Quando chegar a hora escrita por Love Whisper


Capítulo 6
Bailarina


Notas iniciais do capítulo

Bom, pelo título vocês já devem ter adivinhado quem narra, não é? Mas, enfim, eu queria muito agradecer a Malet, Victória Laporte, Cavaleira do Vento (vulgo Vitoria) e Malephar pelos comentários INCRIVEIS no último capítulo. VOCES SÃO MARAVILHOSASSS!



Eloá

Depois de pensar, pensar e pensar sobre o que os meninos falaram, decidi que estavam certos. Eu realmente não aguento mais. Não deveria ficar me forçando por outras pessoas. Talvez esse desejo de agradar tenha surgido do ballet, da atenção que aquilo um dia me proporcionou. Mas eu sabia que as coisas seriam diferentes agora. Não era mais uma criança, estava velha para aquilo. Decidi começar aos poucos. Naquele dia, iria faltar a faculdade e ir procurar uma escola de ballet aqui perto. Não sei se vou poder pagar, porque bem capaz dos meus pais pararem de mandar dinheiro se descobrissem que eu vou largar a faculdade, mas eu posso muito bem arrumar um emprego se não tiver aquela maldita faculdade ocupando todo meu tempo. Mas um passo de cada vez.

Era a noite logo depois da noite de filmes, e todos dormiram amontados na sala. Yuri, o amigo de Miguel, estava encostado em Rafael, que passava o braço ao redor do garoto. Conhecendo Rafa, ele provavelmente já estava dormindo quando isso aconteceu e vai levar um belo susto quando acordar. Ninguém tinha colocado nenhum alarme e tivemos sorte que eu acordei cedo. Levantei do sofá com as costas doloridas e Yuri esticou as pernas. Não pude deixar de sorrir, e quase que tirei uma foto, mas deixei pra lá. Acordei Miguel primeiro, depois Yuri e Rafael, que coraram e se afastaram assim que perceberam que estavam agarrados.

O clima estava agradável, pela primeira vez em muito tempo. Esse era o poder da noite de filmes.

Depois de um café preparado por Miguel, cada um tomou seu rumo. E eu fui para a Petit Ouseau. Doeu meu coração ver minha antiga academia novamente. Observei da porta, as mãos tremendo. Será que deveria entrar? Dava tempo de ir embora?

Eu não pisava lá em mais de um ano. Assim que cheguei, encontrei minha antiga professora, Sheila, que foi correndo me abraçar.

—Eloá Lorena, quanto tempo não a vejo!

Sheila foi minha instrutora durante pelo menos 10 anos de minha vida. Era a pessoa que eu mais me sentiria confortável de conversar.

—Sheila, que saudade! Como vão as coisas?

—Bem, bem. Você lembra de Melissa?

Me esforcei pra lembrar.

—A criança loira?

—Bom, não é mais uma criança. A garota é brilhante! Meu novo prodígio, quase me faz esquecer que perdi minha garota de ouro.

Eu soltei um sorriso triste.

—Ah, você não me perdeu...

—Você faz uma falta imensa aqui!

Eu passei a mão no cabelo.

—Sobre isso... eu estava pensando se não poderia voltar.

Ela franziu as sobrancelhas.

—Como assim voltar?

—Sabe, tipo, voltar a fazer aulas aqui.

Ela fez uma expressão triste.

—Ah, meu amor... você sabe que não aceitamos alunas adultas.

—É, mas como eu estive aqui grande parte da minha vida, pensei que talvez vocês pudessem fazer uma exceção?

—Querida, você ficou dois anos fora do ballet. Não são dois meses, eu sei que você entende o quanto dois anos sem praticar pra uma pessoa de vinte e poucos anos é prejudicial. Não podemos te aceitar de volta na turma avançada, seria injusto. E as outras turmas... bom, só tem crianças.

Minha garganta ardia enquanto ela falava. Não tinha mais lugar pra mim ali.

Assenti com a cabeça, com medo de começar a chorar se falasse algo. Queria insistir, refutar, mas eu sabia que era verdade. Eu não era mais uma criança prodígio, era apenas uma adulta não flexível que não lembrava mais como fazer um fouette.

