Quando chegar a hora escrita por Love Whisper


Capítulo 4
Frustrada




Eloá

As coisas pra mim estavam indo de mal a pior. Se tem uma coisa que eu odeio nesse mundo, esse coisa é a faculdade. Eu sei que posso parecer estar reclamando de nada, mas a verdade é que pra fazer faculdade de medicina e não enlouquecer você precisa gostar. E eu, bom, digamos que fui moralmente obrigada a estar aqui.

Vim de uma família de médicos: minha mãe pediatra, meu pai psiquiatra e minha irmã mais velha cirurgiã. Desde que nasci, eles tem a esperança de mais uma médica na família, me dando estetoscópios e me ensinando coisas antes mesmo que eu pudesse me decidir qual minha cor favorita. Não tinha questionamento, eu iria ser médica.

Tentei de todo jeito fugir. Zoei a prova de propósito. 

 - Eu sinto muito, mãe. - falei. 

 - Não se preocupe, tem ano que vem.

E, no meio tempo, eu poderia aproveitar pra fazer a coisa que eu realmente amava: dançar. Eu não só era boa como ganhava dinheiro com a dança. Aos 20 anos, eu tinha uma carreira estabelecida no ballet.

Comecei a dançar aos 3 anos e, com 5, fiz meu primeiro solo. Pelo vídeo, eu consegui ver que mesmo naquela idade já tinha o controle e a flexibilidade que muitos adultos não tinham e, por isso, chamei atenção da maior companhia do país, a Petit Oiseau e eles me deram uma bolsa de estudos. Foi aí que tudo começou.
Milhares de aulas, apresentações, solos, eu vivi a vida que qualquer criança no mundo da dança poderia querer. Dancei em tudo que é lugar que se pode imaginar e aos 15 consegui um emprego oficial como a bailarina principal de um teatro. Aos 15 anos! Era de se esperar que meus pais estivessem orgulhosos, mas tudo que eles diziam era que eu não poderia me deixar levar.

—Você sabe, dança é uma carreira incerta. Você tem sempre que se lembrar do seu verdadeiro objetivo. – minha mãe dizia.

Eu tentava esconder minha decepção. Estava vivendo meu sonho e, mesmo assim, parecia não ter apoio nenhum.

—Não se preocupe, minha lindinha. Você vai ser uma grande médica algum dia.
Infelizmente, mesmo que meu sucesso na área da dança tenha continuado intacto por belos anos, eles me fizeram tentar a prova para a faculdade de medicina. Falhei de propósito por duas vezes, imaginando que eles deduziriam que eu era simplesmente incapaz e desistissem.

O que aconteceu foi que eles resolveram pagar minha faculdade. E agora, quatro semestres depois, aqui estava eu surtando. A faculdade era integral e a única coisa relativamente boa que tinha trazido pra minha vida foi meu namorado Richard. E mesmo Richard tem se afastado de mim por eu estar uma pilha de nervos recentemente.

Não tinha como não estar, se esforçando para uma coisa que eu odiava. Mal tinha tempo de interagir com os gêmeos. Eles, que costumavam contar tudo pra mim e me ver como uma irmã mais velha. Agora mal sei como estão indo. E, desde que Rosa morreu, eles tem precisado de mim duas vezes mais que o normal, e eu não pude cumprir meu papel de amiga por estar surtando por causa da faculdade. Me sentia culpada e frustrada.

Hoje era o dia do resultado final de anatomia II e eu não estava nada confiante.

—Eu vou me ferrar. – confessei pra Rich.

—Vai nada. Não é? – ele disse, olhando pra Luana, nossa amiga, que concordou.

Mas a verdade é que no dia da prova minha cabeça estava em outro lugar. Minha cabeça sempre estava em outro lugar.

Dito e feito: reprovada em anatomia II, uma das matérias mais fáceis.

Eu segurava o papel da reprovação na minha mão, enquanto Richard falava algo comigo.

—Eloá Lorena. – ele disse, o que chamou minha atenção. Raramente me chamava pelos dois nomes. – Você tá me ouvindo?

—Tô, claro. – respondi, desinteressada.

Ele balançou a cabeça, com raiva e parou de falar. Meu coração se apertou, sabendo que eu tinha vacilado. Mas no momento só conseguia pensar na reprovação, e em Miguel, que eu tinha deixado em casa de ressaca e mal pude ligar para ele durante o dia.

Depois Rich virou pra mim novamente e disse, com uma voz chateada:

—Vamos pra minha casa hoje?

—Ai, amor, hoje eu não sei se posso. Rafael estava passando mal de manhã e Miguel estava de ressaca, eu queria ver como eles estão.

—Que merda, Eloá! – ele explodiu. – Para de agir como se fosse a porra da irmã deles ou coisa assim! Você mal dá atenção pra mim nos últimos dias.
Fiquei levemente ofendida, mas respirei fundo.

—Eu... me desculpa. As coisas tão difíceis lá em casa, okay? E eu to levando bomba aqui na faculdade, você sabe. Só ta tudo meio ruim, me desculpa.

