Amor Púrpura escrita por Maga Clari


Capítulo 2
Pôr do sol: Fama sem proveito


Notas iniciais do capítulo

Oi, gente!
Tive uns probleminhas de saúde e por isso não respondi ainda os reviews. Mas assim que eu melhorar, respondo. Só vim postar este capítulo porque já estava escrito e não queria desapontar vocês.
Beijos



― Tudo bem, me explica esta história direito. Você está dizendo que nunca teve uma namorada? Ou que nunca ficou com ninguém?

Já era quase pôr-do-sol quando Lysander levou Dominique numa lanchonete em formato de trailer nos arredores de Londres. Os waffles tinham acabado de chegar quando a pergunta de Dominique surgiu.

― Estou começando a me sentir pressionado, sabe?

― Oh. Meu. Merlim. Você quer perder a virgindade comigo. É isso, não é? ― Nique arregalou os olhos, achando a situação hilária. Lysander pareceu perder toda a cor de seu rosto ― Pelas barbas de Merlim! Você quer que seja comigo. Porque somos amigos. Cara, eu preciso de uma bebida.

Lysander observou Nique ir até o balcão e solicitar um copo de Uísque, entornando-o de uma vez, sem nem respirar. De longe, poderia perceber como seu companheiro estava nervoso. As pernas balançando debaixo da mesa, o colarinho da camisa-polo sendo afrouxado junto com a gravata. Quem em sã consciência usa polo com gravata além de Lysander?

― Olha, esse é o acordo ― disse ela, ao retornar ― Eu te ajudo a achar uma namorada e você me ajuda com outra questão. Combinado?

Lysander não gostou muito de ver a amiga agir daquela maneira. As mãos firmes ao redor dos pratos, o corpo por cima da mesa, o olhar feroz. Parecia mais amedrontadora do que se lembrava, antes de Beauxbatons.

― Boa sorte com isso, Nique, porque acho bem difícil que dê certo.

― É mesmo? Por quê?

― Não era você que dizia que beleza não é tudo? O que te faz achar que vim aqui transar com você?

Os olhos de Dominique vacilaram. Seu corpo voltou ao assento, relutante.

― Escute, Nique. Minha família anda me pressionando com essa história de casamento. Parece que na época deles, com a minha idade, já era para eu ter uma noiva. Então eu inventei essa história de que estávamos saindo.

― Você fez o quê, Scamander?!

― Disse que era um relacionamento à distância, mas agora que a mamãe soube do retorno das “meninas da Fleur”, como ela mesma chama, todos estão querendo que eu te leve para um jantar informal.

― Isso soou de um machismo de tantas maneiras, cara. Tantas!

― Me perdoe, Nique.

― O que você quer agora? Vai me pedir em casamento?

― Nique, eu tenho um problema ainda pior do que esse.

― Prossiga. Estou adorando esse roteiro de tragédia grega.

Dominique havia aproveitado o momento para devorar o que restara de seus waffles, enquanto Lysander procurava a calma que não vinha. Seria a primeira vez que diria aquilo em voz alta, a primeira vez que confessaria sua condição insegura, pois estava mais confuso que uma criança no meio de adultos.

O olhar de Dominique o tranquilizava de alguma maneira, como se não se importasse com o que quer que estivesse por vir. No entanto, o nervosismo era genuíno. Subitamente, a lembrança de sua pré-adolescência surgiu.

— Quem você chamará para a formatura? — ouvia alguns dos Weasley lhe perguntarem durante as aulas.

— E eu deveria chamar alguém? — ele respondia, como sempre.

— Qualquer pessoa aceitaria, Lys. Não falta opção — dessa vez, quem disse foi Lily Luna, que costumava preencher o vazio após a transferência de Dominique para a França.

A verdade é que, na época, Lysander não tinha certeza se queria chamar alguém para ir com ele à formatura. Havia centenas de garotas em sua escola e nenhuma, nenhuma delas, parecia lhe trazer qualquer sorte de sentimento “a mais”.

