Quando chegar a hora escrita por Love Whisper


Capítulo 2
Luto




Miguel

É verdade quando dizem que não estamos preparados para a morte. Como estudante de filosofia, estudei e li sobre a morte milhares de vezes, e me considerava preparado para um eventual desastre. Talvez eu seja prepotente, mas acredito que estou preparado para muitas coisas. A morte de Rosa, entretanto, não é uma delas.

Eu e Rafael fomos adotados aos 11 anos. A esse ponto, já havíamos aceitado nosso destino, éramos as crianças menos adotáveis do mundo: irmãos, negros e quase pré-adolescentes. Além do mais, nunca fomos lá os indivíduos mais carismáticos do mundo.  Quer dizer, eu sempre tive minha inteligência e Rafael sempre teve seu dom musical, mas juntando as personalidades dos dois, tínhamos um total de 0 habilidades comunicativas com pessoas. É de se esperar que viver 10 anos num orfanato te deixe esperto ou coisa assim, mas a verdade é que só me deixou frustrado e violento. E tornou Rafael o cara mais calado que eu conheço. Com a idade que tínhamos, nossos traumas já cultivados e nosso destino trágico já planejado a nossa frente, nunca esperaríamos uma eventual adoção. Não até Rosa aparecer.

Ela sabia exatamente como conversar com a gente, com paciência, se aproximando devagar, como se ele fosse um gato assustado que poderia fugir a qualquer momento. Mesmo que nosso primeiro encontro tenha sido um pouco desastroso.

—Eu posso te dar um abraço? – ela perguntou a Rafa, que se escondia atrás de mim.

—Ele não gosta de abraços. – falei, sendo o porta-voz dos dois, como sempre.

—E você?

Eu abaixei o rosto, fazendo uma careta. Sempre fomos bem baixinhos, então as pessoas nos tratavam como dois bebês, e não é exatamente a forma que uma criança de 11 anos que acha que já é grande quer ser tratada.

—Vocês gostam do quê, então? – perguntou. Ela fazia questão de olhar para um e depois para outro, distribuindo a atenção igualmente entre os dois.

Eu pensei um pouco, considerando se deveria ou não ser gentil com aquela mulher que demonstrava um interesse incomum na gente.  

Dei de ombros.

—Livros.

—Qual livro você gosta?

—Harry Potter.

E então fui andando até uma mesa e sentei, com Rafa em pé do meu lado, ainda se escondendo.

—Eu amo Harry Potter! -ela disse, animada - É Miguel, né?
Balancei a cabeça positivamente.

—E seu irmão, gosta do que?

—Música.

—Que tipo de música você gosta, anjinho? – falou, encostando a mão no braço de Rafael. Tudo estava indo bem, até que ele se sacudiu, tirando a mão dela de si e começou a chorar. Odiava ser tocado e odiava interagir com pessoas, em geral. Tudo estava bem enquanto ele estava escondido atrás de mim.

—Merda, Rafael! – gritei. – Será que dá pra você não fazer isso pelo menos por uma vez?

Depois da mesma cena se repetir milhões de vezes, eu estava cansado. E com raiva, nunca soube controlar minha raiva. Empurrei meu irmão para longe, com força e ele tropeçou e caiu no chão. Na minha cabeça, naquele ponto Rosa já havia certamente ficado com medo de nós. Rafael chorou mais forte ainda e reparei que ele fez xixi na calça.

—Você tem 11 anos já, garoto! – gritei.

Duas funcionárias aparecerem e começaram a brigar com nós dois, mas principalmente comigo. Me colocaram no meu antigo conhecido, o cantinho do castigo e levaram Rafa pra tomar banho. Foi quando Rosa apareceu e sentou do meu lado.

—O quê? – perguntei, defensivo.

—Você não deveria agir assim com seu irmão. - ela disse. Tinha um olhar firme, mas não estava me julgando. Eu queria dizer “você não me conhece” e “sai daqui!”, mas apenas murmurei:

—Ele sempre estraga tudo.

Ela foi uma das primeiras pessoas a ir atrás de mim depois de um de meus surtos de raiva, e eu estava comovido, ao mesmo tempo que envergonhado.

