Sorria escrita por AnneFanfic


Capítulo 3
Capítulo 3




Este capítulo também está disponível no +Fiction: plusfiction.com/book/771667/chapter/3

Berlim – Uma noite estrelada qualquer de 2012.

 

Lá estava ela, sentada na borda da piscina com os pés na água, olhando para as ondas que se formavam conforme os balançava. Parecia concentrada no que fazia como se daquilo pudesse tirar alguma preciosa lição de vida ou mais provavelmente perdida em seus pensamentos, sem dar-se conta de suas ações.

A mesma garota na qual Dylan esbarrara no saguão do hotel, assim que ali chegou; a mesma que, com seus cabelos ruivos e belíssimos olhos verdes, logo chamou sua atenção; a mesma que, assim como sua irmã mais nova e fã da banda, filhas do dono do hotel, tinha sido convidada para a pequena festinha de confraternização da banda.

Lá estava ela, isolada, enquanto todas as outras pessoas aproveitavam a social; enquanto sua irmã parecia divertir-se como nunca antes na companhia dos rapazes da banda; enquanto Dylan permanecia escorado no batente da porta do salão, onde poucos minutos atrás haviam jantado, observando-a atentamente ao passo que bebericava a taça de champanhe que tinha em mãos.

Seus olhos permaneciam fixos sobre ela, atento a todos os seus movimentos desde que ali entrara, e mesmo quando chamado para conversar hora ou outra sondava o lugar à sua procura. Tudo isso porque horas antes, desculpando-se por esbarrar-se nela, olhando dentro dos seus olhos enquanto ela o ouvia, sentiu uma estranha sensação, diferente de todas as outras que já sentiu em sua vida até aquele momento.

Era ela. Ela era a garota na qual estivera esperando aquele tempo todo, sua cara-metade. Tinha certeza disso. E sentia dentro de si uma urgente necessidade de conhecê-la.

Mas algo estava errado. Havia algo nela que o incomodava terrivelmente e ele sabia o que era. Não havia brilho em seu olhar, o que esperava ver cada vez que seus olhares se encontravam. Ao invés disso, tudo o que via era um semblante abatido e um olhar triste e sem vida, e isso o fazia se questionar e aumentava-lhe a vontade de querer saber mais sobre ela e o porquê de estar daquele jeito.

 

Enquanto permanecia escorado na porta, apenas olhando-a de longe, viu um dos garçons dirigir-se até ela com uma bandeja com taças de champanhe. Como imaginou, ela recusou a oferta, mas o garçom não se afastou dela sem antes lhe entregar um guardanapo dobrado ao meio.

Dylan teve que se conter para não gargalhar com a cara que ela fez ao ver o garçom com um guardanapo estendido em sua direção, mas após explicar que alguém tinha pedido para ele entregar-lhe, ela o aceitou.

Ela olhou para seu lado esquerdo, onde sua irmã estava reunida com os garotos da banda em volta de uma mesa, mas ela estava entretida demais com Austin sentado ao seu lado para lembrar-se de sua presença ali por perto, quanto mais para enviar bilhetinhos. Por fim voltou-se para o guardanapo, abriu-o e leu o que estava escrito:

Sorria.

Dylan trancou a respiração por um momento enquanto ela lia o bilhete e assim que ela ergueu os olhos e encontrou seu olhar com o dele, ele sorriu e deu um leve aceno com a mão, identificando-se como o responsável por aquilo, ao passo que em seu peito seu coração batia acelerado. Nem quando traçou o plano em sua mente conseguiu imaginar qual seria a reação dela quanto àquilo, por isso sentiu-se aliviado ao receber dela um sorriso, embora meio tímido.

Decidiu que aquela seria a oportunidade que teria de se aproximar e não podia perdê-la, por isso sorveu todo o líquido restante da taça, colocou-a sobre a mesa mais próxima e, mesmo que ainda estivesse um pouco nervoso, saiu do salão e foi na direção dela.

Oi, Annabelle. Não está gostando da nossa “festinha”?- foi a primeira coisa que saiu de sua boca por não saber o que exatamente perguntar.

Em seguida sentou-se ao lado da garota com as pernas cruzadas. E sentindo-se um intrometido em sentar-se ao lado dela sem mesmo saber se ela gostaria de conversar, perguntou:

Estou te incomodando? Cheguei e sentei sem mais nem menos...

Não, não.- respondeu ela rapidamente, erguendo o olhar para ele.

E para ele aquilo foi um bom sinal.

“Não, não” o que? “Não” estou te incomodando ou “não” está gostando da festa?- sorriu.

