Quando chegar a hora escrita por Love Whisper


Capítulo 15
Exceção


Notas iniciais do capítulo

E aí, meus nenéns. Eu não consegui pegar o computador por enquanto, por isso não respondi os comentários do ultimo capítulo ainda, mas devo responder hoje mesmo mais tarde ou amanhã.

Poderia esperar até dar meia noite pra postar o cap e fingir que foi sábado direitinho, mas a essa altura, vocês já sabem que eu to sempre ou adiantando ou atrasando o capitulo. Espero que vocês gostem do capítulo de hoje!



Rafael

Minha cabeça parecia que ia explodir de tantas coisas para se preocupar num intervalo muito pequeno de tempo. Precisava pensar em como contaria pro Yuri das novidades péssimas.

 “Ei, não tava te respondendo porque descobri que tenho leucemia e posso morrer. Mas, enfim, vamos assistir um filme?”

Ou eu poderia tentar contar num tom mais sério, o que provavelmente levaria a um desabafo e não é uma boa ideia eu começar a chorar no segundo encontro. Não sei qual das opções me assusta mais. No final, o que me dá medo de verdade é a reação dele. Não quero que ele me veja como inferior e também não quero me olhe com pena, mas, ao mesmo tempo, sei que talvez ele não vá querer continuar saindo comigo. Essa opção faz o olhar de pena parecer aceitável.  Yuri é uma pessoa agradável e eu quero continuar vendo ele, também não quero ter que parar minha vida. Talvez a expectativa de viver uma vida normal mais um pouquinho seja irreal. Não sei.

E também não conseguia esquecer o fato de que, no dia seguinte ao encontro, a quimio começaria. Doutora Lilian tentou tirar minhas dúvidas da melhor forma possível. Explicou-me que seria administrada em ciclos e que aquele primeiro ciclo ia durar, mais ou menos, um mês. Me senti egoísta, mas a primeira coisa que perguntei foi se meus cabelos iriam cair. Apesar de ser a pessoa mais desleixada do mundo, eu amava meus cachos.

—Como eu expliquei, a quimio não afeta somente as células cancerígenas, mas as saudáveis também. Como as do cabelo e da sobrancelha.

—Meu Deus, eu vou ficar horroroso – murmurei.

—As perucas são uma opção muito utilizada por pacientes que passam pela quimioterapia.

Suspirei, chateado.

—Tem mais algumas mudanças que você pode esperar também, - ela continuou - mas tudo depende de como seu corpo vai reagir. Vamos tentar diminuir os efeitos colaterais o máximo possível com medicamentos secundários, mas é importante que você saiba o que pode acontecer. Você vai poder me contar como seu corpo tá reagindo nas consultas semanais e aí a gente faz o possível pra amenizar e te ajudar a lidar com tudo isso. Tudo bem?

Ela tinha um tom gentil, mas eu me sentia horrível mesmo assim.

—Aham.

—Qualquer dúvida, você pergunta as enfermeiras que estiverem administrando a quimioterapia em você e tenho certeza que elas vão ser muito gentis.

Assenti com a cabeça, tentando passar a imagem de que estava tranquilo, mas as preocupações não saíram da minha cabeça desde aquele dia. Eu estava tentando evitar pensar sobre, e adiar o máximo possível, mas agora faltava apenas um dia e parecia que toda aquela ansiedade estava me engolindo.

Miguel e Eloá tentavam me distrair antes do encontro com Yuri, mas não estava adiantando.

—Acho que não vou – falei pra Miguel, pegando o celular. – Vou mandar mensagem pra Yuri.

—Não, não! – Miguel disse. – Você vai sim.

Eloá riu do tom agressivo de Miguel, mas eu não consegui esconder minha chateação.

—Não é pra ficar bravinho – ele se retratou. – Você não pode deixar de fazer as coisas, Rafa, foi isso que eu quis dizer.

Respirei fundo.

—Eu tô bastante nervoso por causa de amanhã, medo de estragar tudo – admiti, baixo.

—Se você estragar tudo – Eloá interrompeu – o que não vai acontecer, eu tenho certeza que Yuri vai entender. Você tá sofrendo por algo que nem começou ainda.

—Eu sei, mas... Argh! Eu não quero ir.

—Se você realmente não quiser, não tem problema – ela me consolou. -  Mas Yuri vai ficar magoado, já ta quase na hora. E eu acho que você quer ir.

—Eu só não quero ter que contar pra ele o que tá acontecendo.

—Conta no final do encontro. Vai lá, se diverte com ele e, se você se sentir a vontade, você conta. São quatro horas já, você vai se atrasar – ela me apressou.

Respirei fundo, tentando acalmar a ansiedade que estava se acumulando em mim.

—Toma um banho, se acalma e vai se arrumar – Miguel disse.

 Então obedeci aos conselhos, e fui me arrumar. Aproveitei o banho pra respirar fundo e me lembrar de viver o momento. Eu precisava aproveitar cada oportunidade que tinha. Talvez só o fato de ter leucemia devesse ter gerado em mim uma epifania de “eu preciso aproveitar mais a vida”, mas a verdade é que todos esses impulsos eram convertidos em medo. Medo e frustração. Mas, enquanto tomava banho, respirei fundo diversas vezes e tentei manter minha ansiedade sob controle.

