Poção do amor escrita por Nyuu D


Capítulo 1
único




— Ele vai se apaixonar instantaneamente, meu lindo. Não tem erro. Eu prometo.

Foi o que Elizabeth disse quando Sanji teve coragem de pedir ajuda. Era difícil pedir ajuda sobre isso, é verdade, mas se alguém podia saber o que era amar um homem e o quão complexo poderia ser, esse alguém era uma okama de Kamabakka Kingdom. E depois de tanto tempo hesitando, finalmente Sanji teve coragem de pedir um conselho para aquela pessoa.

Claro que o pedido foi recheado de brincadeiras de mau gosto sobre como Elizabeth sempre soube que Sanji gostava de homens também.

— Eu gosto de homens também. — Insistiu Sanji, usando forte inflexão na palavra.

Elizabeth apenas dava risadinhas enquanto guiava o jovem rapaz por sua casa. Aquela casa tão rosa, cheia de flores e, ainda que não quisesse admitir, bela. Entrou numa salinha que fez Sanji se sentir acuado, como se voltasse para o começo de sua visita em Kamabakka. Mas Elizabeth só queria lhe mostrar algo muito precioso.

— Essa é a poção do amor de Kamabakka, Sanji-kun. Ela é muito poderosa, e deve ser usada apenas se você tiver certeza absoluta do que está fazendo. Há várias coisas sobre o que se pensar ao dar uma poção do amor para alguém, não é? Essa pessoa te amará para sempre.

Sanji pegou o minúsculo frasco em suas mãos. Era de vidro púrpura e sua tampinha de cortiça tinha um pequeno coração desenhado no topo. Ao colocá-la em outra posição, percebeu que o conteúdo era um pouco viscoso. Olhou para Elizabeth e suspirou.

— Não sei se devo fazer isso. Parece uma grande responsabilidade.

— É sim, Sanji-kun. Na verdade, nós usamos a poção apenas uma vez em toda a história do Império. Deu muito certo, isso posso te garantir.

 Elizabeth ajeitava seus cabelos louros e observava Sanji com carinho.

— E se não funcionar?

— Oh, mas vai funcionar, com certeza.

Sanji lembrava bem das palavras de Elizabeth. Com certeza iria funcionar. Devia haver uma grande certeza, o que Sanji havia cozinhado, sem trocadilhos, em sua mente e coração por muitos anos. Pelos anos que treinou em Kamabakka e todo o tempo em que esteve no bando de Luffy, desde que se conheceram. E agora, que voltaram para o navio e zarparam em busca de novas aventuras após se encontrar, dois anos depois da separação, Sanji sabia que aquela certeza em seu coração era fruto de todo esse tempo. De uma grande saudade.

Estava pensativo ao longo do jantar, o que despertou a atenção de alguns. Robin tentou puxar conversa sobre o que poderia estar deixando Sanji tão aéreo, mas ele não permitiu que isso se alongasse; cuidou para que Robin se ocupasse com um pudim de ameixa delicioso. Nami e Chopper aproveitaram a sobremesa, e os outros foram para fora da cozinha.

Deveria dar a poção junto de alguma bebida, para o conteúdo se dissolver. Tinha que beber um gole também, para ajustar a conexão da magia.

Era loucura. Nem devia funcionar, que coisa mais idiota. Mas estava desesperado.

Na manhã seguinte, Zoro foi o primeiro a acordar, o que era raro. Sanji já preparava o desjejum.

— Bom dia, cozinheiro. O que você está fazendo aí?

— Para você, só tem sopa de pedra.

— Ótimo. — Zoro respondeu, sem dar corda às provocações. — Só não esquece de colocar o sal.

Sanji sentiu que aquilo era um sinal. Olhou para o suco de laranja e pôs a mão no bolso, sentindo o pequeno frasco nos dedos. Pegou-o e rapidamente tirou a tampa. O cheiro doce exalou de imediato, deixando Sanji nervoso, pois Zoro poderia sentir. Despejou o conteúdo no copo de suco e, sem pensar muito, bebericou um gole. Não parecia ter afetado o sabor das laranjas, que já eram docinhas naturalmente.

Foi até a mesa e pôs o prato de comida com o suco na frente de Zoro.

