Série Paradise - Dakota escrita por moni


Capítulo 20
Capítulo 20


Notas iniciais do capítulo

Boa noite!



   Dakota

      A sala está com o ar condicionado ligado, a repórter é bastante simpática e delicada, mesmo assim, sinto calor e um pouco de desconforto. Serena está sentada comigo.

   Theodor conseguiu a entrevista, ofereceu uma sala no seu edifício e pediu a serena que me acompanhasse e impedisse qualquer pergunta que me incomodasse, mesmo assim eu ainda me sinto levemente insegura de estar aqui. Falar sobre mim, sobre tudo que vivi.

   — Os relatos são intensos, você teve o cuidado de minimizar as coisas? – A repórter questiona usando um gravador.

   —Não. O que escolhi contar eu simplesmente me abri, não detalhei nada, o objetivo não era esse nunca quis sensacionalismo, apenas queria mostrar o que vivi e encontrar pessoas com a mesma necessidade de falar sobre isso.

   — O que mais te surpreendeu?

   —Muitos relatos de pessoas que viviam o mesmo, mas até lerem sobre minha experiencia não tinham se dado conta. Também foi surpreendente perceber os padrões sempre tão parecidos.

   — Você também demorou para perceber? Pelo que li foi um longo processo.

   — Sim, foi difícil admitir, depois de admitir foi difícil sair daquilo tudo, levou muito tempo.

   —Tem noticias dele? Pelo que apuramos ele foi preso depois de uma séria agressão. Na verdade, ele atacou sua irmã, não foi isso? – Odeio me lembrar dessa parte, um arrepio percorre meu corpo, ainda sinto culpa por tudo isso.

   —Sim, ele foi preso, ficou uns anos na cadeia, depois que saiu deixou a cidade, ele não pode se aproximar de mim. Tem um agente de condicional que garante a distância. Nunca mais quis saber sobre ele, basta que esteja longe.

   — Muitas mulheres seguiram seu exemplo, li alguns comentários bastante animadores. Tinha ideia de que podia ser uma influenciadora?

   —Não. Eu só queria desabafar, só queria mesmo tirar tudo isso de dentro de mim, quando começaram as respostas então eu comecei a encara tudo isso de outro modo. Fui procurar ajuda de gente especializada. O blog cresceu muito.

   —E Dakota? Quem é a Dakota depois de tudo isso?

   —Alguém mais forte, mais corajosa, com menos traumas. Me sinto capaz de vencer qualquer coisa e sei que jamais vou repetir algo assim.

   — Reencontrou o amor, aliás, um dos posts de maior sucesso é o que seu namorado deixa um comentário. Como foi contar para ele tudo isso?

   —Carl é um homem incrível, ele vivenciou tudo comigo, somos amigos de infância, ele sempre foi compreensivo, especial e muito carinhoso, mas sempre soube impor limites, ele sabe que preciso de espaço e liberdade, ele antes de todos busca por isso. Carl é o melhor presente que a vida poderia me dar.

   — O que espera para o blog agora?

   — Que mais mulheres se sintam encorajadas a assumirem as rédeas de suas vidas, mais mulheres tomem coragem de buscar ajuda. Eu sei que o medo paralisa, sei que muitas enfrentam tudo isso sozinhas, com filhos, que não é apenas sobre suas vidas, mas também sobre a vida de outras pessoas, e por essas pessoas elas se entregam, mas o blog deixa muitas alternativas, temos psicólogos, advogados, telefones de casas de apoio em várias partes do mundo. Reunimos todo tipo de ajuda que podemos. De algum modo, nenhuma delas está realmente sozinha.

   —Sua história é também uma história de amor, tem um final feliz, não teme que isso acabe deixando você distante da realidade delas?

   — Nós. – Digo a repórter. – Não elas. Sou parte disso, eu passei por isso e isso é um pouco ou muito quem eu sou. Ter a sorte de encontrar alguém especial não me afasta do que eu vivi, do que elas vivem e acho mesmo que pode dar esperanças para elas acreditem que uma história ruim não significa o fim de tudo. Por muito tempo eu acreditei que sim. Me afastei da vida, das pessoas, me encolhi, levou tempo para curar tudo isso.

   —Você é muito jovem, já viveu muitas coisas, ter vivido isso aos quinze anos agravou a situação? Acha que uma mulher mais madura viveria tudo isso de modo diferente?