—Eu tenho um irmão também. E às vezes eu me irrito com ele, mas ele é meu irmão, então eu relevo. Tenho certeza que Rafael não faz por mal.

Abaixei a cabeça.

—Eu sei.

—Tenho certeza que você não fez por mal também.

Meus olhos se encheram de lágrimas e eu concordei com a cabeça. A olhei e ela sorriu, seus olhos pretos e grandes, como os meus. Raramente eu via pessoas que se pareciam comigo vindo aqui visitar o orfanato. As que eu conhecia, estavam aqui também, esperando eternamente serem adotados.

Naquele dia, apesar do desastre total, ela conquistou um pouco da minha confiança. E logo depois foi comigo me levar até Rafa pra eu ir pedir desculpas, e aquele gesto foi o suficiente pra fazer ele ficar menos aterrorizado perto dela, mas ela não o tocou ou chegou perto demais a ponto de assustá-lo novamente. Rosa agiu como uma mãe desde a primeira vez que nos viu, mesmo antes de ser oficialmente nossa mãe.  

Quando foi embora, eu tive medo que nunca mais voltasse.

Mas ela voltou e, antes que percebêssemos, estávamos passando o final de semana em sua casa, com seus gatos e seu marido que, mesmo distante, era legal.

No dia que ela nos adotou legalmente, me deu um livro do Harry Potter de presente, já que eu estava triste por não poder levar o que tínhamos lá. Deu para Rafael um filhote de gato, e recebeu de volta um abraço. Se eu tivesse que descrever, aquele foi o momento que percebi que eu tinha uma família. Não teríamos mais que enfrentar o mundo sozinhos.

Ela nos acolheu e ficou do nosso lado, mesmo quando seu marido mudou de ideia e quis nos devolver. Ela brigou por nós. Nos deu uma casa e um futuro, e tudo de bom que poderia dar. E por isso era tão difícil aceitar que agora, depois de apenas 12 anos, ela tinha morrido.

As memórias corriam soltas pela minha cabeça durante seu funeral, sentado naquele banquinho de igreja. Era um pouco estranho, porque ela nunca foi religiosa, mas como sua família era, lá estávamos. Nossos tios se reuniam e contavam histórias sobre como ela era bondosa e amável e generosa, e não havia hipocrisia naquelas palavras. Rosa dos Santos foi, realmente, um ser humano admirável.
Na sua lápide, ficou escrito:
“Para uma mente bem estruturada, a morte é apenas a aventura seguinte.”

Uma frase de Alvo Dumbledore, referência a Harry Potter, que ela leu para nós tantas vezes antes de dormir.

Rafael se apoiava no meu ombro enquanto eu chorava. Eu queria falar para ele tanta coisa: queria desabafar, relembrar, tirar aquelas memórias da minha mente e do meu peito. Mas simplesmente não conseguia fazer nada além de apoiar a cabeça nas mãos e chorar.

Muitas pessoas vieram falar com a gente, nos consolar e Eloá não parava de perguntar se queríamos alguma coisa. Mas nenhum consolo era o suficiente para suprir a falta que nossa mãe faria.

Em casa, Eloá estava nos esperando. Tínhamos nos mudado para morar os três na mesma casa há, mais ou menos uns 3 anos, e nunca houve um clima mais pesado que aquela noite.

—Rafa? – Eloá chamou, os três sentados no sofá em silêncio. – Não quer tocar algo pra gente não?

Era a forma dela de o incentivar a fazer algo. Além do mais, a música de Rafael geralmente era sua forma de se consolar, e nos consolar também.

Mas ele não quis. Ficou dois meses sem nem encostar no piano. E eu comecei a faltar as aulas da faculdade. Tudo estava desmoronando, e Eloá era quem estava tentando manter tudo de pé, mas nem mesmo o cuidado da garota foi capaz de manter as coisas estáveis.

Naquela casa, não havia mais música, ou filosofia ou beleza.

Só havia luto.



Notas finais do capítulo

Nesse cap podemos ver um pouco da infância dos meninos. O que estão achando até agora? Ah, e muuuuito obrigada pelos comentarios no ultimo capitulo!!



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