Quando chegar a hora escrita por Love Whisper


Capítulo 9
A Filha Perfeita


Notas iniciais do capítulo

Olá! Eu disse que ia atualiza direitinho no sábado, não disse? ajslasjsaljas
O capítulo saiu um pouco grande, porque apesar de ser narrado pela Eloá, teve que focar um pouco no Rafa também. Espero que gostem!



Eloá

Então o dia finalmente chegou, de tomar minha decisão final. Sábado era dia de visitar os pais no centro, e eu não conseguiria olhar em seus olhos e mentir quando perguntassem da faculdade. Eu até queria, mas nunca fui muito boa em mentir. Precisava contar a verdade, e a verdade era que eu abandonei  o plano de vida da família Medeiros. Meu Deus, eles vão me odiar.

Estávamos na mesa tomando café e o clima parecia desagradáveis para nós três. Eu mal consegui perguntar o que era, porque estava focada demais nas minhas próprias preocupações.

—Eu ainda posso desistir e continuar a faculdade como se nada tivesse acontecido, né? – perguntei, repentinamente. Miguel soltou uma risada baixa.

—Não, Eloá. – respondeu. – Você sabe que o melhor pra você não é isso.

—É, mas... – brinquei com a alça da caneca, incapaz de deixar minhas mãos paradas – Mas eu quero que eles se orgulhem de mim.

Miguel respirou fundo e virou pra mim, sentado do meu lado, e seu semblante ficou mais sério.

—Eloá, você passou a vida inteira buscando a aprovação deles. Não tá na hora de buscar a sua própria aprovação?

Era verdade, eu sabia. Precisava começar a fazer coisas que me deixassem feliz, mas a verdade é que eu gostava de ter grandes expectativas em mim, gostava do status. Eu queria ser a filha perfeita e... Bem, a médica perfeita. Mas era impossível. Não era meu sonho.

—Além do mais, - Rafael disse, saindo um pouco do seu próprio mundo – você nem mora mais com eles. Só tem que aturar eles uma vez por semana, se você quiser.

De repente, não quis mais conversar sobre e fiquei quieta. Eu sabia que estaria errada se desistisse agora, e não gostava de estar errada. Mas eu precisava ter coragem.

Fui para o quarto me arrumar, prendi os cabelos castanhos em um rabo de cavalo e coloquei a roupa mais comportada que consegui achar. Enquanto isso, minhas sapatilhas novas pareciam me olhar do canto do armário. As coloquei na mão, observando a sola que já começava a ficar desgastada. Uma sensação boa percorreu meu corpo, lembrando-me das aulas e das (poucas) pessoas que eu já tinha conhecido na academia nova.

Eu precisava fazer aquilo.

Peguei o carro e fui dirigindo até o bairro chique que ficava o apartamento dos meus pais. Antigamente, eu me sentia em casa lá, mas agora só conseguia ver o quanto aquela sofisticação me deixava desconfortável. Desde os carros luxuosos até a forma que as pessoas passavam olhando reto, sem dar ao menos um bom dia. O prédio tinha uma segurança impecável, e tudo lá era gigante e estilo antigo, como se tivesse saído de um filme. Entrei no elevador e apertei o botão do último andar. Ajeitei meu cabelo no espelho e desamassei meu vestido rosa claro.

Passei a mão no cabelo uma última vez antes de apertar a campainha do apartamento. Respirei fundo, tentando manter a cabeça no lugar.

Minha mãe me atendeu com um sorriso no rosto e um coque bem feito, seu conjunto branco e dourado impecável. Dona Teresa sempre foi uma mulher linda, mesmo depois de seus 50 anos.

—Oi, mãe! – falei, a abraçando. – A cada final de semana a senhora está mais bonita.

—Obrigada, meu amor! – então me olhou de cima a baixo, o semblante fechando um pouco. – Você emagreceu. Está comendo direito?

Segurei meus impulsos de revirar os olhos.

—Sim, mãe.

Então o clima levemente desagradável foi interrompido por uma criança com os cabelos trançados, correndo em minha direção.

—Eu já disse, sem correr, Alice! – minha mãe repreendeu.

