Quando chegar a hora escrita por Love Whisper


Capítulo 14
Stalker


Notas iniciais do capítulo

Meu deus, eu realmente não sei ser pontual. Ou posto depois do dia certo ou antes sjasljs O lado bom é que dessa vez foi antes! Gente, deixa eu compartilhar aqui com vocês: A HISTORIA CHEGOU A 90 COMENTARIOS AAAAA, eu só tenho a agradeer a vocês que tão comentando e me fazendo a autora mais feliz desse site. Muito obrigada!
Espero que gostem do capítulo de hoje.



Eloá

Era a última noite de Rafael no hospital e eu estava deitada no sofá, exausta. Fazia um tempo que eu não sabia o que era dormir uma noite inteira. Nos primeiros dias, Rafael mal dormia por causa da dor, e eu ficava acordada fazendo companhia pra ele. O garoto só dormia depois que o sedavam, e aí eu conseguia descansar. Agora, com ele melhorando, os sedativos não eram mais necessários, o que, de primeira, parecia ser uma boa ideia. Mas aí os pesadelos começaram. Rafael se remexia na cama, suando e falando coisas sem sentido, que pareciam tristes e assustadas. Eu ficava observando, esperando ele acordar assustado,  como sempre fazia. Passávamos a noite toda nesse ciclo e nenhum dos dois dormia direito. Talvez em casa, na sua própria cama, ele volte a dormir bem. Eu mal podia esperar pra voltar a minha cama também.

Mas voltar a rotina significava voltar a procurar um emprego, e voltar a me decepcionar com as rejeições. Uma mulher de 20 e poucos que nunca trabalhou, digamos que meu currículo não seja lá a coisa mais desejável do mundo. Era meio estranha pra mim a ideia de trabalhar pra me sustentar, mas, quando pensava no meu sonho, eu sabia que valeria a pena. Precisava correr atrás do tempo perdido.

Conversando com uma colega no telefone, eu mal percebi Rafael acordando. Quando vi, ele me encarava, os olhos cansados e os cachos castanho muito embolados  caindo no rosto. Olhei a hora, 3:34.

O observei, esperando que ele dissesse algo, mas Rafa sentou devagar e ficou em silêncio no seu próprio mundo.

—Bom dia – brinquei.

Ele deu um leve sorriso, ainda afetado.

—Bom dia – falou, esfregando os olhos.

—Pesadelos de novo?

Rafa respirou fundo e balançou a cabeça positivamente, passando a mão pelos cabelo bagunçado.

—É, eu ouvi – afirmei – Você tá bem?

Rafael se perdeu em seus próprios pensamentos e deixou minha pergunta não respondi. Fui andando até a cama do garoto, o empurrei um pouco pro lado devagar e sentei, encostando a cabeça em seu ombro.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, o tipo de silêncio típico de Rafael: cheio de palavras não ditas.

Ele nunca me contava sobre o que eram os sonhos ou falava muito sobre. O conhecendo, eu sabia que não fazia por mal. Apenas fiz o que poderia fazer, que era estar ali.

Como se lesse meus pensamentos, Rafa murmurou, de repente:

—Obrigado.

Me olhou e sorriu adoravelmente, os olhos escuros se fechando um pouco.

—Pelo quê? – perguntei, confusa com o agradecimento repentino.

—Por sempre ter cuidado de mim.

Eu sorri, como uma mãe orgulhosa.

Quando conheci Rafael, tínhamos apenas 12 anos.

—Você lembra de quando a gente se conheceu? – perguntei, nostálgica.

Ele soltou uma risada, e eu ri junto lembrando do momento.

—Como esquecer? Você jogou um estojo em mim!

—Eu pensei que fosse o Miguel! – me justifiquei, pela milésima vez.

Eles eram novos na escola, e Miguel acidentalmente esbarrou em mim e me fez passar vergonha no primeiro dia. Como vingança, eu joguei um estojo nele. Só que mirei no gêmeo errado. Nossos pais foram chamados a diretoria por causa da “briga” e, sendo o amor que Rosa era, fizeram amizade. Então, apesar do desgosto inicial, fomos se apegando e acabamos crescendo juntos.

—Você demorou anos pra nos reconhecer – Rafa lembrou.

—Por que você acha que eu dei de presente as pulseiras?