   —As pessoas estão sempre querendo tirar a culpa do agressor. Isso aconteceu porque era jovem, ou pobre, ou tinha filhos, ou não queria que a impressa descobrisse porque era famosa. Não. Isso aconteceu e acontece e vai acontecer por culpa do agressor.

   — Consegue achar uma razão para eles serem assim?

   —Não importa. Não é sobre o agressor, é sobre as mulheres agredidas. O que posso dizer é, ele não te ama, na verdade, ele te despreza.

   —Uma verdade muito dura, não acha?

   —Foi preciso ouvir a minha história dita por outra pessoa, sem rodeios, sem maquiagem para que eu pudesse finalmente enxergar com clareza, omitir, distorcer, isso não ajuda. Não me ajudou nunca.

   — Haters? – Eu respiro fundo.

   —Eles existem, dizem coisas horríveis, no começo me assustavam, mas acho que são apenas homens descobrindo que não tem mais o controle e eu sei o quanto isso irrita. Eles estão em toda parte.

   — Você é uma jovem muito bonita, esteve por muito tempo sob um pseudônimo. Tem medo das mudanças que vão acontecer agora que mostrou o rosto?

   — Espero que positivas, quero que outras mulheres se sintam encorajadas, falar sobre coragem escondida atrás de um pseudônimo não parecia honesto. Estou feliz por poder me mostrar. A Garota Paradise é apenas uma garota comum, sem nada especial, que viveu coisas ruins e superou. É isso que sou e é assim que quero que me vejam.

   —Obrigada pela entrevista, eu tinha muita vontade de conhece-la pessoalmente uma amiga me indicou deu blog uns meses atrás e acompanho. Parabéns pelo lindo trabalho. Gostaria de deixar algum recado?

   —Sim. Você não é a única e não está sozinha! – A mulher me sorri, a fotografa parece satisfeita com as fotos que tirou durante a entrevista.

   Depois de um café e uma curta conversa informal, as duas mulheres deixam a sala. Serena me encara com seu olhar orgulhoso.

   —Você foi tão bem. Se eu não estivesse aqui jamais acreditaria. Esteve perfeita. Cheia de coragem e atitude. Parabéns.

   — Agora vamos ver se amanhã, depois da matéria publicada eu ainda vou ter coragem e atitude. – Serena ri.

   —Claro que vai. Sei que é uma garota muito incrível.

   A matéria sai na capa como prometido, uma foto minha estampa a matéria. Carl chega com o jornal logo cedo e lemos juntos, sentados no sofá e abraçados, ele orgulhoso, eu tímida e levemente assustada. Posto o link do site onde a matéria também saiu no blog.

   Em uma semana o blog triplica de tamanho, muito mais comentários do que eu poderia acompanhar sozinha e Serena me ajuda já que ela tem um curso de psicologia e sabe como responder. Dominique não é calma o bastante para isso, tem de longe os piores conselhos. Savannah nunca tem tempo livre. Os haters voltam, agora não consigo mais apagar comentários malignos, Theodor manda rastrear todos, nenhum de Nova York, apenas pessoas distantes e malucas. É o que quero e preciso acreditar, se ficar apavorada não saio do lugar.

   Em duas semanas outra matéria, dessa vez para uma revista feminina e um convite para uma coluna semanal, um salário três vezes maior do que o que ganho na livraria e só posso aceitar animada.

   O aniversário de dois meses de namoro é uma linda surpresa romântica e também uma comemoração pelas mudanças. Carl me leva a um restaurante especial, brindamos, ganho flores, dançamos ao som de um piano e caminhamos de volta para casa de mãos dadas pelas ruas movimentadas.

   Um sonho, minha vida ao seu lado é tão tranquila e doce. O tipo de amor que sempre sonhei para mim. Não tem altos e baixos, não é cheia de aventuras, é suave, linear. Estamos nos conhecendo de um modo totalmente novo. Sabia que ele era um grande companheiro, que era leal, foi assim como amigo, mas agora descubro seu jeito carinhoso, romântico.

   Gostamos de sair. Eu não sabia que gostava, mas é bom encontrar amigos, danças, até tomar uns drinks e cheguei mesmo a ficar um tantinho tonta uma vez depois de amanhecer o dia em uma boate.