Abracei minha irmã, que, mesmo com seus 12 anos, ainda agia como uma criança animada - ou talvez eu que a visse como um bebê.

Meu pai, sempre frio, estava sentado no sofá e só falou comigo quando eu fui até ele. Conversamos um pouco, antes de eles puxarem o assunto da faculdade.

Estávamos todos sentamos no sofá, Alice abraçada comigo. Eles estavam me contando o que fizeram durante a semana, e Alice contou da escola e de seus amigos.

—Como vai seu namorado? – mamãe perguntou.

—Mãe, eu já disse que terminamos. – respondi, desconfortável. Ela sempre fazia a mesma pergunta, e depois seguia em frente sobre como eu deveria voltar com ele.

—Pois eu digo que deveriam voltar. Ele era um bom garoto, e a família dele era ótima. - e com ótima ela queria dizer rica – Acho difícil conseguir alguém assim de novo... Principalmente do jeito que você é.

Alice me olhou, fazendo uma careta. Eu apenas ignorei, como sempre fazia.

—E a faculdade? – meu pai perguntou.

Eu me ajeitei no sofá, tirando o braço de Alice de mim com cuidado.

—Então... Era sobre isso que eu queria conversar.

Os dois se entreolharam.

—Eu, na verdade, vou sair. – falei, de uma vez.

—Sair de que? – mamãe perguntou.

—Da faculdade, mãe.

Ela me olhou, me analisando, procurando algum sinal de brincadeira.

—Como assim?

—Desculpa, mas medicina não é pra mim.

—Como não é pra você? Você é uma Medeiros, Eloá Lorena.

—Eu não tava me adaptando na faculdade, eu não gosto daquilo. – falei, alterando o tom de voz sem perceber.

—Mas você vai voltar. – ela disse, ordenando. Franzi a sobrancelha.

—Não, não vou. – respondi, como se fosse óbvio.

—Eu te criei e te sustento até hoje, você vai me obedecer.

—Me sustentava. No passado. - falei, determinada. – Eu não preciso mais do seu dinheiro. Vou arrumar meu próprio emprego, e pagar as minhas coisas!

—Como se você fosse conseguir!

Estávamos gritando, o que era raridade pra dona Teresa, que nunca perdia a compostura.

—Era só o que a gente precisava. – falou, baixo – Daqui a pouco vira uma vagabunda por aí, que nem o João.

Eu me levantei, perdendo o pingo de calma que ainda tinha.

—Você não fala assim do meu irmão!

—Filha – ele disse, a voz calma – você faz o que quiser da sua vida. Pode estragá-la como quiser. Só não espere que a gente aceite você aqui em casa.

—O quê? O que isso quer dizer? – perguntei, nervoso.

—Isso quer dizer – minha mãe completou – que se você decidir largar essa faculdade, pode largar a gente também.

Comecei a chorar, as mãos tremendo, mas a adrenalina ainda fluindo por minhas veias.

Fui até Alice e a abracei.

—Eu vou te ligar, tá bom? – disse, baixo.  – A irmã te ama.

Ela parecia assustada, mas concordou com a cabeça e disse que também me amava.

Então fechei a cara, determinada. Dei uma última olhada nos dois, e fui andando em direção à porta.

—Que seja então.

Saí, com passos firmes, mas a imagem do meu próprio reflexo no elevador me fez chorar ainda mais, a maquiagem borrada e o cabelo bagunçado. Eu passava longe da filha que eles gostariam de ter.

Minha mente gritava: me desculpa.

Cheguei até o carro e olhei para minhas mãos trêmulas, não estava em condições de dirigir. Fiquei lá, tentando me acalmar.

Pensei em ligar para João. João, meu irmão mais velho, que também fui expulso de casa. Os Medeiros aparentemente tem essa tendência de se afastar dos próprios filhos. Mas, claro, o caso dele foi bem mais sério que o meu.

Toda essa expectativa gerou tanta frustração que ele acabou se envolvendo com drogas, aos 18 anos. E teve uma overdose. Logo depois, nossos pais o colocaram em um centro de reabilitação e pediram pra nunca mais olhar na cara dele.  Eu tinha apenas 16 anos, o que poderia fazer?  Éramos muito próximos, e eu me lembro de ficar anos sem vê-lo.