Quando ficamos amigos, eu os presenteei com pulseiras de cores diferentes. A de Rafael era azul e a de Miguel verde claro. Brinquei com a pulseira de Rafa, que ele usa até hoje.

Ele bocejou, cansado, e eu passei meu braço ao seu redor, deixando ele encostar a cabeça em meu ombro. Rafael se aconchegou e fechou os olhos. Deixei que ele dormisse ali, mesmo que meu braço implorasse por socorro. Acabei dormindo também, e acordei com o braço dormente, mas feliz. Tinha conseguido dormir direito, finalmente, e, pelo que parecia pelo sono tranquilo de Rafael, não haviam pesadelos daquela vez.  Tive que ir embora pela manhã para ir a aula, deixando Rafael sozinho enquanto Miguel não chegava, à tarde, mas Rafa raramente acordava antes de meio dia.

Eu odiava a turma de ballet iniciante, mas sabia que era necessária. Minha coordenação e flexibilidade se restauraram facilmente, mas eu ainda não tinha força o suficiente pra executar muitos dos passos. Horas de treinamento em casa me deixaram evoluir rápido e eu era, de longe, a melhor da turma. Fui uma bailarina profissional, afinal. Pensando sobre, talvez fosse a hora de ir pra turma intermediária.

Fui de ônibus, deixando o carro para os meninos, e estava assustada com a ideia de mencionar mudar de classe com Julia, a dona do estúdio. E se eu não estiver preparada? O medo gritava em mim, mas eu me obriguei a falar mais alto que ele.

Cheguei lá em cima do horário, e as bailarinas se alongavam na sala. Sorri pra Laura, uma mulher de meia idade com dois filhos que não pensou duas vezes em me acolher. E então fui andando até Julia, na recepção, que abriu um sorriso imenso ao me ver, com o jeito animado que só ela tinha.

—Eloá! Eu tava doida pra falar com você!

Ela saiu de trás do balcão, animada, e foi andando comigo até o sofá mais próximo. Fiquei um pouco assustada, esperando minha deixa pra comentar sobre as turmas.

—Hã... Julia, eu tava querendo falar com você também.

Ela cruzou os braços no colo.

—Ah, pode falar.

—Então... eu sei que acabei de entrar, mas eu queria ir pra turma intermediária. Se você achar que é cedo demais ou que é muito avançado pra mim me avisa, por favor.

Ela pareceu receptiva à ideia.

—Claro que não! Acho que foi bom esse mês no iniciante pra relembrar, mas já estava na hora. Sua professora estava conversando comigo sobre isso esses dias, mas eu disse pra esperar até você achar que estava pronta.

Eu segurei um sorriso, me sentindo realizada comigo mesma.

—Ah, que bom!

—Eu vou te passar o horário das aulas. Mas, voltando ao que eu queria falar... as crianças estão sem uma professora de ballet e você mencionou que está procurando emprego, um dia desses.

A olhei, confusa.

—Sim – falei, esperando a continuação.

—Eu acho que seria beneficente para nós duas se você desse aula pra elas.

Fiquei absurdamente feliz ao ouvir as palavras, mas não tinha como não duvidar da minha capacidade de fazer aquilo. Talvez ela tenha percebi no meu rosto, porque continuou:

—Eu sei que você passou alguns anos afastada, mas, apesar de sua flexibilidade e força não serem as mesmas, sua técnica ainda é impecável. Você está evoluindo muito rápido e eu tenho certeza que as crianças não vão exigir muito de você. Você só precisa ensiná-las o básico e prepará-las. E eu sei que você dava aulas no Teatro Central. Uma ótima aula, aliás.

Respirei fundo. Não sabia se conseguiria e só o pensamento me aterrorizava. Mas eu precisava de um emprego, e nenhuma ideia no mundo parecia melhor do que ganhar dinheiro fazendo o que eu gosto.

Deixei pra pensar sobre as inseguranças em casa.

Balancei a cabeça positivamente.

—Vai ser um desafio e tanto – disse. – Mas eu topo.

Ela bateu palmas sem fazer barulho, sorrindo.

—Que bom!

Conversamos um pouco, ela me explicando como funcionavam as aulas ali, os horários e as outras coisas. Saí de lá pulando de felicidade.

Quando eu dava aulas no teatro, eram aulas avançadas pra bailarinas semi profissionais. A maioria era apenas repertório e alongamento, e muitas vezes, eu poderia escolher algumas alunas pra participarem dos espetáculos comigo. Daquilo pra dar aula a crianças era um retrocesso e tanto. O salário também não era grande coisa, mas era o suficiente.