—Eu... eu preciso ir.

Ela abriu a boca pra dizer algo, mas eu já havia pegado minha bolsa e saído pela porta. As lágrimas agora desciam, mas eu me obriguei a respirar fundo e me acalmar. Precisava haver outro jeito.

Pelas apresentações, eu conhecia outras escolas por ali. Escolas pequenas, mas, mesmo assim, pelo visto eram minha única oportunidade. Eu sabia que não poderia recomeçar do topo. Meu orgulho estava ferido, mas a vontade de perseguir meu sonho foi maior.

Voltei em casa, busquei meu carro (que, como lembrei, foi me dado de presente por ter entrado em medicina) e fui até a primeira academia de dança que lembrei, a Dreams&Dance.

Chorei o caminho inteiro, pensando onde eu poderia estar se não tivesse cedido a pressão dos meus pais. Eu poderia estar fazendo coisas incrível, mas lá estava eu, procurando vaga em uma escola pequena que, certamente, não faria grandes coisas por mim. Minhas chances de desenvolver uma carreira eram quase nulas. Mas eu queria dançar, precisava sentir a sensação de ficar na ponta novamente.

Cheguei lá e entrei, com toda minha coragem. Tinha uma sacada grande com o nome da academia e uma foto, e na lateral uma escada. Subi a escada e dei de cara com a recepção.

Olhando ao redor, eu sabia que eles não tinham só aulas de ballet. Nas paredes, fotos dos alunos dançando os mais variados estilos, de dança do ventre a hip hop.

—Bom dia! – falei, sorrindo, tentando manter minha postura apresentável.

—Bom dia. – ela disse, também sorrindo e olhou pra cima, desviando sua atenção dos papéis.

—Eu queria saber como funcionam as aulas de ballet por aqui.

Ela me analisou por uns segundos, e eu pensei que estivesse me julgando, mas então disse:

—Eu conheço você. A bailarina do teatro central.

Não pude deixar de sorrir ao me lembrar daquilo.

—É, eu costumava ser. Eloá Lorena, prazer. – estiquei minha mãe.

—Júlia. – a mulher respondeu. – Eu levei minhas crianças em todas as suas apresentações de Giselle, claro que eu reconheceria esse rosto! O que aconteceu?

—Ah, eu tive que sair. Faculdade, coisas da vida, sabe? Mas, enfim, estava procurando um lugar pra voltar para à dança.

—Que honra! Seria um prazer tê-la aqui. Você pode fazer uma aula experimental hoje, se quiser. Turma avançada, não é?

Eu suspirei, abaixando o olhar.

—Na verdade... vocês têm alguma turma iniciante?

Ela pareceu surpresa. Eu também estava. Talvez fosse a insegurança, ou eu apenas sabia que não era mais a mesma.

—Sim, temas. Mas você...

—Eu passei muito tempo longe das sapatilhas. – me justifiquei. – Só quero ter certeza que minhas bases ainda existem.

—Bom, nesse caso... – ela apontou para uma das salas – uma aula iniciante para adultos está prestes a começar.

Eu concordei, e resolvi fazer a aula. Eu não podia ver a hora de colocar uma sapatilha de ponta novamente, mas, claro, aula iniciante não tinham sapatilhas de ponta. Coloquei a sapatilha que me emprestaram, prendi o cabelo e fui andando até a sala. Lá, haviam pessoas de várias idades, cores e corpos, o que eu não costumava ver na antiga academia.

A professora se apresentou pra mim como Alice, e era a primeira vez que eu havia visto uma professora de ballet negra. Ela colocou uma música leve pra tocar e fomos para a parte mais difícil: o aquecimento.

Tudo em mim doía, iria precisar de muito trabalho pra eu soltar minhas juntas novamente. Mas a outra parte, entretanto, foi consideravelmente fácil.

Plié, plié, grandplié. Primeira posição, terceira e quinta.

Tendu. Foundue.

Eu estava em casa. Realizava aqueles movimentos como se nunca tivesse parado de dançar. No início, me travei um pouco, mas assim que a música começou, repeti a sequência como se fosse parte de mim.