   Claro que não fazemos isso todos os dias, uma ou duas vezes na semana, também ficamos juntos assistindo televisão, ou apenas perto, ele fazendo algo, eu cuidando do blog.

   Carl costuma sempre ir embora, quando estou na casa dele não me deixa partir, mas quando está em minha casa acaba quase todos os dias se despedindo e sei o que significa. Ele me quer livre.

   Tem dias que ganho surpresas, um florista toca me deixando flores, um vinho chega antes dele com um bilhetinho, ele diz que vamos a um lugar e acabamos em outro, muito mais emocionante.

   —Reservei as passagens para daqui uma semana. – Ele me diz erguendo os olhos do computador.

   —Passagens? – Pergunto um tanto distraída.

   —Arizona, amor. Meus pais querem te ver, prometi tem mais de um mês. Vamos comemorar três meses de namoro lá.

   — Sério? – Deixo meu lugar no sofá para me juntas a ele. Carl afasta o notebook e me puxa para seus braços.

   —Consegue uma folga na livraria?

   —Acho que sim.

   —Não pensa em deixar a livraria? Ganha muito mais na coluna, está agradando o público, acho que seu emprego está garantido.

   —Eu gosto, e também junto dinheiro, é a primeira vez que o dinheiro sobra no fim do mês, eu estou investindo como o Theodor falou.

   — Namoro uma investidora? – Ele pergunto e faço que sim me encolhendo em seu colo. Voltar ao Arizona seria mesmo incrível. O telefone fixo toca. Carl estende o braço, ele está mais perto. – Alô. Alô. – ele me olha, seus dedos alisam meus cabelos, me curvo para beijar seus lábios. – Alô! – Ele insiste e então desliga jogando o aparelho sem fio sobre o móvel. – Não era ninguém. Até ouvi alguém respirar, mas acho que a pessoa ligou errado.

   —Só pode mesmo ser engano, eu nem sei porque mantenho o telefone fixo, não tem ninguém que ligue nele.

   — É bom para uma possível emergência. – Ele diz e me encosto em seu peito. – Feliz.

   —Muito. Eu adoro aquela terra. Vou gostar de rever as pessoas.

   —Meu pai disse que vai avisar ao seu pai.

   — É, não posso fugir de encontra-lo, mas não quero nada demais. Um almoço rápido, em um restaurante, aquela esposa dele...

   —Como você quiser. – Ele promete. – Cadê a Daisy?

   —Dormindo na cama, ela brincou tanto que desmaiou. Quando penso como ela era quietinha fico até com saudade, o que vamos fazer com ela?

   — Acho que seria estressante leva-la, então acho que o ideal é deixa-la em um hotel.

   — Quanto tempo?

   —Cinco dias? O que acha? Consegue cinco dias?

   —Sim. Espero que sim.

   —Jantar?

   — Sim. Eu cozinho. – Deixo seus braços, estou inspirada e muito animada essa noite.

   Carl acaba me ajudando, ele gosta muito de cozinhar, ao menos quando fazemos isso juntos, rindo, cantando e até dançando.

   —Amanhã vou jantar com minha irmã. Quer ir?

   —Não posso amor, vou trabalhar até tarde, eu te apanho lá, pode ser? Quem sabe pegamos um cinema depois? – Beijo seus lábios quando passo por ele indo em direção ao fogão.

   —Bom plano. Jantar com ela e depois cinema com o namorado.

   — Que filme?

   — Um romance. Eu acho um depois. Você escolheu o último.

   —Tudo bem, nosso aniversário de namoro está chegando, preciso de umas ideias.

   —Dominique me perguntou se vamos comemorar todo mês, eu disse que sim. Ela nos acha um pouco irritantes.

   — Somos românticos e irritantes. – Ele beija meu pescoço. O telefone volta a tocar, a pessoa está mesmo insistindo em falar com alguém.

   — Alô! – Carl atende mais uma vez, repete o mesmo padrão, depois desliga. – Mesma coisa. Acho que a pessoa resolveu confirmar. Podia ao menos dizer qualquer coisa, se desculpar. Será que não é melhor você atender na próxima, pode ser que a pessoa queira mesmo falar com você.

   —Posso tentar, mas duvido. – Eu coloco a mesa enquanto ele termina o jantar e nos servimos. – Sabe o que mais amo em você?

   —Olhos azuis e músculos?

   — Não! – Digo rindo. – Sua confiança em mim. Eu me sinto... livre.