E vê-lo sorrir daquela forma tão meiga e olhá-la com tanto interesse fez Annabelle desviar o olhar para água mais uma vez.

Ah... Bem.- calou-se por um momento. Na verdade eu nem queria estar aqui.

Então, sem querer ser enxerido, mas já sendo, por que você veio?- inquiriu, ao que ela respondeu com um longo suspiro cansado, explicando sua situação logo em seguida.

E como era bom ouvir sua voz!

Ao contrário do que imaginava, ela não parecia ser tão tímida. Falava com facilidade e graças a isso a conversa entre eles se seguiu por longos minutos, passando por vários assuntos. Sentia-se tão bem conversando com ela, conhecendo-a e deixando-se conhecer por ela...

 Por mais que temesse se aproximar intimamente de alguém praticamente desconhecido, sentia-se seguro junto dela. Sentia que podia confiar nela. Que ela era realmente “ela”. E sentia que tal sentimento era recíproco.

Conversaram muito, sobre muitas coisas, até que Dylan, talvez cometendo um erro, tocou no assunto de seu interesse, que por sinal era um assunto que ela não queria falar.

Eu não quero falar sobre isso.- disse ela, voltando sua atenção à água. E depois de refletir por rápidos segundos, acrescentou: Você não entenderia.

Tudo bem, mas... Você não pode deixar que, o que quer que seja que esteja te deixando assim, te sufoque dessa forma e faça você perder a alegria de viver.

Ela voltou seu olhar para ele, de forma tão apática que quase fez Dylan explodir de raiva, não conseguindo controlar-se em face de todo aquele desdém. Talvez estivesse se alterando de mais, ainda mais não conhecendo a garota direito, mas vê-la daquele jeito, de alguma forma o incomodava. Não sabia explicar.

Olha só!- exclamou, olhando dentro dos olhos dela. Seus olhos não têm brilho algum. Não tem vida!

Que poético.- ela o encarou por alguns segundos, seu semblante se fechando em hostilidade cada vez mais, até que falou, em um tom tão áspero que fez Dylan se retrair por um momento:

Vai querer me dar lição de moral? Quem é você, pra querer controlar o brilho que há ou não em meus olhos?- quis se levantar dali e ir embora, mas não teve forças para isso.

Era como se algo a segurasse onde estava, impedindo-a de se mover, por mais que quisesse. Não tendo outra escolha a não ser ficar ali, soltou um longo e pesado suspiro e tratou de se distrair com a água da piscina na tentativa de desviar seus pensamentos e dissipar a raiva que subitamente lhe dominou.

Ficaram algum tempo em silêncio, um silêncio constrangedor demais para Dylan que, ao procurar de todos os jeitos acabar com aquilo, por fim falou:

Não estou querendo te dar lição de moral. Eu só...- suspirou, enquanto olhava para as próprias mãos.

Está tudo bem.- num sussurro quase inaudível, ela se pronunciou.

Ele tornou a olhar para ela, que se distraía com a água, e percebeu que a melancolia pouco a pouco ganhava espaço em suas feições novamente.

Não, não está tudo bem.- declarou, atraindo a atenção dela. E te ver assim me... Machuca.

Seu olhar, pensou ela, parecia ir ao mais profundo da sua alma, como se pudesse ler todos os seus pensamentos e sentir toda a mágoa que tomava conta de seu ser. Era impossível desviar o olhar, e isso fazia com que de seu interior brotasse a vontade de se lançar aos seus braços e chorar, desafogar tudo o que estava trancado dentro de si mesma.

Obrigada por se importar.- disse ela com a voz embargada, não podendo esconder o rubor de seu rosto ao ouvi-lo dizer aquilo.

Ele sorriu em resposta e vendo que uma lágrima escorria pelo canto de seu rosto enxugou-a com o polegar.

Sorria.- repetiu, com tanta ternura que foi quase impossível para ela conter as lágrimas.

Vou tentar.

Promete?- perguntou, aproximando-se um pouco mais dela.

Ela sorriu confirmando, sentindo seu rosto esquentar de tal forma com a aproximação e com o olhar dele sobre si que a fez rapidamente desviar o olhar para qualquer lugar, e finalmente para o céu. Mas ainda sentindo-se um tanto incomodada com ele, que ainda fitava-a, observando-a, olhou de relance para ele com um sorriso tímido e inclinou-se para trás, retirando os pés de dentro d’água e deitando-se no chão.

Dylan observou o movimento e logo a imitou, deitando-se ao lado dela, sendo recebido com uma grande surpresa ao olhar para o céu.