Lysander experimentou a popularidade que havia acompanhado Dominique desde que a conhecera, mesmo após a sua ida. Garotas e garotos ficavam aos seus pés. Bilhetinhos eram postos em suas mochilas, flores e sapos de chocolate, tudo oferecido como se fossem deuses, filhos de Afrodite.

Ainda assim, Lysander preferiu ir ao baile de formatura sozinho. Aproveitou a festa, dançou, brincou, tudo sem precisar de companhia. No entanto, quando seu irmão apareceu um belo dia com o primeiro namorado, um clique surgiu em seu cérebro. Havia outras possibilidades. Se Lorcan gostava de garotos, talvez o mesmo estivesse acontecendo com ele.

— Eu acho que gosto de garotos, Dominique — ele confessou, como se guardasse o segredo a sete chaves — Mas não sei se tenho certeza.

— Como assim não tem certeza?!

— Eu não sei, Dominique, eu não sei!

Os olhos de Lysander foram para a janela do trailer. Havia certa confusão em seus pensamentos, poderia ser capaz de jurar estar sendo assombrado por zonzóbulos. Mas não é como se tivesse tempo sobrando para afastá-los.

— Lys, olha pra mim — Dominique deslizou as mãos por cima das dele, carinhosamente — Lys...

— Agora não, Nique.

— Lys, por favor.

— Eu nem devia ter vindo, pra começar — ele levantou-se, de repente, deixando algumas notas de dinheiro trouxa na mesa — Quer saber? Esquece. Deixa pra lá. Eu… Eu vou… Bom… Adeus.

Antes que Dominique pudesse impedi-lo, Lysander já havia se esgueirado para o lado de fora da lanchonete e, num piscar de olhos, já não estava mais lá.

**

Dominique esperou até que o dia escurecesse para ir atrás de Lysander.

O caminho atravessando a horta de abóboras e ameixas dirigíveis trouxe a vaga lembrança de seu tempo de menina quando ia brincar de Quadribol com os Scamander. O aroma era adocicado, saudoso; por alguns instantes ela parou para apreciá-lo. Ir à Ottery St. Catchpole sempre havia sido um bom passeio.

Pensando em tudo isso, Dominique tomou a direção do quarto mais alto da casa e escalou a árvore mais próxima, cuidando-se para passar-se despercebida. No entanto, sabia que não seria tão difícil, considerando a distração da família Lovegood-Scamander. De fato, no térreo estava Rolf conversando animadamente com um amigo do trabalho, enquanto Luna atirava balões de tinta numa tela acoplada à parede de pedras. No andar superior, Lorcan dava uns amassos com o namorado às escondidas, no banheiro. Lysander era o único solitário; escorado à janela, aproveitava a brisa de verão, mas sem muita energia. A figura de Dominique assustou-o o bastante para tropeçar em seus próprios pés.

— Ei, Lys! — imitou-o Dominique, arrancando um meio-sorriso do amigo pelo velho cumprimento — Como tu andas?

— Ando é dolorido, ante tamanha pancada que vossa aparição causou-me.

— Ridículo! — bradou Dominique, impulsionando-se para dentro da casa — Ei, me ajuda aqui!

Lysander levantou-se e puxou a amiga para conduzi-la logo em seguida à poltrona de visitas. Dominique jogou-se lá, tão à vontade, tão naturalmente, que parecia frequentar aquele ambiente todos os dias, como se nenhum hiatus houvesse existido.

— É o seguinte, Lys — ela começou, sem rodeios — Refleti por horas e horas e tomei uma decisão.

— Sobre..?

— Hello-ô?! Não percebeu que estou toda arrumada? — Dominique apontou para si mesma, fazendo um gesto amplo com as mãos — Eu vim jantar com você e sua família, bocó!

A afirmação fez Lysander sorrir. Dominique puxou-o para que ele sentasse no braço da poltrona, ao seu lado.

