Stay With Me escrita por Valdie Black


Capítulo 2
Homem da lua


Notas iniciais do capítulo

N/A: Obrigada pelo apoio. Esse capítulo vai revelar um pouco mais sobre o passado do John.




John saiu do lado de Clara apenas para ir até sua casa e apanhar alguns cobertores e travesseiros.

— Hospitais são ambientes tão frios. - ele lhe disse enquanto a cobria.

— Eu não preciso disso. - a outra reclamou.

— Mas acho que você quer.

Clara aninhou-se na cama e de fato já aparentava estar mais confortável.

— Obrigada.

— Não tem de quê.

— Por quê está fazendo isso?

John começava a se acostumar com as perguntas dela.

— Gosto de você. - confessou.

— Por quê?

Ele encolheu os ombros.

— É uma moça simpática. Merece ser feliz.

Clara deu uma risada irônica.

— Ninguém merece nada, John. Somos todos podres, nós, os humanos.

— Bem, eu não acho que você seja podre.

— Você não me conhece!

John afastou-se um pouco da cama, sentindo a raiva dela.

— Ainda há tempo de conhecer. - ele disse.

Clara ficou séria, era difícil saber se o detestava ou não. John tinha a impressão de que ela mesma não sabia.

— Tanto faz. - disse por fim, e deitou-se na cama de costas para ele. John entendeu que a conversa tinha se encerrado.

Saiu do quarto sentindo-se cansado e encontrou Missy no corredor.

— Por falar no diabo… - ela começou. - … estava mesmo procurando por você, “Moon Man”.

John ergueu as sobrancelhas.

— “Moon Man”? - deu um leve sorriso. - Não sou chamado assim há séculos.

— Não somos tão velhos assim, Moon Man. Bem, você pode até ser, mas eu estou na flor da idade.

John não quis debater o assunto. “Moon Man” era seu apelido na época de faculdade, as pessoas diziam que ele vivia no mundo da lua. Lembrava-se de que não tinha muitos amigos na época mas por qualquer motivo Missy passava bastante tempo com ele, talvez porque ambos eram os únicos escoceses da turma.

— Você disse que estava me procurando?

— Sim, já tenho os resultados dos exames da Clara.

Ele rapidamente apanhou os papéis em suas mãos e suspirou aliviado ao descobrir que estava tudo bem.

— Estive pensando em dar alta a ela.

— Agora? Ela está dormindo, não pode esperar um pouco?

— Isso aqui não é um hotel, Moon Man. Além disso aquela sua gatinha é muito arisca. Deu muitas patadas na equipe e nós vamos ficar felizes quando ela for embora.

— Não fale assim. - ele disse, irritado. - É sua paciente.

— Eu não sou obrigada a gostar de nenhum paciente.

— Bem, eu a proíbo de não gostar da Clara.

John sabia que falava asneiras, mas não conseguia evitar. O cansaço já tinha tomado conta dele.

— Tudo bem. - Missy concordou, para sua surpresa. - E você? Como está? Parece que não dorme bem desde a última vez que nos vimos.

— Hum… essa afirmação não está muito longe da verdade.

— Mas pelo menos está sóbrio dessa vez. Isso é bom.

— Sim, muito bom… - John não tinha certeza daquilo. - … escute, Missy, eu sinto muito…

— Ah, nem comece! Não suporto quando me pedem desculpas.

— Então você não está com raiva de mim?

— Claro que estou! Você desapareceu. Eu te ligava e você nunca atendia. Fui até a sua casa e você fingiu que tinha saído.

— Eu precisava de um tempo para pensar.

— E a que conclusão chegou?

John não soube responder. Não tinha chegado a conclusão alguma, sua vida agora era um grande nada. Acordava ao meio-dia, tentava sair da cama, comia qualquer coisa, assistia TV, e depois voltava para a cama de novo. Ia para as reuniões dos AA quando se lembrava delas.

— É como se no começo disso eu estivesse rápido demais e agora estou quase parando. - disse finalmente.

Missy assentiu, compreendendo.

— Você precisa de um hobby, cara.

— Não, eu preciso de um propósito.

— É daí que veio sua fixação nessa garota?

— Clara! - corrigiu, impaciente. - Não. Estou só ajudando.

Missy não pareceu acreditar nele, mas não contestou.

— Já pensou em virar monge? Eu conheci alguns seres “iluminados” que dizem terem encontrado o sentido da vida dessa forma.

— Eu e as religiões não nos damos bem.

A verdade é que John sentia-se um fantasma de carne e osso. Parecia que sua vida tinha se acabado junto com a delas. Deveria estar agora se preparando para mandar a filha para a faculdade, e no entanto…

— Bem, a vida é sempre imprevisível, John. Você nunca sabe quando vai encontrar algo especial.

Missy deu-lhe um abraço. Aquele gesto foi tão inesperado que John não conseguiu se mexer para retribuir.