Quando nos reencontramos, fiquei sabendo que ele fugiu da reabilitação. Morou na rua por anos, porque meus pais não o aceitaram em casa. Eles sabiam de tudo isso, e não me falaram. Não fizeram nada. Depois da terceira overdose, o reencaminharam para um centro de reabilitação público, e foi quando ele ficou sóbrio. Foi quando nos encontramos novamente, e voltamos o contato. Muitas vezes, eu sentia que mal conhecia meus pais. Não conseguia acreditar no que o deixaram passar. Agora... Bom, agora ele trabalha numa loja e está pra casar com uma menina loira e ajeitadinha. Parece que as coisas deram certo pra ele, mas... Mas o trauma continua lá. Eu me lembro de nossas longas conversas em que ele me contava o quanto era ruim. Me lembro como se tivesse acontecido ontem, porque me chocou. A frieza de nossos pais sempre me deixou abismada.

Eu sabia que, de todas as pessoas do mundo, ele entenderia a sensação de não ser o que queriam que fosse. E sabia que nossas situações eram muito diferentes, mas imaginei que ele não fosse me julgar.

No estacionamento mesmo, peguei o telefone e liguei para seu celular.

—Fala, maninha! – ele disse, assim que atendeu.

Não consegui responder, e apenas continuei chorando.

—O que aconteceu? Tá tudo bem?

Então contei pra ele. Conversamos por uma hora e meia, enquanto ele me acalmava e me dizia que ia ficar tudo bem e que foi besteira eles dizerem que não queriam mais me ver.

—Quem perde é eles. Você é incrível, não precisa ser perfeita. Não precisa ser o que eles querem que você seja.

—Eu sei, mas... Mas eu só queria que eles não fossem assim. Queria que nós cinco fossemos só mais uma família como as outras, que se reúnem no natal e brigam como gente normal.

—Mas não é, infelizmente. Olha, pra ser sincero, o que eles fizeram por você durante sua vida inteira?

—Eles me deram o carro de presente e me ajudavam até hoje pra eu fazer faculdade.

—Tirando isso. Tirando coisas financeiras e obviamente te colocar no mundo, o que eles fizeram?  Eles seguravam sua mão quando você caía? Beijavam seus machucados, te ensinavam sobre o mundo? O que eles fizeram?

Meu coração afundou ao perceber a resposta.

—Nada.- murmurei. – Nada disso.

—E quem fez?

—Você.

—Então acredite em mim quando eu te digo que você é boa assim como é. Você é uma ótima bailarina, uma irmã maravilhosa, e uma mulher muito, muito corajosa. Eu te admiro pela sua coragem, Eloá. Estou orgulhoso de você.

E foi assim que, aos poucos, ele me acalmou. Eu sabia que poderia encontrar conforto em João, e também sabia que tinha um caminho difícil pela frente para enfrentar.

Cheguei em casa e encontrei os gêmeos sentados no sofá. Reparei que Rafael parecia mais magro, o que o deixava ainda mais parecido com Miguel. Por sorte, os conhecia a tempo suficiente pra não confundir, mas imaginei o desastre que seria se eles tivessem amigos em comum.

Sentei no meio dos dois, e suspirei.

—E aí? – Miguel perguntou. – E seus pais?

—Não quero conversar disso agora, tudo bem?

Eles pareceram entender que foi ruim, e me deram o espaço que eu precisava.

Rafa pegou uma almofada e colocou no meu colo, logo depois deitando. Eu mexi nos cachos bagunçados dele, e percebi que parecia chateado.

—O que foi, Rafa?

Ele me olhou, confuso.

—Nada, to cansado.

—Ele saiu hoje. – Miguel contou. – Com o Yuri.

Rafael se encolheu de vergonha.

—O que? – falei, animada. – Como assim? Como foi?

—Eu to realmente cansado. – que normalmente era língua de Rafael pra “por favor, não me façam contar.” Mas reparei que ele parecia realmente exausto, os olhos fechados no meu colo.

Afastei seus cachos bagunçados de sua testa, colocando a palma da mão.

  - Parece que você tá com febre.

  Rafael encolheu os ombros e olhou pra baixo, eu sabia que ele odiava ficar doente.