Eu e Yuri vamos para o cinema. Confesso que não sou muito fã de encontros em locais públicos, cheios de pessoas e interações sociais e infinitas possibilidades e maneiras de eu passar vergonha. Mas assumi que, estando com Yuri, eu estaria seguro. Não sei exatamente o quê nele que me passa essa segurança, mas, quando estou com ele, me sinto protegido. Talvez por ele ser fisicamente maior que eu e carregar consigo o sorriso confiante de quem conseguiria lidar com qualquer coisa no mundo, não sei. Era esquisito me sentir confortável perto de qualquer outra pessoa que não fosse Miguel ou Eloá, mas eu estava gostando da experiência. Conversávamos por mensagem o dia inteiro como dois adolescentes apaixonados, o que me deixava extremamente feliz. Mas eu ainda tinha que explicar muita coisa pra ele, e essa era a parte difícil. Tentei focar no quanto eu queria vê-lo e o quanto não queria o magoar, e só assim consegui ir.

Coloquei minha blusa azul e um casaco por cima, e então, pela primeira vez em muito tempo, arrumei meu cabelo. Olhei bem no espelho, observando os cachos grossos e cheios que emolduravam meu rosto, temendo que aquela fosse a última vez que eu os visse assim. Passei perfume e então peguei o celular pra olhar a hora. 17h30min. Estava atrasado! Combinamos de nos encontrar lá 17 horas, e eu precisava de 15 minutos pra chegar ao shopping. Olhei o celular e me deparei com três mensagens de Yuri.

Cadê você?

Você vem?

Me dá um sinal de vida!

—Merda! – falei. Estava tão nervoso que apertei o botão de ligar, demorei uns dois segundos pra processar que era inútil ligar pra uma pessoa surda. A vontade era de abrir um buraco até o centro da terra, me enfiar dentro e fingir que nunca existi.

Voltei para as mensagens e mandei:

Você ainda tá aí?

Eu to chegando.

Ao que ele respondeu um simples:

Sim, to aqui.

 

Nunca quis tanto saber dirigir pra poder pegar o carro e chegar lá mais rápido. Implorei pra Miguel me levar, mas ele empurrou pra Eloá, que empurrou pra ele de volta. Me irritei com os dois e fui de ônibus mesmo. Yuri disse que estava me esperando na praça de alimentação, então fui (quase literalmente) correndo até lá.

Encontrei um Yuri com um olhar cansado, o cabelo ondulado caindo no olho. Ao me ver vindo ao longe, ele levantou devagar, alongou os ombros e ajeitou o cabelo. Fiquei envergonhado com quão bonito ele era.

Pensei que fosse encontrá-lo furioso, mas ele parecia mais aliviado do que tudo. Abriu um pequeno sorriso e, assim que cheguei perto, me envolveu num abraço apertado. Aquilo tinha tudo pra ser desconfortável pra mim, mas Yuri me segurava com tanto carinho e afeição que eu não pude deixar de relaxar, quebrando todo o estresse que eu vim.

—Eu senti saudades – ele falou, baixo, enfiando o rosto no meu cabelo.

Aproveitei o abraço quentinho de Yuri por mais alguns segundos, então nos afastamos e sentamos na mesa.

—Me desculpa pelo atraso – falei, envergonhado.

Ele abriu um sorriso brincalhão.

—Você gosta de me fazer esperar, não é?

Yuri apoiou o queixo no braço e afastou o cabelo dos olhos com um gesto quase imperceptível. Eu poderia observá-lo pelo tempo que fosse sem me cansar.

—Você é... – comecei, mas travei, a vergonha me atingindo. Ele soltou uma gargalhada, parecendo achar minha timidez a coisa mais engraçada do mundo.

—O quê?

Olhei pra baixo, mas tomei o cuidado de não abaixar o rosto.

—Você é muito bonito – murmurei.

A risada dessa vez foi um pouco mais tímida. Yuri estava sempre rindo,  parecia genuinamente feliz. Esticou a mão em cima da mesa e me olhou, como se pedisse pra segurar minha mão. Tentei projetar o máximo de confiança possível enquanto entrelaçava minha mão à dele.

Yuri balançou a cabeça, como se negasse algo.

—Ai, ai, Rafa. Eu não consigo ficar bravo com você, sinceramente.

Soltei uma risada tímida.

—Para de me deixar com vergonha, por favor.

—E você para de me irritar e depois aparecer com essa carinha linda, por favor. Assim você não colabora comigo – ele fez uma pausa, se distraindo por uns segundos e olhando para o lado. Seus ombros ficaram tensos e eu reparei que ele involuntariamente mordeu o lábio de nervosismo.

Balancei a mão pra chamar sua atenção.

—O que foi? – perguntei.

—Uns caras da faculdade – ele disse, depois corrigiu. - Uns caras não muito legais da faculdade.