Mesmo assim, eu estava orgulhosa por estar recomeçando.

Há alguns meses atrás, eu me imaginaria em qualquer lugar, menos onde estou agora: dançando.

Estava tão feliz que o fato de ter que pegar o ônibus mal me incomodou. Sai do estúdio cantarolando, as sapatilhas na mão. Avistei uma sombra conhecida, e meu corpo todo tremeu quando vi a imagem de Richard vindo em minha direção, os olhos castanhos modificados pelo sorriso simpático. Parecia tão bonito quanto sempre.

—Eloá! – ele falou, como se fossemos apenas amigos que tivessem ficado muito tempo sem se ver.

Passado o choque inicial, o único sentimento que havia em mim era estranhamento.

—O quê... o que você tá fazendo aqui?

Ele avançou para um abraço, mas eu o dispensei, o empurrando pra trás gentilmente. Seus olhos imploravam por algo.

—Eu senti sua falta, Eloá.

Abri a boca pra falar , mas desisti. Um “eu senti sua falta também” ameaçava escapar, mas eu o conti.

Ele que escolheu terminar, foi ele quem me deixou num momento em que eu precisava de apoio.

—Terminar foi uma escolha sua.

Richard segurou meu braço, e eu não tentei tirar.

—Foi uma escolha péssima, El.

Revirei os olhos, mas senti algumas lágrimas insistentes.

Lembrei da vida com Richard, e eu sabia que parte da felicidade que eu estava vivendo no momento se devia ao fato de que eu não estava mais com ele. Richard sempre foi como uma âncora, me puxando pra baixo. Eu estava feliz demais pra me deixar ser levada de novo.

—Eu to atrasada – avisei, puxando meu braço. Me lembrei dos momentos bons, agradáveis. Respirei fundo e me permiti sentir o perfume de Richard uma última vez. Sabia que se o rejeitasse agora, não teria volta.

Ele me encarou, me conhecendo o suficiente para saber que eu estava balançada.

Mas eu apenas virei e fui andando, o coração na mão.

Cheguei em casa pronta pra desabafar com os meninos, mas, quando cheguei, encontrei um clima tão agradável que minha tristeza se dissipou momentaneamente.

—Estávamos esperando você! – Miguel disse, levantando do sofá. Ele, Helena e Miguel conversam ao redor da mesa. Reparei na barriguinha de Helena e não pude deixar de sorrir.

Mas o que mais chamou me atenção foi o bolo. Um bolo coberto de M&M’s azuis.

—Eu fiz pra comemorar Rafael voltando pra casa – Miguel explicou.

Às vezes, eu estranhava a sensibilidade de Miguel.

Quando éramos mais novos e estávamos brincando na casa de Rosa, ela trazia M&Ms pra gente comer, e Rafael sempre separava os azuis pra ele. Ele amava aquilo, era quase uma espécie de tradição.

Rafael parecia extremamente feliz. Ele estava ligeiramente mais magro e com olheiras por causas das noites no hospital, mas mesmo assim seu sorriso iluminava seu rosto.

—Uau, vocês são incríveis – falei. – Isso sim é algo pra se comemorar.

Rafael assentiu com a cabeça, feliz como uma criança.

Comemos bolo e eu consegui conhecer Helena melhor, que era algo que eu estava querendo faz um tempo. Até Rafael socializou. Ele estava extremamente falante.

Quando anoiteceu, Miguel foi levar Helena em casa e ficamos eu e Rafael no sofá, conversando. A alegria foi passando aos poucos e eu acabei contando de Richard.

—Como assim? – Rafa perguntou.

—Sei lá, ele só apareceu lá.

Rafael tinha um olhar desconfiado.

—Mas... foi sem querer ou ele foi especialmente te ver?

—Acho que não foi sem querer. Ele estava lá parado, como se estivesse esperando alguém.

Rafael se ajeitou no sofá.

—Você postou em algum lugar ou contou pra alguém da faculdade onde tava fazendo aula de dança?

Eu entendi exatamente onde ele estava querendo chegar com aquela pergunta.

—Não.

—Ele estava lá no horário exato que você sai. Como... como ele sabia?

Senti um calafrio percorrer meu corpo. Aquela era uma pergunta a qual eu tinha muito medo da resposta.





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