar as batatas, por favor? Obrigado. De qualquer maneira, vou aproveitar o momento para pedir licença e me ausentar também.

— Ah, não, papai! — Lorcan interviu — É a primeira vez que Lysander traz uma namorada.

— É, Senhor Scamander — Hugo acrescentou — Ainda tem a sobremesa.

— Sobremesa?! — um sorriso quase infantil desenhou-se em Dominique — Que tipo de sobremesa?

— Nique! — Lysander olhou-a, constrangido — Se você der corda, a gente só para de comer ano que vem!

— Está desfazendo de minha sobremesa, Scamander?

— Não, de forma alguma. Tudo para minha princesa.

Dominique sorriu até mesmo com os olhos, e, sem cerimônia, tascou-lhe um beijo estalado na boca.

Todos baixaram os talheres, o susto tomou o ambiente. Ninguém, até mesmo Lorcan, arrumou coragem para dizer qualquer coisa.

Subitamente, Dominique entendeu que beijo no meio de um jantar havia sido a pior das decisões tomadas em sua vida. Fora de cogitação. Nunca mais. Não demorou para que suas entranhas se revirassem; um nó surgisse na garganta. A qualquer momento, choraria, tinha certeza. Portanto, antes que fizesse uma cena, como uma criança imatura, Dominique preferiu deixar a mesa e tomar o caminho do jardim.

Lysander encontrou-a aos prantos do lado de fora, abraçando as pernas e com a cabeça enterrada entre os joelhos. Era um choro genuíno, forte, de quebrar o coração. Parecia despejar o oceano de uma vida inteira em tantas lágrimas.

— Me perdoe — ele disse, finalmente.

— Pelo quê?

— Por ter feito você vir hoje à noite.

— Você não fez nada, Lysander. Eu vim porque quis.

Dominique levantou o rosto para estudá-lo. Era como se voltasse a ter onze anos e estivessem aborrecidos após terem sido pegos em alguma travessura. Não fosse pela barba rala, Lysander poderia mentir a idade. Dizer que era um adolescente, que ainda cursava Hogwarts, junto com Hugo. Que estava de férias e retornaria no próximo outono. Mas não era verdade, sabia que não era. Lysander havia pedido que ela, Nique, sua melhor amiga de infância, fosse sua namorada. Porque não havia pensado em outra pessoa. Porque ele não tinha ninguém.

Em seu íntimo, Dominique sabia que não poderia julgá-lo, porque ela também não tinha ninguém. E, muito provavelmente, em seu lugar faria o mesmo. Por sorte, conseguira tirar proveito da invisibilidade para que o Senhor e Senhora Weasley parassem de importuná-la para arrumar um namorado. Ou talvez Victorie tenha roubado todo o foco, com tantas dores de cabeça por seus affairs. Além de Louis, é claro, o filho prodígio e super dotado, que correspondia a todas as expectativas. Dominique, ao contrário, era a ovelha roxa da família. E estava lidando bem com isso, até ler a correspondência com o nome de seu velho amigo.

— Escute, Nique — Lysander, com dificuldade, sentou na grama ao lado dela — Minha família estava tentando fingir normalidade na sua frente. Mas eu preciso te contar alguns segredos.

— Vai fundo — Nique incentivou e sorriu ao simples toque de Lysander em sua pele — Ei, o que está fazendo?

— Cafuné. Quer que eu pare?

— Por incrível que pareça, não. Continue, Lys. Quais são os segredos?

— Foi o meu primeiro beijo.

Dominique ergueu todo o corpo para encará-lo, em choque.

— E eu estava blefando sobre nosso namoro. Eu nunca disse nada sobre isso. Nenhuma palavra. Ou seja, foi a primeiríssima vez que a minha família me viu com alguém. Me desculpe, Nique, eu não queria que isso terminasse assim.

— Então você realmente me chamou para um encontro?

— Nique, talvez você não entenda, ninguém realmente entenda. Mas eu estou tentando entender o que está acontecendo comigo. Normalmente, eu sou o garoto que se sente satisfeito com um pedaço de bolo. Ouvindo uma boa música e lendo poesia. Eu nunca precisei de ninguém antes, Nique. Só que agora… — Lysander hesitou, esticando as pernas e olhando para os próprios pés — Agora, a ficha caiu. Tem algo de errado comigo. Eu nunca me apaixonei, eu nunca senti atração por ninguém. Isso não é normal. Todo mundo namora. Todo mundo casa. Todo mundo transa e beija, Dominique!

— Lys…

— Só pra deixar claro, eu não estou pronto para ouvir seu discurso de pena.

— Não, Lys, não é nada disso.

— Não?

— Olha, Lys, Existem vários tipos de amor.

— É mesmo?

— É.

O silêncio repentino estava quase claustrofóbico. Por isso, Dominique preferiu desviar o assunto, como de costume.

— O que você tanto mexe nos bolsos, hein, Lys?

— Ah! É! Eu já ia me esquecendo! — Lysander tirou um embrulho de papel-toalha dos bolsos da jaqueta e entregou a Dominique — Sua sobremesa.

— Bolo de caldeirão!

— Roubei da cozinha antes de vir pra cá.

— Obrigada — Dominique sorriu, dando uma mordida — Sabe, Lys… A gente pode até ser um pouco diferente. Só que na prática, no fundo… Somos diferentes iguais.

— Okay, agora eu fiquei perdido.

— Ah, Lys… — Dominique parou para limpar os dedos — Talvez você ainda não tenha percebido. Mas eu também prefiro bolo.





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