Eu sentia que ia começar a chorar ali mesmo, no meio da aula. O sinal tocou.
Eu esperava algum tipo de conforto, mas tudo que Rich fez foi dar de ombros e murmurar:

—Você tá muito diferente de quando eu te conheci. É sério, eu... – ele apertou os olhos pretos – Eu mal te conheço mais.
Meus olhos se encheram de lágrimas. A sala estava começando a ficar vazia.

—O que isso quer dizer?

—Quer dizer que eu não sei se quero continuar esse relacionamento.

Eu queria dizer que fiquei surpresa, mas não fiquei. Nos últimos meses, ele vinha dando sinais de que iria fazer isso a qualquer momento. E ameaçava me deixar em todas as brigas, mas era primeira vez que ele tinha falado isso numa discussão leve.

Parei pra pensar, e simplesmente não tinha forças pra discutir, como tinha feito nas últimas vezes.

—Quer saber? Então dane-se. – falei, as sobrancelhas arqueadas em determinação, mas os olhos cheios de lágrimas.

Ele pareceu uma mistura de magoado e ofendido, mas eu estava cansada de convencê-lo que não deveria terminar comigo. Se quisesse, que terminasse.

—Então é isso, Eloá Lorena.

O deixei ir embora, e ele não olhou para trás. Apenas foi.
Era a última aula do dia, e eu fui o caminho inteiro pensando em nosso relacionamento.
 

Conheci Richard no início da faculdade, e, é verdade que talvez eu fosse uma pessoa um pouco diferente do que era agora. Mas dois anos se passaram e as pessoas mudam. Eu gostaria de poder dizer que minha mudança foi pra melhor, mas eu sabia que não era.

O que mais me irritava foi a coragem de Richard de simplesmente acabar tudo. Ele sempre foi muito audacioso, mas eu não imaginava que fosse usar isso pra terminar comigo. E um término tão seco para um relacionamento de dois anos! Eu queria esganá-lo.

Mas tudo que fiz foi ir chorando no ônibus e atraindo olharesolhares nada agradáveis.

Quando cheguei em casa, tentei esconder que estava chorando, mas as lágrimas não paravam de vir. Miguel e Rafael estavam sentados no sofá e minha visão estava tão embaçada que, se não fosse pelas gordurinhas proeminente de Rafa, eu não conseguiria reconhece-los.

—E aí? – falei, fungando e limpando o rosto. – Rafa, você tá melhor?

—Meu deus, você tava chorando? – ele falou, se levantando.

—O que aconteceu?

Eu fui andando até o sofá e sentei, e os dois sentaram um de cada lado.
Respirei fundo e disse:

—Richard terminou comigo.

—Eu vou quebrar a cara daquele filho da puta. – foi a reação de Miguel.

—Não, tá tudo bem. Ele disse que eu não sou a mesma de antes, e ele tem razão. Não tem?

Os dois fizeram silêncio e meu choro aumentou.

—Eu não sei o que fazer... – falei, fazendo um som estridente. – Aquela faculdade tá me destruindo! Eu não aguento mais!

—Eloá... – Miguel falou, enquanto Rafa só observava com seu jeito calado – você não pode realizar os sonhos das outras pessoas por elas. Você nunca quis isso.

—Eu sinto falta de você dançando. – Rafael falou. 

—Eu também. – Miguel concordou. – Você costumava ser uma pessoa alegre e extrovertida. Você era a alegria dessa casa, Loren. E agora, o que aconteceu com você? Vê como você está frustrada e exausta?

Eu odiava a sinceridade dele.

Rafael completou:

—Mas a gente te ama mesmo assim. O problema é que é muito ruim te ver fazendo isso consigo mesma.

—Eu odeio aquela faculdade! – explodi. – Eu não ligo mais, eu quero sair.

—Eu não sou a pessoa certa pra te dizeri sso – Miguel falou, cauteloso – mas eu acho que você deveria seguir seus sonhos. 

—Tipo, sair da faculdade?

—É. Acho que tem umas horas que você simplesmente precisa ser mais impulsiva.

—E a gente tá aqui pra te apoiar.
Eu apoiei meu rosto nas mãos.

—Promete que vocês não vão me deixar que nem o Rich fez.
Miguel passou o braço pelo meu ombro.

—Claro que não vamos. Além de você morar com a gente, o que torna quase impossível da gente te deixar, você sabe que é a irmã que nunca tivemos.

Rafael encostou a cabeça no meu ombro.

—Irmãos não se abandonam.

Eu não pude evitar de me sentir sortuda, com duas pessoas que me apoiavam daquele jeito. Mas as coisas ainda pareciam péssimas, então assisti um pouco de TV com eles e fui para o quarto.
Não pude deixar de chorar mais um pouco, mas uma pergunta havia se instalado em mim. E se eu fosse realmente voltar para a dança?
Comecei a considerar realmente aquilo. Afinal, era meu sonho.
Foi uma noite longa, eu tinha muito pra pensar.





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