— Mas antes, quero saber essa história direito. Por que mentiu para os seus pais, por que me envolveu… O que você pretende com tudo isso, Lys?

— Olha só — Lysander respirou bem fundo, apertando os olhos — A questão nem é se eu sou gay ou se eu hétero, sabe? Não importa. Eu só quero trazer alguém aqui e apresentar à minha família, pra essa pressão acabar. Entende? Nós somos amigos, meus pais gostam muito de você. Facilita tudo.

— Lys… Saber a sua sexualidade é importante sim. Mais importante ainda do que trazer qualquer pessoa aqui…

— Você não é qualquer pessoa.

Dominique sentiu as bochechas esquentarem, então brincou com as mechas de cabelo para disfarçar.

— Tudo bem, Lys, mas por quanto tempo pretende fingir que é meu namorado? E se você não conseguir fingir que gosta de meninas? Que gosta de mim? Caramba, e se eu me apaixonar por você?

Ao ouvir tudo aquilo, Lysander começou a rir. Mas rir de nervoso mesmo, de terror, de pavor.

— E por que trasgos você se apaixonaria por mim?

— Ah, Lysander, vai saber.

— Você não vai se apaixonar por mim.

— De onde vem tanta certeza?

— Estamos falando de uma garota independente e superior demais para esse tipo de coisa.

— Que tipo de coisa?

— Ah, Nique. Namorar. A não ser que…

— Não mude o foco, Lysander. Estamos falando de você.

Dominique hesitou e deixou que suas mãos corressem pela sua bolsa de couro para então tirar de lá um aparelhinho trouxa.

— O que é isso?

— Pensei que fosse mais inteligente, Lys. É um smartphone. Presta atenção, vamos fazer um teste, tudo bem?

— Eu tenho escolha?

— Não — Nique sorriu, e então, aconchegou-se mais perto dele, mostrando imagens em seu smartphone — Você vai me dizer o primeiro pensamento que te vem com cada fotografia que eu for passando, okay?

— Okay.

— Às suas marchas… Preparar… Já!

— Hã… Não entendi essa foto.

— Isso é… Isso é… Eu não vou explicar. Próxima!

— Parece um troll, só que humano.

— Lysander!

— Diga se não é? Achei horrível.

—  Okay, e essa aqui?

— Constrangedor — nesse momento, os olhos de Lysander ficaram inquietos, sem saber que direção tomar — Próxima, Nique.

— Preparado para a última do primeiro round?

— Mostra logo de uma vez, Dominique. Ah! Que nojo! Muda essa porra.

Dominique então apagou a tela do celular para olhá-lo bem seriamente.

— Nenhuma dessas imagens mexeu positivamente com você? Nem adianta mentir, Lys, isso é entre nós.

— Eu estou falando sério!

— Tudo bem. A próxima etapa do teste é um pouco mais problemática. E eu preciso que você tome isso com seriedade.

— E por que eu não levari… Ah… Meu… Merlim!

O coração de Lysander parecia saltar para fora, tamanho era o susto acometido. Seus olhos relutavam em acreditar que Dominique havia tirado a camisa e estava sem sutiã.

— E então? — ela quis saber, encolhendo os ombros.

— E então o quê?

— Nada?

Lysander precisou piscar os olhos muitas vezes para certificar-se de que não era alucinação.

— Você já viu peitos antes, certo?

— Na verdade…

— Pode tocá-los, se quiser. Qual é, Lys, não tem problema.

— Não é apropriado.

— Lysander...

— É porque.. Olha só… — então, Lysander aproximou-se para observar, segurando o corpo dela no encosto da poltrona — Eu não… Isso é muito esquisito, Nique.

Quando Lysander estava para pegar a camisa de Dominique e devolvê-la, ele viu-se pego no flagra, mesmo se nada estivesse de fato acontecendo.

Seu irmão-gêmeo, Lorcan, havia aberto a porta para chamá-lo para o jantar.

—  Ora, ora. Parece que alguém já fez o desjejum.





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