— Divirta-se.

Sanji voltou para o balcão e lavou algumas panelas. Zoro comeu tudo, emitindo um ruído satisfeito após tomar o último gole de suco. Em silêncio, como de costume, Zoro deixou o prato na pia e pôs-se a sair da cozinha.

— Marimo — Sanji acabou chamando, fazendo Zoro se virar para ele, já na porta. — Como estava a comida?

— Boa, como sempre. Está carente hoje? Precisa de um elogio?

— Ugh, não. — Sanji revirou os olhos. — É que... talvez eu tenha exagerado um pouco no sal.

— Não. — Zoro esfregou a boca com a mão. — Só achei o suco um pouco doce.

A espinha de Sanji congelou.

— É? Mas eu usei as laranjas de sempre, da Nami-san.

— Vai ver foi impressão. — Disse enquanto fechava a porta.

Sanji esfregou o rosto, desesperado. De novo.

Passou os próximos dias se remoendo de culpa, mas a verdade é que nada havia mudado. Zoro estava igual. Continuava provocando-o por hábito, dormindo demais e se exercitando nas horas vagas. Sua aparência permanecia a mesma e a forma como Zoro o tratava, ou se comportava em sua frente, não havia mudado sequer um pouquinho. Sanji já estava acreditando que a poção era uma mentira e, na verdade, Elizabeth o enganou.

Mas ela não faria isso, porque foi muito compreensiva e empática sobre saber o que Sanji estava passando. Ela não poderia ter mentido, seria muito cruel.

Numa tarde qualquer, Zoro estava fazendo seus exercícios quando Sanji chegou no ninho da gávea.

— Se perdeu no caminho para a cozinha? — Zoro disse ao soltar um haltere ridiculamente grande.

 — Não. — Sanji subiu o último degrau e procurou um lugar para sentar. — Eu quero conversar e sabia que ninguém além de você estaria aqui.

— Hum. — Zoro ergueu a sobrancelha. — Isso é estranho. O que foi? Tem que ser comigo?

— Sim. — Sanji procurou um cigarro, mas sua carteira estava vazia. Suspirou. — Eu preciso confessar uma coisa.

— Está bem, desembucha. — Zoro se aproximou e ficou parado de frente para Sanji.

O cozinheiro ergueu a cabeça e encarou Zoro. Ele estava com o peito descoberto, só com uma calça preta, o haramaki verde, descalço. Suava bastante, é claro, porque os pesos que ele segurava em cima da cabeça eram inumanos. Sanji não podia deixar de ficar impressionado com a força de vontade que ele tinha.

Toda vez que olhava para ele daquele jeito, acabava se lembrando do porquê daqueles sentimentos. Além de todo o resto, é claro.

— Zoro, você gosta de alguém?

— Quê?! — Zoro ficou chocado com a pergunta, recuando imediatamente. — Do que você ‘tá falando?

— É, eu estou falando de... gostar, sabe? Como... hum...

— Que papo é esse, cozinheiro idiota?

— Caramba Marimo, só fiz uma pergunta. Nossa. — Sanji sacudiu a cabeça. — Por que ficar tão nervoso?

— Porque é uma pergunta estúpida, que eu não vou responder.

Sanji se levantou e ajeitou a camisa.

— Desculpe te incomodar. — Disse, já se dirigindo para as escadas.

— Ei, espera aí. Você que veio aqui confessar alguma coisa, o que é?

Sanji ficou olhando para o chão por alguns instantes antes de se virar para Zoro de novo. Passou a se aproximar lentamente e Zoro ficou tenso, projetando o tronco para trás antes de decidir dar alguns passos para longe. Sanji parou no meio do caminho.

— Vim confessar que fiz algo que não devia.

— O que você fez?

— Eu... usei uma poção do amor.

Zoro ergueu as sobrancelhas, mas logo depois começou a gargalhar.

— Qual a graça? — Sanji ficou irritado. — Pensando bem, em voz alta, isso soa bem idiota.

— Isso não existe, pare de ser burro. — Zoro voltou para seus exercícios. Pegou o haltere de volta e começou a levantá-lo sequencialmente.

— E se existir? — Sanji cruzou os braços.