   —Amo você, como poderia amar alguém e ao mesmo tempo desconfiar? Não teria sentido.

   — Obrigada por isso. – Ele leva minha mão aos lábios e beija carinhoso. Depois do jantar, Carl me ajuda com a louça.

   —Tenho que ir. Amanhã tenho que estar antes das sete no trabalho, se não adiantar o máximo não vou conseguir resolver tudo até nossa viagem.

   —Tudo bem. – Não discuto, ele tem suas razões. Gosto de sermos apenas namorados e nos despedirmos, gosto de sentir saudades dele. De espera-lo com o coração acelerado. Não quero correr demais com nossa história.

   —Suas flores estão morrendo. – Ele aponta o vaso quando caminhamos até a porta.

   —Vou molhar mais tarde. Te amo. – Digo quando nos beijamos na soleira da porta, ele me acena no meio da escada, eu podia chama-lo de volta, mas deixo que vá, é importante para os dois.

   —Ligo quando chegar.

   —Não esquece.

   — Sabe que nunca esqueço.

   Carl desaparece, pego meu celular, deixo sobre o móvel diante do sofá, deixo o notebook sobre a cama, Daisy surge na sala com seu andar elegante, em um salto está sobre a estante, caminhando entre a decoração sem colocar nada em perigo, ela é incrível.

   O interfone toca, sorrio animada. Carl está sempre inventando novidades, sabia que ele não estava insistindo tanto em ir embora à toa. Uma surpresa a caminho.

   —Sim? – Digo fingindo desinteresse.

   —Senhorita Dakota Jones? – Uma voz desconhecida soa.

   —Pois não?

   —Uma entrega urgente. – Meu sorriso se amplia. Talvez sejam flores. Por isso ele falou que as minhas estavam murchas. Aperto o botão para destravar a porta.

   Meu coração ainda acelera feito bobo a cada surpresa. Como se fosse a primeira. Destranco a porta, ansiosa para vê-lo quem sabe acompanhando algum florista, ou um músico, ou quem sabe algo totalmente novo.

   Escuto os passos na escada, torço os dedos, meu sorriso não se desfaz quando um homem desconhecido surge, espero por Carl logo em seguida.

    Um lampejo de medo surge em minha mente quando noto o olhar febril do homem, algo está errado, meu corpo treme enquanto ele caminha no curto corredor da escada até minha porta. Fugir. Penso ainda paralisada, dois passos para dentro, um segundo e empurro a porta, ele a prende antes que consiga fecha-la.

   —Vá embora! – Grito quando ele me empurra e entra. Me afasto, tento correr e uma mão forte segura meu pulso. – Me larga. Socorro! – Alguém vai ouvir.

   —Cala a boca! – Ele tampa minha boca com a mão livre, seu olhar é perverso, aterrorizante e só consigo pensar em Carl me lembrando que sou forte, que sou corajosa, senhorita coragem ele disse. Domo meu pavor, engulo a vontade de gritar e respiro fundo. – Se gritar eu vou ter que machucar você. – O homem diz e tem tanta verdade em seu olhar. Tento fazer um movimento mostrando que concordo, ele faz tirando a mão da minha boca com calma. Meu olhar me trai e encaro a porta. – Não pense nisso.

   Ele me solta, vai até a porta e passa a chave, depois enfia o molho de chaves no bolso e vem até mim. Não tem outra saída se não as janelas, pulo se não tiver escolha, mas esse monstro não vai me tocar.

   Meus pés estão ainda colados no chão. Meu corpo não reage como devia, eu não sei como ele sabe meu nome, talvez um vizinho, não entendo porque eu.

   —Não tenho dinheiro, nem joias, nem nada de valor.

   —Acha que vim roubar você? Como fez comigo, com a minha vida?

   —O que?

   —Avisei você. Avisei tantas vezes, achou que apagar os comentários apagariam também as ameaças?

   Tudo começa a clarear, eu nunca achei que aquilo era algo sério. Nunca levei em conta que poderia ser encontrada.

   —Eu... eu...

   —Ela foi embora depois que começou a ler aquela droga que escreve, desapareceu, mas eu vou encontra-la, você vai me dizer onde ela está.

   —Não sei, as leitoras... são quase todas anônimas, eu não posso ajuda-lo. Melhor ir embora, meu namorado está chegando.