No final, ela passou um treino de piruetas. No ballet, dizem que ou você é muito boa em giros ou em saltos. Na minha melhor época, eu era, com certeza, muito boa em giros.

Foi uma sequência simples, incluindo apenas uma sequência de passé e uma pirueta.

Reparei que a maioria dos alunos não era muito bom naquilo. Não completavam o giro e, quando completavam, a posição não estava certa.

Então, talvez eu tenha sido um pouco esnobe em fazer o que fiz. Mas assim, que a música começou e eu me preparei para a sequência, senti aquele calafrio de quem estava prestes a tentar algo novo.

Alinhei a postura, relaxei os ombros. Fiz a primeira pirueta meio desajeitada, mas a segunda saiu perfeita. Eu lembrava como girar, mesmo que minha força não fosse mais a mesma. É difícil perder tudo quando se passa vinte anos treinando.

A terceira e a quarta pirueta também saíram quase sem esforço, e então a sequência estava quase acabando.

A professora havia dito: na última, façam quantas vocês conseguirem.

Então eu respirei fundo, foquei a cabeça no espelho e girei a primeira vez. E a segunda, terceira e quarta. Reparei que todos estavam olhando. Tentei uma dupla. A primeira saiu desajeitada, mas as duas seguintes foram perfeitas. Todo o tempo que passei dançando sozinha no quarto não me deixou desaprender como se fazia aquilo. Por fim, resolvi testar se eu ainda sabia fazer aquilo, então fiz: um fouette, seguido de uma pirueta tripla.

Não consegui aterrissar na posição certa, mas não cai também. Antigamente, eu fazia 32 fouettes sem pestanejar, mas aquilo era bom o suficiente pra mim no momento.

Eu me sentia viva novamente.

A professora olhava impressionada, e eu não quis ver as expressões dos outros alunos.

—Eloá, aquilo foi incrível. – ela disse, no final da aula. – Há quanto tempo você dança?

Eu abri um sorriso.

—Minha vida toda. Mas eu parei por uns anos, estou enferrujada.

—Você é boa demais pra essa classe. – ela disse, rindo, mas com um tom sério. – Talvez devesse ir pra intermediaria e fazer aulas separadas de alongamento.

—Talvez seja uma boa ideia, muito obrigada.

Voltei pra casa suada, mas vibrando de alegria. Sorri o caminho inteiro, até liguei o rádio e cantei. Fiquei o dia inteiro dançando de meia no quarto, agora que tinha relembrado qual a era sensação. Eu estava numa bolha feliz, onde nenhum problema parecia importar. Nem a faculdade, nem meus pais, nada. Eu só queria dançar.

Mas logo a tarde chegou e minha bolha foi interrompida. Miguel chegou da faculdade explodindo de ódio.

—Não foi ao trabalho? – perguntei, pelo horário. Ainda não tinha escurecido.

—Não. – ele respondeu, sem me dar muita atenção. Andava de um lado para o outro, no meio da sala.

—O que foi?

—Preciso socar algo.

Ele foi andando em direção a parede, mas fui atrás e o segurei.

—A parede não, você vai se machucar!

Ele puxou o braço de mim com força.

—Senta aqui e se acalma. – falei, o arrastando pro sofá.

Ele se inclinou pra frente, respirando forte. Então olhou pra mim e disse:

—Você não vai acreditar no que aconteceu.

—O quê? – perguntei, nervosa. Ele respirou fundo, tentando manter a calma.

—Você lembra daquela garota que eu te disse que transei e sai correndo, a Helena?

—Nem me lembre disso. – murmurei.

Não estava preparada para o que ele iria falar:

—Eloá, ela tá grávida.



Notas finais do capítulo

Galere, desculpa por esse monte de termos de ballet, mas eu achei que deixaria o capítulo mais real. Se vocês quiserem imaginar a cena melhor, tem esse vídeo maravilhoso dessa menina fazendo -vários- fouettes: https://www.youtube.com/watch?v=Jt2dGIfE4Z0 (perto de 0:45). Espero que o coraçãozinho de vocês sobreviva ao final desse cap e ao próximo!



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Quando chegar a hora" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.