— Estava só brincando, aliás, se você virar um monge eu bato na sua cabeça com o cabo do meu guarda-chuva. - disse, num tom mais característico dela.

***

Clara acabou não concordando em ficar na casa dele, então John lhe ofereceu uma carona.

— Eu sei ir para casa sozinha. - respondeu, seca.

— Sim, é claro. É só que…

— Não vai acontecer de novo.

— Sei que não.

— Não precisava ter me comprado roupas novas também. - reclamou. - Ficaram muito grandes em mim. Você pensa que eu sou gorda, por acaso?

— Não! É só que… bem, você é muito baixinha…

Clara o encarou. John sentia um frio na espinha quando ela fazia isso.

— Olhe, eu me sinto mal. - ele disse. - Isso é tudo minha culpa.

— Como diabos isso é culpa sua?

— Se eu não a tivesse salvo não precisaria ter que usar essas roupas largas.

Viu um brilho nos olhos dela e pensou que ia sorrir com aquela piada de humor negro mas permaneceu séria.

— Certo, você pode me dar uma carona. Depois disso eu nunca mais quero vê-lo na minha frente.

John a acompanhou até a saída do hospital.

— Por aqui, Clara.

Segurou sua mão e para surpresa de John ela não o recusou. Os dois caminharam até o estacionamento.

— Qual é o seu carro?

Ele deu um sorriso enviesado e não respondeu a pergunta. Quando chegaram perto das motocicletas Clara entendeu.

— Você está passando por uma crise de meia-idade?

John achou graça.

— Não preciso mais de um carro, só isso.

Clara o olhou desconfiada quando ele subiu na moto.

— Minha avó disse que eu não devia confiar em homens com motos.

— Trouxe um capacete para você.

— É cor-de-rosa e tem desenhos de flores.

— E daí?

— O seu é mais legal.

John então lhe deu o seu capacete e Clara pareceu ficar satisfeita. Ela sentou-se atrás dele e passou os braços em volta do seu corpo.

— Aposto que você está se sentindo como o “macho alfa” agora.

— Usando um capacete cor-de-rosa? Com certeza.

Ele não se virou com medo de que ela pudesse vê-lo corando. Acelerou sua moto e sentiu Clara segurar-se nele com mais força.

— Você confia em mim, Clara?

Ela demorou a responder.

— Sim.

***

Clara morava sozinha em um apartamento pequeno. John reparou que era bem arrumado, coisa que estranhou pois esperava encontrar uma casa quase tão caótica quanto a sua.

— Eu não vou lhe oferecer uma bebida, se é isso que está pensando. - ela disse, retornando aos típicos comentários ácidos.

— De forma alguma. - respondeu, muto embora gostaria de passar mais tempo ali. - Estava apenas admirando o ambiente. Vejo que você é uma leitora ávida.

Apontou para sua estante cheia de livros.

— Sou professora de inglês.

— Ah!

— Não sou tão grossa com meus alunos quanto sou com você, antes que me pergunte.

— Não, eu…

— São crianças então ainda não foram corrompidas. - disse, misteriosa.

— Você também é fã de “Crepúsculo” ou ele faz parte do currículo escolar agora? - John perguntou, reparando nos livros da série adolescente de vampiros na sua estante.

— “Também”? Você é fã?

— Não, minha filha costumava ler esses livros. Acho que ela ficou um pouco obcecada por eles, parece que entrou num fã-clube na internet. Eu me preocupei mas minha esposa disse que era normal e me lembrou da época em que eu era muito fã de “Jornada nas Estrelas”.

— Você é casado?

John pensou ter ouvido um pouco de decepção na voz dela mas talvez estivesse imaginando coisas.

— Não… hum… quer dizer, eu era mas agora não sou mais...

— Pensei que você namorava aquela Missy.

— Como é? - John riu, achando a ideia maluca.

Clara deu de ombros.

— Vi vocês conversando e me pareceu que ela gostava de você.

— Claro que gosta. Somos amigos.

— Só estou dizendo… ela quer algo mais.

— A Missy? Não, você está enganada. Ela pensa que sou um imbecil.

— Certo, tanto faz. Pode ir embora agora. Já estou em casa.

Ela deu-lhe as costas e saiu da sala. John ficou em choque pela despedida tão brusca. Ele olhou para baixo e viu um bloco de notas e uma caneta na mesa de centro. Rapidamente anotou seu telefone nele, torcendo para que Clara visse aquilo e quisesse falar com ele de novo. Tinha medo do que poderia acontecer ao deixá-la só, mas por enquanto John acreditou que tinha feito o suficiente para salvá-la e saiu de sua casa como combinado.



Notas finais do capítulo

N/A: "Moon Man" é o título de um filme que o Peter Capaldi queria fazer mas que nunca saiu do papel, infelizmente. 

Essa é a vida do John, e como será a vida da Clara? 

=***



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Stay With Me" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.