  - Eu vou pegar um termômetro. - avisei. Levantei e o ouvi murmurar um "não precisa", mas ignorei. Se o deixasse por conta própria, ele continuaria ignorando até que se tornasse um problema maior.

 Ele estava bastante quente, então me surpreendi quando a temperatura deu 38.9.

Rafael me olhava em silêncio, sem mostrar muita reação. Apenas parecia cansado.

  -Você tomou banho hoje? - perguntei. Ele balançou a cabeça negativamente. - Seria uma ótima hora pra um banho um pouco mais frio.

O garoto se enrolou no cobertor, murmurando em protesto.

  - Ok, ok. - falei. - Vou pegar um remédio pra você.

Depois que tomou o remédio, Rafa caiu no sono rápido, depois de reclamar um pouco. Fui para o quarto, focar em meus próprios problemas, quando achei que aquele estava resolvido. Tinha muitas contas pra fazer: precisava arrumar outro emprego. Daria pra gente continuar pagando a casa? E as aulas de dança?

Mas, além de tudo, eu não estava arrependida. Precisava agir como uma adulta, já havia passado da hora de viver sob as asas dos meus pais. Preciso ser o que eu quero ser, e lutar com o que eu tenho pra poder chegar aonde quero.

Porém não seria fácil. Decidi que amanhã mesmo iria procurar um emprego.

Estava tão cansada que dormi sentada na mesa do quarto, com o lápis ainda na mão. Acordei com Miguel batendo na porta, e me assustei, sabendo que ele não me acordaria no meio da noite pra nada.

Levantei sonolenta, arrumando os cabelos.

  - O que foi? - perguntei, abrindo a porta.  Ele parecia sem graça.

  - Acho que preciso de ajuda.

  - Por quê? 

  - Rafael não para de vomitar e eu... Bem, não sei o que fazer.

Sempre que algum dos dois ficava doente, era minha ajuda que eles pediam. Muitas vezes eu me sentia como uma irmã mais velha.

Fui andando até o quarto e encontrei a porta do banheiro aberta. Peguei o arco de cabelo que estava em cima de estante, e bati na porta.

  - Rafa? Posso entrar?

  Demorei alguns segundos pra receber uma resposta, mas ouvi um "pode" baixo, quase sussurrado.

Entrei com cuidado, tentando não pensar muito no cheiro desagradável que estava no banheiro. Rafael tinha uma cor estranha, apagada, e seus olhos estavam com olheiras. O garoto estava sentado no chão, com o rosto apoiado na beirada do vaso aberto.

  - Rafa, você não deveria deitar aí. - falei, chegando perto devagar e me abaixando do seu lado. Ele me olhou com os olhos lacrimejantes, meio chateado. Tirei seu rosto de lá da forma mais delicada que consegui, então ele se jogou um pouco pro meu lado e eu deixei que deitasse apoiado no meu peito. Coloquei o arco nele, afastando seus cachos do rosto pra caso ele vomitasse novamente.

  - Como você tá? - perguntei, esticando a mão pra dar descarga no vaso. Queria tirá-lo dali e ir pro quarto, mas não quis o apressar. 

  - Enjoado. - ele respondeu, baixo. - Minha garganta dói.

  Miguel estava parado na porta do banheiro, observando, preocupado.

  - Quer água? - perguntei, e ele assentiu. Olhei pra Miguel, que entendeu e saiu, voltando com um copo de água.

 Entreguei pra Rafa, que se sentou e bebeu, com as mãos trêmulas. Assim que terminou, apoiou o copo no chão com força e se debruçou contra o vaso, vomitando.

Coloquei minha mão em suas costas, e olhei pra Miguel, que tinha uma ligeira cara de nojo, misturado com preocupação.

  - Shhh. - falei, acalmando Rafael.

Rafa reclamou, murmurando algo que eu não consegui entender.

Alguns minutos depois, o ajudamos a levantar e, assim que escovou os dentes e trocou a blusa, foi dormir. A cama de Miguel tinha um colchão de puxar embaixo, então dormi lá pra caso Rafa precisasse de mim, mas ele dormiu a noite toda.

Foi uma noite difícil, e as coisas só pioraram ao amanhecer.





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