Uau!- exclamou ele, deparando-se com as centenas de estrelas, cintilando no céu noturno.

E tal reação da parte de Dylan fez Anna rir, e ouvi-la rir daquela forma, com tanto gosto, fez com que ele imediatamente virasse o rosto para ela.

Haviam acabado de se conhecer e quase haviam começado a discutir. Mas de uma forma tão natural conseguiu se aproximar dela, como se fosse velhos amigos, e tão naturalmente sentia-se tão bem ao lado dela, que parecia conhecê-la há muito tempo. E a sensação que sentia estando ao seu lado fazia-o querer tê-la sempre por perto.

Olhando atentamente para ela, enquanto ela mantinha o olhar fixo no céu, observou cada detalhe do seu rosto delicado, seus olhos esverdeados refletindo a luz, e seus cabelos ruivos espalhados pelo chão, inspirando profundamente e enchendo seus pulmões com o perfume suave dela que podia sentir estando ali, tão perto.

Parece até que você nunca viu um céu todo estrelado.- riu novamente. É lindo, né?- virou o rosto e encontrou o olhar dele fitando-a com carinho.

Não mais que o seu sorriso.- respondeu de pronto, fazendo-a sorrir e corar.

 

* * *

 

O frio da noite que normalmente o faria se fechar dentro do casaco, agora que corria parecia cortar seu rosto e fazia seu corpo enrijecer em contato com o vento, dificultando ainda mais os movimentos. Mas ele não se importava. Estava mais preocupado em chegar ao parque a tempo de encontrá-la ali antes que ela fosse embora do que com o frio que sentia, mesmo que o resultado dessa exposição viesse a aparecer mais tarde.

Abismado com a sua demora em se recordar dela, ria de sua própria ignorância a cada passo que dava, ainda mais quando foi se dando conta de que tudo o que antes parecia confuso agora era óbvio.

—Como eu não me lembrei dela antes?- recriminou-se, olhando para os lados antes de atravessar mais uma rua.

Todos aqueles papeis com aquela mesma irritante inscrição nada mais era do que o “troco” que ela estava dando a ele pelo que ele tinha feito com ela sete anos antes, querendo vê-lo sorrir assim como era também o seu desejo para com ela. E ansioso para encontrá-la o mais rápido possível, não perdeu tempo e correu o máximo que pode, redobrando o cuidado para não escorregar na neve.

Após alguns minutos virou a última esquina e, faltando menos de uma quadra para chegar ao centro do parque, a avistou. Parou no mesmo instante, aliviado por ter chegado a tempo, e esperou até recuperar o fôlego. Não desviou seus olhos dela nem por um segundo enquanto a observava sentada no banco, olhando para o lado oposto ao que ele estava, balançando as pernas numa tentativa de espantar o frio.

Caminhou na direção dela e, sentindo seu coração bater desenfreadamente, não pode conter o sorriso estampado em seu rosto de aumentar cada vez mais a cada passo que dava. Depois de anos sem se verem, tendo uma única lembrança dela como uma garota melancólica e triste, lembrança tal que demorou, e muito, para vir à tona em sua mente, sentiu uma alegria brotando dentro de si como há anos não sentia, surpreso ao vê-la sorrir assim que se virou na sua direção e o avistou.

Era evidente que alguma coisa havia acontecido, pois percebeu que ela estava diferente, e não só porque agora não era mais uma garota, mas sim uma bela mulher. Podia ver a felicidade jorrando de dentro dela ao ver o brilho em seu olhar. O brilho e a vida que naquela noite esperava ver dentro de seus olhos, agora podia ver ali, à sua frente, mesmo que com sete anos de atraso. E isso o fazia se sentir extremamente bem.

—Oi, Dylan.- disse ela levantando-se e dando um saltinho de entusiasmo, entrelaçando as mãos à sua frente, assim que ele se aproximou. —Quanto tempo. 

Como se não fosse o suficiente ele abriu ainda mais o sorriso, contendo-se para não lançar seus braços em volta dela e abraçá-la. Mas em seguida sua expressão alegre se transformou completamente, como se estivesse sentindo alguma dor profunda.

—Não sinto minhas pernas...- disse sentando-se no banco que outrora ela estivera sentada, esfregando as mãos nas cochas e nas panturrilhas doloridas, sentindo os pés latejando dentro do sapato enquanto ela ria às suas custas.

O mesmo riso que ouvira naquela noite, deitados no chão gelado olhando para as estrelas. E mesmo em meio às dores e cãibras nas pernas, sentiu-se feliz.


Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no Nyah e em seu sucessor, o +Fiction, durante 1 ano!

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!




Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Sorria" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.