Demorei uns segundos, mas quando olhei para os garotos, devagar, entendi: eles estavam rindo da gente. Abaixei o olhar, tentando soltar a mão de Yuri aos poucos. Ele apertou minha mão, delicadamente.

—Não precisa, eles são uns idiotas. Vamos comprar o ingresso? – falou, se preparando pra levantar. – Agora é torcer pra ter algum filme com legenda. Se não, eu não consigo ver.

Fomos andando de mãos dadas até a bilheteria, ignorando alguns olhares esquisitos que recebíamos. Os únicos filmes legendados que achamos eram os com o áudio em inglês, que eu odiava, mas claro que minha frescura com áudio original não se comparava com o fato dele ser surdo, então não ousei reclamar.

—Eu queria muito que eles legendassem desenho – Yuri reclamou, quando tivemos que comprar os ingressos pra um filme de terror. – Eu não quero ver Escape Room, eu quero ver Como Treinar Seu Dragão! – ele parecia uma criança adorável, fazendo biquinho e resmungando.

—Acessibilidade nota 10 – respondi, dando de ombros.

—Bem vindo ao meu mundo. Sabe, eu to reclamando, mas eu sou adulto. Imagina uma criança surda, que não pode ver o que tem no cinema porque não querem colocar uma porcaria duma legenda.

Concordei com a cabeça, tentando imaginar uma realidade muito diferente da minha. Sentamos em uma das mesas, esperando dar o horário.

—Por isso que – ele continuou – eu quero criar uma animação pra crianças surdas. Talvez uma completamente visual, ou até em libras! Imagina uma animação toda em libras! Isso seria incrível.

Eu conseguia ver o brilho em seus olhos e sentir sua empolgação ao falar. Não pude deixar de sorrir.

—Seria. Até lá, eu já aprendi libras. Aí você me chama pra assistir, quando conseguir.

Ele franziu o nariz, fazendo um sorriso misturado com uma careta.

—Você é adorável.

Conversamos por, mais ou menos, uma hora, até que fomos pra fila da sala do cinema.

—Você percebe que vai ta incomunicável comigo lá dentro, né? – ele avisou. – É impossível de te entender no escuro.

—Tudo bem. A gente presta atenção no filme.

Ele passou a mão pela minha cintura, delicadamente.

—Ou faz outras coisas.

—Yuri!

Enfiei minha cara em seu peito, com vergonha e consegui ouvir sua risada alta.

Não entendi muito bem como desenvolvemos essa intimidade do toque físico, mas estava lá e eu gostava. Fomos andando de mãos dadas até a última fileira, e sentamos bem separados.

Ele encostou a mão no meu braço, devagar, e inclinou a cabeça pra perto de mim.

—Um segredo que eu vou te contar agora porque você não pode responder – sussurrou. – Eu tenho medo de escuro. – eu soltei uma risada, e a luz dos trailers foi o suficiente pra que ele me visse rindo. – Para de rir, é sério. – falou, mas com um sorriso contraditório.

—Ok. – falei, torcendo pra ele entender.

Yuri levantou o encosto do braço na cadeira e encostou seu corpo no meu. Olhando pra sua postura, eu conseguia ver que ele realmente estava com medo. Pra melhorar, o filme era de terror.

Prestamos atenção na primeira metade do filme, Yuri encostado no meu ombro e agarrando minha blusa a cada susto. Eu ri o filme inteiro das reações dele, se encolhendo e tensionando os músculos como uma criança assustada.

Quando comecei a ficar entediado, coloquei minha mão no rosto de Yuri devagar e o virei. Ele olhou bem em meus olhos, seus ombros relaxando aos poucos enquanto seu foco mudava do filme pra mim. Sorri, tentando o dizer, sem palavras, que eu estava ali e que não precisava ter medo. Que eu gostava muito dele e queria o proteger de tudo. Tentei dizer tudo isso a ele com meus olhos e meus toques, acariciando seu rosto de leve e olhando profundamente em seus olhos verdes.

Um leve sorriso se abriu, e eu não pude deixar de reparar que ele também me olhava como se quisesse me dar o mundo. Encostamos as testas e eu o beijei. Geralmente, odiava tomar a atitude, mas precisava mostrar pra Yuri que eu o queria tanto quanto ele me queria.

Aquele beijo foi diferente do primeiro, foi mais confiante, mais íntimo. Estávamos nos acostumando um com o estilo do outro, e eu já não tinha mais receio. Estava certo do que eu queria e quem eu queria.

O resto do dia foi igualmente adorável e leve. Conversamos sobre tudo e eu estava tão feliz que não ousei tocar no assunto “leucemia”. Na verdade, me permiti até esquecer o assunto um pouco. Toda vez que eu achava uma brecha pra falar, o medo batia e eu ignorava. O clima estava tão feliz e leve que eu só queria curtir aquele momento, aquele dia.

Sempre achei que precisava mais viver o momento, mas sempre me preocupei muito com o que vinha pela frente e sofri por antecedência. Mas, naquela noite, mesmo que um futuro difícil me esperasse, me permiti viver cada segundo, só eu e Yuri, como se nada de ruim pudesse nos afetar.





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Quando chegar a hora" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.