   —Eu não sou tão burro assim, liguei algumas vezes, ele atendeu, então apenas esperei, sabia que em algum momento ficaria sozinha.

   —  Gritei, os vizinhos devem ter chamado a policia.

   —Em um prédio como esse? Duvido que alguém tenha ouvido, se ouviu, duvido que vá se meter, é uma cidade muito grande, tem muita gente gritando por socorro agora.

   — Vá embora, eu não sei onde ela está! – Meu tom é duro, eu tento a todo custo parecer firme.

   —Você a fez partir. Você é culpada.

   —Não, eu não sou. Você é. Você a perdeu. Achou que ela era seu brinquedo, duvidou da capacidade dela de fugir, pensou que ela nunca faria, que sorte a dela se livrar de você.

   —Sorte? – Ele grita se irritando. – Sem mim ela não é nada. Burra, gorda, velha, que homem vai quere-la?

   — Um homem de verdade, embora ela não precise de um. – Ele dá um passo em minha direção. Ergo meu queixo. – Toque em mim e vai ver do que sou capaz. Não tenho medo de você. – Minto com o máximo de firmeza que consigo.

   —Me diga onde ela está! – Ele volta a exigir.

   —Não sei, nem mesmo sei de quem está falando, muitas mulheres deixaram seus parceiros depois que o blog surgiu.

   — E você está adorando isso, não é mesmo? Eu disse a ela, você só queria fama, uma hora mostraria a cara, avisei. Ela partiu mesmo assim. Achando que se daria melhor sem mim. Sustentei aquela mulher vinte anos, então ela me deixa? Pega meu filho e simplesmente desaparece? Acha mesmo que eu não caçaria você? Nem precisei de muito, logo estava nos jornais, então foi bem fácil.

   — Inútil, eu não sei nada sobre sua mulher. – Engulo o medo, me forço a manter o ar distante, a não encarar os olhos furiosos. Meu celular começa a tocar, ele vai perceber algo errado. Carl sabe que não deixaria de atender. Ele não vai desistir até ouvir minha voz. Nós dois olhamos para o aparelho e dou um passo para trás. O homem toca o bolso.

   —Se tentar alguma coisa não sai daqui viva.

   —Ele não vai desistir até falar comigo.

   — Se ele aparecer aqui você vai se dar muito mal, ele também. Não vim desprevenido, vim para resolver isso. – O telefone continua a tocar. – Atenda e dispense seja quem for. – Uma faísca de esperança me toma. – Viva-voz! – O homem exige. Meu coração bate tão rápido, meus dedos tremem e entregam o medo.

   Obedeço as suas ordens, melhor assim, se não conseguir fazê-lo compreender ao menos ele não vai estar em risco.

   — Oi meu amor, já chegou em casa?

   —Sim, a voz está baixa. – Ele comenta.

   —Viva-voz.

   —Ah! Está ocupada? – Ele parece achar estranho.

   —Carl, você pode ao menos uma vez na vida confiar em mim? Nunca confia. Nunca! – Silencio. Eu aperto o telefone, ele vai entender. Sei que sim. O homem está a menos de meio metro de mim, pronto para tomar uma atitude.

   —Dakota. – A voz dele soa mais urgente, “viva-voz Carl, viva-voz.” Penso torcendo para que ele não deixe transparecer suas dúvidas. – Animada para nossas férias no Texas?

   —Muito. O Texas é meu lugar favorito.

   O homem fica fazendo sinal para desligar, eu não quero, eu só quero ficar ouvindo sua voz, só quero ficar sentindo sua respiração pesada.

   —Senhorita Coragem. Boa noite. – Ele diz desligando e sei que algo está por vir, agora só preciso fazer algo para manter esse monstro longe de mim.

   Ele toma o telefone da minha mão, desliga o aparelho e atira longe, Daisy se assusta salta do sofá e isso o deixa atordoado por um segundo, tento aproveitar a chance para correr para o quarto não consigo mais que uns passos, sinto a mão forte me puxar pelos cabelos.

   Não é a dor física, é a lembrança, é de novo ser pequena, indefesa, é de novo ser nada e sucumbir. Não posso permitir. Não vou. Seja como for eu vou lutar. Toda a minha vida de agressões passa por minha mente em um segundo enquanto meus olhos varrem o ambiente ao mesmo tempo que sinto meu corpo ser puxado pelos cabelos de volta para perto do monstro. Encontro um vazo de louça, é tudo que minha mão alcança e o bastante para atirar de qualquer maneira em direção a ele e conseguir ao menos me libertar.