— Se existir, não funciona. Ninguém se apaixona por outra pessoa por causa de uma poção. E se você acredita nisso, devia estar pedindo para o Chopper preparar um antídoto, porque seria de extremo mau gosto dar uma poção do amor para alguém.

Sanji não respondeu porque, no fundo, concordava.

— Mas... quando foi isso? — Continuou Zoro.

— Foi quando partimos de Sabaody.

Zoro estava levantando os pesos quando teve uma epifania.

— Você usou isso em mim. — Zoro manteve a barra de ferro erguida acima da cabeça. — Foi aquele dia do café da manhã.

— Quê? — Sanji pigarreou. — ‘Tá louco?

— Foi em mim! — Zoro apontou o dedo para Sanji com uma das mãos, enquanto a outra ainda segurava o haltere. Sanji arregalou os olhos quando ele se aproximou, carregando tudo aquilo com uma única mão.

— Não seja ridículo! — Sanji se defendeu, sentindo o rosto esquentar. — Por que eu usaria uma poção de amor em um marimo como você?

Zoro emitiu um ruído gutural de descontentamento e jogou o haltere no chão. Depois, caminhou na direção de Sanji com passos duros. O cozinheiro ficou estático, sentindo a espinha gelar de novo.

Quando chegou perto o bastante, Zoro pegou a cabeça de Sanji com as duas mãos e o beijou.

Zoro o beijou.

Sanji mal podia acreditar. Foram segundos em que fechou os olhos e sentiu que Zoro queria um beijo de língua. Foi correspondido. Em pouco tempo, estavam se abraçando com tanta força que Sanji havia esquecido de respirar. Nem estava ligando para aquele suor e o gosto salgado que Zoro tinha na boca.

Quando se separaram, Zoro encarou Sanji com uma expressão séria.

— Foi isso que você veio confessar, porque estava se sentindo culpado.

— Eu... — Sanji afrouxou a gravata e, engolindo seco, se afastou de novo. — É, foi. Nem acredito que fiz isso.

— Eu que não acredito. Você é um grande idiota. — Zoro estalou os lábios e coçou a cabeça. Sanji estava com vergonha de verdade.

— Mas... então a poção funcionou? — Sanji desviou o olhar.

Zoro se afastou, indo em direção ao haltere no chão.

— Acho que a poção não muda nada quando uma pessoa já ama a outra. — Falou, ainda de costas, colocando o haltere em seu devido lugar.

Sanji ficou surpreso com a resposta e, mais ainda, com o pulo que o coração deu no peito. Aquilo era uma confissão de amor?!

Quando Zoro se virou de novo, ele parecia um pouco corado. Sanji sorriu.

— Eu devia ter pensado nisso. — Concluiu Sanji. — Desculpe. Acho que eu devia ter falado algo...

— Mas você é um cozinheiro burro.

— Não é como se você tivesse feito algo a respeito, marimo! — Sanji se defendeu, ultrajado.

— Está perdoado. Agora, se me der licença, eu tenho que terminar meu treino e ir tomar um banho. — Zoro agiu casualmente, partindo para outro aparelho de exercícios.

— Entendi. — Sanji pôs as mãos nos bolsos. — Eu me lembrei agora que, um tempo atrás, comprei uns sais de banho que têm o nome de poção do amor, também. Se quiser eu posso usá-los com você.

Zoro olhou para Sanji que, embora parecesse constrangido, ainda conseguiu dar um sorrisinho malicioso. O espadachim retribuiu o sorriso, limpando o suor da testa.

— Assim que eu terminar passo na cozinha para te chamar. Mas não venha com truques de novo.

Sanji desceu o ninho da gávea cheio de ansiedade e, embora estivesse achando que o ritmo daquela conversa estivesse fluindo de forma muito natural para os dois, ao mesmo tempo, sabia que aquela era a forma que eles usavam para se comunicar. Nada diferente do esperado.

Parecia que a poção não funcionava, no fim das contas. Elizabeth estava enganada. Ou talvez ela não havia calculado que o alvo da poção poderia ser invulnerável porque, afinal, os sentimentos já estavam ali.

Quem diria.



Notas finais do capítulo

Haramaki é a peça de roupa verde que o Zoro usa no quadril.



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