   Eu jamais reagi a ele, da primeira a última agressão eu sucumbi sem lutar, eu me encolhi assustada, culpada e envergonhada, eu nunca me ergui, nunca.

   Posso alcançar o quarto, me trancar em desespero até que alguém chegue ou a porta seja arrombada, mas eu não consigo fazer isso, eu tenho raiva, muita raiva.

   —Olha o que fez! – Ele grita e posso ver a mão sangrando e pela primeira vez também posso ver a arma que ele carrega. Uma faca, uma faca de cozinha.

   Ficamos frente a frente, o sofá entre nós, ele com a mão sangrando e segurando a faca, cacos de cerâmica cercando seu corpo, meu peito subindo e descendo, meu olhar firme, atento. Não vou perdeu um único movimento dele.

   —Vá embora. Não sei nada sobre sua mulher, não diria se soubesse. Vá embora.

   —Vai me dizer onde ela está, vai apagar esse blog e vai fazer isso agora ou terminamos os dois aqui. Acabo com você e depois comigo. No fim ela vai viver com a culpa.

   —Apago o blog. – Digo a ele tentando ganhar tempo. – Meu notebook está no quarto.

   — Está sendo burra, se tentar algo... não vim para perder, eu planejei tudo isso, eu deixei a Califórnia, viajei até Nova York, acha que vou sair daqui sem resolver isso? Acha que estou brincando?

   — Já disse, eu não sei da sua esposa, não posso ajuda-lo. – Tento calcular o tempo, quanto desde a ligação? Cinco minutos? Mais? Menos? A adrenalina sempre deixa tudo fora de ordem, quanto mais até a policia chegar? Carl vem sozinho? Vai invadir a casa com sua chave e talvez avançar sobre o homem com uma faca?

   — É como ela. É como todas as outras, está o tempo todo calculando, o tempo todo maquinando, não é mesmo? Seu namorado foi dispensado, ninguém me viu subir, pelo visto seus gritos de socorro foram em vão, não pode me vencer, sou maior e mais forte.

   E eu mais inteligente e corajosa. Só preciso de mais algum tempo. Só preciso tira-lo da sala, tira-lo de perto da porta.

   —Posso apagar o blog, nunca mais vão ler sobre mim, sobre o que me aconteceu, posso mesmo deixar um recado para sua esposa, mas o notebook está sobre a cama.

   — Vamos busca-lo juntos.

   —Ele... ele funciona melhor lá.

   — Quer que acredite nisso?

   —Quero me sentar na cama e apagar o blog, só isso, depois vai embora.

   —Não vou sem me contar onde eu a encontro. Porque acredite, ou ela, ou você, alguém vai pagar por isso que estou passando. Pode ter certeza.

   Sinto um arrepio percorrer meu corpo, se um de nós vai cair, então não resta nada além de lutar. Dou as costas a ele, nada me deixa mais apavorada do que dar as costas a um homem armado que pensa em me matar, ando lentamente em direção ao quarto, sinto seus passos atrás de mim, sinto meu coração bater tão rápido que parece que vou morrer a qualquer momento.

   O notebook está mesmo sobre a cama, felizmente não está no sofá como de costume, como esteve ainda hoje enquanto eu e o Carl estivemos juntos.

   — Pega e se vira, vamos voltar para sala, onde eu posso te ver mexer em tudo.

   Pego o objeto que me trouxe tantas coisas boas, através dele falei com mulheres de todo o mundo, contei minha história, salvei alguém, ao menos a mulher desse bandido em minha casa, ao menos ela está salva. Já valeu a pena. Aperto forte a máquina em minhas mãos. Dois quilos talvez, não mais do que isso. É preciso usar toda força que existe em mim, é preciso lembrar de cada uma das agressões. É por mim, por Carl e por todas nós.

   Tudo acontece de uma só vez, me viro o mais rápido que posso, coloco toda força que tenho e acerto o homem em seu momento de surpresa. Escuto o barulho da máquina acertando seu rosto, um tipo de grito abafado que lembra muito mais um animal e a faca brilhar enquanto voa pelo quarto.

                                    



Notas finais do capítulo

Beijossssssss



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Série Paradise - Dakota" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.